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Samsung Best Of Blues ::: 16/09/18 ::: Área Externa Do Auditório Ibirapuera (São Paulo)
Postado em 04 de outubro de 2018 @ 23:57 | 467 views


Marielle vive e o rock nacional passa bem (obrigado!), mais oxigenado do que o cabelo de John 5

Por Renata Pen e Vagner Mastropaulo

Fotos por: Leca Suzuki

Imediatamente após a coletiva de imprensa e com meros cinco minutos de atraso, Isa Nielsen botou os pés no palco às 18:05, dando início ao festival que durou quase três horas, com intervalos surpreendentemente rápidos entre as apresentações. A parte ruim foi a curtíssima duração de seu set, em que couberam apenas quatro músicas. Como desgraça pouca é bobagem, sua performance em boa parte de Fistful Of Dollars, abrindo o show, foi prejudicada devido a uma pane técnica: simplesmente não se ouvia o som de sua guitarra. Enquanto o problema era resolvido, Vando Lucena (baixo), Ricardo Ramesh (bateria) e Thiago Oliveira (guitarra) mandavam ver, cabendo especialmente ao membro do Seven7h Seal e da banda nacional do saudoso Warrel Dane (homenageado na camiseta do guitarrista), segurar a onda até que Isa pudesse tocar a contento, para então prosseguir com duas autorais: Slide (nova) e Synthetic Inoxia (sua pesadíssima primeira composição). Concluindo o set de vinte minutos, um cover instrumental de Going Down (Jeff Beck Group), mas não sem antes Isa apresentar seus músicos à galera e, simpática, despedir-se: “É isso aí, pessoal, obrigada mesmo! É um dia muito especial para mim. Curtam aí os outros shows, que vão ser demais! Um beijão. Valeu!”.

Após inacreditáveis míseros dois minutos de espera (sim, apenas DOIS minutos), o Camarones Orquestra Guitarrística já tocava SinksMania, faixa de abertura de Feeexta (2017), com o som do baixo e a performance de Ana Morena roubando a cena logo de cara. A intitulada Praia Do Leste, como não poderia deixar de ser, trouxe um ar surf music ao ambiente, mas com peso, e foi seguida de Charme Chermont (o comecinho dela não lembra, bem de leve, Jump In The Fire, do Metallica?), que ganhou força em sua execução e levantou o público! Alabama Mama manteve o pique e então Anderson Foca averiguou: “Quem tem ou quem já tocou em alguma banda aí, levante a mão!”, para uma enxurrada de braços erguidos, antes da divertida saideira Rock De Roqueiro abrir a porteira de vez. E se o show de Isa Nielsen já havia deixado o Ibirapuera querendo mais, tal sensação só se acentuou com o desempenho da encapetada Ana Morena (baixo), Anderson Foca (guitarra e teclados), Alexandre Capilé (guitarra) e Yves Fernandes (bateria) em quinze minutos contados. Fato foi que o quarteto potiguar realmente detonou, representando o rock nacional. Foca tornou a agradecer: “Valeu a todo mundo que colou. Vamos ver o John 5 e o Tom Morello”.

Dando continuidade à festa, John 5 And The Creatures vieram ao palco às 18:45, após dez minutos de espera, e o guitarrista já chegou com escalas na velocidade da luz em Flight Of The Vulcan Kelly, forçando o questionamento sobre quantas notas musicais podem caber em pouco mais de dois minutos, ainda que o som de seu instrumento estivesse inicialmente baixo. Junto a Ian Ross (baixo) e Rodger Carter (bateria), John pautou o show em seus dois últimos álbuns: Careful With That Axe (2014) e Season Of The Witch (2017). Vestido todo de branco (com seus tradicionais cabelos oxigenados e ombreiras de fazer inveja a qualquer Kiss da vida), as únicas outras cores emanando de sua indumentária vinham de um protetor bucal multicolorido a disparar flashes, vermelhos, verdes e azuis e arremessado ao setor dos sexagenários antes de seguir fritando em Six Hundred And Sixty Pickers In Hell, CA. Here’s To The Crazy Ones foi outra amostra de seu virtuoso arsenal, com riffs galopantes, two hands, slaps, trechos jazzy, escalas… uma loucura, com o perdão do trocadilho! Na linha ‘Não faça guerra, faça riffs’, This Is My Rifle foi a última de Careful With That Axe no set e, a esta altura do campeonato, o som da guitarra de John 5 já estava perfeito.

