Chapterhouse quita dívida com fãs brasileiros e faz show memorável no Cine Joia em São Paulo
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Há shows que funcionam como divulgação de um disco novo, outros como parte de uma turnê qualquer e existem aqueles que parecem corrigir uma pequena injustiça histórica. A estreia do Chapterhouse no Brasil, na noite de terça-feira, 29 de setembro, no Cine Joia, pertence claramente à terceira categoria.
Foram quase quatro décadas de espera desde a formação da banda em Reading, na Inglaterra, em 1987, e 35 anos desde o lançamento de Whirlpool, disco que ajudou a estabelecer o Chapterhouse entre os nomes essenciais da primeira geração do shoegaze britânico. Para boa parte das pessoas que lotaram o Cine Joia, portanto, não se tratava simplesmente de assistir a mais uma banda dos anos 1990. Era finalmente colocar imagem, volume e presença física em músicas que durante décadas chegaram ao Brasil apenas por discos importados, CDs, downloads, vídeos e histórias de quem acompanhou aquela cena à distância.
E talvez seja justamente isso que explique o clima especial da noite.
Muito antes do Chapterhouse aparecer no palco, havia uma sensação de reencontro no ar. Camisetas antigas, conversas sobre discos, gente procurando amigos no meio da pista e fãs de diferentes gerações dividindo o mesmo espaço. Alguns certamente conheceram a banda quando Whirlpool saiu, em 1991. Outros chegaram ao Chapterhouse muitos anos depois, quando nomes como Slowdive, Ride e My Bloody Valentine passaram por uma nova onda de reconhecimento e o shoegaze encontrou uma geração inteira que nem sequer havia nascido quando aquelas guitarras começaram a ecoar pelo Reino Unido.
A nostalgia estava presente, evidentemente, mas não como simples exercício de saudade. O que se viu no Cine Joia foi uma plateia genuinamente emocionada por finalmente ter aquelas músicas acontecendo diante dela.
Antes disso, coube ao terraplana preparar o terreno.
A escolha dos curitibanos para abrir a noite dificilmente poderia ser mais adequada. Uma das bandas mais interessantes surgidas dentro da nova geração brasileira do rock alternativo, o quarteto formado por Stephani Heuczuk, Vinícius Lourenço, Cassiano Kruchelski e Wendeu Silvério chegou ao Cine Joia em plena divulgação de natural, segundo álbum do grupo, lançado em março de 2025 pela Balaclava Records. O disco ampliou o universo apresentado anteriormente pelo terraplana, misturando shoegaze, slowcore, peso e melodias enevoadas sem simplesmente reproduzir os clichês associados ao gênero.
Existe ainda uma bela simetria em colocar terraplana e Chapterhouse na mesma noite. De um lado, uma banda brasileira contemporânea que absorveu décadas de rock ruidoso e atmosférico e encontrou sua própria linguagem. Do outro, um grupo que ajudou a escrever parte desse vocabulário mais de trinta anos antes.
O terraplana entrou em cena apresentando principalmente o universo de natural e mostrou por que deixou de ser simplesmente uma promessa da cena independente nacional. Mesmo enfrentando uma mixagem que em determinados momentos deixou os vocais excessivamente escondidos, a banda construiu suas tradicionais camadas de guitarras enquanto parte considerável do público demonstrava conhecer muito bem as músicas. Terminada a abertura, aumentava a ansiedade para resolver uma espera de décadas.
O Chapterhouse entrou praticamente no escuro com a instrumental “Ecstasy II”, enquanto Ashley Bates, atrás da bateria, parecia prolongar propositalmente aqueles poucos segundos antes da explosão. Então vieram as primeiras notas e tudo fez sentido.
A proposta da turnê Whirlpool 35 era revisitar integralmente o álbum de estreia do grupo, mas o que aconteceu no Cine Joia foi muito menos uma reprodução respeitosa de um disco clássico e muito mais uma demonstração de como aquelas músicas continuam funcionando quando submetidas novamente ao volume de um palco.
Com Andrew Sherriff e Stephen Patman dividindo guitarras e vocais e uma formação construída em torno de três guitarras, baixo e bateria, o Chapterhouse transformou o Cine Joia em uma enorme massa de reverberação, distorção e melodias que surgiam e desapareciam dentro do ruído.
“Breather” foi o primeiro grande choque de realidade.
Depois de esperar tantos anos, o público enfim estava ouvindo aquilo ao vivo.
