Apocalyptica revisita suas origens e transforma Metallica em celebração no Carioca Club
Finlandeses retornam ao Brasil com a turnê Plays Metallica Vol. 2 e mostram que, trinta anos depois de um improvável disco de versões, a ligação entre violoncelos e heavy metal continua fazendo todo o sentido
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Poucas bandas podem dizer que construíram uma carreira de mais de três décadas a partir de uma ideia que, no papel, parecia quase uma brincadeira. No caso do Apocalyptica, tudo começou com quatro músicos formados na prestigiada Academia Sibelius, em Helsinque, tentando descobrir até onde seria possível levar as músicas do Metallica utilizando apenas violoncelos. O experimento resultou em Plays Metallica by Four Cellos, lançado em 1996, disco que colocou os finlandeses imediatamente sob os holofotes e abriu uma estrada que ninguém parecia ter imaginado antes deles.
Trinta anos depois, o círculo se fecha mais uma vez. De volta a São Paulo, no Carioca Club, o Apocalyptica trouxe ao Brasil a turnê de Plays Metallica Vol. 2, trabalho lançado em 2024 que retomou de maneira explícita a relação com a banda responsável por mudar o destino dos músicos finlandeses. Não se trata exatamente de voltar ao ponto de partida, mas de observar esse mesmo ponto com três décadas de experiência acumulada.
Hoje formado em seu núcleo pelos violoncelistas Eicca Toppinen, Perttu Kivilaakso e Paavo Lötjönen, o Apocalyptica há muito deixou de ser apenas “a banda que toca Metallica no violoncelo”. Ao longo dos anos criou material próprio, trabalhou com nomes como Corey Taylor, Till Lindemann, Ville Valo e Dave Lombardo e desenvolveu uma linguagem que ajudou a naturalizar a presença de instrumentos clássicos dentro do universo do metal. Ainda assim, o Metallica permanece como uma espécie de DNA afetivo do grupo. A própria banda reconhece que sua trajetória nasceu dessa admiração e que o sucesso da extensa turnê comemorativa do primeiro disco acabou estimulando a ideia de um segundo capítulo.
E foi justamente essa história que deu sentido ao show paulistano de 16 de outubro. Em vez de utilizar Metallica como simples atalho nostálgico, o Apocalyptica tratou o repertório como matéria-prima. As composições são reconhecíveis imediatamente, mas ganham peso, dramaticidade e, em alguns momentos, uma dimensão quase cinematográfica quando transferidas das guitarras para três violoncelos.
A abertura com “Ride the Lightning” já deixou clara a proposta. O riff que originalmente carrega a urgência do thrash ganha outra textura quando tocado com arco, sem perder a violência. É talvez aí que esteja o grande mérito do Apocalyptica: os músicos nunca tentam fazer o violoncelo soar exatamente como uma guitarra. O instrumento continua sendo violoncelo, com sua ressonância, seus graves e sua capacidade melódica, mas é empurrado até regiões que aproximam sua função daquela ocupada por guitarras e baixos em uma banda convencional.
Na sequência, “Enter Sandman” funcionou quase como um chamado coletivo. É uma música tão incorporada ao imaginário do rock que dispensaria apresentação, mas nas mãos dos finlandeses ganhou uma espécie de solenidade sombria. “Creeping Death”, por outro lado, revelou a faceta mais agressiva da apresentação. O ataque dos arcos reproduz a dinâmica cortante da música sem transformar a execução em exercício técnico gratuito.
Essa diferença é importante. Assistir ao Apocalyptica não é apenas observar músicos virtuosos realizando algo aparentemente impossível. Depois de tantos anos, esse componente de novidade já deveria ter se esgotado. O que sustenta a banda atualmente é justamente a musicalidade.
“For Whom the Bell Tolls” é um bom exemplo. O baixo de Cliff Burton é um dos elementos mais característicos da versão original, e transportar aquela sensação para violoncelos parece quase natural diante da profundidade do instrumento. Logo depois, “The Call of Ktulu” ampliou ainda mais essa atmosfera. A composição instrumental sempre teve forte caráter narrativo e parece ter sido escrita para ganhar tratamento orquestral. No álbum Plays Metallica Vol. 2, a faixa aparece explicitamente dedicada à memória de Cliff Burton. Apocalyptica
Até “St. Anger”, proveniente de um dos períodos mais controversos da discografia do Metallica, encontrou espaço no repertório. Retirada de seu contexto original e reconstruída pelos violoncelos, a composição expõe melhor sua estrutura rítmica e mostra como o Apocalyptica não quis montar apenas uma sequência de sucessos óbvios.
