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LIVING COLOUR ::: 14/06/19 ::: TROPICAL BUTANTÃ
Postado em 09 de julho de 2019 @ 21:09 | 235 views


Texto : Vagner Mastropaulo

Fotos: Flavio Santiago

Agradecimentos: Costábile Jr / Rádio Corsário

Mal havia terminado a apresentação do Living Colour no Circo Voador na noite anterior (também resenhada no site) e este escriba já se encaminhava à Rodoviária do Rio para tentar regressar a São Paulo a tempo de ver o quarteto na cidade. Dormir? No busão mesmo… mas de nele entrar, cerrar os olhos e só notar que a viagem levou mais tempo do que o esperado ao abri-los no Tietê e checar o horário. A provável razão passava pela adesão parcial das empresas de ônibus, metroviários e funcionários da CPTM à greve geral, já o reflexo direto era mais carros pelas ruas. Neste cenário, a alternativa mais viável para deixar a zona norte era de Uber, mesmo com o trânsito infernal. No final das contas tudo deu certo, mas chegar ao Tropical Butantã à noite (e, principalmente, dele ir embora) não foi tarefa das mais simples para os paulistanos.

Quem acompanha a cobertura de eventos aqui no site talvez se recorde que, impossibilitado de chegar ao início do Mariutti Fest (Aurora Club – 22/03), ao perder o show do Remove Silence, este escriba firmou compromisso de ver e resenhar sua próxima apresentação na cidade. Pois bem, promessa cumprida! Chegando antes de Ale Souza (vocal e baixo), Danilo Carpigiani (guitarra), Fabio Ribeiro (teclados) e Leo Baeta (bateria) pisarem no palco, houve tempo de conferir a playlist monotemática na discotecagem, exclusivamente formada por faixas do Blackberry Smoke, que tocara na casa em 11/05. Conforme programado, eram 20:45 quando Raw, faixa de abertura do álbum homônimo lançado em 25/01, iniciou o set dos paulistanos soando menos eletrônica do que em estúdio e mais orgânica e crua ao vivo, com o perdão do trocadilho. Após um objetivo “Valeu! Boa noite” de Ale para uma casa ainda vazia, puxaram Laser Gun, com teclados que remetiam aos anos 80 e ter um mestre como Fabio Ribeiro no line-up agrega demais à sonoridade do conjunto.

Middle Of Nowhere manteve não apenas a pegada oitentista, com começo que ambientou a casa à la Depeche Mode, e também, na prática, cravou a trinca inicial de Raw, precedida pela primeira fala mais desenvolta do cantor: “Muito obrigado, galera! Nós somos o Remove Silence. Queria agradecer a presença de todos aí. É um privilégio estar hoje aqui abrindo para o Living Colour, uma banda que a gente curte bastante”, encerrada por agradecimentos pontuais. Irreversible, do EP de mesmo nome lançado em 2015, finalmente marcou troca de álbum e se antes o grupo de Dave Gahan parecia uma remota sugestão aos ouvidos, sua influência ficou latente no excelente cover de Enjoy The Silence, com final bem mais pesado do que o original dos ingleses. Nothing To Lose e The Buzzer voltaram a trazer Raw às paradas, com a segunda mostrando raízes em outra banda da vertente mais eletrônica do rock, uma década à frente: o Nine Inch Nails.

Partindo para o final do set, Pressure representou Fade (2010), antecipada pela gratidão de Danilo: “Valeu, todo mundo aí! Queríamos agradecer a vocês pela paciência com a gente aqui. Estamos indo para as duas últimas músicas antes do Living Colour, que está todo mundo ansioso para ver. Sigam a gente e vamos que vamos! A gente lançou um disco novo aí. Obrigado a todo mundo, queria agradecer a vocês mesmo. Valeu!”. E Spellbound, única de Stupid Human Atrocity (2012) tocada, encerrou os trabalhos justamente quando o público encorpava, com quase quarenta minutos de espetáculo. Sobre possíveis evidências eletrônicas no som do quarteto, Ale conversou conosco por email, concordando inteiramente: “Você acertou em cheio! Sou muito suspeito para falar sobre Nine Inch Nails e Depeche Mode. São bandas que realmente curtimos e fazem parte de nossas influências na hora de compor para o Remove Silence”.

