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Sepultura – Quadra (Audição) – Studio Family Mob – 06/02/2020
Postado em 16 de fevereiro de 2020 @ 23:06 | 1.667 views


Quadra enquadra o presente e projeta o futuro sem sepultar o passado                                          

 Agradecimentos: Adriana Baldin

 Transcrição Por: Vagner Mastropaulo

Fotos por: Leandro Almeida

A convite do próprio Sepultura e de sua assessoria de imprensa, rumamos ao Studio Family Mob em mais uma tarde chuvosa de verão paulistano a fim de participarmos da audição de Quadra, mais novo trabalho do grupo,oficialmente lançado no dia seguinte. Eram exatamente 17:12 quando as primeiras batidas de Isolation pegaram alguns jornalistas desprevenidos, assustados com o volume em umadas duas salas do estúdio, abrindo oficialmente o evento, sem a presença dos músicos. E já adiantamos a ausência de Derrick Green, em Los Angeles.

Encerrado o álbum,tocado integralmente e na ordem, com pico de trinta e cinco jornalistas na salae personalidades da cena, como a lenda Walcir Chalas e o empresário Paulo Baron, ambos a contribuir com perguntas e colocações pertinentes mais tarde, a tarefa mais árdua foi comportarmais dez pessoas, incluindo Andreas Kisser, Paulo Xisto Jr. e Eloy Casagrande, staff, equipe do estúdio e convidados. Às 18:05, a sessão rapidamente aberta por Adriana Baldin foi mediada porLuiz Cesar Pimentel, jornalista, colaborador do Whiplash(2012-2016) e autor de livros comoSem Pauta – Reportagens, Histórias E Fotos De Um Jornalista Pelo Mundo (2005).Após vinte e cinco minutos, abriu-sea conversaaos repórteres enquanto Luiz peneirava as melhores indagações dos fãs que assistiam ao evento diretamente pelo Facebook da banda, mesclando-as à sua pauta.

O evento está em:https://www.facebook.com/sepultura/videos/626231801466721, mas a transmissão não contemplou a primeira resposta dada por Andreas e, em alguns momentos, o volume captado foi muito baixo, então fizemos a transcrição. A pedido do mediador, devido ao fato de fãs pelo mundo interagirem ao vivo, o guitarrista resumiu,em inglês, o conceito de Quadra, justamente a parte inicial do material que consta no link. Com o intuito de manter a integridade das declarações e a espontaneidade do momento, optamos pelo mínimo possível de edições, além de traduzir todas as partes na língua de Shakespeare.Como esperado, a maioria dos depoimentos ficou a cargo de Andreas, com complementos de Eloy, deixando Paulo à vontade para responder o que quisesse e, principalmente, pincelasse algum comentário mais bem-humorado. Aliás, as engraçadas quebras do baixista – que vestia o uniforme pretodo Atlético (MG), com o número 20 às costas e um Quadracomo nome do ‘jogador’ – foram fundamentais para alternar a seriedade geral com leves momentos de descontração. Enfim, vamos ao que rolou:

Adriana Baldin: Gente, bem-vindo a todo mundo. Obrigada por vocês terem vindo, maravilhoso! É o seguinte: agora que vocês ouviram o disco inteiro, faixa a faixa, vou pedir ao Luiz Pimentel, queridíssimo jornalista e escritor, que ele faça a mediação aqui com perguntas e comente com a banda algumas faixas do disco. Mais ou menos umas seis, né?

Luiz Pimentel: Acho que é geral, né? Tanto que era para ser uma audição mais curta, mas fez sentido que fosse inteira pelo conceito.

AB: Sim, tem todo um conceito. Aí depois a gente vai abrir o microfone para vocês, jornalistas, mandarem suas perguntas. A banda está aqui para isso, para responder. E é isso, tá bom? Valeu!

LP: Acabamos de ter a primeira audição do Quadra, que sai amanhã em todas as plataformas digitais e em CD. A primeira pergunta que tenho é sobre a primeira impressão que tive quando ouvi o álbum pela primeira vez. Eu fiz um ritual completo de parar, desligar o celular, ir para um lugar calmo e…

Andreas Kisser: [rindo] Que bom, hein? Sensacional!

LP: …e botar um fone de ouvido, que até motivou um pouco esta primeira audição aqui, que era para ser com seis das doze músicas, mas foi um pedido da banda que fosse inteiro porque tem todo um conceito por trás do Quadra. E a impressão que tive é que ele monta um quebra-cabeças ao final da audição e você fala assim: “Como os caras chegaram a esse quebra-cabeças?”. Foi peça por peça, música por música? Ou já existia um conceito por trás? Queria que vocês falassem sobre essa primeira curiosidade que tive. E não me lembro, no metal, de um disco que teve esse mesmo impacto há muitos anos, desde a primeira audição. Depois quero falar um pouco mais sobre esta condição.

AK: Espero que isso seja um bom sinal! Bom, acho que o Sepultura sempre trabalhou com desafios, né? É o que mantém a gente com fome de fazer coisa nova, de fazer um disco novo. A gente tem o privilégio de viajar o mundo também, de ir a vários lugares, conhecer bandas, pessoas, enfim… tudo isso é uma influência. Por isso que cada disco do Sepultura tem uma estória, uma maneira um pouco diferente de agregar elementos, mudanças de membros, dentro e fora da banda, enfim… então tudo isso sempre é influência para o Sepultura. Mas quando a gente vai fazer um disco novo, eu vou lá e faço uma pesquisa: qual vai ser a direção? Do que a gente vai falar? De onde a gente vai tirar nossas idéias? Porque riffs acontecem todos os dias. Eu, principalmente, escrevo muito. Através da tecnologia de hoje, de guardar uma idéia num telefone, num smartphone, ou no próprio Pro Tools, que você leva a qualquer lugar para guardar idéias, enfim… tudo…é possível hoje guardar idéias muito mais facilmente do que antigamente, né? Então estou sempre com idéias musicais, estou sempre com meu violão, escrevendo, e independentemente do riff, ele pode ser usado de qualquer forma: tanto com uma orquestra, ou como banda, ou, sei lá… com qualquer outro instrumento. Então o conceito sempre foi muito importante para guiar isso. Porque escrever música por escrever música fica uma coisa meio perdida, não tem sentido. E também a gente não tem como passar uma mensagem através dela.

AK: [continuando] Então o conceito foi muito importante e comecei, através dos números, a procurar numerologia, algoritmos, que é uma coisa muito em voga hoje em dia: o que a gente vê, ouve, o que a gente acha que escolhe, o tipo de propaganda a que a gente assiste através do que a gente vai surfando, enfim… no final das contas a gente acaba sendo controlado por isso, né?Então aí que foi o ponto de partida. Nessa pesquisa, achei um livro chamado Quadrivium, que fala sobre as chamadas Quatro Artes Liberais: Música, Cosmologia, Geometria e Matemática. Achei super interessante de misturar, no próprio livro, no mesmo nível, geometria com música e cosmologia. Para a gente, artista, a gente sempre viu muita conexão entre tudo isso. Tanto é que influência vem de tudo quanto é lugar. E ali nesse livro tinha a definição de alguns números, o significado de alguns números, de acordo com o Quadrivium. E o número quatro significa o momento de manifestação, de fundamento, onde as coisas acontecem, saem da teoria e acontecem de verdade, que, na verdade, no meu ponto de vista, é outra definição do presente, do agora, do Kairos, que é uma coisa tão importante para a gente, que mantém a banda viva até hoje, que é viver no presente, no agora. Então dali veio essa coisa do Quadra, de usar essa coisa da numerologia, da geometria e fazer uma analogia com o que a gente vive, com o que a gente é.

AK: [continuando] Porque ‘quadra’ é uma palavra em português, que não tem em inglês, e o que é a ‘quadra’? É um espaço delimitado em que você tem um conjunto de regras onde o jogo acontece. É nossa vida, né? O Brasil é uma quadra. A Arábia Saudita é uma quadra. Os Estados Unidos estão cheios de estados dentro que são diferentes quadras, com diferentes conceitos. Enfim, a gente fala disso e a pergunta que o Quadra traz é: “Por que você acredita nas coisas que você acredita? Por que você defende essas idéias?”. Mais importante do que acreditar é defender uma idéia, que você não sabe nem de onde veio. Porque você veio de uma escola, ou foi para Harvard, independentemente de onde você foi, por que você confia nisso? A Volkswagen vendeu um carro, poucos anos atrás, que foi uma grande farsa, o ‘carro verde’, o ‘carro ecológico’, que, na verdade, estava fazendo completamente o oposto. E muita gente acredita porque uma simples propaganda te dá uma idéia de que aquilo é confiável, vamos dizer assim. Então a idéia do Quadra é questionar seu conhecimento, né? Porque a sua escola ou sua avó, por exemplo, te falou uma estória sobre um fato histórico. Por que você acredita nela? Tudo bem, ela é sua avó e você tem que confiar nela, mas pode ser uma mentira, uma inverdade, um ponto de vista errôneo daquilo que aconteceu, entendeu?E você tem que dar espaço para isso. Então o Quadra traz isso: por que a gente ataca essas diferenças ao invés de aprender com elas, né?

