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Alírio Netto – Blue Note – 16/10/21
Postado em 10 de novembro de 2021 @ 23:16


Texto: Vagner Mastropaulo

580 dias sem cobrir um mísero showzinho, meu filho! Quanta saudade!!! E a seca do “in loco” teria sido pior se este escriba tivesse perdido as datas de Jeff Scott Soto no Manifesto em julho… Como, pagando ingresso do bolso, não tinha sentido em voluntariamente resenhar o que se tornariam duas lives disponibilizadas no canal do própriobar no YouTube, o retorno à função acabousendo em grande estilo no Blue Note. No aguardo,ainda do lado de fora, em meio a familiares e amigos do anfitrião, viam-se personalidades da cena como o empresário Paulo Baron, Beto Lee (Titãs) eBaffo Neto (Project 46 e Capadocia).

No stand do merchan, os itens variavam de R$35a cerveja e o début João De Deus (16) em CDa R$150 o vinil importado de AllThings Must Pass, álbum em divulgação com título sensivelmente a captar o período vivido por todos e homônimo à obra-prima soloe LP triplo de George Harrison de 1970. Entre os preços, havia camisetas, bonés, um songbook e o kit com três cervejas.

E se o horário pré-estabelecido para o início do eventoera 22:00, a casa foi, de fato, liberadacom meia hora de atraso, pois o sensacional João Donato tocara a partir das 20:00 e foi o tempo preciso para concluir sua performance, esvaziar o local,higienizá-lo eremontartudo. Assim, o acesso da imprensa se deupertodas 23:00 e, dez minutos depois, já estavam a postos Alírio Netto (vocal), ViniNallon (guitarra), Felipe Andreoli (baixo), De Gino (teclados) e Adriano Daga (bateria).

Inaugurando o set, a faixa-título, única do play com clipe até agora, emendada à bela Edinburgh.Para a terceira música, uma surpresa apresentada por Alírio ao piano: “Obrigado! Muito boa noite, São Paulo! A gente vai ter o primeiro convidado da noite, um pequeno grande homem que aprendi a conhecer nos últimos meses. É um cara que tem o coração muito bom e um futuro brilhante pela frente. Um menino de ouro, o nome dele é Stefano e, além de cantar lindamente, ele toca piano, guitarra, é filho da Susana e do Marcos e ele aceitou o desafio de fazer um dueto comigo numa música que foi cantada originalmente pelo ArnelPineda, vocalista do Journey”. Vestindo camiseta do Kiss, o garoto co-arrasou em Grey!

Novos elogiosprecederamo bloco mais pesado da noite, desta vez a um parceiro de Adriano Daga na Malta: “Quero chamar meu próximo convidado, um cara que é um exímio compositor e toca demais. A gente fez muitas coisas juntos já e ele esteve muito presente neste disco: Thor Moraes”. Odono da festa detalhou bastidores deBack To The Roots: “Quando a gente chega numa gravadora e eles querem seu disco, começam a te encher o saco por algumas coisas em algumas músicas e essa foi uma das que eles queriam mudar. A gente bateu o pé e depois recebemos um e-mail dos caras dizendo: ‘É, vocês tinham razão e a gente estava errado… Parabéns, a música ficou incrível!’. E ela é desse cara aqui!”, apontando para o substituto temporário deViniNallon.

O petardo YouHate, curiosamente grafado como “YourHate” no setlist de palco e “YouHate!” no encarte do full length, veio colado e gerou comentários posteriores do frontman: “Quando começo a escrever as músicas, e essa também é do Thor, a gente começa a divagar sobre as letras”, interrompido por um beijo fofo do canhoto guitarrista em sua bochecha. Retomando: “Então, todo mundo que está aí, com seu perfil na internet…A gente fica encarando os haters e essa música é sobre eles: machos o suficiente para ficarem escondidos atrás de uma tela de computador, mas não para irem atrás de seus próprios sonhos. Então é sobre isso que foi essa canção” (dica: não deixe de conferir Mentiras, sua releitura em espanhol). E Alírio ainda acrescentou a contextualização referente aLet It AllBurn: “A próxima música fala sobre paixão, aquilo que faz você ir atrás de seus sonhos. Por isso que a gente colocou uma atrás da outra aqui”.

A formação se manteve com nova adição vocal: “Temos mais um convidado mega especial aqui.Essa vida dá muitas oportunidades para conhecermos artistas de todos os estilos. Sou fã da voz desse cara, da pessoa, um cara que, quando liguei para ele, disse na hora: ‘Pô, vambora’ e não sabia nem o que ia cantar. A hora que eu chamar o cara aqui, vocês vão entender porque ele é uma das maiores vozes desse país e é uma honra também ter ele aqui hoje, nesse dia tão especial. Queria chamar Thiago Arancam”, que surgiu tirando onda: “Hoje não vou de Fantasma, não! Não posso assombrar ninguém!”. Boiou?O tenor interpretava o Fantasma na montagem de 2018/19 do Fantasma Da Ópera no Teatro Renault! O que cantaram? UnderPressure, do Queen!