Esse princípio também orientou Plays Metallica Vol. 2. O disco reuniu faixas de diferentes momentos da carreira do quarteto norte-americano em vez de simplesmente repetir os maiores hits. A aproximação entre as duas bandas chegou ao ponto de Robert Trujillo participar da gravação de “The Four Horsemen”, enquanto “One” contou com James Hetfield e o próprio Trujillo. O que começou como homenagem feita por estudantes finlandeses tornou-se, décadas depois, uma colaboração direta com seus próprios ídolos.
Ao vivo, “The Four Horsemen” foi um dos momentos que melhor sintetizaram essa ponte entre passado e presente. Uma das primeiras grandes manifestações do Metallica dos anos 1980 apareceu remodelada sem perder o espírito de urgência. Em seguida, “Blackened” exigiu outro nível de precisão. É música construída sobre velocidade e mudanças de dinâmica, e vê-la executada dessa maneira reforça o caráter físico do Apocalyptica. Os músicos não permanecem comportadamente sentados como em um concerto de câmara. Violoncelos são atacados, erguidos, inclinados e praticamente convertidos em instrumentos de percussão quando necessário.
Resenhas de outras apresentações da mesma turnê têm destacado exatamente essa intensidade. Em Atlanta, a passagem do grupo foi descrita como uma celebração do legado do Metallica conduzida com enorme energia, enquanto a apresentação recente em Porto Alegre ressaltou como a presença da bateria amplia a massa sonora dos violoncelos e aproxima ainda mais o espetáculo de um show de heavy metal convencional, sem apagar a identidade peculiar do grupo.
Quando “Master of Puppets” surgiu, tornou-se praticamente impossível separar homenagem e identidade própria. Talvez nenhuma outra composição represente tão bem o casamento entre música erudita e metal que alimenta o Apocalyptica. A estrutura longa, as mudanças de andamento e a seção intermediária melódica já carregavam certa ambição quase clássica na gravação original. Com três violoncelos à frente, essas características ficam ainda mais evidentes.
Depois de tanta intensidade, “Nothing Else Matters” proporcionou o inevitável momento de respiro. A canção talvez seja a prova mais clara de como essa relação funciona também fora da velocidade e do peso. O violoncelo encontra naturalmente o caráter melancólico da composição, fazendo com que a ausência de uma voz principal seja preenchida pela melodia dos próprios instrumentos.
O trecho final reservou ainda uma brincadeira particularmente saborosa para o público brasileiro. “Seek & Destroy” apareceu fundida a “Refuse/Resist”, do Sepultura, uma pequena colisão entre Metallica, Apocalyptica e um dos riffs brasileiros mais reconhecidos mundialmente. Em uma apresentação baseada quase integralmente na celebração de uma banda norte-americana, encaixar Sepultura funciona como saudação perfeitamente compreensível por estas bandas.
Coube a “One” encerrar o concerto. E poucas músicas seriam tão adequadas. A composição começa contida e melancólica antes de se transformar progressivamente em uma avalanche, dinâmica que parece desenhada para a linguagem do Apocalyptica. No álbum mais recente, a faixa ganhou importância adicional ao trazer James Hetfield declamando a letra e Robert Trujillo ao baixo, talvez o símbolo máximo de como aquela improvável aventura iniciada em Helsinque acabou recebendo a chancela dos próprios homenageados.
O repertório apresentado em São Paulo teve doze músicas e confirmou que a atual turnê não pretende funcionar como um simples tributo. O set cruza o primeiro Plays Metallica by Four Cellos, o mais recente Vol. 2 e diferentes fases da obra do Metallica, indo de Kill ‘Em All a St. Anger.
Talvez seja justamente por isso que o Apocalyptica ainda consiga fazer esse conceito funcionar depois de tanto tempo. Em 1996, quatro violoncelistas tocando Metallica pareciam uma anomalia divertida. Em 2026, já não existe surpresa suficiente apenas na combinação dos instrumentos. O que restou, e isso é muito mais importante, foi uma linguagem.
No Carioca Club, três décadas de história acabaram condensadas em pouco menos de uma hora e meia: uma banda que começou reinterpretando seus heróis, encontrou personalidade própria, construiu uma carreira longe deles e agora pode retornar ao repertório que a revelou sem parecer prisioneira do passado.
O Metallica colocou o Apocalyptica sob os holofotes. Trinta anos depois, os finlandeses já não precisam dessa luz emprestada. Voltam a essas músicas simplesmente porque, de alguma maneira, elas também passaram a fazer parte da própria história do Apocalyptica.
Setlist – Apocalyptica – Carioca Club, São Paulo – 16/10/2026
1. Ride the Lightning
2. Enter Sandman
3. Creeping Death
4. For Whom the Bell Tolls
5. The Call of Ktulu
6. St. Anger
7. The Four Horsemen
8. Blackened
9. Master of Puppets
10. Nothing Else Matters
11. Seek & Destroy / Refuse/Resist
12. One






