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Angelus Apatrida::: 15/12/19 ::: Fabrique
Postado em 01 de janeiro de 2020 @ 18:44 | 568 views


Texto: Vagner Mastropaulo

E o último show gringo de 2019 encerrou o ano com chave de ouro!

Agradecimentos a: Jayme Katarro (Delinquentes), Diego Nogueira (Blasthrash), Caio Augusttus (Desalmado), Renan Campos (Hatefulmurder) e Luciano Piantonni

O que se passou na Fabrique não foi apenas a volta do Angelus Apatrida a São Paulo, pois quatro bandas nacionais antes de um headliner estrangeiro caracteriza um festival, certo? Só faltou batizar e, na real, foram quase sessenta pedradas em quatro horas de música, fora os intervalos, sobrando respeito e diversão. Em horas cheias entre 17:00 e 21:00, os inícios dos sets eram fáceis de decorar, mas, sem maiores prejuízos, houve atrasos e, em se adiantando meia hora por performance, tudo ficou mais ou menos certo, adaptado a uma nova pontualidade. Antes do evento em si, um causo pessoal: aguardando a liberação, vimos Adriano Bedin no meio da rua em frente à Fabrique, o jurado #7 fissurado em beisebol da peça Doze Homens E Uma Sentença, inspirada no filme homônimo de 1957 estrelado por Henry Fonda. Ao abordá-lo, sem querer o assustamos, uma vez que, segundo o próprio ator do grupo Tapa, o último local onde ele esperava ser identificado era perto de um show de metal. Dizendo morar nas cercanias e surpreso por ter ‘ganho o dia’, ele declarou: “Cara, acho que esta é décima vez na vida que alguém me reconhece assim, tirando, é claro, situações em que isso é obrigatório ou esperado”.

Uma vez lá dentro, o Delinquentes abriu a festa mandando ver com Indiocídio, sem a curta intro do registro de estúdio e, do primeiro full length dos representantes paraenses no ‘festival’, Gueto voltou ainda mais no tempo e foi divertido ouvir Jayme Katarro, responsável pelos “berros”, como no perfil da banda no Facebook, dar as boas-vindas com um: “Boa noite, galera!”, em plena tarde, às 17:34. Mad Max Now contextualizou sua camiseta e os banners laterais de decoração: tudo extraído do mais recente play, Infectus Humanus, de onde tiraram Igreja Alienatória, emendada e sem as falas introdutórias. A seguinte teve especial dedicatória: “Esse som que a gente vai levar agora foi feito nos anos 90, numa das primeiras demos nossas e infelizmente está atualíssimo. Ele se chama: Monstros Nazistas”, com um sonoro “Foda-se o Bolsonaro!”, na pausa com vinte e cinco segundos de execução.

O rolo compressor seguiu em Slam Dancing Nuclear e então houve chance de respiro com mais palavras do frontman: “Valeu, moçada! Para a gente, é uma honra muito grande estar encerrando essa nossa mini-tour de cinco apresentações. Está valendo muito e foi tudo do caralho aqui em Sampa, certo? Esse som que vamos levar agora foi feito em 1987-88, também é uma letra que retrata muito do panorama do subúrbio e se chama Punk Do Subúrbio”, colada a O Viciado. E o vocalista seguia se comunicando: “Só Jesus salva, mas será Jesus traficante? Esse é o som mais novo que a gente criou, na verdade, já com a formação nova: Jesus Traficante”. Pescador estava no setlist de palco, sacrificada pelo urgir do tempo, e Planeta Dos Macacos, com interessante trabalho de bateria, manteve os traços de brasilidade do álbum, com Jayme brincando, porém sincero: “Vale explicar para todos aí que eu fiz essa letra sobre um episódio que aconteceu comigo lá em Belém, muito antes do Jota Quest. Aquele cara me imitou”. E com presença de espírito e humor invejáveis, ao responder: “Quem sabe, né? Não teria problema também se fosse”, ainda esbanjou classe ao sair de uma saia justa criada por um fã mais atirado: “Virou mulher naquele dia? Zoeira!”.

