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The Adicts ::: 08/03/19 ::: Carioca Club
Postado em 14 de maio de 2019 @ 10:41 | 89 views


Texto: Vagner Mastropaulo

Fotos: Flavio Santiago

A maior crítica à performática apresentação do The Adicts é que ‘se você assistir a um show deles, viu todos’. Porém seria mais justo propor uma trégua aos ingleses de Ipswich: vê-los não apenas uma vez, mas duas. Assim, na primeira, você pode se embasbacar com tanta informação visual proveniente do palco, especialmente a cargo do vocalista Keith “Monkey” Warren, e a segunda serviria como um verificação da crítica. Afinal de contas, não é possível que os fãs que lotaram o Carioca estivessem ali estreando em um concerto do quinteto.

Escalados para abrir a festa, como na noite sold out para o Toy Dolls em agosto do ano passado no mesmo local, Os Excluídos pisaram no palco às 20:50 e o espirituoso vocalista e guitarrista Ronaldo Lopes tirou onda dos presentes logo de cara: “Vocês tiveram coragem de entrar mesmo? The Adicts é só daqui a uma hora”. Sem qualquer decoração à vista, a não ser a quase imperceptível e uniforme lágrima maquiada abaixo do olho esquerdo de cada um dos músicos, o quarteto de São Paulo mostrou um rockão bem interessante em flertes com o punk e rockabilly e divertiu a ainda vazia casa completando o time com o guitarrista André Larcher, o baixista Caio Klasing e o baterista Raphael Menuzzo. As Ruas Te Esperam, do EP Antes De Tudo (2002) já agradou de imediato e André e Caio auxiliavam nos backing vocals, como fariam no show todo. Novo Início, de Meus Dilemas (2014), o único full length lançado pelo grupo, veio emendada mantendo o pique e, durante Tempestade, constatou-se algo inusitado: havia pit para os fotógrafos, mas estes não estavam autorizados a ocupar o espaço por conta da pirotecnia que seria utilizada pela atração principal. Logo, para que ele servia?

No palco, Plano Perfeito marcava a quarta seguida sem dar respiro à platéia, que seguia ocupando os lugares da pista e camarotes vagarosamente. Só então o vocalista deu seu recado: “Eu queria falar uma coisinha para vocês, coisa rápida porque eu não costumo me estender e quando me estendo eu falo bosta. Hoje, o dia 8 de março, é um dia muito importante, mas, ao contrário do que muita gente acha, é importante para as mulheres e mais ainda para os homens porque este dia só existe para a gente lembrar que ELAS existem e que precisam ser respeitadas nos outros 364 dias do ano. Nós somos uma banda de punk rock e música e arte não têm que entrar numas, mas o rock por si só é um protesto. Então o punk rock tem que ser muito mais de protesto, pelo menos nas idéias. Sobre isso, quero lembrar de uma frase de uma mulher muito especial: ‘Se não houver dança, esta não é minha revolução’ – Emma Goldman. A gente toca para dançarmos juntos, mas com a cabeça ligada. Nada de apagar!”. Na verdade, o início da citação da lituana nascida em 1869 e fundadora do moderno movimento de luta das mulheres é um pouco diferente, mas a troca não fez diferença alguma no tocante discurso antes da não menos bela Minha Vida É Cheia De Som E Fúria, mais rápida ao vivo.

A ramoniana Brilho No Olhar voltou a acelerar o baile e foi colada a outra ainda mais influenciada pelos nova-iorquinos: Jogo De Azar, única retirada de Apostando Tudo (2000), split gravado com o Flicts. Qual É O Seu Medo? foi apresentada com homenagem de Ronaldo: “Eu só queria dizer que é um prazer tocar aqui para vocês. E tocar com The Adicts é um pouco difícil de dizer porque é uma banda que a gente ouvia quando tinha doze, treze anos e estamos dividindo o palco com os caras. Esta vai para o momento escroto que a gente está vivendo aqui no país”. Lutando contra microfonias, a acelerada Km 77 veio colada e foi um ótimo esporro punk a preparar terreno para a saideira, Eu Não Quero, de Bem-Vindo Ao Paraíso (2001), outro split (com Rubbermade Ducks, Hats e Discarga) e também de Antes De Tudo. Após um “Valeu! Até a próxima, rapaziada”, o grupo partiu e quem deixou para entrar em cima da hora perdeu trinta e cinco minutos um divertido show de punk rock autoral em português digno de respeito.

