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Cap n Jazz ::: 08/11/25 ::: Cine Joia / SP
Postado em 20 de novembro de 2025 @ 22:39

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Demorou quase três décadas, mas aconteceu,  o Cine Joia, em São Paulo, viveu um daqueles momentos que soam históricos: o Cap’n Jazz, uma das bandas mais influentes e cultuadas do emo noventista, finalmente pisou em solo brasileiro. O show fez parte do aquecimento da Balaclava, e reuniu fãs de várias gerações para um encontro que foi tão emocional quanto intenso, misturando nostalgia, improviso e uma energia crua difícil de encontrar em tempos de shows milimetricamente calculados.

Formado em 1990 em Chicago, o Cap’n Jazz é a gênese de toda uma linhagem sonora que moldou o chamado Midwest emo. Com apenas um álbum de estúdio  Burritos, Inspiration Point, Fork Balloon Sports, Cards in the Spokes, Automatic Carbine, Music Contest Champions (1995)  e uma coletânea cult (Analphabetapolothology), o grupo dos irmãos Tim e Mike Kinsella se tornou uma lenda quase mitológica. E ver esses caras no palco, depois de tantos anos de espera, foi um choque de realidade e emoção para quem sempre achou que isso jamais aconteceria.

Logo que as luzes se apagaram e o riff dissonante de “Basil’s Kite” começou, o público explodiu. Era como se cada grito, cada empurrão na pista e cada sorriso fosse uma catarse coletiva. Em seguida vieram “In the Clear” e “Yes, I Am Talking to You”, consolidando o clima de urgência que definiria o resto da noite. O som era cru, direto, sem polimento — exatamente como se esperava de uma banda que sempre se orgulhou de soar como se estivesse prestes a desabar.

Entre uma música e outra, Tim Kinsella alternava brincadeiras, improvisos e até algumas provocações poéticas, enquanto Mike mantinha o pulso firme na bateria, equilibrando o caos com precisão cirúrgica. A plateia, composta por um misto de trintões nostálgicos e jovens que conheceram o Cap’n Jazz via YouTube e Spotify, respondia com intensidade, cantando até as faixas mais obscuras.

Com “The Sands Have Turned Purple” e “Ooh Do I Love You”, o grupo mostrou sua faceta mais melódica  mas sem jamais perder o senso de desordem emocional que os caracteriza. O público parecia flutuar entre o abraço e o moshpit. Quando “Tokyo” começou, os gritos se transformaram em coro; um momento quase espiritual para quem sabia que estava presenciando algo único.

Na sequência, “Olerud” e “Forget Who We Are” reafirmaram o quanto o Cap’n Jazz foi  e ainda é  um dos pilares do emo como gênero e atitude. Há algo quase infantil e ao mesmo tempo filosófico em como as músicas deles misturam ternura e colapso. “Bluegrassish” e “Little League” completaram esse bloco de maneira caótica, com a banda entregando tudo inclusive os erros, que pareciam parte do show.

Um dos pontos altos da noite foi “For Nate’s Brother Whose Name I Never Knew or Can’t Remember”, uma faixa do Owls, outro projeto dos Kinsella. Foi uma espécie de homenagem a todo o universo interligado que eles criaram ao longo das décadas  American Football, Joan of Arc, Owen, todos ecos de uma mesma estética da vulnerabilidade.

Na reta final do set principal, vieram “Precious”, “Planet Shhh” e “Oh Messy Life” — e o Joia virou um coro uníssono. As lágrimas e os sorrisos se misturavam. Havia quem chorasse, quem pulasse, quem apenas ficasse parado, absorvendo. O som não era perfeito, mas era honesto e talvez seja justamente isso o que o Cap’n Jazz sempre representou: a beleza do imperfeito, a força do inacabado.

O encore foi uma celebração em si. “Flashpoint: Catheter” manteve a energia lá em cima, seguida por uma versão debochadamente divertida de “Take On Me”, do -A-ha  que virou uma espécie de piada interna entre a banda e o público, misturando ironia e afeto.

Mas o clímax da noite veio mesmo com “Puddle Splashers”, um dos maiores hinos da banda. O refrão  gritado por centenas de vozes — transformou o Cine Joia em uma tempestade emocional. E o fechamento com “¡Qué Suerté!” foi a síntese perfeita do que aquela noite representava: sorte. Sorte por estarmos vivos, por ainda podermos ver o Cap’n Jazz ao vivo, por testemunhar uma das bandas mais importantes do underground americano em plena forma.

O show do Cap’n Jazz no Cine Joia não foi apenas uma performance musical foi uma experiência sensorial, quase espiritual. O som dissonante, as pausas desajeitadas, o humor nervoso de Tim Kinsella e o calor da plateia criaram uma noite que pareceu existir fora do tempo.

Mais do que nostalgia, foi uma reafirmação do que o emo significou: honestidade, descontrole e humanidade. A Balaclava acertou em cheio ao trazer esse encontro histórico, provando que o espírito do DIY, da experimentação e do coração exposto ainda têm lugar  e força no palco brasileiro.

Para quem viveu aquele momento, fica a certeza: o emo nunca morreu, ele apenas esperava o Cap’n Jazz chegar.

SETLIST

Basil’s Kite
In the Clear
Yes, I Am Talking to You
The Sands Have Turned Purple
Ooh Do I Love You
Tokyo
Olerud
Forget Who We Are
Bluegrassish
Little League
For Nate’s Brother Whose Name I Never Knew or Can’t Remember (Owls cover)
Precious
Planet Shhh
Oh Messy Life
Encore:
Flashpoint: Catheter
Take On Me (a‐ha cover)
Puddle Splashers
¡Qué Suerté!

GALERIA DE FOTOS :

 
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