Texto e Fotos: Daniel Agapito
ALESANA: COMO DEIXAR OS EMOS FELIZES
Um dos grandes expoentes do post-hardcore dos anos 2000, o Alesana, os mestres do autoproclamado “sweetcore” retornou ao Brasil neste último sábado (28/2), menos de dois anos após sua última vinda, em abril de 2024. Diferente da última vez, que vieram com a tour de 20 anos, viriam celebrando os 15 anos de The Emptiness, um dos favoritos dos fãs. Algo não muito comum na esfera do metalcore e post-hardcore, o álbum é uma verdadeira ópera rock moderna, sendo o primeiro da trilogia que conta a história de Annabel.
Inspirada no poema Annabel Lee, de Edgar Allan Poe, o disco narra uma história de amor entre “The Artist” e a já citada “Annabel”, mostrando as maneiras com que o protagonista lida com a morte de sua amada. Entre encontros com o que ele julga ser o assassino (“The Thespian”) e uma montanha russa emocional, o CD fecha com uma faixa épica de 7 minutos, que demonstrou toda a versatilidade dos nativos da Carolina do Norte, que a partir desse disco, realmente se formaram como um dos pilares do gênero. A experiência de ouvir o álbum na íntegra prometia ser uma avalanche nostálgica, levando o Carioca Club de volta para os anos 2010.
Chegando lá, a fila quase dobrava a rua, recheada de meias listradas no antebraço da galera e aquela clássica franjinhas de emo de shopping. Do lado de dentro, a noite começou por volta das 19h50 com a AXTY, um dos grandes nomes do metalcore nacional. Tendo lançado “Hannya”, seu último álbum, em 2024, desde então já puderam espelhar sua arte por diversos palcos pelo mundo, contando inclusive com turnês internacionais. Sua performance no palco é realmente digna de um grande nome do gênero, com todos os integrantes esbanjando profissionalismo e postura frente aos fãs, conseguindo engajar bem o público.
Seu som não traz muitas surpresas, é o suprassumo do que o metalcore se tornou. Riffs ora técnicos, ora simples, com breakdowns pesados e aquele vocal Will Ramos-esco que veio a virar moda entre os vocalistas nos últimos anos. Mesmo assim, eles vão muito além de uma cópia do Lorna Shore, valendo destacar seu uso de samples, como a famigerada cabra que grita antecedendo o breakdown de “Fall Away”. Alguns podem achar que essas zoeiras no meio das músicas não se aplicam bem ao contexto do ao vivo, dando um ar de “banda de tiktok”, mas não foi o caso, mostrando um grupo de músicos que fazem um som inegavelmente profissional, mas sabem também quando não se levar a sério.
Em termos da apresentação em si, mesmo caindo nos clichês do metal moderno, com vários pedidos de roda e aquela desligada das luzes de lei para o Carioca ser iluminado pelas lanternas dos celulares do público, entregaram exatamente o que prometeram: qualidade. O AXTY é uma banda que sabe exatamente quando experimentar, quando brincar com o próprio som, e quando investir em uma abordagem mais simples e direta, sem inventar muita moda. Ao todo, foram um ótimo aquecimento para a noite histórica que viria.
Enquanto o relógio se aproximava das 21h, a inquietação dos fãs crescia a cada segundo, a casa já bastante cheia, empanturrada de gente preparada para viver a nostalgia em sua forma mais pura. Sem nem dar muito tempo para a galera se preparar, o riff inicial de “Curse of the Virgin Canvas” ecoou pelo ar enquanto as cortinas se abriam, e a energia do povo era palpável. Dennis, Shawn e companhia eram recebidos de maneira mais que calorosa; a música falava de um pesadelo, mas quem estava lá claramente vivia um sonho. Apesar do tempo curto entre vindas da banda, este regresso era diferente, o repertório especial fez com que esse retorno fosse completamente especial.
Em relação à sequência das músicas, não tem muito o que falar, logicamente, seguiram a ordem do disco, sem muito respiro entre faixas, passando diretamente para “The Artist”, com o interlúdio de uma música para outra sendo executado pelo sistema de PA. A qualidade sonora da banda era algo a ser elogiado, mantendo a mesma formação desde a época em que o disco foi gravado, o entrosamento do quinteto era óbvio, chegando até a brincar entre si no palco, claramente se divertindo. Mais impressionante que a quantidade de franjas emo e meias listradas cortadas e colocadas nos braços do público era a força da cantoria da galera, que realmente ecoava cada verso a plenos pulmões. Shawn mal precisava fazer muita força para executar seus refrãos limpos, visto que o volume em que o público cantava se aproximava do volume da própria banda.
