A Flock of Seagulls finalmente pousa no Brasil e transforma Cine Joia em viagem aos anos 80
Após uma tentativa frustrada em 2016, ícone da new wave britânica estreia no país mais de quatro décadas depois de “I Ran” e encontra no Cine Joia uma plateia disposta a transformar nostalgia em celebração
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Demorou mais de quatro décadas, teve uma tentativa frustrada pelo caminho, mas finalmente aconteceu. Na noite de 7 de outubro, o A Flock of Seagulls subiu ao palco do Cine Joia, em São Paulo, para realizar sua primeira apresentação no Brasil. Para uma banda cuja imagem e música parecem indissociáveis dos anos 1980, a estreia teve inevitavelmente um gosto de acerto de contas com o passado.
E não foi por falta de tentativa. Em 2016, o grupo chegou a anunciar uma apresentação no Clash Club, também em São Paulo, marcada para 9 de julho. A passagem fazia parte de uma excursão pela América do Sul, mas problemas envolvendo um promotor local fizeram a banda ficar retida em Lima, no Peru, por cerca de 36 horas. Shows no Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai foram afetados e a apresentação brasileira acabou não acontecendo. Dez anos depois, a história finalmente encontrou um desfecho.
O tempo, evidentemente, mudou muita coisa. O A Flock of Seagulls que chegou ao Cine Joia não é mais aquele quarteto formado por Mike Score, seu irmão Ali Score, Frank Maudsley e Paul Reynolds que ajudou a definir uma parcela importante da estética e da sonoridade da new wave no começo dos anos 1980. Da formação clássica, apenas Mike Score permanece na banda. Atualmente, ele é acompanhado por Pando no baixo, Kevin Rankin na bateria e Gord Deppe na guitarra.
Mas talvez seja justamente aí que esteja o ponto central da apresentação: ninguém entrou no Cine Joia esperando congelar 1982. O que estava em jogo era finalmente poder ouvir ao vivo músicas que durante décadas chegaram ao Brasil apenas por discos, fitas, rádio, televisão e, posteriormente, pela internet.
A história do A Flock of Seagulls começou em Liverpool no final dos anos 1970. Mike Score e Frank Maudsley trabalhavam como cabeleireiros e os primeiros ensaios chegaram a acontecer no salão onde trabalhavam. A informação ajuda a entender, inclusive, por que a aparência da banda acabou se tornando tão importante quanto sua música. O penteado futurista de Score virou uma das imagens mais reconhecíveis da década de 1980 e, em alguns momentos, quase ofuscou aquilo que realmente fazia o grupo interessante.
Porque havia muito mais ali do que cabelo. O A Flock of Seagulls desenvolveu uma assinatura muito própria ao colocar sintetizadores atmosféricos em confronto com guitarras carregadas de delay, linhas de baixo bastante presentes e ritmos eletrônicos. Havia algo futurista naquele som, mas também melancólico. Era música para dançar olhando para algum lugar distante.
O primeiro lançamento, “Modern Love Is Automatic”, apareceu em 1981, e “Telecommunication” começou a chamar atenção nos clubes. O salto definitivo aconteceu no ano seguinte, com o primeiro álbum e principalmente com “I Ran (So Far Away)”, impulsionada também pela então crescente força da MTV. A partir dali, o A Flock of Seagulls entrou definitivamente para o imaginário da new wave.
Quarenta e tantos anos depois, foi justamente “Modern Love Is Automatic” que abriu o show brasileiro. Pontualmente às 22 horas, Mike Score apareceu atrás dos teclados enquanto Kevin Rankin e Gord Deppe começaram a construir aquela conhecida parede de sintetizadores e guitarra. Houve ainda um pequeno contratempo com Pando, que entrou às pressas resolvendo problemas com seu instrumento, situação que rendeu algumas provocações bem-humoradas de Score. Nada que comprometesse a noite.
“Hearts on Fire”, “Rainfall” e “Nightmares” vieram na sequência, mostrando desde cedo que a apresentação não seria construída exclusivamente em cima dos grandes sucessos. Essa escolha foi importante porque o A Flock of Seagulls atual tenta existir além do circuito puramente nostálgico. Mike Score sabe perfeitamente, porém, que há uma dívida com aquele repertório.
Quando “The More You Live, the More You Love” apareceu, a relação com o público mudou imediatamente. A música mostrou como algumas melodias permanecem guardadas em algum canto da memória mesmo depois de décadas. Score incentivou os brasileiros a cantarem e ganhou o coral que pediu.