Caminhando para o final do set, vieram Brasil Mitômano e Matança De Animais e então as últimas palavras do cantor: “Moçada, a gente vai levar a nossa última. Foi muito do caralho! Quem quiser aí, venha bater um papo depois. A gente não pretende ficar tanto tempo sem voltar aqui. É isso, valeu a todas as bandas com quem estamos dividindo o palco, valeu a vocês e aos paraenses que estão por aí! Vamos lá: Um Belo Dia Pra Morrer”. Uma vez proposto, a ele nos direcionamos e trocamos contatos que renderam esclarecimentos via Whatsapp. A primeira indagação ao atencioso vocalista referiu-se à estória por trás de Planeta Dos Macacos, que ficou em suspenso: “Foi um episódio que ocorreu no início dos anos 90 em que fui preso por reclamar de abuso de poder numa boate aqui. Era festa de lançamento da MTV local e a polícia parou a festa antes mesmo de começar, de fato, e fui taxado de ‘desacato à autoridade’. O que saiu daí foi a letra, em que faço um paralelo com o filme de 1968, de Charlton Heston”.

Ele também discorreu sobre a dificuldade encontrada por este escriba em pesquisar a banda, sem entrada na Wikipedia e ausente do Metal Archives, por fazer hardcore, embora seus três álbuns estejam disponíveis no Spotify, junto a singles: “Pegamos o período das demo tapes e, fora os singles, de lançamentos oficiais, temos o Pequenos Delitos (2000), o Indiocídio (2009) e o Infectus Humanus (2019), além do Planeta Os Macacos (2013), DVD gravado na Praça da República de Belém, e um marco importante para a gente porque ele tem uma boa produção. Inclusive, ele está no YouTube”. Jayme aproveitou para dar maior noção do corre feito pela banda, “ralando na onda”, segundo suas palavras, desde 1985: “A gente demorou muito para lançar um disco. Quando lançamos o primeiro, a banda já tinha quinze anos. Além do Delinquentes, tenho meu estúdio de ensaios, o Fábrika Studio, e faço dois festivais aperiódicos: o Fabrikaos Festival e o Dia D, que geralmente é em outubro, mês de aniversário da banda”.

Abusando de sua boa vontade, questionamos a mini-tour citada: “Foram cinco ‘tocadas’ em três dias. No primeiro dia, um ensaio gravado na Casa Punk, em Poá, e um show com Letall e Desalmado no 74club, em Santo André. No segundo dia, um pocket show no Central Panelaço, que acabou sendo o pico mais foda de toda a tour pela boa repercussão, e um show no Caveira Velha Rock Bar, em Jandira, com Gritando HC, Spread e Sukinho Di 10. E o terceiro dia foi o show na Fabrique”. Ainda o consultamos sobre Jesus Traficante, a única o set sem registro oficial: “É bem nova mesmo, criada há dois meses. Pretendemos lançar em single ou em algum split no início do ano que vem”. Por fim, soltamos a pergunta que não queria calar, sobre a origem de seu apelido: “Há muito tempo, num ensaio, eu estava malzão de gripe e com a maldita esverdeada no pulmão. De uma brincadeira, acabou ficando meu sobrenome artístico”.

O intervalo foi curto, mas suficiente para três hinos do Black Sabbath: Sweet Leaf, Black Sabbath e War Pigs. E o massacre foi retomado com Violence Just For Fun, do álbum homônimo do Blasthrash, de respeitável presença no Overload Beer Fest, no Carioca Club em fevereiro/19, junto a Surra, D.F.C., Ratos de Porão, Tankard e Overkill, e mais recente apresentação em São Paulo no Morfeus Club em 14/09. Com os ilustres Hugo Golon (Cemitério) e Castor (Torture Squad) na casa, de No Traces Left Behind (2005), Nudity On T.V. inaugurou a roda e as primeiras oportunidades de comunicação surgiram com o vocalista Dario Viola agradecendo a presença de todos e o baixista Diego Nogueira mesclando seriedade e bom humor: “Ó, pediram para avisar que deixaram um HB20 com os vidros abertos lá fora. Se o dono estiver aqui, por favor… se alguém quiser pegar também, está com o vidro aberto! Alguém sabe fazer ligação direta? Vamos lá, a gente reparte o lucro!”. Tudo antes de Radiation Death voltar a varrer a pista.

Mais nova do set, Fake News foi apresentada pelo frontman: “A gente vai levar uma música que é um single relativamente novo aí que a gente lançou. Não sei, se alguém quiser conferir, está no Bandcamp, YouTube e Spotify e vou parafrasear um pouco o Delinquentes, que falou que queria que, de repente, essa música não fosse atual, mas é totalmente atual aí e, resumindo: fodam-se o fascismo, o racismo e o Bolsonaro. Fodam-se!”. Ele seguiu disparando ao final: “Essa aí a gente queria dedicar a todos os disseminadores de desinformação, seja corrente de robô no Whatsapp até aqueles que disseminam oficialmente aí, a imprensa, os Datenas da vida e tantos outros aí distribuindo por aí”. E de Slaughters In The Antipodes (2015), split com o Fastkill, fizeram On The Shores Of Uncertainty, “que homenageia e a gente se baseou, ao fazer a música, na obra do Carl Sagan, Cosmos”, de acordo com Dario.

