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Blessthefall e Memphis May Fire :::29/08/26 ::: Carioca Club
Postado em 02 de setembro de 2026 @ 12:24

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Blessthefall e Memphis May Fire fazem do Carioca Club um território de caos, nostalgia e metalcore

 

Com abertura do Reckoning Hour, noite em São Paulo reuniu gerações do gênero, colocou o Blessthefall em contato direto com a pista e marcou o aguardado retorno do Memphis May Fire ao Brasil após doze anos

Há shows em que o público acompanha o que acontece no palco e há outros em que essa separação praticamente deixa de existir. Foi a segunda situação que tomou conta do Carioca Club no último sábado, 29 de agosto, quando Memphis May Fire e Blessthefall passaram por São Paulo com a Shapeshifter World Tour. Com produção da Liberation, a noite ainda contou com a brasileira Reckoning Hour na abertura e encontrou uma casa bastante cheia para uma sequência de apresentações em que breakdowns, refrões coletivos, crowdsurfing e rodas de mosh fizeram parte do espetáculo tanto quanto as próprias músicas.

A dobradinha fazia sentido por muitos motivos. Blessthefall e Memphis May Fire surgiram em momentos próximos e ajudaram, cada um à sua maneira, a definir uma parcela importante do metalcore norte-americano que ganhou enorme repercussão a partir dos anos 2000. São bandas que aprenderam a trabalhar com o contraste entre agressividade e melodia, riffs pesados e refrões acessíveis, gritos e vocais limpos. Para boa parte de quem cresceu acompanhando aquela geração, portanto, a noite tinha uma inevitável carga de nostalgia. Mas o interessante foi justamente perceber que nenhuma das duas atrações parecia disposta a transformar o evento apenas em uma lembrança de tempos passados.

Para o Memphis May Fire, a passagem tinha um significado ainda mais evidente. O grupo retornava ao Brasil depois de doze anos e trazia na bagagem o álbum Shapeshifter, lançado em 2025 e responsável por boa parte do repertório apresentado nesta nova fase. O Blessthefall, por outro lado, havia reencontrado o público paulistano em 2024, também no Carioca Club, depois de uma longa ausência. Dois anos mais tarde, voltou à mesma casa em circunstâncias diferentes, agora dividindo uma turnê com uma banda que sempre transitou pelo mesmo universo musical.

Antes deles, porém, coube ao Reckoning Hour mostrar que o metalcore brasileiro tinha representação à altura da ocasião. A banda carioca, formada em 2012 e vivendo um novo momento com o lançamento de Mantra, em agosto, não tratou o espaço de abertura como mera formalidade. O grupo aproveitou o curto período disponível para preparar a pista, apresentar seu peso e colocar o público no estado de espírito necessário para o que viria depois.

Blessthefall transforma uma hora de show

em confronto direto com a pista

Às 18h30, o Blessthefall entrou em cena com uma missão ingrata. Tecnicamente era o convidado especial da turnê, mas em poucos minutos ficou claro que Beau Bokan e companhia não estavam interessados em desempenhar um papel secundário.

“You Wear a Crown But You’re No King” foi o primeiro golpe. A escolha de uma faixa de Hollow Bodies para abrir o repertório funcionou imediatamente, especialmente porque boa parte do público reconheceu os primeiros segundos e reagiu como se o show já estivesse acontecendo havia meia hora. Em vez de construir a intensidade aos poucos, o Blessthefall preferiu partir dela. “Cutthroat” veio logo depois e praticamente eliminou qualquer possibilidade de descanso.

“Hollow Bodies” reforçou a conexão com um dos discos mais celebrados da carreira, misturando o peso dos breakdowns com aquilo que sempre separou o Blessthefall de bandas simplesmente agressivas: a capacidade de colocar melodias enormes no meio do caos. “2.0” e “What’s Left of Me” mantiveram a viagem pela discografia, enquanto “Youngbloods” confirmou que o público não estava ali apenas para observar. A pista se movimentava quase continuamente e as rodas começaram a se tornar parte da dinâmica da apresentação.

O mais interessante no show do Blessthefall foi justamente a ausência de uma barreira emocional entre banda e plateia. Beau Bokan comandava a situação como alguém perfeitamente consciente de que, naquele tipo de apresentação, o vocalista não pode se limitar ao pedestal do microfone. Ele provocava o público, estimulava a movimentação e parecia buscar constantemente alguma reação da pista.

“Drag Me Under” e “mallxcore” trouxeram o repertório para a produção mais recente do grupo sem causar qualquer queda de temperatura. Esse talvez seja um dos melhores sinais para uma banda com tantos anos de carreira: as faixas novas não provocaram aquela espera educada pelo próximo clássico. Foram recebidas dentro da mesma lógica física do restante do show.

“Venom” manteve o ataque, antes de “Promised Ones” resgatar Awakening. A essa altura, o Carioca Club já estava transformado em um espaço de movimento quase permanente. Não havia muita margem para contemplação. A proposta do Blessthefall era outra.

