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Christofer Johnsson (Therion) – Horror Expo – Pavilhão De ExposiçõesDo Anhembi – 19/10/19
Postado em 29 de março de 2020 @ 18:29 | 899 views


Christofer Johnsson revela detalhes de gravação em panorama geral da carreira

Por: Vagner Mastropaulo

Marcada para as 16:00, a Horror Talk com o vocalista do Therion foi um painel iniciado com vinte minutos de atraso e conduzido por Alexandre Costa, diretor da Margear, a trabalho no stand da Nuclear Blast, gravadora da banda, como cineasta responsável por fazer um mini-documentário focando na participação do selo no evento, principalmente na relevância do metal no mundo do terror. O próprio Alexandre cuidou das perguntas a Christofer, fez as vezes de intérprete e, mesmo tendo feito ótimo trabalho, optamos pela nossa tradução, caso algum detalhe tenha passado batido no urgir das rápidas interações.

Alexandre Costa: Christofer, muito obrigado por estar aqui conosco e com os fãs. São trinta e dois anos de carreira, dezesseis álbuns de estúdio e três ao vivo. São conquistas impressionantes para uma banda longeva. Olhando para trás, para a época de Of Darkness…., por exemplo, naqueles dias, você imaginaria que hoje estaria fazendo uma ópera rock, como o último álbum? [notas: Of Darkness…. é de 1991 e o mais recente CD é o triplo Beloved Antichrist (2018)]

Christofer Johnsson: Não. Tínhamos quinhentos euros de orçamento para a gravação, então tive que bancar mais quinhentos do próprio bolso. Gravamos e mixamos o álbum em seis dias, não ficamos felizes com a mixagem e remixamos tudo em mais um dia. Então imaginar gravar três discos com uma orquestra hoje seria um salto muito grande.

AC: Você poderia dividir conosco algumas estórias antigas de quando você começou o Therion, como suas maiores influências musicais? E como você montou o conceito do Therion como uma banda?

CJ: Nós nos chamávamos Blitzkrieg antes [nota: por dois anos, em 1987-88] e éramos mais influenciados por Slayer e o início do Metallica. Na verdade, nós pegamos o nome Blitzkrieg do cover feito pelo Metallica no maxi single de Creeping Death. O lado B tinha covers de Am I Evil? e Blitzkrieg e nós realmente os adorávamos. De fato, fazíamos um cover do cover do Metallica para Am I Evil? e pegamos o nome do cover de Blitzkrieg [nota: o single é de 1984, Am I Evil? é do Diamond Head e Blitzkriegé da própria banda Blitzkrieg]. Foi assim que começamos. Aí nos separamos por uns meses, eu tocava baixo no início e quando reunimos a banda, mudei para a guitarra. Eu tinha acabado de descobrir Celtic Frost,então havia uma forte influência. Eu acho que Celtic Frost e ainda um pouco de Slayer foram as maiores influências no comecinho do Therion. Foi assim no início.

AC: Desde os primeiros álbuns, temas como contos mitológicos, ocultismo e até mesmo aspectos relacionados à fantasia já estavam presentes no Therion. Como era o processo para trazer todos esses elementos na criação das músicas?

CJ: Bem, é adicionar letras às músicas, pois a música sempre vem primeiro. Eu podia apenas selecionar um tópico que me interessasse no começo e… bem, eu escrevia as letras até 1996, mas sempre foi um processo lento, sempre um stress. Toda vez que tínhamos que gravar era como: “Merda, tenho que ter as letras prontas porque começo a gravar amanhã” e então eu tinha que me sentar e me forçar a escrever letras. Então, para o Theli… não, na verdade, já no Lepaca Kliffoth, meu amigo Thomas Karlsson escreveu uma letra e era muito conveniente ter alguém melhor para se expressar por palavras, e não pela música, para fazer as letras que eu queria. Então eu podia pegar um assunto e ele escrevia a letra que eu queria. Como pedir algo em um restaurante em vez de você mesmo cozinhar. É basicamente assim o processo [nota: Theli é de 1996 e Lepaca Kliffoth, seu predecessor, de 1995].