Freedom Lies Dead trouxe longo instrumental até a parte cantada e Assassin teve dedicatória: “A gente queria agradecer a presença de vocês, do Delinquentes, que abriu, de nós mesmos, amo esses caras aqui. Agradecer ao Hatefulmurder, Desalmado e Angelus Apatrida aí, Valeu a presença de todo mundo! Isso não seria possível se não tivéssemos vocês aqui”. Compadecido do estado de seu vocalista, gripado, Diego prontificou-se: “Vou ajudar meu amigo aqui que está dodói e cantar um pedacinho a cappella”. Dirigindo-se a seu baterista, prosseguiu sincero: “Quinze anos, estamos velhos, hein, Rafa? Eram vinte quilos a menos, agora são quinze anos a mais”. Possessed By Beer, “um brinde a todos vocês”, segundo o baixista, reabriu a roda, teve trecho de Princess Of The Night no final e encerrou o set com ‘Polako’, vocalista e guitarrista do Angelus Apatrida assistindo a tudo apoiado no balcão do bar, como um mero fã. Despedindo-se, Dario foi sucinto: “Obrigado, gente! Fiquem com o Desalmado”.

E se ficou a impressão de um set mais curto do que o do Delinquentes, ele foi, de fato, cinco minutos mais amplo e a sensação se dá pelo número menor de pedradas, em função de suas durações maiores. Por Whatsapp, conversamos com Diego Nogueira a respeito do snippet do Saxon: “Na real, o lance da Princess Of The Night é só um trecho de algum som clássico que fazemos sempre. Antigamente tocávamos Rock You Like A Hurricane, do Scorpions, até antes de entrar a voz, como o S.O.D.: a gente tocava só a intro e, na hora de entrar a voz, a gente parava”, aludindo a Ballad Of The Scorpions, bonus track de Bigger Than The Devil, relançado em 2000. Também pedimos um olhar sobre a participação do quinteto na festa: “Foi legal demais! Fazia tempo que queríamos tocar na Fabrique. Para a gente, foi um evento massa porque tocamos com bandas que a gente conhece e admira, como o Angelus Apatrida, o pessoal do Hatefulmurder, que é amigo meu há anos, mas nunca tínhamos tocado juntos, digo, o Blasthrash e eles. Eu já, pois sou vocalista do Anthares também. O pessoal do Desalmado, que é uma puta banda foda, e o Delinquentes, amigos há muitos anos e eu não os conhecia pessoalmente. Então conhecê-los nessa situação foi muito legal também”.

Perguntamos sobre o estado de saúde de Dario: “Ele ficou doente a semana toda, ficou com uma gripe mal curada e fez o show no sacrifício. Nos intervalos das músicas, ele não estava nem falando, para poupar a voz, e até pedia para eu falar e apresentar as músicas. Faz parte”. Por fim, focamos em Fake News e no futuro: “Ela já está em nossas mídias sociais, é o nosso single novo, o primeiro depois de alguns anos que a gente lança e uma prévia do disco novo que pretendemos gravar e lançar no ano que vem”. Questionado a respeito de algum título para o álbum ou possíveis músicas, o baixista concluiu: “O que posso te adiantar é que o álbum sai ano que vem. Estamos negociando quem vai lançar, mas provavelmente vai ser a Mutilation, nosso selo há mais de dez anos já, mas ainda não tem prévia de nomes e nem outras músicas aí”.
O break trouxe mais Black Sabbath: God Is Dead?, Into The Void, The Wizard, Planet Caravan e Loner até a entrada do grindcore no evento com o vocalista Caio Augusttus dando o recado após breve trecho de Em Ruínas, utilizado como intro: “Boa noite, São Paulo! Nós somos o Desalmado, contra o estado fascista e toda opressão religiosa”. E já emendaram os petardos Preço Da Liberdade, Privilege Walls e Hidra, de três lançamentos distintos: o EP Estado Escravo (2014), o segundo play Save Us From Ourselves (2018) e o split com o Homicide In Grind We Trust (2016). E o pau seguiu comendo solto com o frontman assim descrevendo o cenário: “Esse próximo som fala de um desenvolvimento que vitimou e escravizou povos em nome de poucos. Isso gerou o capitalismo. Esse som se chama Glória”, colada a Delírio, de início mais arrastado até arregaçar tudo outra vez.

