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C6 no Rock ::: 22/08/2026 e 23/08/2026 ::: Pq Ibirapuera
Postado em 07 de setembro de 2026 @ 21:10

C6 no Rock transforma o Ibirapuera em uma grande viagem pela década de 1980

 

Primeira edição do festival reuniu Plebe Rude, Paulo Ricardo, Titãs, Paralamas do Sucesso, Ira!, Blitz, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá, Marina Lima e grandes homenagens a Rita Lee e Cazuza em dois dias dedicados a discos fundamentais do rock brasileiro

Texto : Simone Barbosa

Fotos: Santiago

Durante dois dias, o Parque Ibirapuera pareceu funcionar como uma máquina do tempo. Nos dias 22 e 23 de agosto, a primeira edição do C6 no Rock reuniu artistas, discos e canções que ajudaram a construir a identidade do rock brasileiro dos anos 1980. Mais do que colocar uma sequência de veteranos no mesmo palco, o festival partiu de uma ideia simples e eficiente: voltar aos álbuns. Em vez de apenas encadear sucessos, boa parte das atrações recebeu a missão de revisitar trabalhos completos, trazendo novamente à tona músicas que há décadas não apareciam nos repertórios habituais.

A escolha não poderia ter sido mais apropriada para 2026. Nada menos que quatro discos apresentados no sábado completaram quarenta anos: O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude, Rádio Pirata Ao Vivo, do RPM, Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e Selvagem?, dos Paralamas do Sucesso. No domingo, a mesma celebração chegaria a Vivendo e Não Aprendendo, do Ira!, e Dois, da Legião Urbana, enquanto a Blitz retornaria ao seminal As Aventuras da Blitz, de 1982, e Marina Lima mergulharia novamente em Fullgás, de 1984.

O resultado foi inevitavelmente nostálgico, mas reduzi-lo apenas à nostalgia seria perder parte do sentido da experiência. Muitas daquelas músicas continuam falando sobre repressão, desigualdade, juventude, sexo, relações afetivas, liberdade e desencanto. Outras envelheceram junto com seu público e adquiriram novos significados. Era possível encontrar no gramado quem viveu aqueles discos quando chegaram às lojas e também filhos acompanhando pais que tratavam cada refrão como parte de uma autobiografia coletiva. As estimativas publicadas sobre público variaram, com relatos apontando algo entre 15 mil e 20 mil pessoas ao longo do evento.

Plebe Rude abre o festival e mostra que o concreto continua rachando

Coube à Plebe Rude inaugurar o C6 no Rock às 14h15 de sábado, enfrentando o sol ainda forte sobre o Ibirapuera. Se o horário poderia sugerir um início protocolar, Philippe Seabra, André X, Clemente Nascimento e Marcelo Capucci trataram de transformar a abertura em uma descarga de punk rock brasiliense.

O Concreto Já Rachou continua impressionando pela quantidade de temas que permanecem reconhecíveis quarenta anos depois. “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Brasília”, “Sexo e Karatê”, “Censura”, “A Ida”, “Minha Renda”, “Proteção” e principalmente “Até Quando Esperar” soaram menos como peças de museu e mais como comentários de um país que mudou muito sem necessariamente resolver os problemas apontados pelo grupo em 1986.

Philippe Seabra chegou a deixar o palco durante “Proteção” e foi até o público, conectando a música a trechos de outros clássicos contestatórios daquele período, entre eles “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, e “Polícia”, dos Titãs. A cena praticamente resumiu o espírito do festival: aqueles discos nunca existiram isoladamente. Eles conversavam entre si e compartilhavam a mesma atmosfera de inquietação.

Paulo Ricardo prova que Rádio Pirata continua transmitindo

Se existia alguma dúvida sobre como o repertório do RPM funcionaria quatro décadas depois, Paulo Ricardo rapidamente encontrou a resposta. Acompanhado por uma banda capaz de reproduzir com eficiência os sintetizadores, guitarras e a estética grandiosa do grupo, o cantor assumiu sem cerimônia o papel de frontman.

“Revoluções por Minuto”, “Alvorada Voraz”, “Louras Geladas”, “A Cruz e a Espada”, “Olhar 43” e “Rádio Pirata” desencadearam um daqueles coros que independem de qualquer incentivo. Mais interessante, porém, foi a possibilidade de recuperar faixas menos óbvias, como “Estação do Inferno”, “Sob a Luz do Sol” e “Pr’esse Vício”.