AC: Vamos falar sobre o Theli, que vocês vão tocar na íntegra amanhã. Ele é considerado um dos álbuns mais importantes, pelo menos no que se refere ao metal sinfônico. Sob a perspectiva de hoje, como você observa o impacto que ele causou, não apenas na carreira do Therion, mas no gênero como um todo, que se solidificou após Theli.

CJ: Foi muito bom para nós, de duas maneiras. Na primeira, passamos de uma banda underground para uma famosa, basicamente da noite para o dia. Eu me lembro que vendemos quinze mil cópias do Lepaca Kliffothna Europa, números finais após toda a turnê e promoção. Aí lançamos o Theli, que vendeu vinte mil num estalar de dedos. Então fizemos a turnê e isso pulou para sessenta mil, depois cem mil só na Europa. É claro que a principal novidade foi que ele abriu portas para nós, que sempre tínhamos problemas financeiros pessoais, para pagarmos as contas, mas também musicalmente, pois havia tantas coisas que eu queria fazer e era sempre: “Sinto muito, não há orçamento para isso e aquilo! Você quer este estúdio? É muito caro. Você quer tais caras para produzir? São muito caros. Quer uma orquestra? Sem dinheiro”. Mas depois do Theli era: “Onde você quer gravar? Quer uma orquestra?”. Subitamente você consegue pagar suas contas todos os meses sem se estressar e então, pessoal e musicalmente, Theli drasticamente melhorou a minha vida. Talvez seja melhor você traduzir tudo isso primeiro…

CJ: [retomando] A outra parte foi que, por causa do sucesso do Theli… quero dizer, antes do Theli, havia experimentos com peças clássicas, como o Celtic Frost fazendo o Into The Pandemonium em 1987, que tinha uma soprano, assim como tínhamos uma soprano em duas músicas do Lepaca Kliffoth, mas era mais uma adição. Ninguém havia substituído um vocalista por coros de orquestra antes. Então uma ópera passou de algo ridículo, que nossas mães costumavam ouvir, a algo legal. Primeiro veio o Therion e aí surgiram bandas mais novas nos ouvindo, especialmente o Nightwish. E fomos muito sortudos porque o Nightwish é uma puta banda! Eles se tornaram muito maiores do que nós e isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido conosco porque eles eram mais mainstream, chegando a pessoas que jamais alcançaríamos. Você encontrava álbuns do Nightwish numa loja de aeroporto, perto da Madonna, ou em postos de gasolina. E quando as pessoas absorviam o som e diziam: “Isso é legal!”, elas ouviam mais músicas como aquela e achavam oTherion. Então graças ao Nightwish ter se tornado tão grande, ganhamos uma porção enorme de novos fãs. Foi uma situação com a qual apenas saímos ganhando. Claro que sempre há pessoas falando sobre a herança, nos dando um tapinha nas costas e dizendo: “Bem, foram vocês que começaram” e isso é divertido, mas o melhor realmente é que quando você tem recursos, você realiza todas suas idéias malucas. Então, quando nos tornamos ainda maiores, pude pegar um conjunto de 170 pessoas e fazer Lemuria e Sirius B. 171 pessoas foram incluídas nos álbuns, algo que era, como eu havia dito: antes do Theli, não podíamos nos dar a esse luxo e falávamos sobre coisas mais realistas. Mas depois que veio essa grande onda sinfônica, eu podia fazer coisas completamente malucas.

AC: Alguma outra banda de metal sinfônico te abordou sobre essa influência? Antes de começarmos o painel,você citou o Tuomas Holopainen, do Nightwish, mas talvez alguém do Within Temptation ou do Haggard teve alguma conversa com você a este respeito?