O que se ouviu no intervalo? Blackberry Smoke, é claro! Para que variar? E para não dizer que foi só isso, às 22:05 rolou Gift Of Faith, do Toto (este é o ponto em que o texto traria um irônico joinha, caso fosse conversa de Whatsapp). Pouco após as 22:10, Corey Glover (vocal), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) deram as caras e estes inocentes dez minutos de atraso foram determinantes para impossibilitar quem viu o show até o fim de embarcar no Metrô Butantã. A casa agora estava bem cheia e nem poderia ser diferente no país que adotou o Living Colour (e vice-versa) no Hollywood Rock de 1992, aclamando-o como melhor show para a crítica e o público. Desde então, pode até demorar um pouco, em função dos tantos giros internacionais, mas eles sempre dão um jeitinho de passar por aqui. Desta vez, treze meses após visita ao mesmo Tropical, o regresso celebrava trinta (e um) anos de Vivid, lançado em 03/05/88.

Confiando no próprio taco, sem nenhum tipo de decoração, como no Circo Voador, se o trio instrumental entrava discretamente, Corey Glover inovava vestindo paletó, camisa, gravata e calças amarelos de fazer inveja à Cremogema! Completando o look, óculos escuros, chapéu preto e um All Star, evidentemente amarelo (para que quebrar o tom?). Brincadeiras à parte, a combinação era bem bonita e deixou de importar assim que Vernon fez o dedilhado de Preachin’ Blues enquanto o cantor apoiava-se no suporte de bateria de Will. Irrequieto, caminhou à borda do palco e, sorrindo, pediu barulho. Enquanto isso, o guitarrista era só seriedade: “Gostaríamos de dedicar esta próxima música à ativista Marielle Franco”, em explosão de palmas antes de Who Shot Ya?. Diferentemente do Rio, incluíram Freedom Of Expression (F.O.X.), introduzida por um acerto de Vernon com os fãs: “Gostaríamos de tocar mais uma de Shade e tudo que vocês precisam fazer é dizer ‘Yeah’”, obtendo como resposta um uníssono “Yeah” que gerou novo comentário: “Mas não agora! Quando chegar a hora, vocês saberão quando dizer ‘Yeah’. Vamos lá, digam ‘Yeah’! Não! Um pouco mais curto!”

O que viria a seguir todo mundo já sabia, mas mesmo assim o cantor preferiu explicar: “Vocês sabem, isso é uma festa para nós, um aniversário, certo? Para todos nós! Estamos nessa há muito tempo e, como um obrigado a todos vocês que permaneceram conosco, vamos tocar o Vivid do começo até o final, com tudo que há no meio. Estão prontos?”. Cult Of Personality fez a alegria da galera e o que mais impressionava era a qualidade do som, especialmente do baixo do sisudo Doug. Ao indagar qual era a próxima e receber um “I Want To Know” como resposta, extremamente bem-humorado, Corey tirou onda: “Eu sei!”. Nos backing vocals, guitarrista e baixista faziam sua parte e Middle Man e Desperate People a delas, esta com direito a um mini-improviso de guitarra em seu início, sem virar um solo. E o que dizer, mais uma vez, sobre os espetaculares mais de onze minutos de Open Letter (To A Landlord)? Outra monstruosa demonstração do talento de Corey em magnífica entrega ao interpretá-la. E o pior (ou melhor) é que ele faz isso todas as noites, há anos. Trazendo um pouco de interação em momento de pura contemplação, durante a repetição do refrão, mais para o final da canção, Vernon fazia gestos que pareciam representar seus versos em libras. Ao seu final, as apresentações dos músicos, com o vocalista chamando o baixista de “Doctor Of Doom”.

Seguindo o play, Funny Vibe, Memories Can’t Wait e Broken Hearts entregaram o que delas se esperava, mas o povo queria mesmo era dançar ao som de Glamour Boys. Ao tentar variar o “Hey, what do you mean my credit’s no good?” do último verso, o vocalista até se esforçou: “Nothing has changed! Absolutely nothing has changed. Do you know why? Despite of what you may have seen right here…”, mas seu guitarrista o interrompeu e virou o foco da zoeira, como se Corey estivesse puto com ele: “O quê? O quê? O quê? O quê? Trinta anos dessa besteira! Trinta anos! Trinta anos! E o que eles me trouxeram? Nada! Sabem o porquê? MY CREDIT’S STILL NO GOOD!”. E não parou por aí, pois seu ‘ataque’ foi mantido: “Está pronto? Está pronto agora? Você fica aí me ferrando, mas sabe o que virá agora? Estou te perguntando!”. Buscando comover seu frontman, Vernon foi só doces elogios: “Você fica fabuloso de amarelo? Sério, ele não fica maravilhoso de amarelo? Esplêndido!”. Como ‘prêmio’, levou quatro debochados “Eu te odeio!”, um “Ele que se foda!”. Tudo isso, sarcasticamente antes de… What’s Your Favorite Color? (Theme Song).