E a partir de então, o show só teria músicas de Season Of The Witch e covers, a começar por Hell Haw (cujo clipe é hilário), explicitando a veia country music de John, o talento de seus parceiros e até um certo lado malabarista do guitarrista, jogando uma palheta por debaixo do braço de seu instrumento para pegar por cima. Durante a música mais metal da apresentação, Season Of The Witch, uma corcunda mascarada veio ao palco e entregou uma boneca a John, que, agora cobrindo o rosto com um véu preto vazado, improvisou usando o brinquedo para solar antes de se livrar do artefato. O único senão durante sua execução foi constatar que parte da base de guitarra era sampleada, uma vez que só havia três músicos no palco e não houve nenhum ‘buraco’ enquanto John fazia o solo. O mesmo ‘aplique’ foi utilizado em Enter Sandman, com o guitarrista simulando os vocais em seu instrumento (com ajuda do público), enquanto claramente se ouvia a base de guitarra a acompanhá-lo (não seria mais fácil e honesto incorporar um segundo guitarrista ao grupo?).

Seguindo a pancadaria, o final de Black Grass Plague foi bem descontraído, com John tocando-a em uma mini-guitarra (similar à guitarra baiana, famosa nas mãos de Armandinho em seus tempos de A Cor Do Som e no Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar) e um banjo, exatamente como no clipe! Antes de Making Monsters, John deu uma rápida saída do palco e a então corcunda de outrora regressou vestida de palhaço para por uma máscara de caveira em John. Antes de finalizar o show e incendiar a galera de vez com um mega medley de quase dez minutos, o guitarrista foi econômico em sua única interação vocal com seus fãs: “Olá”, com sotaque em espanhol, ainda por cima. Hot For Teacher abriu o medley (a lista completa está no final da resenha), um respeitoso tributo de John a seus ídolos em uma divertida forma de entretenimento em massa. O barato na pista era ver a reação das pessoas, interagindo com seus amigos para ver quem reconhecia primeiro cada um dos riffs clássicos, ao melhor estilo ‘Qual é a música?”. Encerrando o medley, duas campeãs de audiência: The Beautiful People e Killing In The Name. E então a ex-corcunda palhaça agora surgiu ‘vestida’ de fantasma, portando uma bandeira do Brasil e passando à frente do guitarrista, sob luzes verdes e amarelas, ao som do riff inicial de Walk. Desnecessário dizer que John 5 saiu do palco ovacionado, cinquenta minutos após nele ter pisado…

Após 20 minutos cravarem o maior intervalo do festival, a versão da Orquestra Filarmônica de Praga para The World At War, utilizada como intro, abriu os trabalhos de Tom Morello às 19:55. Em sua primeira fala, deu a dica do que viria: “Brasil, It Begins Tonight”, seguida de One Man Revolution, faixa-título de sua estréia solo, sob a alcunha de The Nightwatchman. Ambas cantadas por Tom e apesar dos esforços, ainda bem que, por ser um guitarrista consolidado, ele não pensa em se tornar vocalista. Pedindo para iluminarem as pessoas a fim de vê-las, Morello pediu por participação “daqui da frente até lá atrás” e, enquanto isso, os mais atentos notavam algumas mensagens discretamente transmitidas pelo músico (algo similar aos easter eggs dos filmes americanos), como o “Arm the homeless” escrito em sua guitarra azul e uma bandeira vermelha que tanto poderia ser a da URSS ou do Sendero Luminoso (notar a estrela que as diferencia seria muito preciosismo). Os poucos segundos de Cochise foram dedicados “ao meu bom amigo, Chris Cornell”, emendada a 100 Little Cruises, do projeto do guitarrista com o rapper Boots Riley batizado Street Sweeper Social Club, ambas sem vocais e finalizadas por Morello com o célebre erguer de punho eternizado por Tommie Smith e John Carlos, em sinal de protesto, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968 (e se faltou a luva preta, algum efeito de luz compensou sua ausência, pois Morello parecia usá-la).