Em rara e curta pausa para respiro, Caio anunciou: “Esse próximo som vai contra todas as igrejas pentecostais que se formam no Brasil e espalham o fascismo. Foda-se Jesus Cristo! Foda-se a igreja! Manto De Sangue”. Como o recado foi forte e bem direcionado, contatamos o vocalista pelo Messenger do Facebook da banda para mais detalhes: “Sobre a fala relacionada a Jesus Cristo diretamente, é postura da banda estar contra o cristianismo, principalmente agora. Quando mando Cristo se foder, e na fala devo ter citado o crescente fascismo pentecostal, tenho direção a onde quero acertar. Não sou do tipo que quer fechar igrejas, queimar ou coisa do tipo, mas atualmente as igrejas neopentecostais promovem o ódio e a intolerância. Então, como uma banda claramente anticristã, essa fala voltou com força. Posso desagradar à fé de alguns? Posso, mas o contexto real das coisas está super bem colocado”.

O cantor foi além, ao ser informado que uma fã ao lado deste escriba se ofendeu com o posicionamento, provavelmente sem ter ouvido o todo, em função de a guitarra de Estevam Romera sobrepor suas palavras: “Eu tenho super contexto histórico do que estou falando, apesar de a fala ser super batida e infantil até. Retomei-a porque a idéia é chocar e bater de frente mesmo. Ela tem todo direito de se sentir ofendida e me criticar, inclusive. Tenho respeito pela religiosidade das pessoas e sei que esse posicionamento choca e incomoda, mas se não estivéssemos vivendo uma onda conservadora como agora, fatalmente eu não estaria dizendo aquilo. Meu contexto crítico no Desalmado será sempre o de confrontar o estado capitalista e seus alicerces e a religião cristã, no nosso caso, cumpre o papel”. É isso aí: ponto para a liberdade de expressão reforçando que nosso objetivo não era polemizar.

Voltando apenas ao palco, notamos o uniforme adotado pelos quatro músicos: camiseta preta lisa e calça ou bermuda também pretas. Sem Nome foi explicada com seriedade “contra todos aqueles que se escondem atrás de bancos, igrejas e do Estado e massacram a população” e Sofrer, Morrer E Apodrecer deveria ter sido a próxima pelo setlist de palco, mas foi sacrificada pelo urgir do tempo. Então Caio manteve o padrão nas análises: “Esse próximo som, quando a gente se organiza, o Estado treme: O Pavor Do Estado”; e “Queria agradecer a todos que estão aí curtindo o som do Desalmado, a todas as bandas envolvidas no rolê. É do caralho fazer um som em São Paulo num espaço como este. E é isso, mantenham o underground vivo porque, sem ele, muitas bandas aqui, esquece… ninguém sobrevive. E o underground é uma forma de lutar também e uma forma de ir contra o fascismo. Hoje eu li de manhã que os integralistas voltaram. E se eles voltarem, têm que ir embora do jeito que foram há anos e anos atrás, na Revoada das Galinhas. Vamos botar integralista para fugir na base da porrada, tá certo? É isso! No Desalmado não tem comédia. O Desalmado é uma banda antifascista que luta contra o estado capitalista. Esse próximo som fala disso: Bridges To A New Dawn”. Três dias depois, a sede do Porta Dos Fundos foi atacada no bairro de Humaitá e um grupo integralista assumiu a autoria do atentado terrorista. Prova cabal do quão necessário é estarmos atentos!

Partindo para o final do set, tocaram Corrosion e It’s Not Your Business (grafada INYB no setlist de palco) e, após novos agradecimentos, agora feitos pelo baixista Bruno Teixeira, veio a derradeira fala do vocalista: “Esse último som retrata que toda riqueza concentrada na mão de poucos é fruto de sangue de muito trabalhador. Esse som fala disso: Blessed By Money”. As despedidas se deram através de um sucinto: “Muito obrigado, até a próxima! Valeu”, ainda com a música em andamento. O fato foi o que o Desalmado passou o carro! E foi curioso notar que o set de doze músicas contemplou cinco lançamentos diferentes: os três trabalhos já mencionados, o álbum Desalmado (2012) e o EP Hereditas (2008).

