Seis anos depois de uma primeira passagem pelo Brasil marcada pela incerteza da Covid-19, o grupo norte-americano retorna a São Paulo em clima completamente diferente e celebra a excelente fase de The Blue Nowhere.
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Existe uma espécie de linha invisível ligando as duas passagens do Between the Buried and Me por São Paulo. De um lado, março de 2020, quando uma doença ainda pouco compreendida começava a fechar fronteiras, cancelar eventos e transformar qualquer aglomeração em motivo de preocupação. Do outro, outubro de 2026, com um Hangar 110 cheio, suor escorrendo pelas paredes e uma plateia claramente disposta a recuperar o tempo perdido.
Quando o Between the Buried and Me estreou no Brasil, em 15 de março de 2020, no Fabrique Club, a sensação era completamente diferente. O show aconteceu enquanto apresentações eram canceladas em sequência pelo mundo e as primeiras medidas contra a Covid-19 começavam a alterar radicalmente a rotina. O baixista Dan Briggs revelou posteriormente que São Paulo acabou sendo o último show realizado pela banda antes de permanecer cerca de um ano e meio longe dos palcos. Dois dias depois de o grupo voltar para os Estados Unidos, segundo ele, o país praticamente começou a fechar
É impossível separar aquela apresentação de seu contexto. Havia entusiasmo pela primeira visita de uma banda aguardada durante anos pelos fãs brasileiros, mas havia também uma inquietação que ninguém ainda sabia exatamente como administrar. O público não tinha como imaginar que estava assistindo a um dos últimos shows internacionais em São Paulo antes de uma interrupção sem precedentes na indústria da música ao vivo.
Se aquela noite terminou carregada de dúvidas sobre o que viria depois, a volta ao Brasil em 17 de outubro de 2026, no Hangar 110, pareceu funcionar como o extremo oposto. O medo havia dado lugar à euforia. E muita coisa aconteceu com o Between the Buried and Me nesse intervalo.
A banda lançou Colors II, atravessou mudanças de formação e chegou a uma nova fase como quarteto no estúdio, sem o guitarrista Dustie Waring, presente nos discos desde Alaska. Mais importante para esta turnê, em 2025 lançou The Blue Nowhere, trabalho que rapidamente passou a ser tratado como um dos pontos altos de sua fase recente. O álbum apareceu em diversas seleções de melhores lançamentos do ano e terminou em oitavo lugar entre os cinquenta melhores discos de 2025 na lista da revista Prog.
Não foi apenas uma questão de nostalgia, portanto. Diferentemente de muitas bandas que retornam depois de longas ausências amparadas basicamente no próprio passado, o Between the Buried and Me chegou ao Hangar 110 com um disco novo suficientemente forte para disputar espaço com uma discografia que inclui obras como Colors, The Great Misdirect, The Parallax II: Future Sequence e Coma Ecliptic.
The Blue Nowhere parece condensar várias versões da banda ao mesmo tempo. Há metal extremo, progressivo, jazz fusion, eletrônica, passagens cinematográficas e aquela velha capacidade de inserir ideias aparentemente incompatíveis dentro da mesma composição sem transformá-las em simples exibicionismo técnico. Algumas críticas chegaram a apontar o álbum como o trabalho mais inspirado do grupo em anos, destacando justamente a maneira mais orgânica como essas mudanças de estilo foram incorporadas às músicas.
No Hangar 110, essa mistura ganhou proporções ainda maiores.
Às 20h45, Tommy Rogers, Paul Waggoner, Dan Briggs e Blake Richardson entraram acompanhados pelo guitarrista Tristan Auman. Sem precisar recorrer a uma grande produção visual, a banda deixou que a complexidade das próprias músicas assumisse o protagonismo. A introdução de “Mirador Uncoil” abriu caminho para “Psychomanteum”, e em poucos minutos já estava estabelecido o tipo de apresentação que viria pela frente.
“Psychomanteum” talvez seja uma das melhores demonstrações dessa versão atual do BTBAM. São mais de onze minutos em que peso, precisão, teclados, mudanças rítmicas e momentos quase cinematográficos aparecem e desaparecem constantemente. Ao vivo, essas transições soam ainda mais impressionantes porque aquilo que no disco poderia parecer fruto de uma construção de estúdio acontece diante dos olhos do público com uma naturalidade desconcertante.
É justamente aí que reside uma das grandes qualidades do Between the Buried and Me. Técnica nunca foi problema para o grupo. Mas existe uma diferença enorme entre ser uma banda tecnicamente excepcional e fazer com que a técnica tenha propósito. No Hangar, quase nada soou como demonstração gratuita de habilidade. As quebras, viradas, solos e mudanças de andamento estavam sempre a serviço das composições.
O mergulho no passado aconteceu cedo com “Fossil Genera – A Feed from Cloud Mountain”, de The Great Misdirect. A introdução quase teatral e ligeiramente absurda rapidamente se desmancha em riffs, blast beats e mudanças bruscas de direção. É uma música que resume bem a lógica do grupo: quando o ouvinte finalmente entende para onde a composição parece caminhar, ela muda de direção novamente.