AK: [continuando] O Sepultura viaja o mundo, oitenta países em trinta e cinco anos. A gente aprendeu demais vendo diferentes culturas: como os caras vêem mulher, sociedade, música, esporte, cinema, entretenimento, porque o rúgbi é famoso num lugar e não em outro. E fazendo isso, essas divisões, você cria estereótipos, fobias, você cria: “O meu é melhor do que o seu”,ou preto e branco. Tá, mas pra que achar cor para asiático? Mano, já não é um insulto? “Asiático é amarelo”. Mano, de onde vem isso? E as pessoas usam isso porque é disseminado na cultura, no cinema, em todo lugar. Estereótipos: esse é melhor, esse não, esse é igual… é tudo uma confusão de conceitos que são irreais, nada naturais, uma coisa inventada pela cabeça das pessoas, como política, religião, dinheiro. Não tem nada natural nisso. Você não vê um leão discutindo com uma hiena: “Porra, quanto está o dólar hoje?”. Não é natural isso, é um conceito, e mesmo você ter um dólar no bolso, amanhã pode mudar porque não fizeram o impeachment do Donald Trump, aí o dólar vale dois, sei lá quanto, mas o pedaço de papel está ali. Hoje nem na Suécia tem dinheiro físico, é tudo mais uma idéia. E as pessoas vão comprando esses conceitos sem saber bem de onde vêm. Porque também tem o tempo entre gerações, pois as idéias vão sendo colocadas aos poucos.

AK: [continuando] Enfim, estou entrando em outro lado, mas o conceito fala disso, de questionar isso, né, mano? Por que você defende certas idéias? Só porque você foi a certa escola, sei lá. Por exemplo, sou fanático por futebol, sou são-paulino, nasci aqui, meu pai é são-paulino, eu sou São Paulo. Mas se eu tivesse nascido em outro lugar, eu seria fanático por futebol, mas por um outro time, uma outra cor, um outro… sei lá, alguma coisa, mas eu ia gostar do esporte, entendeu? Então é uma idiotice esse negócio de ódio porque o ódio se aprende, ele também não é uma coisa natural. Enfim, o Quadra fala disso e as letras podem falar de qualquer parte da sociedade porque englobam tudo praticamente, né?

LP: Dentro disso, além desse conceito ‘filosófico’, vamos chamar assim, tem também o conceito, de certa forma, matemático, que é facilmente detectado no Quadra, que é você dividi-lo por quatro e ter quatro lados de dois discos. E cada lado é muito representativo das fases de onde… não exatamente das fases, mas das sonoridades que o Sepultura sempre abraçou e abraça até hoje. A gente tem o ‘Lado A’, que é mais thrash, mais pesadão; tem o ‘Lado B’, que é mais groovado; o ‘Lado D’, que tem um pouco mais de melodia…

AK: O ‘Lado C’ é mais instrumental, né? Aquela coisa assim…

LP: …vocês podem falar sobre essa divisão?

AK: Acho que desde o começo, meu, a gente já tinha essa idéia de dividir dessa forma, muito influenciado pelo conceito, obviamente, da matemática e tudo. O número quatro é muito presente na nossa cultura em geral, né? Os meses do ano, as estações, enfim… quatro cavaleiros do apocalipse, quatro elementos da natureza, um monte de coisa. E isso ajudou muito a gente a usar esses elementos de uma maneira organizada, de dividir em quatro, fazer doze músicas porque seriam três em cada parte, como um vinil duplo, com lados A, B, C e D. E a gente colocou mais o thrash, mais aquele ‘old school’ no lado A, nas três primeiras músicas; aí, no lado B, veio uma coisa mais groovada, com percussão, meio Chaos A.D., Roots, Against, Nation, aquele coisa que mudou o som do Sepultura, né?; o lado C, como eu disse, é mais instrumental, porque é uma tradição nossa também desde oSchizophrenia, com Inquisition Symphony, depois com a Tribo Xavante, e principalmente Iceberg Dances, do Machine Messiah, que foi muito legal colocar no palco, tocá-la, a gente a tocou muito ao vivo, com violão, só nós três no palco, dando um tempo para o Derrick sair um pouco também, uma dinâmica que ficou um pouco diferente também para a gente e ficou muito legal; e o lado D é uma coisa mais como a música Machine Messiah, com vocal mais melódico. A gente tem a participação da Emmily Barreto na última música, um vocal feminino, que finalmentea gente teve essa oportunidade de fazer juntos e funcionou muito bem. Então essas quatro características ajudaram muito a gente a organizar tudo isso. E acho que foi a primeira vez que a gente trabalhou com um disco em que as músicas não tinham nome de trabalho, de dar apelido para as músicas. Mas desde o começo a gente já sabia e trabalhou como: “Tema 1, lado 2”, “Tema 1, lado 3”. No final foi um pouco confuso…

Paulo Xisto: 3-1, 3-3… 4-1, 4-4…

AK: Foi bem confuso no final, mas na verdade as demos ajudaram porque os códigos iam mudando. A gente ficou um ano, mais ou menos, trabalhando em tudo isso. Desde o começou a gente já tinha o conceito, como ia ser dividido e o mais interessante disso foi que, desde o começo a gente já sabia como o disco ia fluir. A gente já tinha a ‘running order’, a seqüência das músicas, que é uma coisa que geralmente a gente faz quando… sei lá, está mixando, já tem uma idéia mais definida da música e escolhe qual que vai ser a primeira. Mas nesse aí não, desde o começo a gente já sabia e a gentejá tinha uma demo definindo a ordem quando a gente entregou para o Jens e tudo. E acho que isso nos ajudou muito a usar esses elementos do passado, com essa atitude e a performance de hoje e todas essas coisas que o Sepultura já fez dessa maneira.

LP: Como está sendo transmitido para o mundo inteiro, acho que é importante a gente contemplar o inglês, se vocês não se incomodarem, para falar sobre o conceito do disco e explicar.

AK: Holy shit!

PX: [brincando] Agora pega tudo isso aí que você falou e fala em inglês…

AK: [rindo] É o jeito, né? Mas é o que a gente tem feito, né, meu?

 

E Andreas efetivamente reexplicou o conceito de Quadra em inglês, é claro, sem traduzir palavra por palavra, mas parafraseando o conteúdo. O plano não foi exatamente ruim, mas deu uma desconcentrada na galera na sala, especialmente em quem não entendia inglês, por ter que ouvir tudo novamente. Em sua explanação, repensada na hora e meio de improviso, pois nunca é assim simples ter que se expressar em outro idioma, surgiram algumas sutisdiferenças no discurso do guitarrista, mas por ora não as detalharemos. Aproveitando a pausa forçada, o título original completo do livro citado por Andreas é Quadrivium – The Four Classical Liberal Arts Of Number, Geometry, Music & Cosmology (2010), escrito por Miranda Lundy, Anthony Ashton, Jason Martineau, Daud Sutton e John Martineau. Não o pesquisamos a fundo, mas é de se supor que a obra tenha parentesco com The Trivium – The Liberal Arts Of Logic, Grammar, And Rhetoric: Understanding The Nature And Function Of Language, publicada pela primeira vez em 1937 e escrita por Sister Miriam Joseph, nascida em 1898 e falecida em 1982. Retomando os trabalhos:

 

LP: Voltando à impressão inicial que eu tive. Uma curiosidade que tive é que o disco é tão intrincado, tão cheio de detalhes e arranjos corais, que eu falei assim: “Cara, duvido que esses caras consigam reproduzir esse disco da música um à doze ao vivo neste momento”.

PX: [rindo] Neste momento, não!

AK: Neste momento é impossível! A gente tem que aprender o disco inteiro de novo. Mas é, na verdade, o momento pelo qual a gente vai passar agora, né? Voltar de tudo que fizemos nas férias e montar o show.

LP: E também, o impacto que eu tive foi da qualidade do disco. Qualidade de som e entramos na questão do Jens Bogren, que além de produzir, mixou e masterizou o disco, então ele tem uma importante participação aí. E também, dentro dessa qualidade, recorro um pouco ao Eloy. Eu ouvia e falava: “O cara criou tempos assim que não existem!”.

AK: [brincando] O tempo existe, ele que achou uns espaços ali que ninguém tinha ido ainda!

LP: No ‘livro de regras’, não estão ali. Queria que vocês falassem um pouco disso e sobre o primeiro impacto que vocês tiveram ao ouvir o Quadra, se vocês estão tão viciados pelo processo todo ou se tiveram essa noção da qualidade absurda que tem o disco.