CJ: Falei um pouco com o pessoal do Haggard, mas geralmente você não fala muito “Você me influenciou”, essas coisas. Não é o que se conversa quando se encontra as bandas, a não ser que sejam as que você cresceu ouvindo, é claro, pois aí você conhece seus heróis! É o mesmo com todos nós: se eu encontrar o Judas Priest, tenho doze anos de novo! E, bem, o Jimi Hendrix está morto, mas até o K. K. Downing, ex-Judas Priest… se ele se encontrasse com o Jimi Hendrix, ele teria doze anos outra vez! É assim que funciona, sabe? Todos temos nossos heróis. Mas acho que a pergunta era mais sobre outras bandas que influenciamos e acho que, na verdade, indiretamente influenciamos mais bandas do que diretamente. Uma das que influenciamos, pelo menos no começo, foi o Nightwish, mas sei que eles ouviam várias outras bandas e aí surgemnovas bandas que ouviam o Nightwish e chegam até você, como uma terceira ou quarta geração. Você começa algo, como quando você tem uma bola de neve no topo da montanha e ela vai rolando, rolando, rolando… é como o Jimi Hendrix, por exemplo. Há tantos artistas que não são influenciados por ele, mas que não estariam onde estão hoje sem ele porque ele influenciou outra pessoa que influenciou mais alguém e assim por diante. Eu realmente não penso muito a esse respeito, mas se a pergunta fosse se há algo de que eu realmente me orgulhe, eu, de fato, ofereci algo para o desenvolvimento da música e contribuí. Porque há muitas bandas realmente boas, mas elas não estão sempre contribuindo para um direcionamento, como, por exemplo: fazer a ópera virar algo legal, em vez de ser algo ridículo. É uma pequena contribuição porque, você sabe, o metal não é algo assim tão grande dentro de todo o cenário rock, mas os metaleiros conhecem. Ah, e só para registrar, não estou me comparando ao Jimi Hendrix. Ele é uma porra de um deus! Nós somos apenas pessoas que fazem música.

AC: O Therion teve provavelmente um caminho único, gravou com músicos diferentes ao longo de sua carreira, teve formações diferentes no decorrer dessas décadas trabalhando com você. Como você acha que isso impacta na banda? Por exemplo, se você comparar o Therion a outras que têm o mesmo line-up por um longo tempo, como você se vê nisso? É algo positivo trabalhar com tantos artistas diferentes em vez de apenas um único grupo?

CJ: Isso nos dá grande flexibilidade porque eu posso tratar vozes como instrumentos. Se não gosto do som da guitarra, pego outro amplificador, outra guitarra, mudo o som. Mas se você está preso a um vocalista, é o que você tem. É como se você tivesse apenas um vinho para todas as comidas. É um bom vinho, mas não combina com todos os pratos. E posso ter qualquer vinho que eu quiser. Isso nos dá grande flexibilidade e contribuiu imensamente para a possibilidade de fazer o Therion se desenvolver como o ocorrido. Sempre separei ‘álbum’ de ‘ao vivo’. Quanto estamos gravando um álbum, alguém pode dizer: “Mas como vamos fazer isso ao vivo?”. Quem se importa? Agora estamos fazendo um álbum. Seja lá qual problema surgir, lidaremos com ele mais tarde. Ou talvez não possamos fazer ao vivo, mas então não devemos fazer em estúdio apenas porque não podemos tocar ao vivo? Então quando estamos gravando um álbum, fazemos o melhor que podemos. Isso foi uma grande flexibilidade porque pude trazer gente para cantar no álbum que nunca excursionaria com a banda. Senão você precisa escolher: essa pessoa irá com você por todo o processo e fará tudo com você ou não? Mas agora podemos ter cantoras famosas de ópera que jamais irão para o palco com a banda, mas que ainda poderão vir cantar no álbum.

AC: Não sei se você vai gostar desta pergunta, mas, como um músico profissional, o que você considera o maior desafio: ser um compositor de metal no mundo da música ou ser um compositor clássico no mundo do metal?