Na sequência, “Condemned to the Gallows”, de Automata I, trouxe outra atmosfera, com piano e texturas futuristas antecedendo uma sequência muito mais pesada. Depois veio “The Coma Machine”, uma escolha particularmente eficiente dentro do repertório porque mostra uma faceta mais melódica e teatral da banda sem perder a complexidade típica de seu catálogo.
O equilíbrio entre passado e presente foi uma das grandes virtudes da noite. A turnê poderia facilmente ter se transformado em uma execução concentrada exclusivamente em The Blue Nowhere, mas o grupo preferiu criar pontes entre diferentes momentos da carreira.
Foi então que o álbum mais recente voltou ao centro com “God Terror” e “Absent Thereafter”.
“God Terror” é provavelmente uma das faixas mais agressivas do novo disco, atravessada por elementos industriais e ataques rítmicos que deixam pouca margem para descanso. Já “Absent Thereafter” funciona quase como um pequeno resumo da filosofia do Between the Buried and Me. Dentro de aproximadamente dez minutos cabem peso, jazz fusion, texturas eletrônicas e mudanças de humor que, nas mãos de qualquer outra banda, poderiam soar como peças coladas umas às outras. Aqui, parecem diferentes cômodos de uma mesma construção. A própria crítica especializada destacou essas duas faixas entre os principais momentos de The Blue Nowhere.
Dan Briggs foi fundamental para que tudo permanecesse de pé. Em uma banda na qual praticamente todos os instrumentos disputam espaço ao mesmo tempo, suas linhas de baixo frequentemente funcionam como uma espécie de orientação dentro do caos. Blake Richardson, por sua vez, parecia operar em uma lógica própria, alternando precisão matemática, explosões de velocidade e pequenas mudanças que constantemente reorganizavam as músicas.
Paul Waggoner segue sendo uma das peças centrais dessa arquitetura, enquanto Tommy Rogers alterna vocais limpos, guturais e teclados sem perder presença de palco. E a presença de Tristan Auman ajudou a preservar a densidade das guitarras nesta configuração ao vivo.
Mas talvez nenhum momento tenha provocado uma reação tão imediata quanto “Selkies: The Endless Obsession”.
Vinda de Alaska, de 2005, a música permanece como uma das favoritas do repertório e representa uma época em que o metalcore e o death metal técnico ainda apareciam de maneira mais frontal na identidade do grupo. No Hangar, ela funcionou como uma pancada direta depois de tantas viagens progressivas, com riffs cortantes e um final instrumental que continua sendo um daqueles momentos em que até quem conhece cada nota parece esperar o solo chegar novamente.
A sequência principal terminou com “The Future Is Behind Us”, de Colors II, aproximando mais uma vez o presente recente da banda de sua história.
Até ali, havia algo curioso na relação entre público e músicos. Parte da plateia acompanhava as músicas quase como quem observa uma aula avançada de composição. Cabeças acompanhavam métricas impossíveis, músicos na pista prestavam atenção às execuções e, vez ou outra, o corpo parecia precisar de alguns segundos para descobrir exatamente onde estava o pulso.
No bis, qualquer tentativa de racionalizar o espetáculo praticamente desapareceu.
“Sun of Nothing”, de Colors, abriu a reta final com seus cerca de dez minutos de transformações contínuas. Quando parecia impossível aumentar a escala da apresentação, surgiu “Silent Flight Parliament”, monumental capítulo de The Parallax II: Future Sequence. Foi justamente nessa reta final que os moshpits ganharam força e a contemplação deu lugar ao caos físico.
Poucas bandas conseguem colocar no mesmo bis duas músicas dessa dimensão sem transformar a apresentação em um teste de resistência. Com o Between the Buried and Me acontece o contrário. Quanto mais longa a composição, maior parece ser a sensação de que alguma coisa imprevisível ainda está por acontecer.
“Goodbye to Everything Reprise” encerrou a noite quase como uma pequena epígrafe depois do gigantesco capítulo anterior.
Em março de 2020, havia uma pergunta silenciosa pairando sobre aquela primeira apresentação: o que vai acontecer agora?
Em outubro de 2026, a pergunta parecia outra: por que demorou tanto para vocês voltarem?
Depois de uma noite dessas, a segunda é muito mais fácil de responder.
Setlist – Between the Buried and Me
Hangar 110 – São Paulo – 17 de outubro de 2026
- Mirador Uncoil
- Psychomanteum
- Fossil Genera – A Feed from Cloud Mountain
- Condemned to the Gallows
- The Coma Machine
- God Terror
- Absent Thereafter
- Selkies: The Endless Obsession
- The Future Is Behind Us
Bis
- Sun of Nothing
- Silent Flight Parliament
- Goodbye to Everything Reprise