Eloy Casagrande: Eu acho que, pelo menos o meu ponto de partida, no novo trabalho, até antes de a gente definir um conceito, antes de o Andreas apresentar o Quadrivium para a gente, e tudo mais, acho que a gente sempre tem uma busca de composição. Eu tenho, particularmente, talvez um pouco diferente do Andreas, mas adoro compor instintivamente na bateria,ritmos diferenciados. Tenho essa busca porque a gente sabe que um ritmo de thrash metal, um groove metal, é uma coisa que vai aparecer em algum momento do álbum. Então não vou mandar um material desse tipo para os caras desenvolverem em cima e tento achar diferentes células, diferentes elementos, até de estudos que fiz na época, naquele momento, ou que tenho desenvolvido. E a partir dessas células, mando para o Andreas e para os caras, para eles verem se dá para trabalhar com alguma coisa, ou não, e vice-versa.O Andreas também manda alguns riffs, elementos diferentes, a gente tenta unir essas células e é um ponto de partida para depois a gente se reunir, tocar junto e fazer as jams.

EC: [continuando]Mas acho que é a grande base do Sepultura, é o que move o Sepultura. Como o Andreas disse, de a gente estar sempre presente no momento e é impossível você não estar presente e não ser o que você é agora se você realmente se entregar para a espontaneidade, para o que você tem. E a gente nem sabe o resultado disso, não tem como adivinhar isso, se as pessoas vão gostar ou não. É quase impossível e a gente tem sorte, e teve sorte, porque as pessoas estão gostando, né? Mas a gente realmente não está preocupado com isso, por mais egoísta e agressivo que possa soar, porque a gente está fazendo algo que a gente gosta, algo diferente, algo que está nos motivando a tocar, a continuar na estrada. Por isso que a gente veio aqui, todo mundo motivado. Basicamente isso, e o Andreas, o Derrick e o Paulo respeitam muito a minha forma de tocar, a gente sempre tem essa discussão nas jams, mas acho que todo mundo busca esse elemento novo, estar presente agora. Realmente a gente respeita muito o passado, mas acho que é o agora, sabe? É isso que mantém a gente vivo, com vontade de fazer as coisas.

AK: E a participação do Jens foi fundamental. Por isso que a gente repetiu o processo com o Quadra. A gente já tinha feito o Machine Messiah,ele fez toda a gravação, mixagem, masterização também. Então a gente repetiu, foi para o mesmo estúdio, bateria fizemos em Estocolmo, depois fomos para Örebro, para terminar [nota: o primeiro, localmente chamado Studio Gröndahl, e o segundo, Fascination Street Studios]. A gente teve um tempo maior porque eram doze músicas. A gente não fez nenhum bônus track, só focou no disco mesmo. Bônus track achamos uma perda de tempo porque são umas músicas que a gente nunca toca e ninguém escuta [arrancando risadas]. Então para que a gente vai fazer? Melhor fazer uma jam no palco e depois ver se grava, enfim…

PX: Ou tocar uma música que a gente nunca toca.

AK: É, então… a gente realmente focou no disco, nas doze músicas e foi muito mais relax, na verdade, apesar de ter sido um disco bem mais difícil de fazer e de gravar. A gente estava realmente bem preparado para fazer o disco, mas o Jens estava mais relax, sabe? Ele estava ‘mais brasileiro’, vamos dizer assim. Porque no Machine Messiah, ele estava muito sueco ainda…

EC: [rindo] Não comigo!

AK: …muita edição. Mas ele deixou a bateria fluir bem mais, na verdade. Não na performance, mas no pós, assim, sabe? E também na mixagem, naquela coisa mais solta, mais ‘alive’, né? Enfim, mais orgânica mesmo, do jeito que o Sepultura gosta de soar. O Machine Messiah ainda parece um pouco preso porque agora você tem essa referência do Quadra, que está um pouquinho mais solto. Enfim, pô, tenho que admitir, a primeira vez que eu escutei, realmente eu… pô, fiquei muito emocionado, mano, sabe? Quando chegou a master, fiquei lá com meu fone e foi realmente muito emocionante, mano. Foi… chorei. Não, chorei mesmo, cara, chorei de verdade, assim, de… putz, sabe, é foda… muito difícil ficar longe da família, em todo o processo, né? Pergunta para a minha família!

AK: [continuando] Fui lá abraçá-los, foi um momento de virada de página, sabe? De ‘chegamos até aqui, agora é um outro começo’, mas muito satisfatório porque tudo estava bem equilibrado e por isso tenho que agradecer também à nossa estrutura, aos nossos empresários, que realmente mudaram a cara da banda fora do palco. Já têm uns quatro anos que a gente está com uma estrutura completamente diferente, não só aqui no Brasil, mas fora também. Algumas pessoas que estão muito pisando com a gente junto e mirando o futuro de uma forma muito respeitosa com o passado também. Eisso ajuda a gente ir ao estúdio, só focar na música e não ficar pensando, discutindo outro tipo de merda e dramas, telenovelas que a gente tinha muito no passado. Então acho que tudo isso tem um tempero que faz do Quadra um disco muito especial.

LP: Vou abrir para que os jornalistas que o ouviram pela primeira vez façam perguntas. Senão eu vou consumir todo o tempo da banda.

Marcos Chapeleta – Ligado À Música (Site): Foi uma enxurrada de informação, muita coisa que eu achei bacana. Achei o disco inovador e até ousado também. Ouvi e até anotei umas coisas aqui: tem violão clássico; melodia, a forma do Derrick cantar diferente; rock clássico; death; thrash; tem até baião também, né? Queria saber, de repente, todos esses anos de banda e vocês se reinventando, o que vocês ouviram para pegar essas influências?

AK: Putz, cara, a gente ouviu a gente mesmo, mano, sabe? Como o Eloy estava falando, a gente conseguiu trazer um pouco dos elementos de toda a história do Sepultura para esse disco, sem querer copiar a gente mesmo. Ele estava falando dos loops que ele mandava de batera, chegavam umas coisas que eu falava: “Peraí,vamos sentar.Onde está o ‘um’? Onde está o ‘um’?”. A partir do momento que esse desafio, esse negócio, começava, foi muito foda porque comecei com ele a desafiar um ao outro…

EC: Mas nunca rolou, do meu lado…

AK: Ah, mas para mim rolou e fiquei muito feliz porque teve uma parte que ele não conseguiu tocar de primeira [provocando risadas]. Ele teve que ir para casa estudar a parte, aí falei: “Puta merda, mano! Consegui, velho!”.

PX: Não vou nem entrar no mérito da questão!

AK: E o Paulo estava com o olho desse tamanho falando: “Caralho! Como que eu vou tocar isso?”. Mas, enfim, esse é o lance e é um desafio saudável, não é uma coisa de competição.

EC: É uma coisa, acho que de aumentar a bola de neve. Começa com uma bola e ela vai ficando maior.

AK: Totalmente, velho! The Pentagram, por exemplo, foi: “Porra, vamos fazer uma música em cinco por quatro”. Ele tinha mandado um loop em cinco por quatro e a partir dali virou uma música inteira em cinco por quatro, com várias variações que vão se repetindo e, enfim… esse tipo de coisa acontece naturalmente e muito com a ajuda do conceito também, dessa divisão por quatro e “Isso é um pouquinho mais thrash, essa parte não cabe aqui, mas cabe ali”, entendeu? Isso ajuda muito a gente a escolher as melhores idéias ou riffs para colocar num lugar certo.

EC: Acho que tenho uma busca particular, também acho que para os caras, mas quando estou compondo, meio que é um esquecimento de mim mesmo. Quero não soar como já soei antes porque acho que isso traz um lance novo. Se você se baseia numa identidade fixa, é difícil você expandir daquilo ali. Por mais que, é claro, algumas coisas venham naturalmente, empiricamente, da minha forma de tocar, mas sempre tento sair do que realmente sou, pensar em alguma outra coisa… não ‘pensar’ porque pensar já muda. É sentir, criar algo diferente.

PX: E sobra para o baixista…

AK: O baixista só faz ‘tum-tum-tum-tum’!

PX: Ah, é! Filho da puta… [brincando]

LP: A gente tem… é, eu estava olhando o celular para pegar as perguntas que estão vindo de fora. A gente tem um super fã, o Marius Evensen, que pergunta em inglês: “O Sepultura fará alguma turnê como headliner na Europa posteriormente?”

AK: [em inglês] Sim. Nós temos uma turnê pela América do Norte agora em março e abril já anunciada [nota: a primeira data é 18/03 em San Diego e a última em Ventura, em 22/04, ambas na Califórnia], temos todos os festivais na Europa em junho e julho [nota: a lista está no site da banda e inclui quinzedeles] e a idéia é voltarmos à Europa para uma turnê como headliner por volta de outubro, novembro, quem sabe? Mas estamos planejando isso e em breve teremos mais notícias a respeito, então fiquem de olho.