Encerrando Vivid, Which Way To America? trouxe interessantes questionamentos sugeridos por Vernon em meio à proposital e caótica verborragia improvisada ao vivo: “A todo lugar que olho em São Paulo, vejo portões. Vejo portões em frente às casas, nas ruas, em todo lugar. Sabem por que há portões em todo lugar em São Paulo? Sabem o motivo? Porque as pessoas estão tentando proteger suas coisas. Elas ficam nervosas com relação às suas coisas. Vejo câmeras em todo lugar. A Polícia vigiando todos os dias. Então não sejam suspeitos. Sabem? Andem na linha, me entendem? Elas querem manter suas coisas e permanecer trancadas. As pessoas estão todas trancadas. O que virá a seguir?” e por aí continuou o discurso em um looping de repetições intencionais para causar mal-estar e provocar reflexão, até tudo se encerrar com o vocalista indo se divertir com a alavanca da guitarra de seu colega e dar tapas nas cordas ‘selando a paz’ entre ambos com a língua de fora. E a canção foi seguida pelo solo de Will Calhoun, enquanto seus companheiros ganhavam um respiro, com as mesmas graçolas feitas na Cidade Maravilhosa, porém com duas baquetas de LED vermelhas desta vez, contrastando com sua roupa toda branca.

Com o time completo novamente, primeiro veio Love Rears Its Ugly Head, mas, durante sua execução, Corey teve um acesso de insanidade (não tão completo quanto o do Bourbon Street, em setembro/13, ao escalar um camarote, dar a volta na casa e descer à pista cantando Should I Stay Or Should I Go? com os fãs pulando, a ele abraçados) e foi para a grade da pista premium, deixando seguranças com o coração na boca e fãs em polvorosa querendo tocá-lo e registrar o momento em selfies, ao melhor estilo ‘papagaio de pirata’. Ainda houve tempo para Elvis Is Dead, com o cantor em outro ponto da grade e trecho de Hound Dog ao seu final, levando uma fã adolescente ao delírio e ‘forçando-a’ a enviar um áudio peculiar em seu celular, berrando perto da pobre orelha direita deste escriba: “Mano, você não acredita no que acabou de acontecer!” (como é bom ser jovem!). Emendada e fechando a noite, a arrasa-quarteirão Type estendeu a performance a pouco mais de uma hora e cinquenta minutos, concluindo-a à 00:03 (lembra daqueles dez minutos de atraso? Fizeram falta a quem contava com a Linha Amarela e ficou para ver o show todo).

No frigir dos ovos, foi mais um puta show do Living Colour no Brasil! E seria legal alguém dar um toque a Corey e companhia, pois 2020 marca outra comemoração de três décadas, a de Time’s Up. Mantida a média, não seria nada mau eles voltarem ano que vem ao Tropical, no bairro que os acolheu tão bem. E mais, com a vida feita, os caras bem que poderiam tirar um ano sabático e se mudar para o Brasil em 2021 para tocar nos barzinhos da cidade, ali no circuito da Vila Madalena, ou nos Bourbon Streets da vida. Público jamais faltaria! Se quisessem, já emendavam 2022 para as Bodas de Pérola da estréia no país, no Hollywood Rock 1992. Que tal? E no ano seguinte? Festa de Stain, trintão e vigoroso? Enfim, segue o baile… mas como fazer Doug Wimbish dar um sorriso?

Setlists

Remove Silence

01) Raw

02) Laser Gun

03) Middle Of Nowhere

04) Irreversible

05) Enjoy The Silence [Depeche Mode Cover]

06) Nothing To Lose

07) The Buzzer

08) Pressure

09) Spellbound

Living Colour

01) Preachin’ Blues [Robert Johnson Cover]

02) Who Shot Ya? [The Notorious B.I.G. Cover]

03) Freedom Of Expression (F.O.X.)

Vivid

04) Cult Of Personality

05) I Want To Know

06) Middle Man

07) Desperate People

08) Open Letter (To A Landlord)

09) Funny Vibe

10) Memories Can’t Wait [Talking Heads Cover]

11) Broken Hearts

12) Glamour Boys

13) What’s Your Favorite Color? (Theme Song)

14) Which Way To America?

15) Will Calhoun’s Drum Solo

16) Love Rears Its Ugly Head

17) Elvis Is Dead [Snippet De Hound Dog (Big Mama Thornton)]

18) Type

 

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