A nova pausa foi monotemática ao som de Violator: UxFxTx (United For Thrash), Destined To Die, Addicted To Mosh, Brainwash Possession, Ordered To Thrash, Toxic Death e Lethal Injection, faixas dois a oito de Chemical Assault (2006). Após intro exclusivamente elaborada para as seis datas em seis dias consecutivos com o Angelus Apatrida (Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Santos, Bueno Brandão e São Paulo), Reborn abriu os trabalhos e adoraríamos registrar as primeiras palavras da vocalista Angélica Burns, mas falando como canta, foi simplesmente impossível entendê-la em meio aos instrumentos e, com o mesmo expediente adotado por Blasthrash e Desalmado, a única decoração vigente do Hatefulmurder era seu logo estilizado no telão de fundo. Rise manteve o alto nível, como Lost Days, fechando as três primeiras do mais novo play do conjunto carioca, mas não na mesma ordem. Com contribuição do baixista Felipe Modesto nos backing vocals, My Battle foi a primeira de Red Eyes (2017) e, com o povo curtindo mexendo as cabeças, não se sabe até agora como não originou uma roda. Chimera trouxe interessante arranjo inicial do baterista Thomás Martin e, ao cravar “Spit Deception”, a frontwoman seguiu econômica dizendo apenas os nomes das canções.

Somente com vinte e cinco minutos de set a bela e competente Angélica finalmente interagiu de modo compreensível e elaborado: “Boa noite, São Paulo! Para quem ainda não nos conhece, nós somos o Hatefulmurder, do Rio de Janeiro. E a gente está muito feliz de estar aqui em São Paulo fechando a nossa turnê do disco Reborn, de lançamento, que a gente está fazendo com o Angelus Apatrida. Então a gente está muito feliz em estar aqui fechando esta turnê com vocês. Boa parte do setlist é com as músicas novas, as próximas são do disco e têm um elemento especial: elas têm letras em português. Vambora porque chegou a hora de santificar o sentimento mais primitivo do homem”, Santificado Seja O Meu Ódio, seguida de Sentimentos Artificiais. Então testemunhamos uma cena encantadora e outra inusitada: uma criança sentada no balcão do bar, acompanhada da mãe e do padrasto (Mariana, sete anos, conforme apuração) e devidamente protegida com fones de ouvido, compenetradíssima filmando o show; e a parte hilária coube ao famoso ‘lugar errado na hora errada’, com uma tiazinha da limpeza, tão fofa quanto humilde, resolvendo cruzar o meio da pista, alheia ao que se desenhava, no instante em que Angélica coordenava a formação de um Wall Of Death… ao se dar conta da roubada em que se metia, a senhorinha partiu correndo para o fundo da casa, escapou ilesa e passa bem!

Reconhecendo o esforço coletivo, a vocalista elogiou e deu a notícia que ninguém queria ouvir: “Gostei de ver, porra! A parada é a seguinte: a gente está chegando à reta final do nosso show e agora chegou a hora de a gente tocar algumas músicas do Red Eyes, mas antes eu queria agradecer a presença de cada um de vocês aqui hoje. Muito obrigada a todas as bandas e é isso, vamos continuar porque agora a gente vai fechar o nosso baile com algumas músicas do Red Eyes. Essa música abre o disco Red Eyes e se chama Silence Will Fall”, seguida da faixa-título, com Angélica ensaiando: “São Paulo, eu quero ver todo mundo aqui cantando comigo. O refrão é bem fácil. Vamos juntos”. O atropelo final foi Creature Of Sorrow, encerrada com despedidas: “São Paulo, muito obrigado a todos vocês. Nós somos o Hatefulmurder, muito obrigada e até a próxima! Valeu, gente! Vamos colar aqui na frente para tirarmos uma foto com vocês”.