Leandro Coppi – Roadie Crew (Revista): Ainda hoje, quando se fala em Sepultura, as pessoas inserem a banda, naturalmente, pelas raízes, como uma banda de thrash metal. Ao longo dos anos, o Sepultura sempre foi uma banda que buscou evoluir. Ao contrário das outras bandas de thrash, tenho uma visão de que enquanto as outras buscam evolução musical, o Sepultura evolui musicalmente no conceito dos discos, na inserção de elementos, instrumentos regionais, sejam do Brasil ou de fora. Isso é algo que é incomum nas bandas de thrash. É mais comum você ver em bandas de rock progressivo. Como vocês, vendo o Sepultura de fora hoje, enxergam o Sepultura nesse sentido? Não acho muito justo colocarem o Sepultura apenas como banda de thrash metal, por essa inteligência dos álbuns, o estudo para se chegar a um conceito – podemos dar de exemplo o A-Lex, o álbum novo, o Quadra, vários outros. Como vocês vêem o Sepultura hoje dentro do metal, em todos esses sentidos, não apenas como banda de thrash metal?

AK: Ah, mano, eu não vejo nada disso porque eu estou vendo de dentro para fora, né? Para mim, não importa muito a denominação, o que é thrash, o que é progressivo. E, é lógico… pô, escuto tudo quanto é tipo de música. Entre a gente aqui, e o Derrick também, a gente escuta de tudo. A gente tem gostos pessoais, mas as batalhas de iPod no ônibus são sensacionais, entendeu? Porque a gente escuta de tudo realmente, né? E não fico muito preocupado se é thrash, se não é, meu, sabe? Não é um problema nosso esse porque, se tiver isso na sala de ensaio, “Porra, Eloy, não faz isso aí não porque isso aí não é thrash não, mano!”.

EC: Você está criando uma ‘quadra’. Você está criando a ‘quadra’ que você não quer!

AK: Não tem sentido nenhum isso, entendeu? Porque a gente não pode julgar a gente mesmo. A gente tem que ser livre, né?

Leandro Coppi – Roadie Crew (Revista): O que eu digo é assim, é no sentido que: vejo que o Sepultura é uma banda que, voltando a falar, positivamente destoa das outras porque não trabalha só a evolução musical, mas em todas as áreas, né?

AK: Ah, sim! Com certeza!

Leandro Coppi – Roadie Crew (Revista): O conceito, as letras, a inserção de instrumentos e outros elementos, como no disco novo, que tem bastantes partes acústicas, outras sinfônicas e acho isso muito legal.

AK: Mas isso também é uma característica do metal, né, meu? Você vê, porra… aprendi muito inglês escutando heavy metal. O Iron Maiden tem muita história, Segunda Guerra Mundial, enfim… tem um monte de coisa. O próprio Metallica, né? Você tem umas coisas assim que o metal realmente vai a fundo. O próprio Sabaton, que veio a fundo realmente no lance da história, no lance de detalhes e tudo. E acho isso super válido, né, meu? Acho que são influências que você tira, influências musicais, que você tira de livro, que não tem música e você pode fazer aquilo de qualquer forma que você quiser. É como fazer uma trilha sonora para um filme, com uma coisa que você não tem música e tem que criar aquilo, não do zero porque você tem a direção, tem o personagem, tem uma certa característica para a estória e aquilo vai te influenciar a escrever alguma coisa, né? Então é por isso também que a gente fez o Dante XXI e o A-Lex, baseados em livros, para a gente tirar o “Vamos fazer uma coisa meio Rage Against. Vamos fazer uma coisa meio Slayer”. Vai ficar ali, né? Fazendo aquilo. Ao invés de você, pô, ir lá e fazer: “O que é o rio do cara que está sendo enterrado de ponta-cabeça?”. Como é que a gente vai botar isso na música, entendeu? É muito mais legal, mais desafiador se você fizer uma coisa assim do que somente copiar ou tentar fazer alguma coisa parecida com uma, mesmo nossa ou de alguma outra banda.

LP: Dentro disso, uma curiosidade. A música Ali, que é sobre o Muhammad Ali. Há duas boas perguntas aqui que vieram e fiquei curioso também: quais músicas do Quadra vão entrar no setlist do show da nova tour? Que foi uma coisa que…

AK: [interrompendo] Putz!

PX: Segredo!

LP: Se eu pudesse sugerir, assim…

AK: [brincando] Ah, pare! Pare agora!

LP: [rindo] Tá…

AK: Não, pode falar. Pode falar. Qual?

LP: Porque chegou na metade do disco, entre Guardians Of Earthe The Pentagram, parece um filme de terror. Eu estava sozinho e deu um certo medo aqueles arranjos vocais…

AK: Com certeza! Essas músicas, porra… acho que são emblemáticas, né, meu? É como eu disse, a gente está preparando o show agora, preparando o setlist.

EC: A gente vai ver o que a gente consegue tocar.

AK: A gente… oMachine Messiah já foi um desafio porque a gente já tinha alguns corais, algumas orquestras e foi tudo feito através de samplers, em algumas músicas, até meu roadie tocou uma segunda guitarra em algumas partes. Então a gente vai adaptar, do jeito que a gente tem, para fazer essa apresentação com esses elementos que a gente tem. E, pô… ao vivo, pô… o Sepultura… a gente nunca foi assim.É… o estúdio é uma estória, você está lá, com o fone, é outra coisa, né? Palco é diferente, você não precisa… você vai a um show do Led Zeppelin, por exemplo, quantos violões e guitarras têm numa música que o cara não faz ao vivoe ninguém está preocupado com isso! Tá tomando uma cerva, cantandoWhole Lotta Love, sabe? É outra coisa…

PX: Tomem bastante cerva!

AK: É outra coisa. Música ao vivo é outra coisa, né, mano? Não é: “Pô, ele esqueceu aquela nota. Tá faltando uma guitarrinha aqui”. Meu, putz, vai para casa escutar então, né, meu? Pô, para que você veio ao show? Show é uma outra experiência, é uma outra coisa. Então a gente deixou bem isso muito livre porque, dando esse espaço para certas coisas que a gente fez no disco, a gente acha coisas para fazer a mais. Por que o Led Zeppelin, de novo, tem tanto disco pirata? Porque cada show é uma estória, cada show era uma pérola. Cada show era uma coisa única que você não ia ver em lugar nenhum, nenhuma outra vez, né? Por isso que foi sempre registrado, porque os caras eram: “Caralho, o que eles vão fazer hoje?”, né? E é isso que é legal porque quanto mais espaço você dá para essa coisa viva, mais você está lá fazendo arte. Não só um robô ou um boneco de você mesmo tocando lá, toda noite a mesma coisa.

LP: Tem uma outra pergunta que vale para os três: qual foi a música mais difícil de gravar?

EC: Vai para o Xisto então…

PX: Todas!

AK: O Paulo sofreu, mano!

PX: Sofri! Porque nosso amigo aqui [nota: apontando para Andreas] falou: “Entra lá, vai fazer uma jam. Normal”. E o Jens: “Não! Você vai fazer aquela parte ali igualà guitarra”.

AK: O Jens falou: “Vai fazer nota por nota”.

PX: Nota por nota! Trocava afinações do baixo e colocava… como tem coisa ali que é um baixo de seis cordas, feito separado. Não vai acontecer ao vivo. Mas sofri. Mas foi um sofrimento bom porque, no final, a gente chegou ao resultado que a gente queria. Não é fácil trabalhar…

AK: [interrompendo] Não sei se teve música difícil, mano. Acho que a música mais difícil foi a que não consegui fazer, que foi o tema que virou Quadra, né? Porque eu queria fazer uma peça solo de violão e, mano, não saiu… aí, um dia antes de gravar, porque tinha dois dias de gravação, um dia antes, resolvi fazer o que está no disco: quatro violões ali com um click. E no dia seguinte gravei, pronto, e foi como tirar um peso das costas, mano. Porque o disco tinha que ter doze músicas. Como é que eu ia explicar o conceito com onze músicas? [arrancando risos] Ia ser uma farsa o conceito. Mas é esse tipo de desafio que, pô, bota você ali para fazer esse tipo de coisa, né, mano? Porque, porra…há quantos meses que eu estava pensando nessa música e, no último dia de gravar, mudei tudo. Mas a arte é isso, é você estar presente. O presente falou e todos aqueles meses lá não valeram.Quer dizer, valeram porque cheguei àquele momento e tive essa decisão, enfim. Mas é a esse tipo de coisa que a gente está sempre atento, principalmente no estúdio, para ir a uma direção ou a outra e o Jens é muito bom nisso, né, mano? De achar possibilidades. O Eloy também, porra… trocar caixa, pô, afinar aqui, não sei o que…

EC: Sim, um processo bem desgastante até. Falei no vídeo quando a gente estava, nos vídeos que saíram, que mostram o diário de gravação. Porque o Jens é sueco, não quero, já meio que…

PX: Super detalhista!

AK: Certinho. Muito certinho!

