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Boris e Siena Root ::: 30/11/25 ::: Fabrique Club
Postado em 14 de dezembro de 2025 @ 18:14

Texto e Fotos: Flavio Santiago

No domingo, 30 de novembro de 2025, o Fabrique Club, na Barra Funda, foi tomado por um público que sabia exatamente o que esperar: volume alto, imersão sonora e duas visões bem distintas de psicodelia pesada dividindo a mesma noite. A passagem conjunta de Boris e Siena Root por São Paulo não era apenas mais um show internacional no calendário  tinha cara de evento, daqueles que mobilizam nichos específicos e transformam a casa em território quase ritualístico.

O encontro entre as bandas chamava atenção justamente pelo contraste. O Siena Root, vindo da Suécia, representa uma linhagem de rock profundamente enraizada nos anos 1970, com forte apelo orgânico, groove constante e uma psicodelia construída mais na interação entre os músicos do que em explosões de volume. Já o Boris, trio japonês cultuado mundialmente, trabalha o peso como linguagem estética ampla: vai do drone ao sludge, do noise à melodia, sempre tratando o som como algo físico, quase palpável. Em 2025, o gancho da turnê era especial  a celebração dos 20 anos de Pink, álbum que se tornou um marco tanto na discografia da banda quanto na trajetória de muitos fãs.

A noite começou com o Siena Root, mas não sem percalços. Atrasos na programação comprimiram o tempo de apresentação da banda, que acabou ficando em torno de pouco mais de meia hora. Isso, inevitavelmente, impacta a recepção: parte do público ainda chegava, outra já administrava a ansiedade pela atração principal. Ainda assim, quando o som encaixou, o Siena Root mostrou por que é reconhecido como uma banda de estrada. O repertório  com faixas como “Tales of Independence”, “Organic Intelligence”, “There and Back Again”, “Keeper of the Flame”, “Wishing for More”, “Coming Home” e “Root Rock Pioneers”  funcionou como uma apresentação direta de sua proposta. O baixo e a bateria sustentavam um groove firme, enquanto guitarra e órgão se alternavam com naturalidade, criando uma sensação de banda tocando junta, sem pressa, sem exageros.

Havia ali uma psicodelia luminosa, quase clássica, que contrastava com o clima mais denso que se anunciava. O Siena Root soou coeso e competente, mas o encaixe estético com o que viria a seguir não era dos mais óbvios. Enquanto os suecos trabalham a repetição como balanço e fluidez, o Boris constrói suas músicas a partir de tensão, ruptura e extremos dinâmicos.

Faltou tempo para que o opening realmente conquistasse a sala, mas não faltou identidade.

Quando o Boris subiu ao palco, a atmosfera do Fabrique mudou de forma imediata. O trio tem uma presença que vai além da execução musical: cada faixa parece pensada como parte de um percurso, em que silêncio, ruído e explosão convivem com precisão quase cirúrgica. O foco no álbum Pink deu ao show uma unidade narrativa clara. A sequência inicial, com “Blackout” e “Pink”, já deixava evidente que não se tratava de uma simples celebração nostálgica, mas de uma reafirmação estética. O som era alto, denso, e ao mesmo tempo extremamente controlado.

Faixas como “Woman on the Screen”, “Nothing Special” e “Ibitsu” alternavam momentos de ataque direto com trechos mais tortuosos, criando um efeito de constante deslocamento. Na parte central do show, “Electric”, “A Bao a Qu” e “The Evilone Which Sobs” ampliaram a sensação de massa sonora, como se o volume não viesse apenas dos amplificadores, mas do próprio espaço sendo comprimido. Era o Boris em sua forma mais característica: pesado não apenas pelo peso, mas pela intenção.

O trecho final consolidou a entrega total do público. “Akuma no Uta”, “Just Abandoned Myself” e “Farewell” funcionaram como um mergulho ainda mais fundo nesse universo denso e hipnótico, mostrando por que a banda conquista até quem não conhece sua discografia a fundo. O encore com “Flood” fechou a noite em tom quase meditativo, longo e envolvente, reforçando a ideia de que, para o Boris, repetição também é narrativa e transe também é impacto.

O saldo da noite foi majoritariamente positivo. Ver o Boris se apresentar pela primeira vez no Brasil em casa cheia, com um repertório tão bem delimitado e conceitualmente forte, reforça a relevância da banda e a maturidade do público paulistano para experiências sonoras menos óbvias. Por outro lado, os atrasos e o pouco espaço concedido ao Siena Root deixaram a sensação de que o aquecimento poderia ter sido mais bem aproveitado, caso a logística tivesse colaborado.

Ainda assim, o que ficou foi o registro de uma noite em que duas tradições diferentes da psicodelia pesada dividiram o mesmo palco: uma mais solar, orgânica e enraizada no rock clássico; outra noturna, elétrica e construída como arquitetura de som. No Fabrique, quem dominou o ambiente foi o Boris —não por apagar o que veio antes, mas porque, quando decide transformar um disco como Pink em rito ao vivo, é difícil que qualquer outra coisa ocupe o mesmo espaço.

 
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