CJ: Não entendi. Digo, entendi literalmente, mas não me considero um compositor clássico, pela mistura de estilos, sabe? Quando se escreve música clássica pura, se compõe de modo diferente, embora tenhamos pedaços aqui e acolá que sejam clássicos. Mas, para mim, acho que foi muito simples fazer isso porque as pessoas não eram muito educadas em música clássica. Elas não a ouviam, então eram facilmente impressionáveis. Se alguém ouve Wagner e você compuser uma peça, vai ser: “Ah, legal que ele escreveu essa peça, mas foda-se” porque já existe o Wagner. Mas se for um cara do metal para uma platéia de metal, vai ser: “Uau! Esse cara do metal consegue compor para violinos!”. É muito fácil… é como quando o filho do seu vizinho está tocando guitarra e os pais dizem: “Nosso filho é tão bom! Ele consegue fazer um solo do Yngwie Malmsteen!”. Na real, ele é mediano, não está nem entre os mil melhores, mas para os seus pais e as pessoas do bairro, ele vai ser algo como: “Uau!”, porque ninguém mais ali pode tocar aquele solo.

CJ: [retomando após a tradução] Mas quando o ponto é música metal no cenário clássico, mudou drasticamente. Há uma geração crescendo agora ouvindo música clássica e metal misturados. Nos anos noventa, quando saíamos em turnê ao vivo, era tão difícil conseguir uma cantora clássica que quisesse excursionar conosco. Era assim: “Ei, somos uma banda famosa. Acabamos de vender cento e quarenta mil cópias de um álbum e queremos te dar muito dinheiro e ter você na turnê”. E: “Não quero fazer essa merda!”, sabe? Mas hoje há tantas garotas jovens e garotos crescendo com isso que é assim: “Queremos uma cantora” e instantaneamente temos trezentas e oitenta e quatro respostas em uma hora no Facebook. Nem todas boas, mas realmente mudou. Então há algumas pessoas lidando com música clássica agora e indo a conservatórios, aprendendo música clássica e que ouvem metal também. Talvez aqui estejam lentamente ficando para trás aquelas pessoas que vão tocar música clássica numa orquestra sinfônica e ainda pensem que são melhores: “Sabem, eu toco numa orquestra sinfônica nacional!”. Costumava ser assim na Europa, mas não mais.

AC: A gente vai abrir agora para quem quiser fazer perguntas para o Christofer.

Pergunta 1: Antes de tudo, gostaria de dizer que estamos muito felizes em saber que você se recuperou o suficiente para estar aqui conosco. Vejo a evolução da banda, de uma época em que poucas músicas e letras tinham influência de música clássica para agora, com o Beloved Antichrist e o Luciferian Light Orchestra. Você tem algum outro grande projeto ou virada em sua carreira agora? Ou todos os seus projetos são nessa linha?

CJ: Infelizmente, não tenho tempo suficiente para os dois projetos que tenho, então vou focar no Therior. Quero fazer mais um álbum do Luciferian Light Orchestra. Já tenho a maioria das músicas prontas para um novo álbum, mas não o tempo para gravar porque isso toma tempo. Tenho o Therion, sou pai, moro numa casa grande que me demanda muito. Na verdade, estou me mudando para Malta, então isso terá menos a ver. Mas, você sabe, quando se tem vinte e cinco anos, tudo se resume a beber cerveja e tocar música. Aí você cresce e há tantas outras coisas: sua namorada acha que é divertido se você passar algum tempo com ela às vezes e então vem uma criança. Sim, muitas responsabilidades diferentes, então as coisas estão indo mais devagar. Era uma boa idéia, em teoria, também ter o Luciferian Light Orchestra. Foi muito divertido fazer porque eu sou um cara totalmente anos setenta, mas… acho que vou tentar fechar o ciclo com mais um álbum do Luciferian Light Orchestra e aí será apenas o Therion.

Pergunta 2: O Theli foi determinante na carreira do Therion. Queria saber como que uma banda que surgiu com influências de Metallica e Celtic Frost, bandas mais pesadas, se transformou tanto ao longo da carreira, musicalmente. E se houve um fator determinante para que isso acontecesse.