Tudo correu bem nas próximas músicas, uma verdadeira sequência de pedradas sonoras, “A Lunatic’s Lament”, “The Murderer” e “Hymn for the Shameless”. No final de “Hymn”, algum dos equipamentos da banda começou a apresentar pequenas falhas no som, causando ruídos estranhos. Àqueles fãs mais atentos na sequência do disco já sacaram qual seria o maior problema disso, a faixa seguinte era justamente “The Thespian”, jóia da coroa de “The Thespian”, possivelmente um dos maiores hits do Alesana no geral. O grupo não teve o que fazer, enquanto a equipe corria para resolver o que quer que estivesse acontecendo por ali, brincaram com o público e contaram histórias, com Dennis abordando um pouco da história do álbum em si.
De acordo com ele, poemas inspirados no trabalho de Poe eram algo que ele vinha escrevendo desde a 6ª série, e até então (a época que “Emptiness” foi composto, fim dos anos 2000), os trabalhos de sua banda sempre incorporaram elementos da literatura, mas nada tão forte quanto o que viria a ser este terceiro lançamento. Com ele, os integrantes puderam perceber que a banda realmente havia se tornado algo sério, tomando uma proporção muito além do que qualquer um deles imaginava ser possível: “antes eu era só um cara qualquer, agora, 15 anos depois, estou em outro canto do mundo cantando minhas músicas, acho isso muito gratificante”, comentou o vocalista. Depois deste pequeno deslize com o som, seguiram normalmente, sem mais nenhum problema com o som – muito pelo contrário, a qualidade só melhorou.
O lado B do disco trouxe mais uma sequência de composições perfeitas para serem cantadas em uma só voz, com coros marcantes e até alguns “uô ô ôs” que não podem faltar. O público parecia incansável, era uma mistura de ex-jovem emo sofredor com aquela sua tia que sempre acaba prestando atenção demais na história da novela das 8. Mesmo sem nada no palco que sugerisse isso, estando lá, você se sentia realmente imerso na história e no universo de Annabel e The Artist, a capacidade natural de contar história da banda era algo completamente diferenciado. Tudo isso culminou na épica “Annabel”, que teve seus 7 minutos tocados com perfeição para uma audiência que àquela altura estava na mão da banda, vidrados.
Voltando após poucos minutos, Denny zoou com o público: “já tocamos o ‘The Emptiness’ na íntegra, não está bom não?” A resposta dos fãs foi clara, estavam longe de cansados, veriam mais 3 shows daqueles tranquilamente. O início do bis se deu com uma faixa que – antes dessa turnê – passara praticamente uma década fora do repertório, “This is Usually the Part Where People Scream”, cartão de visitas de “Where Myth Fades to Legend”. Surpresa ou não, pela reação da galera, parecia que tocavam em todos os shows. Para fechar com chave de ouro, ainda vieram “Beyond the Sacred Glass” e “Apology”, ainda deixando aquela vontade de quero mais, mas sem negligenciar completamente o resto da discografia.
Ah, o que falar desse show da “Alessandra”. São poucas bandas que conseguem realmente cativar o público brasileiro por completo, manter a atenção de tudo e todos por um show completo. Armados com a nostalgia do público emo, o Alesana fez exatamente isso, trazendo uma performance absolutamente incrível, tanto em termos de repertório, algo realmente histórico, quanto em termos de show mesmo, deixaram tudo no palco. Agora, só nos resta esperar que venham a cada 2 anos, não de 14 em 14…
SETLIST – ALESANA
Curse of the Virgin Canvas
The Artist
A Lunatic’s Lament
The Murderer
Hymn for the Shameless
The Thespian
Heavy Hangs the Albatross
The Lover
In Her Tomb by the Surrounding Sea
To Be Scared by an Owl
Annabel
This is Usually the Part Where People Scream
Beyond the Sacred Glass
Apology










