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Avenged Sevenfold / A Day to Remember / Mr Bungle ::: 31/01/26 ::: Allianz Parque / SP
Postado em 03 de fevereiro de 2026 @ 03:10

Texto e Fotos: Flavio Santiago

 

Avenged Sevenfold transforma o Allianz Parque em acerto de contas histórico com São Paulo

 

A espera foi longa, tensa e cercada de incertezas, mas terminou do jeito que o público brasileiro gosta. No dia 31 de janeiro de 2026, o Allianz Parque recebeu finalmente o show do Avenged Sevenfold, originalmente marcado para 2025 e adiado após M. Shadows enfrentar um sério problema de saúde nas cordas vocais. O que poderia ter sido apenas mais uma data remarcada acabou ganhando contornos de evento histórico, carregado de expectativa, catarse e sensação de reparação emocional.

Desde o início da carreira, no início dos anos 2000, o Avenged construiu uma trajetória marcada por ambição estética, mudanças de rota e uma relação intensa com o público brasileiro. De banda associada ao metalcore da primeira metade da década passada, eles evoluíram para um grupo que ocupa o espaço de arena sem abrir mão de escolhas artísticas arriscadas. O show em São Paulo refletiu exatamente isso. Um equilíbrio entre o peso, o experimentalismo recente e os clássicos que moldaram uma geração inteira de fãs.

Mr. Bungle abre a noite com caos, humor e devoção nada convencional

Escalar o Mr. Bungle para abrir um show em estádio já é, por si só, uma provocação consciente. Formada no fim dos anos 80 e eternizada nos anos 90 como um dos projetos mais imprevisíveis da música pesada, a banda liderada por Mike Patton construiu sua reputação justamente no choque de linguagens, no humor ácido e na recusa em se tornar confortável. No Allianz Parque, o grupo entregou exatamente isso, só que amplificado pelo contexto brasileiro e pela presença constante de Andreas Kisser, que participou de todo o set.

A apresentação começou com “Tuyo”, canção eternizada na voz de Rodrigo Amarante, aqui transformada em uma espécie de abertura cerimonial. O detalhe do solo introdutório executado por Andreas Kisser deu um peso inesperado à faixa, criando uma ponte simbólica entre a delicadeza da melodia original e a brutalidade controlada que viria a seguir. Desde o primeiro minuto, ficou claro que aquela não seria uma simples abertura, mas um espetáculo próprio.

“Anarchy Up Your Anus” e “Bungle Grind” entraram na sequência como uma ruptura total de clima. O público foi jogado diretamente no caos característico do grupo, com riffs truncados, mudanças abruptas de andamento e uma performance vocal que transitava entre o grotesco e o caricatural. A presença de Andreas não domesticou o som, pelo contrário, adicionou uma camada ainda mais agressiva, especialmente nas guitarras mais secas e diretas.

“I’m Not in Love”, clássico do 10cc, surgiu deslocada de propósito, funcionando como piada interna e provocação coletiva. Patton brincou com o contraste entre a doçura da canção e o ambiente de estádio, enquanto Andreas mantinha a faixa ancorada em uma leitura surpreendentemente pesada. “Eracist” retomou o tom hostil, com vocais cuspidos e uma execução que soou quase como um manifesto contra qualquer tentativa de acomodação estética.

Um dos momentos mais intensos do set veio com “Raping Your Mind”, estendida por um improviso central que transformou a música em um exercício de tensão contínua. O trecho improvisado permitiu que os músicos explorassem ruídos, dissonâncias e climas quase industriais, arrancando reações mistas da plateia, exatamente o tipo de resposta que o Mr. Bungle sempre parece buscar.

“Retrovertigo” apareceu de forma parcial e ganhou um contorno cômico e local ao ser dedicada ao time da casa, o Palmeiras, arrancando risos e aplausos de um estádio que entendeu imediatamente a provocação. A ligação com o Brasil ficou ainda mais explícita em “Refuse/Resist”, cover do Sepultura, transformada em um dos momentos mais catárticos do set. O tradicional grito de “porra, caralho” ecoou pelo Allianz Parque, com Patton conduzindo o coro como um maestro do caos.

A sequência com “Hypocrites / Habla Español o Muere” foi adaptada para “Speak Portuguese or Die”, em mais uma demonstração de como o vocalista molda suas performances ao contexto local. A mudança de idioma não soou apenas como piada, mas como uma declaração de entrega cultural, reforçada pelo português torto e carismático que Patton usou ao longo de todo o show.

“Sudden Death” manteve a agressividade em alta antes de uma virada inesperada com “Hopelessly Devoted to You”, música eternizada no filme Grease. O contraste entre romantismo exagerado e sarcasmo funcionou como respiro cômico, preparando o terreno para o delírio final.

“My Ass Is on Fire” surgiu como um resumo da estética do Mr. Bungle, misturando peso, funk e referências absurdas, incluindo trechos de “Funkytown” e “Pepto Bismol”, jogados no meio da música como se fossem interferências de uma rádio enlouquecida. O público já estava completamente entregue ao caos quando Patton anunciou a última música.

“All by Myself”, de Eric Carmen, encerrou o set de forma tão absurda quanto simbólica. Dedicada à Pomba Gira, a faixa ganhou contornos ritualísticos, com Patton puxando o grito de “Laroyê” e alterando versos para expressões chulas em português, misturando humor, respeito e provocação. Em meio às gargalhadas e aplausos, o vocalista voltou a se definir como um “macumbeiro velho gringo”, reforçando sua fascinação recorrente pela umbanda e por elementos das religiões afro-brasileiras.

O encerramento não soou como deboche vazio, mas como uma celebração caótica, culturalmente consciente e completamente fora do padrão de uma abertura de estádio. O Mr. Bungle não apenas abriu a noite, mas redefiniu o que aquele público esperava antes mesmo do headliner entrar em cena.

