Biquini e Nenhum de Nós celebram gerações do rock nacional em noite de clássicos no Espaço Unimed

Texto: Simone Barbosa
Fotos: Flavio Santiago
Há artistas que permanecem relevantes por insistirem em lançar novidades. Outros, porque construíram um repertório capaz de atravessar décadas sem perder a força. Biquini e Nenhum de Nós pertencem à segunda categoria. Com carreiras consolidadas desde os anos 1980, as duas bandas ajudaram a moldar a identidade do rock brasileiro e seguem lotando casas de espetáculo graças a canções que continuam fazendo parte da memória afetiva do público. No Espaço Unimed, em São Paulo, o encontro inédito entre os grupos no projeto “Clássicos do Rock” mostrou que o tempo apenas fortaleceu a conexão entre essas músicas e seus fãs.
Celebrando 40 anos de estrada, o Nenhum de Nós abriu a noite com a elegância de quem domina o palco sem precisar recorrer a grandes efeitos. A banda gaúcha, responsável por alguns dos maiores clássicos do rock nacional, construiu uma trajetória marcada por letras reflexivas e melodias que permanecem atuais, algo que ficou evidente desde os primeiros minutos da apresentação.
A abertura com “Eu Caminhava” deu o tom do espetáculo, seguida por “Amanhã ou Depois” e “Eu Não Entendo”, aquecendo um público que rapidamente passou a cantar junto. Um dos momentos mais delicados veio com “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, clássico de Lô Borges reinterpretado com enorme sensibilidade.
Na sequência, “Sobre o Tempo” e “Notícia Boa” reforçaram o caráter contemplativo do repertório antes de a banda surpreender com uma vigorosa versão de “Gîtâ”, de Raul Seixas, recebida com entusiasmo pela plateia.
A reta final do show foi construída praticamente sem pausas. “Julho de 83” abriu caminho para “Você Vai Lembrar de Mim”, uma das músicas mais emocionantes da noite, seguida por um divertido medley entre “Vou Deixar Que Você Se Vá” e “Sonífera Ilha”, homenageando os Titãs.
O encerramento veio com dois dos maiores hinos da banda. “Camila, Camila” transformou o Espaço Unimed em um grande coro, enquanto “O Astronauta de Mármore”, adaptação brasileira de “Starman”, de David Bowie, fechou a apresentação em clima de celebração, comprovando que quatro décadas depois o Nenhum de Nós continua encontrando novas gerações dispostas a cantar cada verso.
Depois de um breve intervalo, foi a vez do Biquini assumir o palco. Formada em 1985, a banda carioca segue como uma das mais populares do rock nacional, acumulando sucessos que transitam entre o pop, o rock e influências da música brasileira. Se o Nenhum de Nós apostou na emoção, o Biquini respondeu com um show vibrante, repleto de interação e praticamente sem momentos de respiro.
A abertura com “Zé Ninguém” colocou o público em sintonia imediata com a banda. Em seguida, uma divertida versão de “Chove Chuva”, de Jorge Ben Jor, mostrou a versatilidade do grupo antes da sequência formada por “Uma Viagem”, “Janaína” e “Dani”, músicas que fizeram parte da trilha sonora de uma geração inteira.
O repertório continuou com “Vou Te Levar Comigo”, que apareceu tanto em sua versão original quanto em um interessante medley com “Quando Eu Te Encontrar”, seguido por “A Vida Começa Agora”, “Múmias” e “Roda Gigante”. Um dos momentos mais divertidos aconteceu quando “Vento Ventania” surgiu misturada a “Rootie & Boopsie (You Are My Sunshine)”, arrancando sorrisos e muita participação do público.
Na parte final da apresentação, vieram “Impossível”, “Meu Reino”, “Quanto Tempo Demora um Mês”, uma nova execução de “Vento Ventania”, “No Mundo da Lua” e uma bela releitura de “Carta aos Missionários”, da banda Uns e Outros, lembrando outra importante representante do rock brasileiro dos anos 1980.
Já nos momentos derradeiros, “Timidez” preparou o terreno para um dos trechos mais divertidos da noite. Em um medley que homenageou grandes nomes do rock nacional e internacional, o Biquini passeou por riffs de “Highway to Hell”, “(I Can’t Get No) Satisfaction”, “Smoke on the Water”, “Otherside”, “Seven Nation Army”, “Inútil”, “O Coro Vai Comê”, “Eu Quero Ver o Oco”, “É Uma Partida de Futebol”, “Paranoid”, “Money for Nothing” e “Back in Black”, transformando o Espaço Unimed em uma grande festa. Coube a “Tédio”, um dos maiores sucessos da carreira do grupo, encerrar a apresentação em alto nível.
O formato de “Clássicos do Rock” mostrou-se extremamente acertado ao reunir duas bandas que construíram trajetórias diferentes, mas igualmente importantes para o desenvolvimento do rock brasileiro. Enquanto o Nenhum de Nós emocionou pela profundidade de suas composições e pela interpretação impecável de seus clássicos, o Biquini entregou uma apresentação explosiva, repleta de sucessos, irreverência e muita interação com o público.
Mais do que uma noite de nostalgia, o espetáculo mostrou que essas canções continuam vivas. Jovens que conheceram as bandas pelas plataformas digitais dividiram espaço com fãs que acompanham suas carreiras desde os anos 1980, todos cantando as mesmas músicas com a mesma intensidade. Em tempos de mudanças constantes na indústria musical, Biquini e Nenhum de Nós provaram que repertório sólido, identidade artística e boas composições continuam sendo a melhor fórmula para atravessar gerações. O Espaço Unimed foi palco não apenas de dois grandes shows, mas da celebração de um patrimônio vivo do rock brasileiro.