Por Whatstapp, tiramos várias dúvidas com o gentil guitarrista Renan Campos, a começar pelo ano de formação: “A banda começou, o projeto, a idéia de se montar a banda começou em 2008. Mas a atividade mesmo começou em 2009, o primeiro show, a primeira música gravada. E a gente costuma contar a partir do primeiro disco, que é de 2014. Mas pode por como você achar melhor”. Também o indagamos sobre a origem do nome: “É um termo usado pela perícia da cidade de Baltimore. Quando eles chegam à cena de um crime e é algo muito brutal, muito forte, eles escrevem ‘hatefulmurder’”. Complicado mesmo foi averiguar o tipo de som feito por eles, uma vez que o Metal Archives os classifica como ‘metalcore’, mas, ao vivo, a nítida sensação é a de se estar em um show de death metal: “Essa é uma pergunta bem difícil! A gente tem uma influência muito vasta, de muitas coisas. Nesse disco novo, o Reborn, você vai encontrar elementos de: música eletrônica, metal tradicional, thrash, death metal, metalcore… tem um pouco de tudo. Eu não sei mais classificar. Antigamente a gente dizia que era ‘thrashdeath’, aí chamaram a gente de ‘thrashdeath melódico’ e depois de ‘metalcore thrash melódico’. Eu confesso que não sei e acho que é uma mistura de tudo que ouvimos com bastante freqüência”. Então averiguamos a intro usada: “Ela foi composta para esta turnê, para esses shows. Fui para o estúdio o Celo Oliveira, produtor do Reborn, e a compusemos usando alguns elementos eletrônicos, trechos do próprio disco. É uma composição própria”.

A conversa migrou para influências, checando o quanto de Arch Enemy há no som do grupo, e Renan esbanjou sinceridade: “Esse tipo de associação é muito comum, né, cara? Primeiro porque a Angela Gossow foi uma influência para a Angélica, que a viu cantando e falou: ‘Cara, se ela pode, eu também posso, né?’. Ela gosta muito da fase com a Angela e acho que essa associação acaba acontecendo porque os vocais são levemente parecidos, mas eu não sei se a gente faz uma coisa Arch Enemy assim. Talvez tenha alguma coisa e particularmente gosto bastante da banda. Acho que tem alguma coisa de influência, sim… dizer que não tem é muita pretensão. Acho que tem, sim. Como tem de bandas como o Walls Of Jericho. Tem muita coisa e é difícil pensar numa banda só, assim como referência. Principalmente porque a gente fica tentando colocar tudo o que ouve e isso vai desde alguma coisa ali de música brasileira, que temos escutado bastante. A Angélica gosta muito de post black metal e de bandas com uma onda mais introspectiva como Alcest e Detones, embora elas não tenham a ver entre si. Eu escuto de Beethoven a brutal death metal, passando por jazz, blues, reggae, reggaeton… é muito doido isso! Eu não sei mais classificar a nossa música, não. Tem um pouco de tudo”. E mesmo que o único remanescente da formação original do conjunto tivesse discordado, algumas semelhanças são curiosas: ambos as bandas possuem vocalistas mulheres que cantam rasgado, Angélica e Angela, até com nomes parecidos; o grupo nacional canta “Red eyes gaze into the sky”, em Red Eyes, e o sueco tem Dead Eyes See No Future; e mesmo com este escriba também acreditando piamente que tudo não passa de coincidência e que o par traga músicas bem diferentes entre si, ainda há “We will rise, rise above” em We Will Rise, no mesmo Anthems Of Rebellion (2003) do Arch Enemy, e “Rise, rise up” em Rise do Hatefulmurder.

Desenvolvendo assuntos, o músico: relembrou a passagem pelo Matanza Fest, no Tropical Butantã, em julho/17, divulgando Red Eyes; destacou que esta não fora a última vez por aqui, pois tocaram no Feeling Music Bar em maio/19, quando vieram gravar Reborn; e afirmou que o álbum foi resenhado na Roadie Crew 249, de outubro/19. Ao dar 8,5, Valtermir Amler pontuou “doses cavalares de hardcore” na faixa-título, classificou Rise como “fortemente melódica, com linhas de guitarra cheias de groove e vocais extremos” e sentiu presença de metacore em Lost Days, reiterando as múltiplas influências. Por fim, a constatação de que nosso site trilha caminhos corretos, com elogios de Renan: “Quanto mais conteúdo, quanto mais a gente fala, mais enriquece a matéria. E gosto muito de pessoas assim, que vão atrás de informação. Não é mais do mesmo, é compromisso com o jornalismo, algo tão raro hoje em dia, nessa época louca de fake news. É espantoso, pois você foi o primeiro cara que foi fazer resenha do show e entra em contato conosco para apurar, alinhar e sanar dúvidas”. Dizer mais o que depois disso?