Entre as coberturas consultadas, o show apareceu repetidamente entre os destaques do festival. Igor Miranda chegou a colocá-lo no primeiro lugar de seu ranking das apresentações do C6 no Rock, destacando justamente como Paulo Ricardo conseguiu escapar da condição de simples peça de nostalgia para comandar um espetáculo convincente.

Talvez esteja aí um dos méritos da proposta do festival. Quando se toca apenas uma coletânea de hits, a memória tende a transformar tudo em karaokê. Ao recuperar um disco inteiro ou um período específico, surgem imperfeições, surpresas, músicas esquecidas e detalhes que ajudam a explicar por que determinados artistas tiveram tanto impacto.

Cabeça Dinossauro continua monstruoso, mesmo quando o Titãs já é outra banda

Poucos discos brasileiros envelheceram com a violência de Cabeça Dinossauro. Quarenta anos depois, “Polícia”, “Bichos Escrotos”, “Estado Violência”, “Família”, “AA UU”, “Homem Primata” e “O Quê” continuam formando uma sequência brutal.

A apresentação dos Titãs, porém, talvez tenha sido a mais discutida do sábado. A formação atual com Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto obviamente não possui a multiplicidade vocal e instrumental do octeto que gravou o álbum. E justamente por ser uma obra tão ligada às diferentes personalidades da formação clássica, essas ausências ficaram ainda mais evidentes.

Algumas resenhas foram bastante duras e consideraram o espetáculo irregular. Outras destacaram sobretudo o valor emocional de ouvir aquelas canções novamente e a resposta do público, que cantou “Bichos Escrotos”, “Família” e outras faixas em volume suficiente para compensar algumas limitações do palco. “Flores”, já fora do álbum homenageado, apareceu no final como um último grande coro.

É justamente essa contradição que tornou o show interessante. O Titãs de 2026 obviamente não é o Titãs de 1986. Mas talvez tocar Cabeça Dinossauro quarenta anos depois também sirva para evidenciar isso. O disco permanece intacto. As pessoas, as bandas e o país não.

Paralamas transformam experiência em força

Se os Titãs evidenciaram as dificuldades de reconstruir o passado, Os Paralamas do Sucesso mostraram o outro lado da equação. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone são os mesmos três integrantes centrais que gravaram Selvagem?, circunstância praticamente única dentro da programação do festival.

A faixa-título abriu caminho para uma recuperação que incluía músicas pouco frequentes nos shows da banda, como “Teerã”, “O Homem” e “A Dama e o Vagabundo”, ao lado de peças fundamentais como “A Novidade”, “Alagados” e “Melô do Marinheiro”. Mesmo sem seguir necessariamente a sequência original do LP, o show colocou novamente em evidência a mistura de rock, reggae, dub e música brasileira que fez Selvagem? ampliar radicalmente os limites do grupo em 1986.

Depois do mergulho no álbum, os Paralamas puderam simplesmente liberar uma coleção de clássicos. “Lanterna dos Afogados”, “Aonde Quer Que Eu Vá”, “Uma Brasileira”, “Lourinha Bombril”, “Óculos” e “Meu Erro” transformaram a reta final em uma sequência praticamente impossível de combater.

O entrosamento de Herbert, Bi e Barone foi apontado por diferentes coberturas como um dos grandes trunfos do primeiro dia. Décadas de estrada fizeram daquela comunicação entre os três algo quase automático. Não surpreende que o show tenha aparecido entre os mais elogiados do festival.

Rita Lee encerra o sábado sem precisar estar fisicamente no palco

O primeiro dia terminou olhando para uma artista que jamais poderia ficar de fora de qualquer discussão séria sobre o rock brasileiro: Rita Lee.

Batizado de Meu Sonho é Ser Imortal, o espetáculo foi comandado por Beto Lee e reuniu Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Marina Sena, Miranda Kassin e Sandra Sá. Em vez de tentar encontrar uma substituta para Rita, a ideia foi justamente fragmentar sua obra em diferentes vozes, estilos e gerações.

