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Bangers Open Air::: 26/04/ 2026 ::: Memorial da America Latina / SP
Postado em 12 de junho de 2026 @ 03:33

Bangers Open Air 2026 – Dia 2: nostalgia, celebração e momentos históricos no Memorial da América Latina

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Se o sábado do Bangers Open Air 2026 foi marcado pela diversidade e pelo peso extremo, o domingo transformou o Memorial da América Latina em um grande encontro entre passado, presente e futuro do heavy metal. Com temperaturas elevadas desde as primeiras horas do dia e uma programação capaz de desafiar qualquer planejamento, o segundo e último dia do festival entregou apresentações memoráveis, retornos aguardados, homenagens emocionantes e um dos momentos mais importantes da história recente do metal brasileiro.

Antes mesmo do relógio marcar meio-dia, o segundo dia do festival já começava em alta rotação com o poderoso show do Project46 no Hot Stage. Veteranos da cena pesada nacional, os paulistas não perderam tempo e abriram sua apresentação despejando uma sequência de pancadas que serviu como um verdadeiro despertador coletivo para quem chegava ao Memorial da América Latina. Com “Dor”, “Impunidade” e “Violência Gratuita”, a banda estabeleceu imediatamente o clima do domingo: intensidade máxima e nenhuma concessão.

A formação liderada por Caio MacBeserra mostrou enorme entrosamento e transformou o início do festival em um grande campo de batalha, com rodas surgindo logo nas primeiras músicas. Faixas como “4six”, “Rédeas”, “Na Vala” e “Erro +55” evidenciaram a força do grupo ao vivo, enquanto “Foda-se (Se Depender de Nós)” e “Acorda pra Vida” encerraram um set curto, porém devastador. Em um dia recheado de atrações internacionais, o Project46 cumpriu com excelência a missão de lembrar a todos que o metal brasileiro continua extremamente relevante e capaz de competir em igualdade de condições com qualquer nome do line-up.

Logo ao meio-dia, os austríacos do Visions of Atlantis mostraram que o público já estava disposto a encarar o calor em troca de boa música.

Com sua temática inspirada em piratas e aventuras marítimas, a banda transformou o Sun Stage em um navio de guerra metálico comandado pela excelente dupla formada por Clémentine Delauney e Michele Guaitoli.

O repertório baseado principalmente nos álbuns Pirates e Pirates II – Armada encontrou uma recepção calorosa, provando que o metal sinfônico continua extremamente popular entre os fãs brasileiros.

Pouco depois, o Hot Stage recebeu o poderoso Primal Fear. Mesmo sob um sol castigante, Ralf Scheepers mostrou por que continua sendo um dos grandes vocalistas do power metal mundial.

A nova formação, que agora conta com a guitarrista Thalia Bellazecca e o baterista Andre Hilgers, demonstrou enorme entrosamento, enquanto clássicos como “Chainbreaker”, “Nuclear Fire” e “Metal Is Forever” transformavam a pista em um enorme coro coletivo. A ausência de Mat Sinner foi sentida, mas Dirk Schlächter cumpriu a missão com competência e carisma.

O primeiro grande momento de nostalgia veio com Roy Khan. Cercado por músicos do Seven Spires e convidados brasileiros, o ex-vocalista do Kamelot entregou exatamente aquilo que os fãs esperavam: uma celebração da fase clássica da banda norte-americana. “Center of the Universe”, “Ghost Opera”, “Forever” e, principalmente, “The Haunting (Somewhere in Time)”, dividida com Adrienne Cowan, emocionaram um público que cantou cada verso como se estivesse revivendo os anos dourados do metal melódico dos anos 2000.

Mas havia uma apresentação cercada de expectativa quase tão grande quanto a do Angra: o retorno do Nevermore. Depois de anos de incertezas após a morte de Warrel Dane, Jeff Loomis e Van Williams finalmente trouxeram a banda de volta aos palcos. E a resposta foi imediata. O novo vocalista, Berzan Önen, mostrou personalidade suficiente para evitar comparações injustas, enquanto clássicos como “Narcosynthesis”, “Enemies of Reality”, “Beyond Within” e “Born” provocavam rodas gigantes e uma recepção digna da importância histórica da banda. Foi um dos momentos mais emocionantes de todo o festival.

Entre tantas atrações tradicionais, o Amaranthe apareceu como um contraponto moderno. O trio vocal liderado por Elize Ryd mostrou toda a força de sua combinação entre metal, música eletrônica e refrãos gigantescos.