Quando “Guys Like You Make Us Look Bad” apareceu, a viagem chegou até His Last Walk, primeiro álbum da banda. Era o tipo de escolha que naturalmente atingiria os fãs mais antigos e serviu para mostrar a amplitude de um repertório que percorreu diferentes fases sem parecer uma coletânea montada apenas para satisfazer a nostalgia.

“40 Days…” aumentou esse sentimento antes de “Wake the Dead” recolocar a fase atual em primeiro plano. O encerramento ficou por conta de “Hey Baby, Here’s That Song You Wanted”, de Witness, uma escolha praticamente perfeita para transformar a despedida em comunhão coletiva.

Foi justamente no fim que Beau Bokan levou ao limite a lógica que havia norteado toda a apresentação. O vocalista se lançou sobre a plateia e retornou ao palco carregado pelo público em crowdsurfing. Minutos antes, havia declarado o carinho por tocar no país e a cena final tornou qualquer discurso quase desnecessário. O Blessthefall tinha acabado de fazer um show de aproximadamente uma hora, mas pela intensidade parecia ter comprimido uma apresentação inteira dentro daquele período.

E deixou um problema considerável para quem viesse depois.

Memphis May Fire volta ao Brasil olhando para o passado sem viver dele

Pouco depois, às 19h50, o Memphis May Fire assumiu o palco. O retorno depois de doze anos já seria suficiente para garantir uma recepção calorosa, mas o grupo encontrou uma pista que havia acabado de passar por um verdadeiro teste de resistência.

A solução foi não tentar competir com o Blessthefall nos mesmos termos.

Enquanto a apresentação anterior foi marcada pela sensação de descontrole calculado, o Memphis May Fire apostou mais na construção do repertório e na precisão. Isso não significa menos peso. Significa apenas uma maneira diferente de chegar ao mesmo público.

“The Sinner” abriu o show resgatando The Hollow, de 2011. Foi uma escolha inteligente. Antes de apresentar a atual encarnação da banda, o Memphis May Fire ofereceu uma ligação imediata com sua história. “Vices”, de Challenger, manteve essa sensação, mas a nostalgia logo começou a dividir espaço com o presente.

“Paralyzed” e “Shapeshifter” estabeleceram de vez a fase atual. Ao vivo, o material recente mostrou por que ocupa tanto espaço no repertório da turnê. Há uma produção moderna, pesada e direta, construída para funcionar em grandes refrões e principalmente nos breakdowns, onde a pista encontra o momento ideal para explodir.

“Bleed Me Dry” abriu caminho para “Somebody” e “Misery”, todas de Remade in Misery, enquanto Matty Mullins alternava vocais limpos e agressivos com segurança. O Memphis May Fire mostrava que o intervalo de doze anos sem uma apresentação brasileira não havia transformado a banda em uma peça de nostalgia. Era um grupo apresentando com convicção aquilo que produziu recentemente.

“Left for Dead” e “The Other Side” continuaram o bloco antes de “Infection” e “Overdose” aprofundarem a presença de Shapeshifter. O repertório da noite, aliás, deixava essa opção bastante clara: das dezessete músicas executadas, oito pertenciam ao álbum de 2025 e outras seis a Remade in Misery. Ou seja, quatorze faixas vinham justamente dos dois trabalhos mais recentes.

Isso poderia frustrar quem esperava um show completamente voltado ao passado. Na prática, funcionou porque o público parecia igualmente disposto a abraçar a atual fase da banda.

“Make Believe”, “Versus” e “Love Is War” fecharam o primeiro bloco da apresentação, enquanto duas rodas de mosh surgiam em diferentes pontos da pista. Era uma configuração quase curiosa: dois pequenos epicentros de caos funcionando simultaneamente e ameaçando se encontrar a qualquer momento.

Mas ainda faltava o bis.

E foi nele que o Memphis May Fire encontrou um dos momentos mais emotivos da noite.

“Miles Away”, faixa de Challenger, apareceu novamente no repertório após um longo período fora dos shows e trouxe uma mudança evidente de clima. Depois de tanto impacto físico, a música permitiu alguns minutos de respiro e trouxe de volta aquela relação sentimental que boa parte dos fãs construiu com a banda mais de uma década atrás. Segundo a cobertura da noite, a faixa não era tocada ao vivo havia cerca de doze anos.

O descanso não durou.

“Blood & Water” devolveu imediatamente a brutalidade antes de “Chaotic” assumir a responsabilidade de fechar o show. E poucas músicas poderiam ter um título tão adequado ao que aconteceu naquele momento.

As rodas que haviam se formado anteriormente cresceram e a pista virou uma enorme circulação de corpos. O público correu, abriu espaço e transformou os minutos finais em algo que fugia completamente da ideia de simplesmente assistir a uma banda tocar. A música terminou, mas o verdadeiro encerramento estava acontecendo alguns metros à frente do palco.

No fim, a noite funcionou justamente porque Memphis May Fire e Blessthefall não entregaram o mesmo show duas vezes.

 
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