Coincidente ao regresso de Vini, umatocante revelação de Alírio: “Vou contar uma estória para vocês agora e farei o mais curto possível. Tenho a sorte de ter me casado com a LiviaDabarian, um anjo na minha vida. Ela me salvou de mim mesmo em alguns momentos e essa próxima música tem uma estória meio engraçada. (…) A Livia me falou: ‘Olha, estou escrevendo meus votos faz tempo e não vejo você se movimentando’. Eu falei: ‘Baby, relaxa! Vou chegar lá, improvisar um pouquinho, falar uma coisa ou outra e vai dar tudo certo. (…) Um dia antes do nosso casamento, escrevi uma música, que são os meus votos. Ou seja, essa música que a gente vai tocar agora, eu fiz para ela e são os meus votos de casamento para a minha esposa, que amo demais”: Here I Am.

A seguinte, umas das cinco bonus tracks da versão digital de AllThings Must Pass,traz exatamenteLivia em estúdio, porém, infelizmente,sua participação ao vivo se mostrou inviável por ela desempenhar o papel da Killer Queen em We Will Rock You, espetáculo em cartaz um tanto longe: Madrid!Em todo caso, Alírio fez questão de destacá-la: “ALivia canta pra caramba, né? A gente se conheceu no We Will Rock You e, compondo o disco, falei: ‘Vamos fazer um dueto, né?’ E saiu esse dueto porque ela é meio gitana, toda maluca. Essa é a próxima canção: Gipsy Soul”, causando certa estranheza, uma vez que seu nome oficial é Gipsy

Quem mais daria o ar da graça? “Queria chamar aqui o Ivan Busic, batera do Dr. Sin. Amo demais a voz desse cara e foi muito engraçado porque liguei para ele e falei assim: ‘Bicho, dá uma canja no meu disco?’. E ele falou: ‘Claro, que música vou tocar?’. E eu disse: ‘Você não vai tocar. Você vai cantar!’. Lembrando que eles me deram muitas oportunidades no começo da minha carreira. Abri muitos shows do Dr. Sin e todas as vezes que essa oportunidade apareceu, fui tratado como um rei”. Fizeram I’m Still Here e não é que Ivan Busicmandou bem mesmo?

As convocações se sucediam: “Agora a gente tem a outra parte da família e esse cara não brinca em serviço, não! A gente tem vários power trios famosos no mundo, o Rush é um deles, mas a gente tem um aqui no Brasil que fez história e é uma das melhores coisas que a gente já teve aqui. Esse cara, além de tocar baixo do jeito que toca, é, sim, uma das minhas influências. O cara influenciou demais no jeito de escrever minhas letras, cantar e é bem emocionante ter esse cara aqui hoje: AndriaBusic! Eu me lembro que ficava olhando esse cara, molequinho ainda, eu tinha uns discos e pensava: ‘Como esse cara consegue fazer isso? Cantar desse jeito, tocar baixo!’”.Back To The Lightcontaria comum segundo convidado, no baixo, no lugar de Felipe Andreoli: “Este aqui é o Alexandre Panta! Esse cara é um dos maiores baixistas desse país, toca no Dream Theatercover, é difícil pra caramba de tocar isso aí, com todas as notas do universo. Ele já foi baixista do Hibria, tem um canal no YouTube incrível em que ele entrevista e fala sobre o instrumento, que é muito difícil de tocar no nível que ele toca!”.Gratasdescobertas!

E se a apresentaçãoera em São Paulo, quem faltava? “Mais ou menos uns dois anos e pouco atrás, tivemos uma das maiores fatalidades do rock nacional e do heavy metal nacional e mundial: o falecimento de nosso querido André Matos, um cara que influenciou muita gente, nosso maestro do rock! Ele sempre foi um cara à frente de seu tempo, foi um cara que aprendi a respeitar e a amar pra caramba e que também tive muitas oportunidades de tocar abrindo alguns shows, inclusive do Shaman. E agora fui abençoado com essa posição depois dessa fatalidade, tive essa oportunidade e os caras me chamaram para fazer parte da banda. A gente se conectou na hora, foi uma estória de verdade mesmo e foi algo que não vou me esquecer nunca”.

O vocalista prosseguiu: “Eu me lembro que o Luis me mandou uma mensagem falando: ‘Cara, é o seguinte: a gente queria conversar com você’. E aí eu já gelei um pouquinho, imaginei mais ou menos sobre o que era. Marcaram uma reunião comigo, cheguei lá e estavam simplesmente: Hugo Mariutti, Ricardo Confessori eLuisMariutti. Olhei para esses caras e comecei a tremer um pouquinho porque… Imagina: eu via os caras nos DVDs, pedia para autografarem meus CDs como fã,  e agora já numa posição imaginando o que poderia acontecer. Eles me chamaram para a banda, obviamente isso foi uma coisa que…Naquele primeiro momento, foi uma estória meio tragicômica, meio engraçada um pouco, pelo menos para mim foi. A reunião durou cinco minutos e, nesse mesmo momento, fiquei muito emocionado e pensei: ‘Caramba! Puta que pariu! Vou cantar as músicas do Shaman!Que coisa maravilhosa! Imagina só, Fairy Tale, Reason, todos aqueles hits, que massa vai ser!’. E, de repente, entrei no carro, comecei a dirigir voltando para casa, aí comecei a ouvir as músicas e: ‘Meu Deus do céu, como é que vou fazer isso, cara?’”.