EC: … estereotipar. Não quero colocar numa ‘quadra’, enfim, mas ele é uma pessoa, por si só, já bem pragmática. E, assim, é difícil, às vezes você identificar o que ele realmente quer. Então ele exige muito do músico, sempre tem aquele lance de você acabou de tocar um take e o cara vira: “Tá! Tá muito bom, mas vamos tocar mais um!”. Não, espera! Se está muito bom, por que tenho que fazer mais um? “Não, porque vamos fazer mais um!”. Então vira aquele lance de você achar o take perfeito, a interpretação perfeita, a melhor possível. E é desgastante, é um momento ali que, já falei isso, não é meu momento predileto realmente. Mas é no estúdio, que você está com alguma coisa que você ensaiou e que você acha que está funcionando, que você vai ao estúdio e vê que não está funcionando da forma que você quer, não traz o impacto necessário ou é desnecessário para a música. Daí você desconstrói muitas idéias, né? Então tive, em muitas músicas, dificuldades técnicas, realmente ali de velocidade, de resistência, enfim… e outras de conceito: “Pô, isso aqui não tá rolando, não tá casando com o solo de guitarra ou com a voz” e você, na hora, tem que trabalhar com a arte, espontaneidade, sob a pressão de criar alguma coisa que funcione para a música. Mas é interessante, uma experiência única.

LP: Esses vídeos que você falou são muito legais, do diário de gravação, e vocês explicam bastante do conceito. Vale a pena procurar. Eu vi no YouTube da Nuclear Blast, não sei se está no de vocês também.

AK: Sim!

LP: E também explica uma coisa que queria perguntar depois sobre o conceito da capa, mas vou abrir para mais alguém perguntar também.

Nando Machado – Wikimetal (Site): Eu queria que vocês falassem um pouco sobre o clima na banda e como isso contribui para a qualidade do disco que a gente ouviu. A gente vê bandas com vinte, trinta, quarenta anos, os caras não se falam, cada um vai num carro.Como é que é, essa que talvez seja a melhor formação do Sepultura, o melhor momento do Sepultura? A gente acabou de ouvir um disco sensacional. Queria que vocês falassem como esse clima da banda influi na qualidade da música.

LP: E complementando, a gente está ouvindo aqui no estúdio do Jean, né?

AK: Jean Dolabella, um dos fundadores aqui do Family Mob [nota: fundado em 2012, numa parceria entre o antecessor de Eloy Casagrande e Estevam Romera, guitarrista do Desalmado]. E a Emmily Barreto gravou a parte dela aqui, então esse estúdio faz parte do Quadra também.

LP: Emmily Barreto, que é do Far From Alaska, uma banda brasileira bem legal, e também é uma outra curiosidade que eu tinha: como foi esse encaixe da voz dela, mas, desculpa, eu não queria cortar a questão…

PX: [brincando] Tá bom o clima?

AK: Assim… a gente é profissional! A gente vai se aturando!

Nando Machado – Wikimetal (Site): Como vocês se aguentam ainda, depois de tanto tempo juntos? O Derrick já está há vinte e dois anos na banda…

AK: Mano, eu e o Paulo estamos juntos… há quanto anos, Paulo?

PX: Trinta e seis?

AK: Trinta e três anos na banda, mas, cara, isso aí é uma coisa que… a gente sempre teve muito respeito um com o outro. Acho que a gente está aqui porque a gente quer estar aqui, né, meu? Não é fácil estar em turnê, como eu disse, é muito difícil realmente. Você tem que amar realmente, é amor mesmo, para fazer o que a gente faz. E me sinto um privilegiado de ter uma banda como o Sepultura, de tocar ao lado deles, de ter uma história como a gente tem. E as nossas famílias também, que apoiam demais tudo que é relacionado à nossa carreira, à nossa profissão e tudo. E, mano, você vai para a estrada para ficar brigando, sabe, meu? Puta, meu… é a pior coisa do mundo, velho! Você está… eu já passei por isso, né? A gente já passou por isso.

PX: Opa!

AK: E, mano, putz… não pode passar ali porque não sei o que, a porta está fechada, não abre. Mano, porra, velho! Sabe? Agora eu posso falar: eu já estou velho para isso, sabe? [rindo] Isso passa. Putz, são umas coisas, besteiras de criança realmente, né? E a gente tem… pô, no palco a gente se curte para caralho! Ainda a gente vai jantar junto, sei lá, faz coisas juntos, normal, entendeu? Conversa sobre qualquer coisa. Tem as batalhas de iPod.

EC: Só não pode falar de futebol!

AK: Não, futebol inclusive! Mas, enfim, é esse tipo de coisa que ajuda muito também porque a estrada é difícil, mano, é muito difícil! E quando você tem uma equipe unida, não só a banda, mas também roadie… a gente já pegou uns caras também, que, putz grila… difíceis de trabalhar junto. Mas, pô, a gente tem uma experiência muito larga aí, muito grande, que agora acho que a gente está num momento muito positivo. Como você falou, eu concordo, é a melhor formação da banda, o melhor momento, não só dentro do palco como fora também. Acho que a gente levou todos esses anos para tomar os nossos tombos, né? E chegar ao momento em que estamos agora.

Walcir Chalas – Woodstock Discos (Loja): Parabéns, cara! Olha, eu acabei de degustar agora um vinho de 2020 anos chamado Sepultura. Puta de um álbum, fantástico, e eu queria que vocês falassem para mim: vocês estão decolando, praticamente, e tem um monte de bandas acabando. Como é que vocês vêem esse cenário atual com as bandas acabando e o Sepultura decolando?

AK: Pois é, né? Acho quetodas essas mudanças, no final das contas, ajudaram a gente a estar aqui hoje, sabe? Porque todo mundo que entrou nessa banda mudou a cara do Sepultura. Desde quando entrei, o Sepultura era muito diferente. Depois, quando o Derrick entrou, mudou completamente a banda. Como o Jean também mudou e como o Eloy mudou, né? Acho que essa é a característica nossa: respeitar o presente, né, meu? Enquanto outras bandas… não quero julgar outras bandas porque cada uma tem sua história, cada uma tem sua maneira de se expressar e tudo. Mas, mano, a gente só tem a agradecer ao Slayer, né? Pô, o Slayer está parando no maior momento da história também, turnês, uma turnê fantástica, parou de uma maneira digna e gostaria de parar o Sepultura dessa forma também, quando tiver que parar.

Walcir Chalas – Woodstock Discos (Loja): Tem chão ainda,tem chão ainda. Tem chão!

AK: Como o Cream, né? Como o Eric Clapton e o Cream pararam de uma maneira… sabe? “Olha, nós vamos parar aqui, cada um vai seguir seu caminho” e deixaram o Cream grande para sempre, né?Uma coisa muito legal, ao invés de parar com briga, saiu, pô, não está vendendo, o negócio está morto, né? Ao contrário, a gente está muito aqui, muito forte, como você falou, realmente decolando, num momento muito… eu me sinto, acho que, na minha melhor forma musical, sabe? De guitarrista, de compositor. Acho que o Paulo se sente da mesma forma e o Eloy também. Acho que a gente nunca fez nada parecido na nossa história, sabe?

Walcir Chalas – Woodstock Discos (Loja): Cara, paguei um pau aí porque tem uma parte, sem querer, que parece um Carmina Burana do metal aquela parte! É muito louco! Sensacional! Fabuloso!

AK: Sensacional! Carmina Burana, tudo isso faz parte. A gente tem até no MorbidVisions, não é Carmina Burana… mas, enfim, acho que é isso, o clima, a gente está com uma coisa organizada, com respeito a todos que fazem parte disso, né? E não tem porque ser diferente, mano. Sabe, acho que todo mundo tem aqui sua parte muito importante em torno disso, o Quadra é de todo mundo, né, mano? E é isso, acho que é botar na estrada agora.

Walcir Chalas – Woodstock Discos (Loja): É isso aí!

LP: Todo mundo ficou feliz com o Walcir porque ele é uma das lendas aqui do metal…

AK: Walcir da Woodstock Discos, que, mano, lá começou… eu comecei, o Max e o Igor começaram lá, os primeiros discos e é muito emocionante também, né, cara? A gente lutar e batalhar pelo metal todos esses anos e ver que a gente está aqui numa causa muito boa.

LP: Toninho ali, outra lenda, representando, com certeza, o saudoso Bonadia! [aludindo a Toninho Pirani, da Rock Brigade, presente no evento, e a Eduardo de Souza Bonadia, falecido em 05/01 deste ano, um dos fundadores da revista no final dos anos oitenta]

AK: Sensacional! Galera pioneira!

LP: Conspiração de ventos favoráveis ao metal. Tem uma pergunta aqui que você já falou em português, mas é do Juan Antonio Suárez: [feita em inglês] vocês pensam em ter outro guitarrista ao vivo para fazer uma outra linha de guitarra?

AK: Como eu disse, acho que, muitas vezes, as situações ao vivo são situações muito diferentes. Não sinto a obrigação de ter um ponto técnico só por ter, especialmente nas guitarras. Não é tão fácil colocar dois guitarristas tocando com harmonia. É muito difícil. Eu e o Max levamos anos, sabe, realmente tocando juntos, desenvolvendo um som juntos, o mesmo com o Iron Maiden, o Slayer e qualquer outra banda. É muito difícil conseguir chegar a isso e tem que fazer sentido. O ponto é: não estamos procurando tentar reproduzir exatamente o mesmo que fizemos em estúdio porque o estúdio é uma situação totalmente diferente. Você ouve o álbum em sua casa, com fones de ouvido, no carro, seja lá onde for, sabe, é uma atmosfera totalmente diferente.

