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Balaclava Fest ::: 09/11/25 ::: Tokio Marine Hall
Postado em 24 de novembro de 2025 @ 14:17

 Texto e fotos: Flavio Santiago

O Balaclava Fest 2025 confirmou, mais uma vez, por que virou um dos pontos fixos do calendário indie em São Paulo. No domingo, 9 de novembro, o Tokio Marine Hall recebeu a 15ª edição do festival promovido pela Balaclava Records, selo que passou a década construindo uma cena à sua volta – lançando artistas, trazendo gringos de culto e apostando em encontros improváveis.

Logo na chegada já dava pra sentir que o foco ali era música, não circo de marca. Duas pistas, dois palcos, ativações discretas, nada daquela overdose de telão patrocinado disputando atenção com o som. A própria imprensa especializada destacou como o festival manteve a experiência “limpa” visualmente, deixando que luz, PA e performance fossem os verdadeiros protagonistas.

O line-up deste ano parecia um recorte didático da história da música alternativa dos últimos 30 anos, misturado com o presente da cena brasileira. No topo da programação, dois titãs dos anos 90: a elegância avant-pop anglo-francesa do Stereolab e o indie caleidoscópico do Yo La Tengo. Ao redor deles, um elenco pensado para funcionar como ponte entre gerações: o experimentalismo jazzístico de Geordie Greep, a melancolia slowcore do Horse Jumper of Love e a trinca do próprio casting da Balaclava – Gab Ferreira, Jovens Ateus e Walfredo em Busca da Simbiose – segurando o lado brasileiro da coisa.

A tarde começou com a casa ainda enchendo, mas quem chegou cedo não se arrependeu. Os shows nacionais cumpriram exatamente o papel que a curadoria do selo vem defendendo em entrevistas: usar o festival como vitrine de um catálogo coeso, mas diverso, que vai do pop etéreo às guitarras pós-punk. Walfredo em Busca da Simbiose trouxe seu caldo particular de MPB psicodélica e dream pop, criando um clima de transe suave que funcionou bem naquele horário em que o público ainda circulava entre bar, fila de merch e reconhecimento de terreno.

Na sequência, Gab Ferreira apostou em um pop moderno, cheio de texturas eletrônicas, que soa radiofônico sem abrir mão de personalidade – dá pra entender por que o nome dela aparece com frequência quando se fala na “cara nova” do selo.

Já o Jovens Ateus entrou como a banda perfeita para fazer a ponte entre o começo mais contemplativo e as atrações mais pesadas da noite. O pós-punk de tons oitentistas, com batidas eletrônicas e um clima permanentemente melancólico, caiu como uma luva para um público que claramente acompanha a banda de perto – não era raro ver gente cantando letras inteiras, o que deu ao show um ar de “orgulho da casa”.

Quando Geordie Greep assumiu o palco principal, dava pra sentir que o festival entrava em outra engrenagem. Longe do caos matemático do black midi, o britânico apresentou faixas de “The New Sound” acompanhado por um time de músicos brasileiros, numa mistura de jazz torto, rock progressivo e detalhes de música latina que soam tão estranhos quanto convidativos.

É aquele tipo de show que, em qualquer outro festival, provavelmente estaria espremido num palco secundário em horário ingrato; aqui, foi tratado como atração central, e o público respondeu com atenção quase religiosa a cada quebra de andamento.

O Horse Jumper of Love, que entrou na programação após a saída do duo nova-iorquino Fcukers, trouxe outra mudança de textura: guitarras lentas, clima de quarto escuro, músicas que parecem se arrastar de propósito até explodirem em pequenos surtos de distorção.

Segundo relatos da crítica, parte da plateia aproveitou para respirar entre um hit e outro no bar, mas quem ficou grudado na grade saiu com a sensação de ter assistido a um dos sets mais emocionais do dia, daqueles que fazem silêncio valer mais que grito.

Se o festival tinha alguma dúvida sobre como equilibrar “lendas” e novidades, ela se dissipou de vez quando o Yo La Tengo apareceu.

O trio de Hoboken abriu o set numa vibração intimista, usando “Big Day Coming” como porta de entrada para um show que ia alternando canções sussurradas com ataques de feedback e improviso, um formato que a própria imprensa descreveu como a tradução perfeita da essência da banda.

Georgia, Ira e James tocaram como quem não precisa provar mais nada pra ninguém, mas ainda se diverte desmontando e remontando as músicas ao vivo. O público, que já tinha lotado o Tokio Marine Hall, parecia dividir a atenção entre cantaroladas discretas, olhos fechados e celulares erguidos só nos momentos mais climáticos.

Stereolab, headliner da noite, entrou já na missão de fechar o quebra-cabeça com um bloco coeso de krautrock, lounge futurista e grooves hipnóticos. Laetitia Sadier e Tim Gane comandaram um show que olhava sem medo para o material mais recente, mas sem abandonar os clássicos que formaram toda uma geração de fãs de indie e eletrônica.

Na plateia, dava pra ver gente que descobriu o grupo nos anos 90 batendo cabeça lado a lado com quem chegou pela primeira vez por playlists de streaming – um retrato fiel da ponte geracional que o Balaclava Fest tenta (e consegue) construir.

Entre um palco e outro, o tempo parecia correr mais rápido do que o relógio. Parte disso vem da escolha de não sobrepor horários: ninguém precisava sacrificar um show para ver outro, algo que a própria organização vendeu como diferencial e que foi bastante elogiado em matérias de serviço. A estrutura do Tokio Marine Hall ajudou, com som consistente, boa visibilidade mesmo para quem ficou mais atrás e áreas de circulação que, embora cheias, raramente entraram em colapso total.

No fim das contas, a sensação é de que o Balaclava Fest 2025 cumpriu exatamente a missão sugerida por muitos textos pré-evento: ser menos “um dia de shows” e mais um ponto de convergência de uma cena. Reunindo veteranos em plena forma criativa, apostas internacionais de vanguarda e um elenco nacional que finalmente ocupa o espaço que sempre mereceu, o festival reforça a ideia de que ainda é possível fazer um evento médio em escala, mas enorme em curadoria.

Numa temporada em que boa parte dos festivais se contenta em copiar fórmulas e caçar headliners óbvios, o Balaclava segue apostando em paciência, teimosia e fé na própria identidade. Em 2025, essa estratégia rendeu talvez a edição mais coerente e simbólica da história do evento – um verdadeiro refúgio para quem ainda gosta de sair de casa para ser surpreendido por música.

 
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