Fernanda Abreu abriu caminho com “Saúde”, Sandra Sá levou sua personalidade a “Nem Luxo Nem Lixo”, Baby do Brasil passou por “Ando Meio Desligado” e “Mania de Você”, enquanto Marina Sena se destacou em “Doce Vampiro” e também se emocionou durante “Amor e Sexo”. Ao longo da apresentação surgiram ainda “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você”, “Esse Tal de Roque Enrow”, “Coisas da Vida” e “Jardins da Babilônia”.

No final, todas se reuniram para “Lança Perfume”. O espetáculo talvez não tenha tido a mesma unidade dramática que o tributo a Cazuza apresentaria na noite seguinte, mas funcionou justamente como demonstração da impossibilidade de aprisionar Rita Lee em uma única linguagem.

Ira! abre o domingo sem demonstrar vontade de envelhecer

O domingo começou novamente sob o sol com um dos shows mais fortes de todo o fim de semana. O Ira! abriu a segunda jornada mergulhando em Vivendo e Não Aprendendo, disco que contém boa parte das músicas responsáveis por transformar Nasi e Edgard Scandurra em nomes fundamentais do rock paulistano.

“Envelheço na Cidade” foi uma abertura perfeita. Vieram depois “Casa de Papel”, “Dias de Luta”, “Tanto Quanto Eu”, “Vitrine Viva”, “Flores em Você”, “Quinze Anos” e “Nas Ruas”. O álbum não foi rigorosamente apresentado de ponta a ponta porque “Pobre Paulista” segue fora dos repertórios atuais da banda devido à letra de caráter xenófobo.

Em compensação, o Ira! ampliou a apresentação com “Gritos na Multidão”, “Tarde Vazia”, “Flerte Fatal”, a cultuada “Rubro Zorro”, “Eu Quero Sempre Mais” e “Núcleo Base”.

Se Nasi continua sendo a personalidade que concentra os olhares, Edgard Scandurra segue fornecendo um dos maiores motivos para assistir ao grupo ao vivo. Sua guitarra continua nervosa, precisa e profundamente identificável. Foi mais uma apresentação em que o passado serviu de ponto de partida, não de muleta.

Blitz transforma o gramado em festa

Depois da tensão urbana do Ira!, a Blitz trouxe outra fotografia dos anos 1980. Com As Aventuras da Blitz, de 1982, Evandro Mesquita recuperou a irreverência teatral e colorida que ajudou a romper com a sisudez de boa parte do rock brasileiro daquela época.

“Geme Geme”, “Mais Uma de Amor” e “Você Não Soube Me Amar” mostraram imediatamente por que aquelas canções sobreviveram. Fernanda Abreu, integrante da formação original, reforçou ainda mais o efeito de reencontro ao participar de “Weekend”, “A Dois Passos do Paraíso” e “Você Não Soube Me Amar”.

Até uma enorme bola amarela com o nome da banda foi lançada sobre o público, transformando o gramado do Ibirapuera em uma brincadeira coletiva. Dentro de um festival dominado por discos que discutiam política, repressão, angústia e transformação social, a Blitz lembrava que os anos 1980 também foram debochados, hedonistas e absurdamente pop.

Dois transforma o Ibirapuera em um gigantesco coral da Legião Urbana

Talvez nenhum disco programado para o festival tivesse relação emocional tão intensa com o público quanto Dois, da Legião Urbana.

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subiram ao palco acompanhados por André Frateschi nos vocais. A presença de um cantor no lugar de Renato Russo sempre será uma questão delicada, e as resenhas consultadas divergem bastante sobre o resultado. Para alguns, Frateschi carregou maneirismos demais do antigo vocalista. Para outros, conseguiu justamente equilibrar homenagem e interpretação sem transformar a apresentação numa caricatura.

O repertório, porém, praticamente se encarregava do resto.“Daniel na Cova dos Leões”, “Quase Sem Querer”, “Acrilic on Canvas”, “Eduardo e Mônica”, “Tempo Perdido”, “Metrópole”, “Plantas Embaixo do Aquário”, “Música Urbana 2”, “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Índios” percorreram um álbum que continua impressionante pela quantidade de canções reconhecidas imediatamente pela plateia.