AK: [continuando] Ao vivo, você está lá com amigos, bebendo cerveja, cantando, curtindo. Não é algo como: “Ah, ele não fez essa parte!Onde está aquela guitarra?”, sabe? Quantas bandas… Led Zeppelin, Van Halen, Pantera… muitas bandas que não tinham uma segunda guitarra e ninguém nunca dizia nada, sabe? Então por que… e o Max nem mesmo tocou na turnê do Roots, ele estava no palco, mas tinha quatro cordas, tocava muito mal e,em muitas músicas, não tocava. Então durante a turnê do Rootsprincipalmente, éramos um trio: eu, Paulo e Igor tocando, sabe? Mas as pessoas não se dão conta apenas porque elas vêem uma guitarra lá. Mas, sabe, é meio… nem sei… é realmente estranho porque as pessoas perguntam tanto sobre isso, sabe?

AK: [continuando] Na verdade, o Derrick veio para a banda, tocou um pouco de guitarra, umas coisas hardcore, mas ele não é bem thrash metal como oBeneath The Remains. Eu disse a ele: “Se você quer tocar guitarra no Sepultura, você tem que tocar três álbuns do começo ao fim: Raining Blood, Bonded By Blood e Kill’Em All”,sabe? “Se você tocar esses três álbuns, ok, vamos começar”. Porque essa foi a minha escola, sabe? A nossa escola. Não há como se meter a tocar thrash metal se não for por essa escola. É claro que não é a dele, o Derrick se encontrou em outras posições, mais percussão. Mais espaço para o Paulo e seu baixo, para ele explorar mais a lacuna deixada pela ausência da outra guitarra. E performance ao vivo é outra coisa. Eu não estou lá para reproduzir tudo igual, sabe? Se você for…o Deep Purple, por exemplo, o Richie Blackmore nunca fazia o mesmo solo, o que é ótimo! Era sempre como se alguma coisa fosse uma surpresa. Podia ser uma merda, mas podia ser sensacional, genial! Esta é a beleza da coisa.

LP: E é melhor explicamos que o Derrick não está aqui.

AK: Sim, ele está em Los Angeles.

LP: E está cantando como nunca!

AK: É seu melhor trabalho de todos, com certeza! Não apenas em performance, mas nas letras. Ele escreveu todas as letras e teve uma performance sensacional. E devo dizer que, após ter trabalhado com Ross Robinson e, é claro, com Jens Bogren, no Machine Messiah, ele realmente cresceu muito, sabe?Porque passar por esses dois produtores é realmente uma experiência. Certo? Ross Robinson?O Eloy trabalhou com ele pela primeira vez, foi meio… chocante! [nota: o americano produziu The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart(2013), Roots (1996) e, a título de curiosidade, também o début do Soulfly em 1998 e mais duas estréias de peso: Korn (1994) e Slipknot (1999)]Mas funcionou, melhoramos, realmente nos desenvolvemos e olhamos para dentro de si mesmos, sabe? Quando fazemos coisas que não conseguíamos pensar que éramos capazes de fazer. É por isso que um produtor é tão importante em um estúdio para o desempenho: “Sim, você consegue fazer! Faça! Foda-se!” e “Não! Foda-se você e faça!”.

LP: Tem uma pergunta interessante aqui, mas quero saber se… ah, tem ali uma:

Vagner Mastropaulo – Onstage (Site): Não sei em qual faixa há o coro porque eu quis participar da audição completamente desabastecido de informação. Eu queria que vocês falassem um pouco de onde veio essa idéia e como que vocês gravaram. E, também, o Luiz citou a participação da Emmily.

AK: Sim!

Vagner Mastropaulo – Onstage (Site):Como que vocês chegaram a ela? Como foram essas duas coisas? [nota: ouvindo o álbum outras vezes, averiguamos que há coros tanto em Guardians Of Earth quando em Agony Of Defeat]

AK: Bom, o coro… já tínhamos uma idéia de coro. O Renato Zanuto está aqui, um maestro amigo meu, que já participou dos últimos três discos do Sepultura: no The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart, ele fez a introdução da The Vatican; no Machine Messiah, também fez arranjos para cordas e tudo; e a gente escreveu a intro da Isolation juntos. Já tinha alguma coisa de orquestra, alguma coisa de voz ali. Então, na demo, algumas músicas já tinham algumas referências a isso, né? É lógico que o Jens veio e trouxe muitas mais porque realmente ele ama essas coisas e conseguiu um coral lá, gravou numa igreja lá na Suécia, na cidade de Örebro. Isso foi um processo depois que a gente saiu de lá, ele fez junto com outro maestro lá, inclusive com arranjos do Renato e mais um arranjador que completou algumas outras partes lá na Suécia, né? Então, na demo, já tinha essa direção. Então os corais foram feitos lá na Suécia, especificamente as letras, têm algumas coisas em latim, outras em inglês, principalmente na Agony Of Defeat, que é uma das últimas músicas, antes da música da Emmily, que tem uma ‘conversa’ entre o Derrick e o coral e tudo. Então todos os detalhes, foi tudo específico para o disco.

AK: [continuando] E, bem, a Emilly foi… obviamente a gente já conhecia o Far From Alaska, não conhecíamos pessoalmente a galera assim, né? Mas fui convidado para fazer um programa de TV junto com o Far From Alaska, como convidado para tocar com eles, fazer uma jam [nota: Rock Studio, do Canal Bis, cujo segundo episódio foi ao ar em 07/11/19].E aí nós tocamos uma música lá, um cover do Bob Marley [nota: Iron Lion Zion] e uma versão de Ratamahatta, do Sepultura, que a gente fez junto, né? E, meu, foi bem na época em que a gente estava acabando de fazer a demo. Essa música [nota:Fear; Pain; Chaos; Suffering] foi uma das últimas músicas que a gente fez e ela estava um pouco perdida, não tinha um arranjo vocal, tinha umas coisas assim… podia ir para várias direções, né? E aí eu convidei a Emmily para fazer parte, né? Tipo, o China e o Jimmy London estavam apresentando o programa e o China falou: “Meu, por que você não chama a Emmily? Olha esse vozeirão!”.

AK: [continuando] E, meu, a gente sempre pensou em fazer alguma coisa feminina [nota: o programa está em: https://www.youtube.com/watch?v=85d7jcsDGKc; Andreas participa falando a partir de 11’38”, tocando as duas últimas desde 16’10” e explicitamente menciona a chance de contar com Emmily em 20’33”]. No metal sempre tem ali, né? Metallica, Megadeth, Rush, entre tantos outros que botaram uma voz feminina ali e a gente sempre teve essa, sei lá,‘vontade’, vamos dizer assim, né? E aí, pô, pintou ali o tempo, ela aceitou na hora e é uma performanceassim fantástica. A partir do momento em que ela colocou a voz dela, a música se achou, sabe? A gente começou a organizar a música de acordo com o que ela tinha falado e mandado, né? A gente tinha dado algumas instruções a ela através do Jens e tudo, mas quando ela mandou a voz, mano, putz… aí o Derrick se achou também, a gente se achou, jogou um monte de riffs fora e montou a música de acordo com o que ela tinha mandado. Ela foi sensacional!

LP: Paulo, quer falar?

Paulo Baron – Top Link (Produtora de Shows): Não sou jornalista, propriamente, mas conheço vocês há vários anos, tanto de estrada quanto dos trabalhos de vocês, e realmente fiquei impressionado.

AK: Obrigado!

Paulo Baron – Top Link (Produtora de Shows): Poucos álbuns me impressionaram tanto quanto o de hoje e percebo, sim, o amadurecimento de cada um de vocês, em todos os sentidos. Vi o Eloy desde seu princípio, quando trabalhou com o André Matos [nota: o baterista gravou Mentalize (2009), da carreira solo do vocalista, aos 18 anos] e toda a evolução musical de vocês e conheço também de outros lados, conheço também a parte artística, poucas pessoas sabem que você, Andreas, é um grande ‘guitarrista de violão’. O Paulo também, sei que parece que está se superando cada vez mais. Tem a ver isso, logicamente, com tudo que tem management por trás, mas acredito que o Jens também puxou vocês, né? Puxou muito porque eu sei, pela história do próprio Angra, que os caras estavam chorando, praticamente, porque o cara puxa [nota: o sueco produziu Secret Garden (2014) e ØMNI (2018)].