CJ: Não. Se você pegar nossos álbuns no começo, há uma mudança drástica entre eles, mas nunca houve um ponto específico de mudança. No nosso segundo álbum, Beyond Sanctorum, usamos teclados, havia pequenas influências orientais, alguns vocais femininos, alguns vocais limpos masculinos. Então no terceiro álbum, Symphony Masses: Ho Drakon Ho Megas, que talvez seja nosso álbum mais experimental, havia mais coisas orientais, comecei a experimentar um pouco mais com vocais, mais teclados, pequenas influências sinfônicas em uma das músicas, influências industriais. Sabe, só fizemos o que queríamos. E no quarto álbum, Lepaca Kliffoth, mais coisas clássicas, alguns pequenos vocais de óperapela primeira vez, mais coisas orientais. É como um processo, parte por parte. Eu nunca quis acordar um dia e dizer: “Vamos fazer isso!”. Eu apenas compus músicas.

Pergunta 3: Como e onde você aprendeu a compor música clássica, como os corais? É algo muito diferente da música metal. Você estudou em um conservatório ou algo assim?

CJ: Não. Sou totalmente autodidata. Na verdade, passei a usar orquestra com o rock por causa da música sinfônica no rock dos anos setenta. E porque muita música pop que eu cresci ouvindo no rádio usava cordas e metais, no final dos anos sessenta, que meu pai ouvia enquanto eu crescia, e no rádio nos anos setenta. Para mim, sempre foi natural misturar os instrumentos de uma orquestra clássica com rock. E então, algumas bandas dos anos setenta fizeram algumas coisas no estilo clássico. Então foi assim que comecei. Mais ou menos na mesma época, passei a me interessar por música clássica e ouvia algumas coisas, como os famosos sucessos do Beethoven. Mas quando comecei, o fiz de um modo bem pequeno, por exemplo, no Lepaca Kliffoth só havia duas cantoras clássicas. Eu não sabia escrever partituras, então só tocava a melodia num teclado e elas cantavam. E me dei conta de que era um jeito muito estranho de se trabalhar. Elas apenas olhavam para mim com cara de: “Onde está a partitura?”. E percebi que precisava aprender as notas. Na verdade, eu sabia o ritmo das notas, mais altas ou mais baixas, mas era isso. Na época, consegui uma das primeiras versões do Cue Bass no Macintosh SE de 1984. Acho que ele tinha um hard disk de vinte megabytes. Com uma seqüência programada, eu percebia: “Ok, se eu tocar isso no teclado, fica assim na partitura!”. Eu aprendi sozinho e, quando fizemos o Theli, eu já tinha algo como uma partitura, mas era inútil porque eu não entendia que deveria definir o tom e não entendia as claves, então eu escrevia tudo na clave de sol, havia cinco bilhões de linhas e parecia uma árvore de Natal.

CJ: [retomando após a tradução] E as cantoras olhavam para mim assim: “Nunca vou conseguir ler isso!”. Aí um cara reescreveu tudo para mim no estúdio, com o produtor, e eu comecei a prestar atenção: “Ah, preciso definir o tom”, agora faz sentido. Ou: “Ah, há claves diferentes”, então comprei um livro dos anos sessenta, de um velhinho bem irritado chamado Aulin, que escreveu um manual para música em geral. Com um tom bem bravo no livro, ele dizia: “Vocês, os instrumentos eletrônicos…”, como quando o órgão Hammond foi inventado, ou algo assim. E era exatamente o que eu queria. Nessa época eu já tinha o básico e quando fizemos o álbum Vovin, não havia banda, pois o Vovin é um álbum solo meu. O baixista era um músico de estúdio, o melhor baixista de jazz na Alemanha na época [nota: o álbum é de 1998 e o baixista se chama Jan Kazda – há um álbum dele, em parceria com a Indigo Streichquartett, com duas músicas autorais e dez sensacionais versões instrumentais de Led Zeppelin: Kazda & Indigo Strings Play The Music Of Led Zeppelin (2011)]. Ele me disse que também podia me ajudar com as partes orquestradas porque ele tinha contatos e disse que poderia conduzir isso para mim. Ele deu uma olhada, achou alguns erros, me disse como ser mais preciso nas dinâmicas e usar palavras para expressar o que queria, pois, é claro, você conversa no estúdio e diz que quer algo desse ou daquele jeito, mas ele me deu uma boa idéia: apenas dizer ‘allegro’, ou o que quer que fosse, de forma que, quando as cantoras apenas me olhassem, teriam uma compreensão básica do que eu queria. Usamos muito pouca orquestra nele, havia apenas um quinteto de cordas e foi muito fácil começar porque todos entendiam como os instrumentos deveriam soar.

