ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

MARK LANEGAN ::: 08/09/18 ::: CINE JÓIA / SP
Postado em 28 de setembro de 2018 @ 14:55 | 100 views


Texto: Vagner Mastropaulo

Fotos: Flavio Santiago

Agradecimentos a Marcelo Jacoto: pela consultoria, conhecimento e paciência!

Lenda grunge? Supere! Mark Lanegan está além de Seattle. Basta aceitar…

 

Sabe a velha máxima do “Em time que está ganhando não se mexe”? Se, por um lado, Mark Lanegan se preservou optando pela segurança de um território familiar ao voltar ao Cine Jóia (por onde já havia passado em abril de 2012 e maio de 2015), por outro, retirou baterista e baixista do palco e trouxe consigo apenas Jeff Fielder (guitarra) e Shelley Brien (teclados). Complementando o som, por vezes ouvia-se uma bateria eletrônica ou alguns efeitos fazendo as vezes do baixo. O resultado não poderia ser outro: uma apresentação intimista realçando sua característica voz rouca, em formato de show similar ao de junho de 2010, com Lanegan cantando e Dave Foster no violão, no Comitê Club (hoje Beco 203), acústico até no nome da tour, batizada An Acoustic Performance.

Transcorridos oito anos, também passou da hora de reduzir a carreira do cantor a Seattle. Com onze álbuns-solo no catálogo (fora os em parceira e suas contribuições em plays de outros artistas), o que se viu na fria noite de sábado em nada se assemelhou ao grunge de outrora… É fato que seu grupo foi contemporâneo dos quatro maiores expoentes do gênero (Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden – a única mais antiga que o Screaming Trees, mas em formação, não em lançamentos) e que Ellensburg, cidade natal de seu conjunto, faz fronteira com a terra das recém-campeãs da WNBA. Mas Mark Lanegan já se afastou do estilo há anos, mesmo que: uma ou outra blusa de flanela pudesse ser vista como indumentária do público que lotou a casa; sua média etária beirasse os 40 anos (logo, adolescentes no boom da cena); e a playlist utilizada antes do show contrariasse a tese, repleta de referências às bandas acima citadas e temperada com outros sons da mesma época (a última hora dela encontra-se no final desta resenha).

Com atraso de vinte minutos, Demon Cleaner (Kyuss) foi cortada do som ambiente para o apagar das luzes e subseqüente entrada do trio, às 21:20, com imediata execução de When Your Number Isn’t Up, levemente mais lenta do que em Bubblegum, com luzes roxas e vermelhas no palco sem decoração alguma, Jeff tocando sem distorção e Shelley nos teclados que passaram a soar como um órgão de igreja em Low. Emendado viria o primeiro uso de bateria eletrônica em Hit The City, que contou com ajuda da tecladista nas partes dos vocais feitos por PJ Harvey em estúdio e foi reconhecida de cara pelos fãs, que preferiram assistir à performance, em vez de agitar, e aplaudiram em seu final, gerando um discreto “Thank you” de Shelley enquanto Lanegan se hidratava. Nocturne veio colada, dançante, com um quê de New Order, sendo a primeira de três consecutivas do álbum da turnê, Gargoyle, lançado em abril de 2017. No palco, o que se via era imagem e semelhança dos fãs: Mark cantando sem se mexer, Shelley concentrada em suas partes e Jeff, dentro do padrão notado, era o mais móvel dos três. Após um singelo “Hi” de Shelley, iniciou-se a comovente Goodbye To Beauty, com efeitos sonoros que simulavam sutis batidas de coração, culminando em um rouco “Obrigado” do reservado Lanegan. Sister manteve o clima melancólico, com luzes azuis no palco, exceção feita a um facho roxo-avermelhado projetado no vocalista, ganhou leve intensidade no decorrer de sua execução e contou com o auxílio dos outros dois músicos nos vocais de apoio.

The Gravedigger’s Song foi o momento mais “pesado” do espetáculo até então, dentro dos parâmetros acústicos permitidos, agora com pitadas de blues logo após as batidas eletrônicas pré-programadas e disparadas por Jeff. Tamanha “excitação” levou o tímido Lanegan a lançar mão de quatro palavras para expressar seu profundo agradecimento (sim, inacreditáveis quatro palavras): “Thank you very much”. Durante Deepest Shade, cover do Twilight Singers, justamente a banda de Dave Foster (o parceiro do show acústico de Lanegan em 2010), luzes rosas advindas do palco projetavam flores no fundo casa, na área abaixo dos camarotes. A faixa, que poderia integrar a trilha sonora de Twin Peaks, especialmente pelas linhas de baixo, foi sucedida por One Hundred Days, inaugurando outra trinca de um álbum só, agora de Bubblegum. Acompanhada pela plateia no refrão, ainda que sutilmente, também foi iniciada por bateria eletrônica ao comando de Jeff, que fez o primeiro belo solo da noite encerrando-a. E então deu-se algo completamente impensado para um show tão tranquilo: uma estúpida briga eclodiu na parte frontal da pista, controlada rapidamente pelos seguranças, que, de modo elogiável, cumpriram seu papel separando de vez os valentões, sem agredir ninguém. O motivo não se sabe, porém a ocorrência obrigou o contido Lanegan a se expressar, indo além dos agradecimentos de antes: “Hey, hey, hey! Não há motivo para briga. É apenas uma música”. Com o acalmar dos ânimos, o cantor puxou Come To Me, mas seguiu olhando para o espaço onde surgiu a confusão, que, infelizmente dispersou a concentração de alguns fãs ali posicionados, fazendo com que estes não se ativessem à performance de Shelley, agora cantando junto com o vocalista em algumas partes e ganhando dele um selinho ao final da canção. Finalizando a trinca, não por acaso Strange Religion teve mais teclados que lembravam órgão de igreja, enquanto estrelas eram projetadas na área próxima aos camarotes.

