Texto e Fotos: Flavio Santiago
O C6 Fest chegou à sua quarta edição consolidado como um dos festivais mais interessantes do calendário brasileiro. Realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, o evento mais uma vez apostou em uma curadoria cuidadosa, reunindo artistas consagrados, novas apostas e nomes que dificilmente apareceriam nos line-ups dos grandes festivais de massa. Entre os dias 21 e 24 de maio de 2026, o público teve a oportunidade de transitar entre o jazz, o indie rock, a música eletrônica, a MPB, o folk e o rock clássico em uma experiência que privilegia a qualidade acima da quantidade.
O cenário do Ibirapuera continua sendo um dos grandes diferenciais do festival. Com seus palcos espalhados entre o Auditório Ibirapuera, a Arena Heineken e a Tenda MetLife, o evento mantém uma atmosfera confortável mesmo quando registra ingressos esgotados, como aconteceu no domingo desta edição. Nem mesmo a chuva intensa que marcou parte do fim de semana foi capaz de comprometer a experiência musical oferecida pelo festival.
Os dois primeiros dias foram dedicados ao Auditório Ibirapuera, espaço tradicionalmente reservado às apresentações mais contemplativas. O público acompanhou performances de artistas como Branford Marsalis Quartet, Julius Rodriguez, Brandee Younger, Anouar Brahem Quartet, Hermeto Pascoal Big Band e Knower.
Foi uma abertura que reafirmou o compromisso do festival com a diversidade artística e com a valorização de propostas musicais menos convencionais.
No sábado, o festival ganhou outra dimensão com a abertura dos palcos externos. Mesmo sob chuva e frio, o público ocupou os gramados do Ibirapuera desde cedo para acompanhar uma programação que misturava diferentes gerações e estilos. Um dos primeiros destaques veio com o Horsegirl. O trio norte-americano mostrou personalidade ao transformar referências noventistas de indie rock, noise pop e guitarras dissonantes em algo próprio. Canções como “Switch Over” e “Anti-Glory” revelaram uma banda jovem, mas extremamente segura de sua identidade artística.
Na sequência, o Wolf Alice realizou uma das estreias mais aguardadas do festival. A apresentação confirmou a reputação do grupo britânico como uma das forças mais relevantes do rock alternativo atual. Ellie Rowsell dominou o palco com uma performance intensa, alternando momentos delicados e explosões sonoras. Faixas como “How Can I Make It Ok?” e “Play The Greatest Hits” foram recebidas com entusiasmo por uma Tenda MetLife completamente lotada.
Enquanto isso, na Arena Heineken, Mano Brown e Rincon Sapiência apresentaram uma celebração elegante da cultura black brasileira. Revisitando o universo do Boogie Naipe, Brown mostrou um lado mais dançante sem abandonar os clássicos que ajudaram a construir sua trajetória com os Racionais MC’s. O público respondeu à altura, transformando o espaço em uma verdadeira festa.
O BaianaSystem assumiu o palco principal logo depois e entregou uma das apresentações mais explosivas do fim de semana. Com sua mistura de ritmos afro-brasileiros, música eletrônica e discurso político, o grupo liderado por Russo Passapusso colocou a multidão para dançar ao som de músicas como “Sulamericano”, “Lucro (Descomprimindo)” e “Playsom”. As participações dos tanzanianos Makaveli e Kadilida ampliaram ainda mais a força da apresentação.
Quando Matt Berninger entrou em cena, a atmosfera mudou completamente. O vocalista do The National apostou em uma apresentação intimista, melancólica e emocionalmente carregada. Entre músicas da carreira solo e clássicos de sua banda principal, protagonizou um dos momentos mais espontâneos do festival ao descer do palco durante “Terrible Love” para caminhar entre os fãs.
O encerramento da primeira noite ficou por conta do The xx. Após anos longe do Brasil, Jamie xx, Romy e Oliver Sim transformaram o frio do Ibirapuera em um encontro repleto de nostalgia. Clássicos como “Crystalised”, “Islands”, “Angels” e “Intro” dividiram espaço com faixas das carreiras solo dos integrantes. O resultado foi um show que transitou entre a introspecção e a pista de dança, lembrando ao público por que o trio britânico se tornou um dos nomes mais influentes do indie do século XXI.
O domingo começou movimentado e mostrou logo cedo por que seria o dia mais concorrido da edição. Magdalena Bay levou ao palco sua estética futurista repleta de elementos visuais, figurinos elaborados e referências à ficção científica. Apesar de algumas limitações técnicas na sonorização, o duo conseguiu envolver o público com sua proposta visual e musical.
Na sequência, Benjamin Clementine protagonizou um dos momentos mais emocionantes de todo o festival. Com uma voz monumental e acompanhado por uma orquestra formada exclusivamente por mulheres brasileiras, o artista britânico transformou sua apresentação em uma experiência quase espiritual. O silêncio respeitoso da plateia durante músicas como “Nemesis” evidenciou a força do espetáculo.
O encontro entre Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi mostrou como diferentes gerações da música brasileira podem dialogar de forma natural.
O peso percussivo da Nação Zumbi acrescentou novas camadas a clássicos dos Paralamas, criando uma apresentação que reuniu décadas de história da música nacional em um único palco.
A francesa Oklou foi uma das grandes surpresas da edição. Carismática e completamente conectada com o público brasileiro, transformou a Tenda MetLife em uma pista de dança repleta de atmosferas eletrônicas e momentos hipnóticos. Muitos consideraram sua apresentação uma das melhores de todo o festival.
Pouco depois, Lykke Li assumiu o palco com sua mistura de melancolia, romantismo e intensidade. Envolta por fumaça e iluminação minimalista, a cantora sueca conduziu o público por sucessos como “No Rest for the Wicked”, “Possibility”, “sex money feelings die” e o inevitável “I Follow Rivers”. A surpresa ficou por conta da interpretação de “Sozinho”, eternizada por Caetano Veloso, cantada integralmente em português e recebida com entusiasmo pela plateia.
O Beirut trouxe um momento de contemplação ao festival. Zach Condon apostou em uma apresentação elegante e introspectiva, destacando músicas como “Elephant Gun”, “Nantes” e “Postcards From Italy”.
Um dos momentos mais especiais ocorreu quando o músico interpretou “O Leãozinho”, de Caetano Veloso, em português.
Coube a Robert Plant encerrar o C6 Fest 2026. Ao lado do projeto Saving Grace e da cantora Suzi Dian, o ex-vocalista do Led Zeppelin mostrou uma faceta mais folk e acústica de sua trajetória.
Ainda assim, clássicos como “Ramble On”, “Friends”, “Four Sticks” e “Rock and Roll” garantiram momentos de pura celebração. O público lotou a Arena Heineken e até mesmo as áreas externas do parque para acompanhar aquele que se tornou um dos grandes momentos do festival.

Mais uma vez, o C6 Fest demonstrou que sua maior virtude continua sendo a confiança em sua curadoria. Mesmo enfrentando chuva, lama e alguns problemas pontuais de estrutura, o festival entregou quatro dias repletos de grandes apresentações e experiências memoráveis.
Em uma época em que muitos eventos apostam apenas em nomes gigantescos e fórmulas repetidas, o C6 segue provando que é possível construir um festival relevante valorizando a descoberta, a diversidade e a qualidade artística.