O último intervalo foi o mais divertido, com Mariana virando estrelas no meio da pista da Fabrique, e abrangente: After Nuclear Devastation e Futurephobia (Violator); Blacklist (Exodus); Prepare For Attack (Havok); Something Wicked (Nuclear Assault); e No Place For The Cross (Violator), cortada para a entrada da banda dos irmãos Izquierdo, o Angelus Apatrida, que começou com o pé direito com Sharpen The Guillotine, faixa de abertura de Cabaret De La Guillotine (2018), com sua intro acústica dedilhada no som ambiente. Uma faixa, longa para os padrões thrash metal, e o jogo já estava ganho, muito devido às pancadas desferidas por Víctor Valera em sua caixa! Visualmente, predominava o discreto gracejo do baixista José J. Izquierdo, trajando camiseta da própria banda e um Straight Outta Albacete na frente, em clara alusão ao famoso modelo Straight Outta Hell disponível no mercado. Seis anos mais novo, o vocalista e guitarrista Guillermo Izquierdo (ou ‘Polako’), por sua vez, preferia alinhar-se contra o fascismo estampando Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Fechando a parte das vestimentas, o guitarrista David G. Álvarez (ou ‘Davish’), estava de Black Sabbath e Víctor prestigiava a própria banda, exibindo a capa do single Downfall Of The Nation.

Após um direto “Como está, São Paulo?” do frontman, mais confortável em posse da alavanca encaixável em seu instrumento, entregue por um roadie (ele pareceu irrequieto sem a peça na primeira música), tocaram One Of Us, do mesmo play, concluída com um “Muito obrigado”, em claríssimo português. Então Guillermo retomou, esforçando-se ao máximo em nossa língua: “Como está, São Paulo? Muito tempo desde nossa última vez aqui, no Hangar 110? Nós somos o Angelus Apatrida e viemos da Espanha. Hoje é a última data desta turnê no Brasil com os irmãos do Hatefulmurder”. Irônico, provocou: “A próxima música é uma balada muito, muito lenta. Vamos dançar? Ela se chama Immortal”, arregaço inaugural de Hidden Evolution (2015). Após novo agradecimento, Polako cravou: “A próxima música é de nosso segundo disco, Give ‘Em War. Ela se chama Vomitive”. O padrão se manteve: “Ok, São Paulo, a nossa próxima música é de nosso terceiro álbum, Clockwork. Vamos dançar um pouco! Essa se chama Of Men And Tyrants”, autêntica surra no kit de bateria que agitou a galera em resposta.

E por incrível que pareça, com a casa parecendo estar mais vazia do que no show anterior (ninguém mais curte thrash?), os fãs avançaram para ver os espanhóis mais de perto e, no fundo da pista, Angélica e Felipe, do Hatefulmurder, atendiam aos pedidos de fotos na maior calma. No palco, mantidos os setlists de novembro na Itália, deveria ter rolado The Hum, talvez limada pelo tempo. E como em time que está ganhando não se mexe, Guillermo seguiu falante: “Muito obrigado, São Paulo! A próxima música é para dançar bem rápido. É do quarto disco, The Call, e se chama Violence Dawn”. E suas introduções permaneceram: “Nosso último álbum se chama Cabaret De La Guillotine. Essa próxima canção é uma música antifascista e se chama Downfall Of The Nation”, finalmente a abrir uma roda, mantida em End Man, de Hidden Evolution, como a seguinte, precedida por mais palavras do grato frontman: “Muito obrigado, São Paulo, Brasil! Saúde! Temos tempo para mais três canções. Vamos aproveitar aí! Hoje é nossa última noite no Brasil e amanhã voltamos à Espanha. A próxima música se chama Serpents On Parade”.

Give ‘Em War foi a enésima pedrada, um “Muito obrigado! São Paulo, vocês são do caralho!” foi o zilhonésimo elogio e então a galera bradou em antecipação: “You Are Next! You Are Next!”, para aprovação do cantor, a demonstrar respeito e humildade: “Sim, sim, sim, sim! Enfim, São Paulo, fizemos nossa turnê pelo Brasil com nossos irmãos do Hatefulmurder e queremos fortes aplausos de vocês para eles. E também para Delinquentes, Desalmado e Blasthrash! Muito obrigado pelos amplificadores! Depois do show tomaremos uma cerveja rápida e iremos ao merchan, à pequena tenda de camisetas, com palhetas, para assinarmos o que quiserem, ok? Foi um enorme prazer, Brasil, São Paulo! Tentaremos regressar no próximo ano”. You Are Next rolou mesmo e a cereja do bolo compensou a possível exclusão de The Hum, com a banda parecendo decidir na hora qual seria o grand finale. Após Polako averiguar: “Vocês conhecem Pantera?”, Domination fechou o ciclo de álbuns, uma vez que o cover encerra Evil Unleashed (2006). Ainda deu tempo de David G. Álvarez se sentar na borda do palco e pular para a pista a fim de tocar entre os fãs, concluindo o set e os shows gringos na cidade em 2019 com chave de ouro! Ao final, com (You Gotta) Fight For Your Right (To Party), do Beastie Boys no sistema de som, rolou farta distribuição de palhetas, com uma caveira, o nome do grupo e um “One Of Us” em um dos lados e nossa bandeira e um “Brazil Tour 2019” do outro. Pontualmente às 22:55, era hora de partir com a esperança de que o Angelus Apatrida no máximo mantenha a média de três anos desde o Hangar 110 (hoje The House) em abril/16. Um verdadeiro festival de emoções e mal podemos esperar por mais em 2020!