CJ: [retomando após a tradução] O único grande erro que cometi foi não ter entendido que uma viola tem uma clave de dó, uma clave ‘nova’ pela qual passei batido. Ele me deu algumas dicas sobre como melhorar um pouco e aprendi bem o básico ali, quando fizemos o Vovin, o livro junto da experiência com o Vovin. E dali em diante, eu apenas adicionava mais alguns instrumentos a cada vez. Como em Deggial, usei uma trompa que conheci no livro que ele transcreveu, e acho que usamos flautas, algumas coisas pequenas. No Secret Of The Runes, adicionamos ainda mais, mas o gravaríamos seção por seção. E quando fizemos Lemuria e Sirius B, me senti pronto para fazer tudo ao mesmo tempo, então havia quase duas centenas de pessoas envolvidas, cantando e tocando minha música. Foi uma experiência muito poderosa. Sou muito orgulhoso porque eu tinha mais de três mil páginas de partituras numa sacola de papel que eu carregava comigo, bem profissional… e houve apenas dois erros em três mil páginas. Estava morto de medo porque havia centenas de pessoas, elas custavam dinheiro e se você comete um erro, elas se sentam, paradas, e você pode ouvir o barulho das máquinas de dinheiro: “Ah, esse seu erro acaba de te custar mais duzentos dólares”. Poderia ter sido um desastre total e acho que esses dois erros provavelmente custaram uns mil dólares. Em tempo, me lembro de um deles: eu troquei o oboé pelo fagote, eles se inverteram e estavam soando estranhos. Por alguma razão eles se inverteram no meu computador. Esse foi um dos erros.

CJ: [retomando após a tradução] Na verdade, as três mil páginas incluíam anotações particulares e letras, não apenas partituras. Senão seria música muito longa, mas a conta incluía anotações pessoais. Então é um pouco menos heróico do que parece. Um causo engraçado sobre a gravação foi que o regente gritava comigo e dizia que eu era um idiota nada profissional porque ele olhava para as anotações e dizia: “Você tem somente trinta e duas cantoras e isso foi composto para cem. No que estava pensando?”. Porque ele estava sofrendo em ‘reger alto’. Eu sempre tendo a escrever vozes muito agudas porque penso que pessoas são como máquinas, sabe? Se teoricamente elas podem cantar bem agudo, então deveriam. Nem sempre funciona assim, eu estava especialmente acostumado a trabalhar com solistas e montei um conjunto delas, com vozes muito fortes. Então, se digo para as sopranos: “Tem um dó sustenido bem agudo aí”, não é problema se for só um, mas se for um coral de sopranos, vai ter fumaça saindo das gargantas delas, especialmente se as forçar demais nos solos ‘altos’. O regente me dizia: “Teria sido legal se você tivesse cem cantoras, como a Berlioz Requiem. Teria soado bem, mas você ‘só’ tem trinta e duas”. E eu pensava: “Uau! Tenho trinta e duas cantoras!”. Mas o que eu ia saber? Sou um metaleiro sueco.

AC: Temos que encerrar, mas agora o Christofer vai para o stand da Nuclear Blast e quem quiser, é só passar por lá.

CJ: Estão nos expulsando?

AC: Sim! Obrigado pela presença de todo mundo!

Assim, meio às pressas e estourando o tempo em cinco minutos, foi encerrado o papo de pouco mais de quarenta e cinco minutos com o vocalista do Therion. Já adiantamos que não foi possível resenhar seu show no dia seguinte devido à concomitância de horário com nossa ida ao Allianz Parque para cobrir a Nova Orquestra tocando Led Zeppelin.

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