Mesmo sem conquistar completamente o público mais tradicional presente no festival, músicas como “The Nexus”, “Digital World” e “Amaranthine” demonstraram porque a banda ocupa posição de destaque na cena europeia.

Entre os shows mais refinados musicalmente de todo o fim de semana esteve o encontro entre Adrian Smith e Richie Kotzen. O projeto Smith/Kotzen pode até ter começado de maneira discreta, mas rapidamente cresceu até se transformar em uma verdadeira aula de músicos veteranos se divertindo em cima do palco.

A química entre os dois guitarristas era evidente, tanto nos vocais quanto nos solos. O encerramento com “Wasted Years”, do Iron Maiden, foi daqueles momentos capazes de arrepiar até quem já estava fisicamente esgotado após dois dias de festival.

Enquanto isso, o Krisiun fazia aquilo que sabe fazer melhor: devastar. Alex Camargo e os irmãos Kolesne mostraram novamente por que são um dos maiores nomes do metal extremo mundial. O trio entregou mais uma aula de brutalidade técnica com “Kings of Killing”, “Combustion Inferno”, “Blood of Lions” e “Serpent Messiah”. Não houve surpresas no repertório, mas quando o padrão é tão alto, isso pouco importa.

O Within Temptation assumiu o Ice Stage pouco antes do grande clímax do festival. Com uma produção visual impecável e Sharon den Adel em estado de graça, os holandeses transformaram o palco em um espetáculo grandioso.

O setlist misturou clássicos e surpresas, incluindo “The Howling”, “The Heart of Everything”, “Forsaken”, “Ice Queen” e “Mother Earth”. Foi um show elegante, poderoso e visualmente impressionante, reafirmando o status da banda como uma das maiores representantes do metal sinfônico contemporâneo.

Mas o domingo tinha um protagonista inevitável.

Quando o Angra entrou em cena, o Memorial da América Latina praticamente parou.

O público lotou todos os espaços disponíveis para testemunhar um momento histórico: a reunião de Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester, além da despedida de Fabio Lione e da estreia oficial de Alirio Netto como vocalista da banda.

A primeira parte do show apresentou a formação atual, que mostrou enorme força em músicas como “Nothing to Say”, “Angels Cry” e “Carolina IV”. Fabio Lione teve sua despedida celebrada pelo público, enquanto Alirio demonstrou, mais uma vez, que possui capacidade técnica e presença de palco suficientes para assumir um dos postos mais difíceis do metal brasileiro.

Mas foi quando a formação clássica da era Rebirth subiu ao palco que o festival alcançou seu ponto máximo. “Nova Era”, “Heroes of Sand”, “Spread Your Fire”, “Acid Rain” e “Rebirth” transformaram a apresentação em uma viagem emocional para milhares de fãs que acompanharam essa fase da banda.

Era impossível não perceber a emoção dos músicos e do público. Mais do que um show, aquilo parecia uma celebração coletiva da história do metal nacional.

A homenagem final a Andre Matos durante “Silence and Distance” foi um dos momentos mais tocantes de todo o festival. E quando “Carry On” encerrou a apresentação com três vocalistas e duas baterias dividindo o palco, ficou claro que o Bangers Open Air havia testemunhado algo que será lembrado por muitos anos.

Ainda houve tempo para a celebração clássica de Udo Dirkschneider executando Balls to the Wall praticamente na íntegra, além do encerramento energético do Ambush no Waves Stage, provando que mesmo após mais de dez horas de shows ainda havia público disposto a cantar e bater cabeça.

Ao final do domingo, ficou a sensação de que o Bangers Open Air alcançou um novo patamar em 2026. Pela qualidade da estrutura, pela diversidade do lineup e, principalmente, pelos momentos históricos proporcionados ao público, o festival reforçou sua posição como o principal evento dedicado ao heavy metal na América Latina. Durante dois dias, o Memorial da América Latina deixou de ser apenas um espaço cultural para se transformar na capital mundial da música pesada.

E quando as luzes finalmente se apagaram, restou aquela sensação que todo grande festival provoca: exaustão física, felicidade absoluta e a certeza de que a contagem regressiva para a próxima edição já havia começado. O Bangers Open Air mais uma vez provou que não é apenas um festival. É um encontro anual de uma comunidade que encontra na música pesada um sentimento genuíno de pertencimento, paixão e celebração. E em 2026, esse sentimento esteve mais vivo do que nunca.

 
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