Setlists / Informações Sobre As Bandas

01) Delinquentes (Belém – 1985) – https://www.facebook.com/delinquentes.hc
Formação Jayme Katarro (v), Paulo Bigfoot (g), Pablo Cavalcante (b – 5 cordas) e Raphael Lima (d)
Estilo Hardcore / Crossover Entrada Programada – 17:00 / Real – 17:31
Duração 36’ Saída 18:07

01) Indiocídio
02) Gueto
03) Mad Max Now
04) Igreja Alienatória
05) Monstros Nazistas
06) Slam Dancing Nuclear
07) Punk Do Subúrbio
08) O Viciado
09) Jesus Traficante
10) Planeta Dos Macacos
11) Brasil Mitômano
12) Matança De Animais
13) Um Belo Dia Pra Morrer

02) Blasthrash (São Paulo – 1998) – https://www.facebook.com/Blasthrash
Formação Dario Viola (v), Jhon França e Diego Rocha (g), Diego Nogueira (b) e Rafael Sampaio (d)
Estilo Thrash Metal Entrada Programada – 18:00 / Real – 18:30
Duração 41’ Saída 19:11

01) Violence Just For Fun
02) Nudity On T.V.
03) Radiation Death
04) Fake News
05) On The Shores Of Uncertainty
06) Freedom Lies Dead
07) Assassin
08) Possessed By Beer [snippet de Princess Of The Night (Saxon)]

03) Desalmado (São Paulo – 2004) – https://www.facebook.com/desalmado.band
Formação Caio Augusttus (v), Estevam Romera (g), Bruno Teixeira (b) e Ricardo Nutzmann (d)
Estilo Grindcore Entrada Programada – 19:00 / Real – 19:34
Duração 36’ Saída 20:10

xx) Em Ruínas [trecho utilizado como intro]
01) Preço Da Liberdade
02) Privilege Walls
03) Hidra
04) Glória
05) Delírio
06) Manto De Sangue
07) Sem Nome
08) O Pavor Do Estado
09) Bridges To A New Dawn
10) Corrosion
11) It’s Not Your Business
12) Blessed By Money

04) Hatefulmurder (Rio de Janeiro – 2008) – https://www.facebook.com/hatefulbook
Formação Angélica Burns (v), Renan Campos (g), Felipe Modesto (b – 5 cordas) e Thomás Martin (d)
Estilo Metalcore?? / Death Metal?? Entrada Programada – 20:00 / Real – 20:36
Duração 47’ Saída 21:23

xx) Intro
01) Reborn
02) Rise
03) Lost Days
04) My Battle
05) Chimera
06) Spit Deception
07) Santificado Seja O Meu Ódio
08) Sentimentos Artificiais
09) Silence Will Fall
10) Red Eyes
11) Creature Of Sorrow

05) Angelus Apatrida (Albacete, Espanha – 2000) – https://www.facebook.com/angelusapatrida
Formação Guillermo Izquierdo (v/g), David G. Álvarez (g), José J. Izquierdo (b) e Víctor Valera (d)
Estilo Thrash Metal Entrada Programada – 21:00 / Real – 21:49
Duração 66’ Saída 22:55

01) Sharpen The Guillotine
02) One Of Us
03) Immortal
04) Vomitive
05) Of Men And Tyrants
06) Violence Dawn
07) Downfall Of The Nation
08) End Man
09) Serpents On Parade
10) Give ‘Em War
11) You Are Next
12) Domination [Pantera Cover]
Outro: (You Gotta) Fight For Your Right (To Party) [Beastie Boys]

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