Enquanto os convidados se preparavam para dar uma palhinha, Alírio não cessava: “Pelo amor de Deus… O André era um cara fora da curva, né? Então ele realmente fez toda a diferença para isso. Enfim, a gente começou essa estória bem bacana, hoje sou vocalista do Shaman e tenho muito orgulho de dizer isso, tocando ao lado dos meus ídolos, que não poderiam faltar. A gente acabou fazendo alguns shows, começamos uma turnê e, infelizmente, a pandemia parou tudo, como parou a vida de todo mundo, e não foi diferente com o Shaman, que acabou parando. Mas a gente lançou um single antes da turnê, Brand New Me, e se vocês gostaram dele, esperem para ver o disco novo porque é o seguinte: há umas duas semanas…Acabei de voltar da Alemanha para a Espanha, eu moro lá, e terminei de botar as vozes no disco novo”.

Foi difícil, mas não houve spoilers: “OSascha está trabalhando duro todos os dias lá para que a gente consiga levantar esse disco o mais rápido possível porque estou tão ansioso quanto vocês e todo mundo aqui da banda também. Só digo uma coisa: o disco está lindo, especial demais. A gente cuidou de cada detalhe dessas composições porque é isso que o legado do Shaman merece. É isso que o André construiu com esses caras e a melhor maneira de a gente homenagear a carreira do nosso maestro e continuar esse legado é compondo, fazendo música nova! Então esse disco vai ser a continuação desse legado. Tomamos todos os cuidados com todas as letras, todas as melodias e acho que vocês vão gostar bastante. A gente não vai tocar uma música desse disco porque vamos segurar um pouquinho mais, mas vamos tocar uma das músicas mais legais do Shaman, uma das que mais curto, que é do segundo disco” e,novamente ao piano efinalmenteacompanhado de Hugo Mariutti, LuisMariutti Fabio Ribeiro e Ricardo Confessori, fizeram Reason.

A galera pediu “Mais um!” ao quinteto, porém o que veio foia lindíssimaRetrato, com direito a trechos de Like A Stone (Audioslave) e WhileMyGuitarGentlyWeeps (The Beatles) e apenas com Alírio ao piano – certamenteaparte mais intimista da noiteno decorrer da única de João De Deus no set. A saideira?Outro cover do Queen, BohemianRhapsody, perfeitamente alinhado à época de sua atuação no Queen Extravaganza, embora somente após agradecimentos puxados de forma sincera: “Primeiro, à minha mãe, que está aqui. Uma salva de palmas a ela. A vida inteira comigo, pedindo para ela comprar teclado, violão… A gente tinha um fusca e ela ficava me levando para cima e para baixo. Se não fossepor minha mãe, eu não estaria aqui. Então, muito obrigado, mãe! Eu te amo!”.

Na prática, do trabalho recém-lançado, Alírio só preteriu “The First Time” (também regravada em espanhol e rebatizadaNada Se Compara). Encerrando, trêsdados peculiares acerca do competenteAdriano Daga: camiseta celebrando John Bonham; cavanhaque azul à la Mike Portnoy; e Animal, o muppet baterista do grupo fictício Dr. TeethAnd The Electric Mayhem, “sentado”no bumbo. Muito legal a autêntica e apaixonada auto-saudação ao instrumento!

De resto, uma reflexão: ao redor deste que vos escreve, gatos pingados usavam máscaras, obrigatóriaspara adentrar o recinto eentão retiradascom a clássica desculpa dos comes e bebes… Enfim, são necessários oitenta minutos corridos para se alimentar e se hidratar? Até pela atmosferaagradabilíssima, custava reposicionar os artefatos? Ninguém é dono da verdade, cada um faça o que quiser e julgar correto, responsavelmente, e tampouco se trata de ficar pegando no pé. Fica apenas o registro, pois, conforme o forte refrão de abertura: “Todas as coisas devem passar, inclusive você”! – digno exercício de humildade…

À meia noite e meia, era hora de partir, já no veneno pelas coberturas por vir!

 

Setlist

01)AllThings Must Pass

02) Edinburgh

03)Grey [Participação: Stefano Mion]

04) Back To The Roots [Participação: Thor Moraes]

05)YouHate [Participação: Thor Moraes]

06)Let It AllBurn [Participação: Thor Moraes]

07)UnderPressure [Queen Cover] [Participações: Thor Moraes e Thiago Arancam]

08)Here I Am

09)Gipsy

10)I’m Still Here [Participação: Ivan Busic]

11) Back To The Light [Participações: AndriaBusic e Alexandre Panta]

12)Reason [Participações: Hugo Mariutti, LuisMariutti, Fabio Ribeiro e Ricardo Confessori]

13) Retrato [Com Snippets deLike A Stone (Audioslave) e WhileMyGuitarGentlyWeeps (The Beatles)]

14)BohemianRhapsody [Queen Cover]

 
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