AK: [em meio a gargalhadas gerais] Não pode falar isso, Baron, assim. Não pode falar que o Angra chora! O Jens realmente não está para brincadeira, sabe? Ele é um cara muito disciplinador assim. Porra, eu tinha que acordar às seis, sete horas da manhã para gravar guitarra, sabe? Quando a gente começou a gravar o Machine Messiah, eu falei: “O quê????”. E ele: “Yes, seven in the morning!”. E eu: “Não, cê tá brincando, né, meu?”. E ele: “Não, sete da manhã!”. Falei: “Caralho, mano!”… isso, para mim, é totalmente o oposto, né? Mas, a partir do momento em que você entra no ritmo, meu, funciona como ninguém, entendeu? Você chega ali no final do dia, às seis da tarde, sete da noite, e você já está esgotado, ouvido cansado e tudo, realmente você tem um tempo para descansar e acorda com outro vigor, né?

AK: [continuando] Além de ele ter a casa dele, né? No Machine Messiah, a mulher dele estava grávida, ele quebrou o pé jogando não sei o que e depois, no fim, acabou a gravação com muleta, enfim… mas nunca perdeu o foco, mano, nunca! Independentemente dos problemas que tinha que resolver lá, ele estava sempre ali, sabe? E é por isso muito que a gente trabalhou com ele de novo, porque deu muito certo. A gente… é uma evolução do Machine Messiah esse disco, acho que não teria outro produtor para entender o que a gente fez e como fez o Machine Messiah, né? Porque a gente realmente pegou muito do Machine Messiah para começar a ‘desenhar o quadro’ e tudo mais, né? Então o Jens, porra, é um cara jovem, né? ‘Jovem’ assim da nossa idade.

PX: Ele ficou um pouquinho mais brasileiro, né?

AK: Ele ficou mais brasileiro, ficou mais tranqüilo, não trocou tanta corda de guitarra dessa vez, não deu tanta edição, enfim… porque ele falava: “Sai todo mundo do quarto. Vou editar!”. E ‘pá’, fechava a porta e meu: “Caralho, meu? O que vai sair daí?”. E dessa vez não, ficou muito mais relax, entendeu? Nem pensou nisso, deixou fluir mais as coisas, né? E isso dá para sentir. No disco, dá para sentir que está mais orgânico, mais ‘alive’, né? Mais vivo.

LP: Tem uma pergunta aqui que vou cortar o caminho. É do Rodrigo Reolon e é interessante: “Apesar da originalidade de cada disco do Sepultura, há alguma banda ou artista que vocês vêm escutando ultimamente e que possa ter tido alguma influência na sonoridade dos últimos álbuns?”. É uma pergunta recorrente assim que fã manda.

AK: Cara, não sei. Eu não escuto muita música, na verdade, meu. Nunca fui ‘caçador de música’, sabe? De ficar com fone a toda hora no avião, sai do avião e já liga. O Derrick fica com o fone direto e eu falo: “Caralho, não sei como consegue, mano!”. Você também não fica com muito fone, né? Assim andando, ou fica?

EC: Fico!

AK: Eu não consigo ficar, eu gosto de escutar o ambiente mais do que ficar preso assim. E passo muito mais tempo tocando, assim com o violão, estudando, do que ficar escutando, né?Acho que… sempre vou mais pesquisar, tipo música, sabe? Para tirar uma música para tocar com alguém, enfim, sei lá… e tipo, por exemplo, no Uber: eu entro no Uber e não peço para mudar a estação de rádio, sabe? Porque, mano, se você está sempre pedindo aquilo, você vai sempre ter aquilo, né? Então, pô, já escutei rádio evangélica, samba, axé, rap… e sempre tem alguma coisinha lá que você aprende, tá ligado? Que te dá um ‘spark’, alguma coisa que: “Caralho, que doido isso! Que louco!”. Por que não, né, mano? Tem que dar chance a você mesmo, né? Senão, “Ah, sou o senhor das minhas decisões”. Não é! E não deveria ser na verdade, né? Porque, mano, tem muito a ser aproveitado por aí, né?

LP: Senão vira essa bolha que você comentou.

AK: Senão você está sempre ali, mano. Está sempre no mesmo caminho. “Pô, bota a rádio de rock aí! Rádio rock! Rádio rock!”, né?

LP: Tem uma pergunta ali:

André BG – Alquimia Rock Clube (Site):Tenho uma pergunta a respeito do Derrick. Ele não está aqui, mas é referente aos vocais dele. Para mim, é um fato curioso que, diferente de muitos vocalistas do metal e do thrash metal, que com o passar dos anos, vãomeio que decaindo, né? A qualidade, até por uma questão natural, né? Do envelhecimento e tal. E nele, vejo que é meio que ao contrário, o vejo evoluindo cada vez mais. Queria saber a opinião de vocês, como que vocês vêem essa evolução dele aí que, até ao vivo mesmo, não vi nenhum show do Sepultura em que ele tenha tido uma performance não tão boa ou abaixo do que ele costuma fazer.

AK: Verdade!

PX: Tenho duas palavras: “Negão americano” [provocando risos].

AK: Mas não só isso,o Derrick é muito disciplinado, mano!Desde que entrou na banda, cara, ele realmente faz os exercícios dele, não bebe, não fuma. Sabe, em dia de show, ele está sempre ali, de segunda a segunda, que a gente faz, uma hora e meia de show por dia, é bem puxado e, realmente, ele está com vinte e dois anos de banda e nunca perdeu a voz, velho. Nunca! Bate na madeira aí! [rindo] Mas, enfim, é um cara que está sempre muito centrado, muito profissa, meu, muito responsável no aspecto de respeitar o público, respeitar a banda e respeitar a ele mesmo. E, cara, o rock ‘n’ roll você sabe como é que é, tipo o backstage. Ainda mais, porra, numa época mais, né, de muito álcool, drogas, enfim, a galera dorme mal e não se cuida. E, cara, a gente passou por isso, mano, e a gente tem uma disciplina, sacou? Porque senão não aguenta, não tem como.

AK: [continuando] Não tem como tocar de segunda a segunda, da maneira que a gente toca, com a energia que tem que ter. Não tem como! E então o Derrickpassa por esse processo e é um cara que escuta muito. Por isso que te falei, que o processo dele com o Ross Robinson, com o Jens Bogren, né? Ele é um cara que vê por outro ponto de vista, repensa certas coisas, muda de opinião, que é uma coisa positiva, entendeu? E é por isso que ele está aqui com a gente hoje, trabalhando de tantos jeitos, escreve de tudo quanto é jeito, não só de cantar, mas de escrever letras. São as melhores letras que ele escreveu até hoje, mano! Sabe, com as melhores palavras, para ir da melhor forma. E, obviamente, o Jens também tem muito a ver com isso, né? Porque eles trabalharam muito perto para realmente buscarem as melhores palavras para as partes certas.

LP: Um ponto que merece atenção é a capa, o conceito também da capa: uma moeda com uma caveira, um mapa-múndi desenhado no crânio e folhas de louro. Tem uma idéia que envolve esse conceito de capa que é importante no Quadra? [nota: arte criada por Christiano Menezes]

AK: Sim, com certeza! Acho que o mais difícil de achar foi esse ícone. E aí tenho que também agradecer ao Marcos Hermes, né? Porque fui lá ao ateliê dele, ao estúdio dele, e… para realmente falar, tentar coisas, né? A gente falou de quinhentas mil coisas, várias conversas, reuniões e telefonemas. E, mano, escrevemos um monte de coisa, até chegar nessa coisa da moeda, né? Porque o dinheiro é a principal regra de vida de qualquer pessoa nesse planeta, né? Ou você tem dinheiro, ou você recusa, mas sempre em relação ao dinheiro, né? E ele representa isso, essa primeira regra de qualquer quadra. Independentemente de você estar em país comunista ou em país muçulmano, o dinheiro está sempre envolvido em algum lugar, né? Então qual é primeiro fator de julgamento, quando a gente julga uma pessoa, quando a conhece? Ou se ele é um mendigo ou se ele é um milionário, e tudo no meio.

AK: [continuando] E a partir daí a gente vê como vai se relacionar com essa pessoa. Porque ela tem um certo poder aquisitivo, ou alguma coisa assim, vou trabalhar com ela, vou chamar ela para almoçar em casa, enfim… você tem várias maneiras de: “Não chega muito perto”, “Está com a camisa do Corinthians”, entendeu? Essa coisa toda assim. Então você fica julgando através disso: “Olha o carro em que o cara chegou! Pô, o cara tá bem, hein?”. E você não sabe da vida do cara, mas: “Pô, puta carrão!”. No Brasil, né, meu, o carro do vizinho é sempre melhor. Então é meio isso, né? Essa coisa da escravidão do dinheiro e essa escravidão do conceito, de uma coisa que não existe, né, meu? Porque você precisa de duas pessoas, no mínimo, para dar… para acordar, ou concordar que um pedaço de papel tem um certo valor. E a partir daí, mexer com isso, né? Mas não é uma coisa também natural.