“Tempo Perdido” naturalmente virou um dos pontos de maior comunhão do fim de semana. Quarenta anos depois, ouvir milhares de pessoas repetindo “somos tão jovens” adquiriu uma ironia que provavelmente ninguém presente no lançamento do disco conseguiria imaginar.

“Há Tempos” e “Pais e Filhos” ampliaram o repertório depois de Dois, transformando o final em mais uma celebração coletiva.

Marina Lima oferece o momento mais elegante do domingo

Depois de tantos hinos feitos para cantar com os braços levantados, Marina Lima mudou completamente a atmosfera.

Fullgás, de 1984, permanece um disco sofisticado, sensual e musicalmente inventivo. Sua mistura de rock, pop, sintetizadores e música brasileira criou um caminho particular dentro daquela geração. O show também ganhou um significado adicional ao servir como homenagem a Antônio Cícero, irmão de Marina e parceiro fundamental na construção de sua obra, morto em 2024.

A faixa “Fullgás” abriu o espetáculo com Liminha, figura essencial na construção sonora do disco, novamente participando de sua execução. “Pé na Tábua”, “Mesmo Que Seja Eu”, “Veneno” e outras faixas mostraram como o álbum continua moderno justamente porque nunca dependeu exclusivamente da estética roqueira mais óbvia daquela geração.

Lobão apareceu em “Me Chama”, composição sua gravada por Marina, criando no palco um daqueles encontros que fazem sentido não apenas por nostalgia, mas pela própria história da música brasileira. Liminha completava a imagem de três personagens cujas trajetórias se cruzaram de inúmeras maneiras durante aquela década.

Talvez tenha sido o espetáculo mais diferente do restante da programação. Em vez de tentar competir em volume ou quantidade de hits, Marina mostrou que os anos 1980 brasileiros também produziram pop sofisticado, urbano e inquieto.

Cazuza encerra o festival lembrando que o tempo realmente não para

Se o sábado terminou com Rita Lee, o domingo precisava de outro personagem capaz de resumir contradição, liberdade e provocação. O escolhido foi Cazuza.

Todo Amor Que Houver Nessa Vida reuniu Arnaldo Antunes, Lobão, Maria Gadú, Johnny Hooker, Leo Jaime, Leoni e Frejat, acompanhado por uma banda construída especialmente para o espetáculo. Sob direção musical de Liminha, o repertório percorreu tanto a carreira solo quanto a fase do Barão Vermelho.

Arnaldo Antunes abriu com “O Tempo Não Para” e passou por “Malandragem”. Lobão assumiu “Vida Louca Vida” e “Ideologia”. Maria Gadú trouxe delicadeza para “O Nosso Amor a Gente Inventa” e principalmente “Quase um Segundo”. Johnny Hooker apareceu em “Codinome Beija-Flor” e “Por Que a Gente é Assim”, antes de dividir “Bete Balanço” com Leo Jaime.

Leo Jaime seguiu com “Maior Abandonado” e “Preciso Dizer Que Eu Te Amo”, enquanto Leoni assumiu “Exagerado” e “Solidão Que Nada”.

Mas era praticamente inevitável que a aproximação emocional atingisse seu auge com Frejat. Parceiro central da trajetória de Cazuza e companheiro de Barão Vermelho, ele transformou a reta final com “Blues da Piedade”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” e “Pro Dia Nascer Feliz”.

Quando todos voltaram ao palco para “Brasil”, o festival encontrou uma conclusão quase perfeita. Uma música lançada em 1988, carregada de ironia e desencanto, servia para fechar em 2026 uma celebração de uma geração que passou boa parte da carreira tentando entender o país.

Mais do que nostalgia

O grande acerto do C6 no Rock foi entender que celebrar o passado não precisa necessariamente significar congelá-lo.

É claro que a nostalgia foi o combustível principal. Boa parte da plateia estava ali para reencontrar discos, músicas e uma versão mais jovem de si mesma. Mas o formato das apresentações também mostrou algo mais interessante. Ouvir um álbum inteiro quarenta anos depois é diferente de escutar apenas seus três grandes sucessos.

Os hits provocam reconhecimento imediato. Os lados B provocam memória.

O C6 no Rock mostrou que nostalgia pode até ser o convite. Mas são as boas músicas que fazem alguém ficar até o final.

 
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