Às 22:10, agora com público encorpado e Supla chegando na área discretamente pelo acesso ao backstage em direção a um camarote, deu-se a primeira referência explícita a Laranja Mecânica, ao som de Guillaume Tell Ouverture, de Gioachino Rossini (mesmo tema usado como intro pelo Haken em janeiro no Fabrique). Como se não bastasse uma citação, composta por Henry Purcell e também incluída na trilha sonora do filme, veio Funeral March Of Queen Mary. Ambas de cortinas fechadas em cinco minutos que, devido à ansiedade, pareceram muitos mais, mas que, na prática, trouxeram paz antes da imensidão de informações que viria a seguir. Ao abrir das cortinas, notava-se o uniforme todo branco do The Adicts: camisas de mangas compridas e jeans e boinas/cartolas pretas dos parceiros de formação clássica do vocalista: Mel Ellis (baixo), Pete “Pete Dee” Davison (guitarra) e Michael “Kid Dee” Davison (bateria), além de John Scruff Ellis, irmão de Mel na outra guitarra. Pondo em palavras, perde-se o efeito, mas mal comparando, o frontman entrou de ‘asas recolhidas’, abrindo-as enquanto se dava a primeira ‘explosão’ da noite, chovendo papel picado em Let’s Go. Na real, Monkey parecia um pavão que por vezes fazia movimentos de tourada. Era apenas a primeira do set em um verdadeiro zoológico! Para melhor compreensão, recomenda-se uma pesquisa visual no YouTube.

Desfazendo-se das asas, em Joker In The Pack o cantor retirou um baralho do bolso e saiu distribuindo cartas para a platéia, que seguia cantando em alto e bom som. Com o som perfeito, como para Os Excluídos, encorpado pelos backing vocals dos quatro músicos, o nome do conjunto inglês era projetado no telão de fundo. Terminado o baralho, Monkey sacou duas cartas maiores, uma em cada mão, com um coringa na frente e o logo da banda e a bandeira da Grã-Bretanha no verso. Menos cantada, mas parecendo ser a mesma música, Horrorshow foi a única de All The Young Droogs (nova menção ao clássico de Stanley Kubrick), em trocadilho com a composição de David Bowie. And It Was So (o “!” no título do álbum homônimo não aparece no da faixa) também veio colada e se você pensou que os gracejos acabariam, no começo de Tango, Monkey apoiou-se num guarda-chuva (tango ou frevo?) e, ao melhor estilo carnavalesco (três dias após nosso feriado), maquiado e vestindo paletó branco com adereços coloridos, o frontman fez voar confetes e serpentinas nele escondidos ao abri-lo. Uma festa, ainda maior para o fã agraciado com o guarda-chuva, sem as serpentinas, enroladas no pedestal do microfone antes de Easy Way Out (surpreendeu não haver roda para versão tão energética), enquanto uma última serpentina era desenrolada da boca do cantor! Com tantas coisas acontecendo simultaneamente, a certeza era que você perderia algo se piscasse os olhos.

E a farra prosseguiu em Numbers, com contagem em uníssono de 1 a 8 e o vocalista jogando mais serpentinas e confetes ao público, retirados do bolso de seu paletó. Irrequieto, dançava, fazia careta e vestia luvas brancas e uma camiseta da banda (único a quebrar o uniforme) enquanto as brincadeiras não cessavam: agora segurando um macaco de pelúcia em cada mão, ‘a dialogar’ em Troubadour. Perto de seu final, fingiu que ia jogar os brinquedos à platéia e não é que o fez mesmo? Em interpretação fofa alinhada à letra de I Am Yours, Monkey abraçou um pequeno urso de pelúcia, também posteriormente arremessado à galera, pouco antes de encerrar a música ajoelhado de frente aos fãs do gargarejo. Passados vinte minutos de show, finalmente suas primeiras palavras foram destinadas ao público: “Obrigado! Que lindo é para nós estarmos de volta, Carioca, São Paulo, Brasil! Vocês são pessoas lindas e nós estamos honrados e felizes e somos muito privilegiados. Vamos tocar muitas músicas para vocês”. Em meio a ajustes técnicos, prosseguiu: “Não se preocupem com as distrações menores. Estão curtindo o Carnaval? Está boa a festa? Não se esqueçam do ‘after party’, no… um minuto… esqueci o nome… é um pub aqui perto e começa com ‘P’. Partisans! Estaremos lá!”. Na saída do show, houve distribuição de flyers a divulgar o evento, mas nossa equipe não rumou para lá.