AK: [continuando] Então acho que o ícone, a moeda, foi muito importante quando a gente achou e falou: “Olha, a moeda é o começo”. Aí falei: “Porra, vamos botar o senador, a caveira” porque é metal, tinha que ter um ‘skull’ lá, uma caveira. Mas é o senador, onde as leis são feitas, né? Onde a gente também falou: “O que é certo? O que é errado?”. É lógico que tem um contexto religioso nisso, mas, as leis são feitas no Senado, no Congresso, na política, né? Então representa isso e essas linhas imaginárias, né? Que dividem as nações, você vê o mapa através de um desenho, você nunca viu aquilo naturalmente, né? Você passa na Linha do Equador, não tem uma linha ali, né, mano? [rindo] Mas a gente vê o mundo de acordo com o mapa, desse jeito norte e sul. Mas não tem norte e não tem sul, né? Tipo, mano, depende do seu ponto de referência.

LP: É, se você for terraplanista…

AK:Você está na Lua, onde que é norte e onde que é sul? Tipo, enfim… mas a gente está aqui, a gente aprende isso na escola, mas é uma coisa cultural que é implantada dessa forma. É tipo um… é um… ‘agreement’, né? Uma concordância! O mapa-múndi é esse: a gente vai ver o norte, ou de baixopara cima, e todo mundo vê o mundo dessa forma, né? E vê ali que os Estados Unidos são assim, mas são desenhos. Porra, na Guerra da Coréia, o general americano pegou um lápis e falou: “Olha…”, dividiu a Coréia no meio no mapa. Até hoje é assim. No lápis!

LP: A África é assim!

AK: Tipo, sacou? Dividiu famílias, quebrou um monte de tradições, com um lápis! Por quê? Porque é um conceito: “Isso aqui é nosso! Dá esse pedaço de papel aqui!”. Tipo, é brutal, né? Então é isso aí que está na cabeça do senador ali, né? Tipo, representando isso.

LP: Temos espaço para mais uma pergunta.

AK: Vai, é a última! Quem vai?

Nando Machado – Wikimetal (Site): Shows no Brasil? Temporada de shows no Brasil.

LP: Shows no Brasil!

AK: Shows no Brasil ainda não. Brasil a gente vai… está com um plano um pouquinho mais cuidadoso. A gente tocou muito o Brasil nesses últimos anos e… mas em breve a gente vai soltar notícias aí e estamos trabalhando nisso.

LP: Bom, a gente vai encerrar, mas antes,posso fazer, se me permitem, uma recomendação? Para que, amanhã, quando estiver disponível o disco, que as pessoas parem, desliguem o celular, vão para algum lugar, ponham o fone de ouvido e ouçam esse disco porque ele realmente merece.

AK: [rindo] Belo conselho! [aplaudido] Obrigado a todos que compareceram. Valeu mesmo! E amanhã sai o disco, comprem aí! Thank you very much! Muchas gracias! Merci beaucoup!

LP: Agora a surpresa em primeira mão aqui: vai ter o clipe da Means To An End

AK: É, vamos apresentar o clipe da Means To An End, que ficou pronto ontem. Então, enjoy!

LP: Que é dirigido pelo Otavio Juliano e Luciana Ferraz

AK: É isso aí!

 

Tão em primeira mão quanto a execução de Isolation no Rock In Rio, o clipe inédito de sua faixa subseqüente, já disponível no YouTube, foi de fatoapresentado e o evento prosseguiu às 19:10, socialmenteentre comes e bebes. Informalmente abordamos Paulo a respeito de uma curiosidade sobre o ‘Q’ do álbum, estampada tanto na camiseta de Andreas quanto no banner vermelho atrás dos músicos, pois, numa incrívelcoincidência, o ‘corte’ da letra remeteu a uma marca de energéticos. Perguntamos ao baixista se alguém já tinha comentado algo a respeito e se eles já tinham tido algum problema:

PX: Não tinha reparado. Vamos descobrir em breve.

 

Tocamosno assunto também com o guitarrista, que esbanjou bom humor e ainda brincou com um rival de seu time do coração:

AK: Ah, é verdade! Parece mesmo, mas foi totalmente sem querer. E o nosso tem quatro pernas ali, né? Porque é Quadra! E não é verde [rindo].

Indagamos houve audições fora do país e, em caso afirmativo, qual tinha sido a resposta:

AK: Sim, fizemos em Paris no ano passado e foi muito legal também. Obrigado por ter vindo!

 

Rapidamente colamos em Eloy, que brincou sobre a ausência do vocalista:

EC: É que a gente tretou [rindo]. Não! O Derrick mora em Los Angeles. Então ele vem para cá quando a gente tem algum compromisso mais importante a cumprir. Não que o de hoje não fosse, mas ele acabou não conseguindo vir porque já tinha umaoutra coisa marcada lá.

 

Só restava curtir mais um pouco da festa, que, perto de ser encerrada, contou com a chegada de Emmily Barreto e do guitarrista Rafael Brasil, também do Far From Alaska. No mais, era rumar paracasa a fim de redigir. Fazer um faixa-a-faixa, agora que todos podem ouvir o lançamento e tirar suas próprias conclusões, não tem muito sentido. Mesmo assim, vamoscompartilhar as impressões do calor do momento com as anotações feitas e deixar o tracklist.

De cara, Isolationimpressionou pela agressividade e passamos a imaginá-la ao vivo, quebrando tudo com a galera cantando o “In the cage, in the cage you will remain”.Means ToAn End traz riffs que brevemente remetem ao que Jeff Loomis fazia no Nevermore e Last Time, com lyric vídeo já disponível e com imagens do estúdio de gravação, é a terceira pancada consecutiva e fecha a parte ‘old school’. Três faixas e já saltava aos olhos (e ouvidos) o nível de excelência técnico atingido pelo grupo, capitaneado pelo trabalho de Eloy, combinado aos riffs de Andreas.Capital Enslavement abre o ‘lado B’ com batucada e Ali é homenagem de respeito ao icônico pugilista, para muitos o melhor de todos os tempos, justificando o conclusivo “GOAT” da letra, em sutil desacelerada à la Machine Head. E Raging Voidencerra o ‘primeiro LP’, digamos assim, em grande estilo, com uma quebradeira de tempos bem enfurecida, com o perdão do trocadilho.

Guardians Of Earthinicia o ‘lado instrumental’, mas não pense que só ouvirá efetivamente instrumentos. Ela começa com uma bela peça de Andreas no violão, traz coros mesclados à agressividade de Derrick e evolui a arranjos de guitarra bastante criativos.The Pentagram, sim, é sem vocal, quebrada, acelerada, verdadeira porretada na cabeça, única do play com um fade out. E a terceira parte é concluída por Autem, puxada por imponentes sussurros do vocalista, até encorpar e detonar, com direito a pitadas de baião! Quadra só não é oficialmente instrumental por ter contagem de um a quatro e inaugura a quarta trinca de Quadra, o álbum. Confuso? São quarenta e seis tocantes segundos de violão clássico com Andreas a exibir seu talento numa espécie de intro (será que a usarão como talnos shows?) deAgony Of Defeat, com belos coros e inesperadamente mostrando que Derrick pode cantar, e não apenas explorar seus guturais (seria uma bela surpresa se executada ao vivo)! Por fim,Fear; Pain; Chaos; Sufferingé interessantíssimo experimentocom o vocal de Emmily Barreto, a lembrar, bem de leve, a aura do Lacuna Coil e seria bem legal se a tocassem com a cantora em algum show.

Não apague o passado do Sepultura, pois o própriogrupo respeita enormemente tudo que foi feito até Roots, mas dele o quarteto não vive e Quadra dá uma bela emoldurada no presente de quem segue mirando o futuro, em constante evolução.Para encerrar, três brincadeiras numéricas sobre a simbologia do ‘quatro’: o álbum é de 2020: 2 + 0 + 2 + 0 = 4; 4 músicos há nabanda; e o Sepultura só ‘pecou’ por um detalhe: Quadra é seu 15º trabalho em estúdio. Já pensou que legal seria se fosse o 16º (quatro ao quadrado)? Aí seria melhor parar tudo e jogar na sena…

 

‘Lado A’ – o lado ‘thrash / old school’

01) Isolation – 4’56”

02) Means To An End – 4’39”

03) Last Time – 4’27”

‘Lado B’ – o lado ‘groovado / percussivo’

04) Capital Enslavement – 3’40”

05) Ali – 4’12”

06) Raging Void – 3’57”

‘Lado C’ – o lado ‘instrumental’

07) Guardians Of Earth – 5’11”

08) The Pentagram – 5’20”

09) Autem – 4’06”

‘Lado D’ – o lado ‘experimental/ melódico’

10) Quadra – 0’46”

11) Agony Of Defeat – 5’51”

12) Fear; Pain; Chaos; Suffering – 4’09”

Total: 51’14”

 

Bonus CD – Alive In Brazil – 30-Year Anniversary Concert

(gravações feitas na Audio em 20/06/05)

01) Choke – 3’46”

02) Convicted In Life – 3’31”

03) Sepulnation – 4’41”

04) Apes Of God – 3’22”

05) Sepultura Under My Skin – 3’45”

06) Manipulation Of Tragedy – 4’19”

07) The Vatican – 6’34”

08) Cut-Throat – 2’55”

Total: 32’28”

+ Endurance – documentário blu-ray

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