Setlist do Mr. Bungle
Tuyo
Anarchy Up Your Anus
Bungle Grind
I’m Not in Love
Eracist
Raping Your Mind
Retrovertigo
Refuse/Resist
Hypocrites / Habla Español o Muere
Sudden Death
Hopelessly Devoted to You
My Ass Is on Fire
All by Myself

A Day to Remember prepara o terreno com energia, emoção e coro coletivo

Depois do impacto caótico do Mr. Bungle, coube ao A Day to Remember a missão de reconectar o público ao formato clássico de show de arena. Formada no início dos anos 2000, a banda construiu sua identidade fundindo pop punk, hardcore e metalcore de forma acessível, criando músicas pensadas tanto para o mosh quanto para o coro coletivo.

A entrada com “The Downfall of Us All” foi estratégica. Bastaram poucos segundos para o estádio inteiro entender que era hora de cantar junto. A sequência com “I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?” e “Right Back at It Again” manteve a energia em alta, mostrando por que o grupo se tornou um nome recorrente em grandes turnês internacionais.

O set navegou com fluidez entre agressividade e emoção. “Paranoia” e “2nd Sucks” trouxeram o peso necessário para manter o público em movimento, enquanto “If It Means a Lot to You” e “Have Faith in Me” criaram momentos de respiro coletivo, com milhares de vozes preenchendo o Allianz Parque. O encerramento com “All Signs Point to Lauderdale” funcionou como um resumo perfeito da proposta da banda, deixando o público aquecido e emocionalmente pronto para o headliner.

Setlist do A Day to Remember
The Downfall of Us All
I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?
Right Back at It Again
Bad Blood
Make It Make Sense
Paranoia
Miracle
Mr. Highway’s Thinking About the End
All My Friends
Have Faith in Me
2nd Sucks
Silence
If It Means a Lot to You
All I Want
All Signs Point to Lauderdale

Avenged Sevenfold fecha a noite com ambição, emoção e repertório aclamado

Antes mesmo de o Avenged Sevenfold subir ao palco, o entorno do Allianz Parque já dava a dimensão do que aquela noite representava para os fãs. Desde o fim da tarde, uma fila gigantesca tomou conta das ruas próximas ao estádio, com milhares de pessoas aguardando a abertura dos portões por horas, muitas vestindo camisetas de diferentes fases da banda, carregando bandeiras, patches e símbolos que atravessam mais de duas décadas de carreira. A cena deixava claro que não se tratava apenas de um show remarcado, mas de um encontro quase ritualístico entre banda e público.

A produtora havia deixado claro nas orientações prévias que o uso de sinalizadores estava proibido por questões de segurança. Ainda assim, em alguns momentos da noite, luzes vermelhas romperam a escuridão , acesas de forma pontual e rápida, arrancando gritos e aplausos espontâneos. Longe de desviar o foco do espetáculo, os poucos sinalizadores que surgiram funcionaram como demonstração visual da devoção do público, reforçando o clima de intensidade que tomou conta do estádio desde os primeiros acordes.

Quando as luzes se apagaram e o Avenged Sevenfold finalmente apareceu no palco, a sensação no Allianz Parque era de liberação coletiva. O show que havia sido interrompido um ano antes por um problema de saúde de M. Shadows agora se transformava em acerto de contas emocional. A banda abriu com “Game Over” e “Mattel”, deixando claro que a fase mais recente, marcada por experimentações e estruturas menos óbvias, não seria deixada de lado. Longe de causar estranhamento, as músicas soaram robustas e funcionais ao vivo, provando que o Avenged ainda está disposto a desafiar expectativas.

Longe de causar estranhamento, as músicas soaram robustas e funcionais ao vivo, provando que o Avenged ainda está disposto a desafiar expectativas.

A transição para clássicos como “Afterlife” e “Chapter Four” trouxe o público definitivamente para dentro do show. “Hail to the King” transformou o estádio em um coro uníssono, a supresa da noite veio com Gunslinger tocada em São Paulo a pedido dos fãs o que causou enorme frenesi e comoção,  enquanto “Buried Alive” destacou a dinâmica da banda, alternando tensão e explosão com precisão cirúrgica.

Os momentos mais emotivos vieram com “So Far Away”, dedicada a The Rev, com  o estádio tomado de luzes e com “Seize the Day”, cantada parcialmente a pedido do público. A reta final foi uma sequência quase imbatível. “Bat Country”, “Nightmare”, “Unholy Confessions” e “Save Me” reafirmaram o status do grupo como um dos grandes nomes do metal moderno em escala global.

O encerramento com “A Little Piece of Heaven” funcionou como uma síntese perfeita da estética do Avenged. Teatral, exagerada e tecnicamente impecável, a música fechou uma noite que não foi apenas um show, mas a conclusão de um ciclo iniciado um ano antes, interrompido pela fragilidade humana e retomado com força total.

 O show do Avenged Sevenfold foi um prêmio para os fãs devotos que esperaram por mais de 10 anos e foram recompensados por uma banda carismática e que se preocupa com seus fãs em todos os detalhes, seja pausando a apresentação para socorrer alguém da plateia ou para fazer chá revelação, todos esses feitos fizeram com que a banda ocupasse a posição que detem hoje e que esse show que já é histórico para o grupo em termos de publico.

Que voltem em breve !!!

Setlist do Avenged Sevenfold
Game Over
Mattel
Afterlife
Chapter Four
Hail to the King
Gunslinger
Buried Alive
Seize the Day
So Far Away
Bat Country
Nobody
Nightmare
Not Ready to Die
Unholy Confessions
Save Me
Cosmic
A Little Piece of Heaven

 
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