“Transfer Affection” manteve o clima, sustentada por uma guitarra que conserva uma das características mais interessantes da banda: o instrumento nunca precisou competir em volume com os sintetizadores. Ele cria espaços, texturas e ecos. É justamente nessa mistura entre eletrônico e orgânico que o A Flock of Seagulls construiu sua identidade.
O repertório também abriu espaço para material mais recente com “Him”, “Say You Love Me”, “Lovers and Strangers” e “Some Dreams”. Naturalmente, foram momentos recebidos de maneira mais contida por uma plateia que esperou décadas pelos clássicos, mas serviram para colocar o show no presente e evitar que a apresentação se transformasse simplesmente em um espetáculo tributo à própria história.
“Man Made”, por sua vez, mostrou como certas ideias envelheceram curiosamente bem. A relação entre homens, máquinas e tecnologia que parecia futurista no início dos anos 1980 ganhou outro significado em 2026. Então veio “Telecommunication”.
A partir daquele momento, o show entrou definitivamente em seu trecho mais forte. O Cine Joia deixou de ser apenas uma sala recebendo uma banda histórica e virou uma pista de dança. Mike Score ainda reservou uma pequena história antes de “Space Age Love Song”. Ao lembrar 1982 e a importância da MTV naquele período, apresentou uma das músicas que melhor resumem a essência do A Flock of Seagulls. A guitarra de Gord Deppe recriou aquelas camadas de delay que parecem flutuar sobre a base enquanto Score conduzia uma das melodias mais bonitas do catálogo do grupo.
Foi um daqueles momentos em que nostalgia deixa de ser simplesmente lembrança. Logo depois, “Wishing (If I Had a Photograph of You)” ampliou essa sensação. O Cine Joia inteiro parecia reconhecer cada nota antes mesmo de ela aparecer. Não era difícil olhar ao redor e perceber que muita gente esperou boa parte da vida por aquele momento.
Mas havia uma música que inevitavelmente pairava sobre toda a apresentação. “I Ran (So Far Away)” não é apenas o maior sucesso do A Flock of Seagulls. É uma daquelas canções que escaparam da própria banda. Sobreviveu à mudança de décadas, formações, formatos musicais e gerações. Seu riff envolvido em delay continua instantaneamente reconhecível.
Quando os primeiros acordes apareceram, o Cine Joia explodiu. Talvez ali tenha ficado mais evidente o tamanho da espera. Gente que conheceu a música quando ela ainda era novidade dividia espaço com pessoas que sequer eram nascidas quando o primeiro disco saiu. Todos cantando o mesmo refrão. Era difícil encontrar maneira mais adequada de resumir aquela noite.
A banda deixou o palco sob um coro que continuou repetindo a melodia de “I Ran”, mas ainda havia tempo para uma última visita ao passado. No retorno para o bis, Mike Score avisou que tocariam uma música de 1979 e brincou que ela não estava exatamente entre as mais ensaiadas do repertório. Veio então “Messages”, faixa dos primórdios do grupo, encerrando a noite não com seu maior sucesso, mas voltando praticamente ao ponto onde tudo começou.
Foi uma escolha curiosa e, justamente por isso, apropriada. A estreia brasileira do A Flock of Seagulls não tentou vender a ilusão de que ainda estamos nos anos 1980. Mike Score já não tem o penteado que virou símbolo de uma geração, os companheiros da formação clássica não estão mais ao seu lado no palco e quase 45 anos separam aquelas gravações do presente.
Nada disso pareceu importar. O que permaneceu foram as músicas.
Em cerca de uma hora e meia, “Modern Love Is Automatic”, “Telecommunication”, “Space Age Love Song”, “Wishing” e, inevitavelmente, “I Ran” mostraram por que o A Flock of Seagulls conseguiu sobreviver à própria caricatura visual e permanecer relevante para públicos que atravessam diferentes gerações.
Dez anos depois daquele show que nunca aconteceu no Clash Club, o A Flock of Seagulls finalmente pousou em São Paulo. Demorou. Mas, para quem esperou mais de quatro décadas para ouvir aquelas músicas ao vivo, uma noite no Cine Joia foi suficiente para acertar as contas com o tempo.
Setlist – A Flock of Seagulls – Cine Joia – São Paulo – 07/10/2026
Modern Love Is Automatic
Hearts on Fire
Rainfall
Nightmares
Him
The More You Live, the More You Love
Transfer Affection
Say You Love Me
Lovers and Strangers
Some Dreams
Man Made
Telecommunication
Space Age Love Song
Wishing (If I Had a Photograph of You)
I Ran (So Far Away)
Bis
Messages










