ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Bôa ::: 25/11/25 ::: Cine Joia
Postado em 28 de novembro de 2025 @ 02:14

Texto e fotos: Flávio Santiago

A passagem da banda britânica Bôa pelo Cine Joia, em São Paulo, foi daquelas noites que escancaram a força da música para atravessar décadas, plataformas e gerações sem perder a delicadeza. Um show que não se resumiu a uma simples visita nostálgica de uma banda cult dos anos 1990, mas apresentou um grupo em plena reconstrução, consciente do seu passado e curioso pelo próprio futuro.

Formada em Londres no início dos anos 1990, a Bôa sempre habitou uma zona de fronteira entre o alternativo, o indie e o etéreo. Nunca foi mainstream no sentido clássico, mas conquistou um estatuto mítico graças à canção “Duvet”, eternizada como tema de abertura do anime Serial Experiments Lain. A música, lançada originalmente em 1998, ganhou sobrevida décadas depois ao viralizar nas redes sociais, sobretudo no TikTok, apresentando a banda a uma nova geração que sequer era nascida quando “Duvet” começou sua trajetória. Esse redescobrimento global impulsionou o retorno do grupo às atividades  e, mais importante, abriu espaço para novos lançamentos e uma nova narrativa artística.

Antes da atração principal, quem subiu ao palco foi Ale Sater, em uma abertura que funcionou como perfeito prólogo emocional. Conhecido pelo trabalho como integrante da banda Terno Rei e também por sua carreira solo.

Ale apresentou um set intimista, guiado por canções melancólicas, arranjos delicados e letras que conversam com o silêncio. A escolha não poderia ter sido mais feliz: sua música criou o clima ideal para o que viria depois — introspecção, memória e sensibilidade à flor da pele. Sem exageros, foi uma abertura que não soou como obrigação de agenda, mas como parte da curadoria estética da noite.

Quando Jasmine Rodgers surgiu no palco ao lado de seus companheiros, a sensação no Cine Joia era de reencontro  mesmo para quem nunca havia visto a banda ao vivo. O público reagiu como se estivesse diante de algo raro, quase frágil demais para não ser absorvido em cada detalhe. A banda abriu com “Deeply”, um início acolhedor, atmosférico, deixando claro que aquela não seria uma noite de explosões fáceis, mas de construção emocional.

A sequência com “Whiplash”, faixa que dá nome ao álbum mais recente, já apontava o quanto a nova fase da bôa não vive da sombra do passado. Pelo contrário: as canções novas se sustentam com personalidade, densidade e segurança. “Beautiful & Broken”, “For Jasmine” e “Worry” formaram um núcleo dramático da apresentação, revelando uma banda madura, confortável com silêncios, camadas e fragilidades.

Entre os clássicos mais esperados, músicas como “Elephant”, “Fool”, “A Girl” e “Welcome” funcionaram como pontes afetivas. Cada uma arrancava reações diferentes do público — alguns mais eufóricos, outros visivelmente emocionados num espetáculo que parecia menos voltado ao aplauso imediato e mais à contemplação coletiva.

Um dos momentos mais tocantes da noite veio com “Frozen”, apresentada em versão acústica. Sem adornos, sem efeitos desnecessários, apenas voz e instrumentação mínima. A impressão era de que o Cine Joia havia encolhido de tamanho, transformando-se quase em uma sala de estar  o tipo de intimidade rara em shows de médio porte.

Mas a catarse estava reservada para o encore. Quando os primeiros acordes de “Duvet” ecoaram, o público reagiu de forma quase uníssona. O que se seguiu foi mais que uma execução musical: foi uma experiência compartilhada. A versão estendida permitiu que a plateia se apropriasse da música, cantasse cada verso como um mantra e devolvesse à banda toda a reverência acumulada em anos de culto tardio.

O encerramento com “Anna Maria” soou como despedida melancólica e elegante. Nada de explosões, luzes exageradas ou fogos — apenas a sensação de que algo raro havia acontecido, e que seria lembrado com carinho por muito tempo.

A noite no Cine Joia não entrou para a história apenas como mais um show internacional em São Paulo. Representou uma celebração tardia, porém merecida, de uma banda que sempre esteve entre dois mundos o da delicadeza e o da estranheza, o da nostalgia e o da reinvenção. A bôa saiu do palco não como uma banda ressuscitada por algoritmos, mas como um grupo reerguido por mérito artístico. E quem esteve lá, saiu com a sensação de ter visto algo que não se repete com facilidade: uma segunda chance dada não por saudade, mas por relevância.

SETLIST

Deeply
Whiplash
Get There
Beautiful & Broken
Seafarer
For Jasmine
A Girl
Strange Few
Welcome
Drinking
Frozen (Acoustic)
Angry
Worry
Elephant
Fool

Encore:
Twilight
Walk With Me
Duvet (Extended version)
Encore 2:
Anna Maria

 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025