Após uma breve pausa para trocar de guitarra (agora uma preta com adesivo do Sendero Luminoso), Morello anunciou: “Tenho um novo álbum solo saindo em 12 de outubro. Esta é Vigilante Nocturno, que ninguém ainda ouviu, exceto os brasileiros, e gostaríamos de tocá-la para vocês agora. Apenas para vocês”. Pelo menos ao vivo, ela soou como uma marcha que poderia facilmente ter integrado algum álbum do Rage Against The Machine. E mais recados podiam ser notados, como o uniforme similar ao adotado pelo Street Sweeper Social Club, mas em um novo design, preto e vestido por todos no palco, com algumas sutis diferenças: nas laterais das mangas curtas do guitarrista, um escudo preto redondo com uma foice e um martelo brancos e três palavras, também em branco: “Liberdade, Igualdade e Irmandade”; em seu peito, uma bandeira americana em preto e branco do lado direito e um “Morello” estilizado e costurado do lado esquerdo. Já o restante da banda trajava o mesmo uniforme, mas apenas com a bandeira americana com listras vermelhas e estrelas verdes no lado direito do peito. E se alguém ainda não sabia o que havia sido feito na véspera, em Porto Alegre, num vacilo do roadie ao devolver a guitarra azul a Morello, rapidamente apareceu no telão o mesmo “Justiça Para Marielle” nas costas do instrumento.

Com o intuito de acalmar os ânimos, um belíssimo improviso instrumental batizado Little Chord Progression em alguns setlists do show foi tocado, algo que soou especialmente como Time (Pink Floyd), mas também lembrou Little Wing (Jimi Hendrix) e abriu uma mega jam que contou com uma versão, à la Morello, para o solo de Mr. Crowley (Ozzy Osbourne), com o guitarrista ajoelhado em frente aos amplificadores (e há quem jure que, em algum momento, um trecho de Your Time Has Come, do Audioslave, foi incluído, mas sem vocais). Mantendo a tradição de tirar sons de seu instrumento com o que quer que seja, Morello pegou um lápis e arrancou ruídos nervosos, antes de fechar a jam e voltar a soar como Time. Então o músico discorreu metaforicamente sobre a próxima: “Brasil, este é um festival de blues. Então vamos tocar um blues atemporal, um som de persistência. Esta música era cantada pelos escravos americanos e brasileiros, quando eles fugiam e matavam seus donos. Ela é cantada nas ruas, hoje, quando qualquer um luta contra a injustiça. É um blues antigo e que serve ainda hoje. Ela se chama Guerilla Radio”, completamente diferente da versão plugada e rápida popularizada pelo Rage Against The Machine. Fechando as experimentações e regressando ao Street Sweeper Social Club, de novo sem vocais, o músico acenou para que todos na pista, de lado a lado, se abaixassem e pulassem no final de Ghetto Blaster, levantando poeira.