Terminados os ajustes, Angel foi a divertida balada punk da noite e a partir dela diminuíram um pouco as macaquices de Monkey, permitindo-se prestar mais atenção na parte musical em si. Sem chapéu e paletó, ele fez um pedido: “Fiquemos dramáticos, abaixemos as luzes, assim, de modo agradável e sexy. E sutil. Deixemos assim como está”. Então foi a vez de Pete Dee pedir a palavra: “Desculpem-nos pelos problemas, eles acontecem, não? Estamos com problemas elétricos indo e voltando”. Dificuldades superadas, Kid Dee esclareceu: “Vamos fazer uma legal e mais lenta, uma que não tocamos há um bom tempo, então espero que gostem”, a bela e introspectiva Daydreamers. Dançante e rock ‘n’ roll, emendaram Fuck It Up com pedindo por palmas, reinstaurando o clima de festa. Colada veio Talking Shit, grafada como Shit Song no setlist de palco e que facilmente poderia constar na discografia do Toy Dolls.

You’re All Fools foi apresentada com um simples “Não os deixem te chamar de bobo” e sua pausa no meio soou como Good Times, Bad Times, do Led Zeppelin. Contagiante, Just Like Me evidenciou em qual fonte o Offspring bebeu para compor What I Want, não sem antes Pete Dee referir-se aos problemas técnicos outra vez: “Há um monte de merda rolando esta noite. Esta é uma canção punk rápida e velha”. Verdadeiro atropelo sonoro que incendiou a pista novamente, My Baby Got Run Over By A Streamroller veio precedida de uma checagem de Monkey: “Vocês conhecem esta, certo?”. Certeza que sim! E antes de Crazy, se ainda havia alguém distraído, após a ensurdecedora explosão de serpentinas (que bem decoraram o teto), todos acordaram a tempo de presenciar o cantor apoiar-se em outro guarda-chuva, este com luzes de baixo para cima, iluminando seu rosto até utilizá-lo como metralhador de luz com seus colegas cantando Singin’ In The Rain (muito mais similar à interpretação de Malcolm McDowell em Laranja Mecânica do que à de Gene Kelly no musical) até que o vocalista abrisse seu guarda-chuva iluminado e, por fim, retomasse Crazy, encerrando-a com gestos de louco na cabeça enquanto Kid Dee pedia para todos irem à loucura.

Mantendo o bom humor, Who Spilt My Beer? foi uma pancada com começo em coro, enquanto duas máquinas de bolinhas de sabão, posicionadas nas laterais do palco, faziam a festa da galera (ou tentavam, pois só a do lado esquerdo funcionou). Terminando a canção e animando a platéia, Monkey trouxe uma cartola em formato de caneca, encheu-a com duas latas de cerveja, fingiu que ia virar na própria cabeça, ergueu-a fazendo um brinde e arremessou-a à pista, dando um banho na galera, que nem ligou. Outro petardo ramoniano, Chinese Takeaway foi muito bem recebida e cantada a plenos pulmões pelos fãs e por Pete Dee, após seu pedido para que erguessem as mãos enquanto Monkey arremessava dez rolos de papel higiênico (e um punhado de papel picado) extraídos de um saco plástico com o logo da banda, tentando fazê-los ficar pendurados nas estruturas metálicas do teto da casa. Mas as graças não pararam por aí: perto do final da música, enquanto Pete Dee apresentava os músicos, o cantor pegou um box de comida chinesa com três palitinhos na boca e fingiu estar comendo enquanto voavam confetes tirados da caixa. Pensa que acabou? Ainda deu tempo de Monkey se ajoelhar e tocar os instrumentos de seus companheiros com os palitinhos da comida. Que espetáculo (mesmo com a maquiagem começando a derreter)!