Pouco depois veio “Pearl”, provavelmente a música mais conhecida do grupo e um dos grandes momentos da apresentação. A faixa originalmente contou com Rachel Goswell, do Slowdive, nos vocais de apoio, mas naquela noite não foi necessário procurar uma substituta. O próprio Cine Joia assumiu a função. Centenas de vozes acompanharam a música enquanto braços se erguiam pela pista.
Era possível perceber pessoas cantando de olhos fechados, sorrindo para desconhecidos e simplesmente tentando absorver aquilo que estava acontecendo.
“Autosleeper” e “Treasure” diminuíram ligeiramente a velocidade antes de Andrew Sherriff anunciar uma pequena brincadeira conceitual: o lado A havia terminado. Era hora de virar o disco.
Num tempo dominado por streaming e playlists, poucas frases poderiam combinar tanto com aquela noite.
O lado B começou com “Falling Down”, trazendo novamente o impacto das guitarras, seguido por “April”, “Guilt”, “If You Want Me” e “Something More”. A execução integral de Whirlpool deixava claro como o disco sempre foi mais complexo do que a simples definição de shoegaze pode sugerir. Existe psicodelia, pop, ritmo, influência de música eletrônica e uma pulsação que impede as músicas de se transformarem apenas em contemplação. As guitarras formavam uma parede sonora, mas havia movimento dentro dela.
Nem tudo foi perfeito tecnicamente. Em alguns momentos, a própria quantidade de guitarras e frequências produziu um som excessivamente embolado no Cine Joia. Vozes desapareceram dentro da mixagem, médios se acumularam e pequenas microfonias apareceram durante a apresentação. Ainda assim, quando todos os elementos se encaixavam, o resultado era exatamente aquilo que os fãs passaram décadas imaginando: o Chapterhouse tocando alto, cercado por ruído e fazendo aquelas canções respirarem novamente.
Encerrado Whirlpool, qualquer banda poderia simplesmente agradecer e ir embora.
O Chapterhouse ainda tinha muito a dizer.
“Precious One”, “Then We’ll Rise”, “Come Heaven”, “In My Arms”, “Greater Power” e “Love Forever” expandiram a apresentação para além do álbum aniversariante e transformaram a segunda metade do show em uma pequena retrospectiva da carreira. Era uma forma de lembrar que, embora Whirlpool seja naturalmente o centro das atenções, a história do Chapterhouse não termina naquele disco.
E conforme o show avançava, também ficava evidente que a relação entre palco e plateia havia surpreendido os próprios músicos.
Mais de uma vez eles agradeceram pela recepção. Havia sorrisos constantes e aquela expressão típica de quem aparentemente tinha subestimado o tamanho do carinho que encontraria do outro lado do Atlântico. Isso ficou ainda mais evidente no bis.
Ashley Bates voltou primeiro ao palco, pegou o microfone e resumiu sua reação diante do público brasileiro com um espantado “What the actual fuck?”. Não parecia frase ensaiada. Parecia exatamente a reação de alguém tentando entender por que centenas de pessoas estavam comemorando aquelas músicas com tamanha intensidade.
“Mesmerise” abriu o retorno e trouxe outro dos momentos mais celebrados da noite. Depois veio “Need (Somebody)”, recuperando uma fase ainda anterior a Whirlpool e fechando o círculo de maneira quase perfeita.
Quando as luzes finalmente se acenderam, havia algo maior do que simplesmente a satisfação de ter assistido a um bom show. O Chapterhouse tinha quitado uma dívida antiga com o Brasil.
Não uma dívida criada pela própria banda, evidentemente, mas pelo tempo, pela geografia e por uma época em que grupos alternativos britânicos podiam construir públicos apaixonados por aqui sem jamais chegar perto de um palco brasileiro.
Trinta e cinco anos depois de Whirlpool, aquelas canções finalmente encontraram os fãs que passaram décadas esperando por elas.
Talvez por isso a noite tenha adquirido um caráter quase afetivo. Na pista estavam pessoas que envelheceram junto com aqueles discos e jovens que descobriram o Chapterhouse muito depois de seu primeiro encerramento. Gerações diferentes cantando as mesmas músicas, enquanto cinco músicos ingleses claramente tentavam entender como canções gravadas do outro lado do mundo décadas atrás haviam criado vínculos tão profundos.
Chapterhouse – Cine Joia, São Paulo – 29/09/2026
Setlist
Ecstasy II
Whirlpool
Breather
Pearl
Autosleeper
Treasure
Falling Down
April
Guilt
If You Want Me
Something More
Precious One
Then We’ll Rise
Come Heaven
In My Arms
Greater Power
Love Forever
Bis
Mesmerise
Need (Somebody)