Após outro sucinto agradecimento de Lanegan e entusiasmadas declarações endereçadas a Shelley (“You’re beautiful” e “We Love you”) oriundas da plateia, Beehive trouxe Gargoyle de volta ao show, que passava de sua metade. Ao término de You Only Live Twice, a tecladista mandou um beijo a alguém na pista, mas persistia a relativa dispersão por parte de alguns fãs, que mexiam em seus celulares, conversavam e se deslocavam em direção ao banheiro. Não que a apresentação estivesse ruim, mas a pouca variação entre os estilos das canções, devido ao formato acústico, certamente afetou o interesse dos menos fanáticos pelo cantor. Dando prosseguimento ao baile, após Morning Glory Wine, Lanegan voltou a agradecer ao público, agora com a voz ainda mais grave, chegando a lembrar Hank Voight (personagem interpretado por Jason Beghe em Chicago P.D.). One Way Street foi outro momento de destaque para Jeff, em esforço reconhecido por todos, bastante aplaudido ao final da canção. Mirrored manteve a toada e a dançante e contagiante (apesar do título) Sad Lover voltou a pegar mais “pesado”, com vocais mais altos de Lanegan, que soltou um discreto “C’mon” ao clamar por maior participação, um “Alright” em retribuição ao apoio recebido e, para delírio dos fãs, uma breve citação aos outros dois músicos no palco: “Por favor, digam um ‘Olá’ a Jeff Fielder e outro para Shelley Brien”. Antes de Halcyon Daze, a única de Houston Publishing Demos 2002 no set e outra com sons de órgão de igreja, um fã mais afoito fez alguma brincadeira, arrancando um “Eu também” do vocalista, em meio a raros sorrisos. A música foi mais uma bela performance do guitarrista e foi seguida por Phantasmagoria Blues. Já caminhando para o final da primeira parte do set, a forte interpretação de Lanegan para a soturna I Am The Wolf culminou em mais um detonante momento do guitarrista, extremamente aplaudido, antes de On Jesus’ Program encerrar os trabalhos de forma mais plugada, em contraste ao começo mais light do espetáculo. Ao deixar o palco, Lanegan já estava com um cigarro na boca a caminho do camarim. Voz rouca natural? Sim, mas não há dúvida: para o bem ou mal, o vício afeta sua aspereza vocal.

Rapidamente voltando para o encore (em sequer dois minutos, será que deu tempo de fumar?) o vocalista garantiu que as melhores estavam por vir, a começar por Torn Red Heart, canção belamente encerrada por Shelley, em meio a palmas da plateia, inéditas em todo o show. Em meio a pedidos por outras canções, Lanegan tirou onda dizendo: “Me no understand”, antes de iniciarem Bombed (a mais curta do show), que, na verdade, foi um belo dueto dele com Shelley, que se despediu do público, deixando o palco para que apenas o vocalista e seu guitarrista executassem dois covers do Screaming Trees. No primeiro deles, Wild Flowers, houve dedicatória: “Esta é para o Carlos [nome fictício]”, que, caso esteja lendo esta resenha e seja o cidadão a prontamente requerer o crédito na pista, explodindo em alegria ao lado deste escriba, por favor, atenda a um pedido em nome de todos os presentes nos próximos concertos: não volte a dar uma de esperto acendendo seu cigarro em um local fechado, ignorando a existência da lei federal número 12.546. A canção foi o momento mais Rock ‘N’ Roll do espetáculo, com novas palmas da plateia, o vocalista cantando mais rasgado e foi seguida por outra pedrada, perfeita para encerrar a noite: Halo Of Ashes, marcada pelo inusitado momento em que Lanegan se sentou para assistir ao solo de Jeff. Ao seu término, levantou-se pedindo por palmas para seu companheiro, botando um ponto final à única data do artista no país. Estranhamente, as últimas palavras dirigidas aos fãs foram de Jeff, após Mark Lanegan partir para o camarim: “Muito obrigado por virem para o show hoje à noite. Significa muito para nós. E rapidinho… ali do lado, há uma mesa com camisetas. Vejo só mais uma. Daqui a pouco o Mark vai voltar e se sentar ali para assinar o que vocês tiverem e apertar as mãos de vocês. Então façam uma fila. Vejo vocês na próxima. Paz.” Uma hora e cinquenta e cinco minutos mais tarde, a mesma versão de Demon Cleaner começou a rolar enquanto alguns partiam e outros se aglomeravam à espera dos autógrafos e cumprimentos. Mantida a média, marque em sua agenda e espere pelo próximo show de Mark Lanegan no Cine Jóia, em 2021.

 

Setlist

01) When Your Number Isn’t Up

02) Low

03) Hit The City

04) Nocturne

05) Goodbye To Beauty

06) Sister

07) The Gravedigger’s Song

08) Deepest Shade [The Twilight Singers Cover]

09) One Hundred Days

10) Come To Me

11) Strange Religion

12) Beehive

13) You Only Live Twice [Nancy Sinatra Cover]

14) Morning Glory Wine

15) One Way Street

16) Mirrored

17) Sad Lover

18) Halcyon Daze

19) Phantasmagoria Blues

20) I Am The Wolf

21) On Jesus’ Program [O. V. Wright Cover]

Encore

22) Torn Red Heart

23) Bombed

24) Where The Twain Shall Meet [Screaming Trees Cover]

25) Halo Of Ashes [Screaming Trees Cover]

 

CONFIRA GALERIA DE FOTOS

Notícias · Shows



Deixe seu comentário / Leave your comment





1 User Online
 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017