Cantada em uníssono, Bad Boy veio emendada e, acusando o calor, Monkey abriu o primeiro botão da camisa até rasgá-la toda (a esta altura, lembrava a fase Secos e Molhados de Ney Matogrosso) e jogá-la à platéia. Gimme Something To Do manteve a festa acelerada, com o frontman em posse de um pandeiro estilizado com o logo do grupo e decorado com serpentinas e papel higiênico. Então o mostrou à galera, colocou-o no rosto e ergueu-o em pose similar à clássica de Freddie Mercury. Perto do final do set e última autoral, Viva La Revolution foi a cereja do bolo. Cantada em uníssono, justificou nova explosão em chuva de papel picado, tamanha a empolgação, com direito a uma bela homenagem do público ao nosso presidente, mandando-o para aquele lugar. Só não ficou claro se Monkey e banda entendiam o que se passava, pois, em meio aos xingamentos, o conjunto era só agradecimentos.

Encerrando o show diretamente sem encore, primeiro o cover de Rodgers & Hammerstein para You’ll Never Walk Alone, cantada pela galera em versão simplificada da adotada pela torcida do Liverpool (e também do Celtic, na Escócia, e do Borussia Dortmund, na Alemanha) e trilha sonora do filme Carrossel (1956). Como a festa era linda, pouco importou se para o The Adicts, a canção limita-se a apenas os três versos finais da original, repetidos em looping, pois o que a galera queria mesmo era celebrar. Com novas explosões de papel picado, a novidade foi bolas gigantes na pista e um balão em formato de coração arremessado por Monkey, que nem precisou cantar, deixando a tarefa aos fãs. Não há palavras para expressar a bela bagunça vista na casa! Por fim, uma curta versão instrumental acelerada e divertidíssima para Symphony No. 9, Op. 125 (Ode To Joy), de Beethoven. Como souvenirs finais, Monkey arremessou suas duas luvas brancas aos fãs enquanto Bring Me Sunshine ecoava pelo Carioca Club abarrotado.

Mas a festa não havia acabado, pois ainda houve distribuição de palhetas e mais bolinhas de sabão pela casa, com as duas máquinas funcionando e os membros do quinteto dançando abraçados até o final da música composta por Arthur Kent e popularizada no Reino Unido pela dupla de comediantes Morecambe & Wise. Apenas ao som de The Thieving Magpie, outra de Gioachino Rossini a integrar Laranja Mecânica, fecharam-se as cortinas completando oitenta e cinco minutos de um senhor espetáculo! E que o The Adicts não demore tanto a trazer nova dose de macaquices aos já viciados fãs que os viam pela primeira vez, para que estes possam conferir se o show é sempre igual (e para que os adictos que já os tinham visto também possam assisti-los uma terceira, quarta ou quinta vez… se for o caso).

 

Setlists

Os Excluídos

01) As Ruas Te Esperam

02) Novo Início

03) Tempestade

04) Plano Perfeito

05) Minha Vida É Cheia De Som E Fúria

06) Brilho No Olhar

07) Jogo De Azar

08) Qual É O Seu Medo?

09) Km 77

10) Eu Não Quero

 

The Adicts

Intro 01: Guillaume Tell Ouverture (Gioachino Rossini)

Intro 02: Funeral March Of Queen Mary (Henry Purcell)

01) Let’s Go

02) Joker In The Pack

03) Horrorshow

04) And It Was So

05) Tango

06) Easy Way Out

07) Numbers

08) Troubadour

09) I Am Yours

10) Angel

11) Daydreamers

12) Fuck It Up

13) Talking Shit

14) You’re All Fools

15) Just Like Me

16) My Baby Got Run Over By A Streamroller

17) Crazy

18) Who Spilt My Beer?

19) Chinese Takeaway

20) Bad Boy

21) Gimme Something To Do

22) Viva La Revolution

23) You’ll Never Walk Alone [Rodgers & Hammerstein Cover]

24) Symphony No. 9, Op. 125 (Ode To Joy) [Ludwig Van Beethoven Cover]

Outro 01: Bring Me Sunshine (Morecambe & Wise)

Outro 02: The Thieving Magpie (Gioachino Rossini)

 

 

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