Pedindo a palavra, Morello explicou o que viria a seguir: “Beleza, Brasil, agora gostaríamos de contar a vocês uma estória-fantasma em que os heróis e os mártires, os que foram mortos pela injustiça no passado, têm uma voz no palco para si. Uma voz no palco para informar o presente, para acender um farol e para nos guiar em direção a um futuro mais justo e humano. É uma estória-fantasma. É The Ghost Of Tom Joad”, de Bruce Springsteen, com quem Morello tocou entre 2008 e 2015, que já havia sido coverizada pelo Rage Against The Machine em Renegades, e que manteve a guerrilha desperta em belíssima versão cantada por Morello. Ao solar com a boca, finalmente o “Justiça Para Marielle” tornou-se explícito, para delírio coletivo (e há quem garanta ter ouvido trechos de The Road I Must Travel). Em outra efusiva dedicatória, Morello cravou: “Esta é para os pobres do Brasil, para os trabalhadores do Brasil, para todos os que lutam contra o fascismo no Brasil”, antes de fazer o Ibirapuera explodir ao som de uma versão instrumental de Sleep Now In The Fire. Em seu último pronunciamento, o guitarrista atiçou a galera: “Temos mais uma música. O que acham? Gostaríamos de tocá-la como um ‘Obrigado’ a todos os nossos amigos, fãs e camaradas no Brasil e em São Paulo, que vieram aqui hoje por mim e pela Freedom Fighter Orchestra: Dave Gibbs, Carl Restivo [nota: baixista e guitarrista] e o baterista Eric Gardner. Viemos representando o Prophets Of Rage, Audioslave e Rage Against The Machine. Muito obrigado, do fundo do meu coração, por todo o apoio de vocês, por tanto tempo. É ótimo fazermos um show de graça para vocês, com todo mundo na cidade podendo vir, se divertir e festejar juntos hoje. Obrigado por terem vindo. Esta é nossa última jam e aí deixaremos vocês, na esperança de vê-los novamente em breve”. O que fechou a noitada? Killing In The Name, é óbvio! E com a galera cantando, ou pelo menos tentando (até onde todos sabiam a letra), pontualmente às 21, era chegada a hora de tomar o rumo de casa, na expectativa do que virá na edição 2019 do Best Of Blues…

 

Setlists

Isa Nielsen

01) Fistful Of Dollars [Babe Ruth Cover]

02) Slide

03) Synthetic Inoxia

04) Going Down [Jeff Beck Group Cover – sem vocais]

 

Camarones Orquestra Guitarrística

01) SinksMania

02) Praia Do Leste

03) Charme Chermont

04) Alabama Mama

05) Rock De Roqueiro

 

John 5 And The Creatures

01) Flight Of The Vulcan Kelly

02) Six Hundred And Sixty Six Pickers In Hell, CA

03) Here’s To The Crazy Ones

04) This Is My Rifle

05) Hell Haw

06) Season Of The Witch

07) Enter Sandman [Metallica Cover]

08) Black Grass Plague

09) Making Monsters

10) Medley De Covers [Hot For Teacher e Ain’t Talking ‘Bout Love (Van Halen); 2 Minutes To Midnight (Iron Maiden); Cat Scratch Fever (Ted Nugent); Seek And Destroy (Metallica); Man In The Box (Alice In Chains); Thunder Kiss ‘65 (White Zombie); South Of Heaven (Slayer); Detroit Rock City (Kiss); Burn (Deep Purple); Roxanne (The Police); Limelight (Rush); No More Tears (Ozzy Osbourne); Kashmir (Led Zeppelin); The Beautiful People (Marilyn Manson); Killing In The Name (Rage Against The Machine; Walk (Pantera)]

 

Tom Morello

Intro – The World At War [The City Of Prague Philharmonic Orchestra]

01) It Begins Tonight

02) One Man Revolution

03) Cochise [Audioslave Cover] + 100 Little Cruises [Street Sweeper Social Club Cover]

04) Vigilante Nocturno

05) Little Chord Progression Jam

06) Guerilla Radio [Versão Blues]

07) Ghetto Blaster [Street Sweeper Social Club Cover]

08) The Ghost Of Tom Joad [Bruce Springsteen Cover]

09) Sleep Now In The Fire [Rage Against The Machine Cover – sem vocais]

10) Killing In The Name [Rage Against The Machine Cover – galera cantando junto]

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