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D.R.I / Ratos de Porão ::: 22.03.2026 ::: Cine Joia/ SP
Postado em 31 de março de 2026 @ 01:22

Texto : André Alves

Fotos: Daniel F. Rocha

D.R.I e Ratos de Porão: Ícones do Crossover se apresentaram juntos em show no último domingo no Cine Joia em São Paulo

O que são quatro décadas? O que mudou no Mundo nesses últimos quarenta anos? Bom, são perguntas com amplas possibilidades de repostas, mas uma coisa é fato; os americanos do D.R.I (Dirty Rotten Imbeciles) e os brasileiros do Ratos de Porão seguem firmes e fortes tocando seu crossover mundo afora há mais tempo que isso. E eis que os icônicos quartetos do underground fizeram uma serie de shows juntos nessa mais recente passagem dos texanos pelo Brasil, que contou com 5 datas; 17, 19, 20, 21 e 22 de março, em Porto Alegre/RS (apenas o D.R.I.), Curitiba/PR, Rio de Janeiro/RJ, Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP respectivamente, sendo aquele prato mais que cheio para os apreciadores do Punk/Hardcore/Thrash Metal, ou simplesmente crossover, estilo esse que teve como seus precursores justamente D.R.I e RxDxP.

E o público da capital paulista mais uma vez não perdeu a chance de prestigiar essas duas lendas, praticamente lotando o Cine Joia no último domingo em evento que ainda contou com duas bandas de abertura, sendo a primeira delas o Imflawed de Recife/PE, trio de Thrash Metal na ativa desde 2027, com fortes influências que vão de nomes como Sepultura e Napalm Death a Chico Science e Nação Zumbi, mostrando a veia mais tribal e regional do grupo.

Atualmente formada por Tuca Santos (Vocal e guitarra), Marcos Luz (bateria) e Martin Pent (baixo), a banda fez uma apresentação direta e coesa, contando já com uma boa presença de público ainda antes das 18 horas e uma qualidade de som muito digna se comparado como normalmente costumam ser os shows de abertura. Cerca de meia horade pura energia e disposição no palco e um repertório basicamente calcado em seu primeiro álbum The Dark Ages de 2023, que teve como destaque pedradas como “Dommination”, uma digna versão de “Slave New World” do Sepultura e “Fuck Your Pride”, essa última antecedida de protestos do comunicativo vocalista contra o fascismo e o ex-presidente da República atualmente preso, foi a deixa para os primeiros gritos gerais da noite de “hey Bolsonaro vai tomar no cu”. Recado dado, boas impressões devidamente deixadas por parte do jovem trio que saiu merecidamente aplaudido do palco.

30 minutos foi o tempo necessário para tudo estar pronto para o Questions de São Paulo/SP entrar em cena para mostrar seu Hardcore, com mais de 25 anos de estrada e diversos shows na Europa no currículo, a banda atualmente formada por Edu Andrade “Revolback” (vocal), Eduardo Sasaki (bateria/vocal) e Pablo Menna (guitarra) e Alexandre Bezerra (baixo, One True Reason) é um dos nomes mais respeitadas do underground brasileiro e fez um show digno de seu nome na cena.

A exemplo da banda anterior o som permaneceu muito bom e a presença do público não parava de aumentar no momento em que o quarteto dava sua aula de Hardcore no palco, bem curta é verdade (também 30 minutos), mas o suficiente pra agradar aqueles que já acompanham as apresentações do grupo nos diversos picos underground de São Paulo, bem como aqueles que os viam pela primeira vez dar uma breve pincelada em sua respeitada discografia, com temas já bem conhecidos do público como “Born and Raised”, “The Same Blood”, “Union and Respect” e “SPCH” que agitaram as rodas na pista do Cine Joia, mesclados a temas de seu mais recente álbum “Todxs” de 2025, com destaque para “Oliva”, segundo o guitarrista a música fala dos tempos difíceis durante a pandemia, mais uma deixa para gritos gerais de “hey Bolsonaro vai tomar no cu” por parte do público. Se tratando de Hardcore e underground, o Questions sempre será uma banda que vale muito a pena ser vista ao vivo e a recepção por parte do público mostrou isso.

A programação seguia pontual, e novamente apenas 30 minutos foram suficientes para tudo estar pronto para a atração seguinte, e as 19:40, exatamente no horário anunciado, era vez do Ratos de Porão mostrar a que veio.

Falar dessa que é uma das mais importantes bandas do nosso cenário é chover no molhada, mas como sempre, nem tudo são flores na jornada desses caras, a banda passou por situações bem difíceis nos últimos dias, sendo a primeira delas uma fratura em um dos dedos da mão esquerda sofrida pelo guitarrista e fundador da banda Jão no dia 4 de fevereiro, o que obviamente o deixou de fora desses shows (esperamos que volte logo!), sendo substituindo por Maurício Nogueira, guitarrista conhecido pelo trabalho em bandas como; Matanza, Matanza INC, Krisiun, Torture Squad, entre outras, e que se entrosou muito bem aos demais Boka (bateria), Juninho Sangiorgio (baixo) e João Gordo (vocal), esse último teve um contratempo na volta do show de Belo Horizonte para São Paulo na manhã do domingo, quando funcionários do aeroporto internacional de Belo Horizonte/Confins encontraram pouco menos de 5g de haxixe e maconha em sua bagagem, nada demais, assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e foi liberado logo em seguida, tendo como único grande transtorno o prejuízo financeiro por ter perdido o voo, além é claro, as notícias esdruxulas nos principais meios de comunicação que basicamente, simplesmente noticiaram; “João Gordo é detido com porte de drogas em aeroporto”, Gordo ainda relatou ter sofrido desinteria e ter acordadocom febre.

Como rotina em seus mais de 40 anos de estrada, a banda encarou essas adversidades, quem os viu em cima do palco sem se atentar as notícias nem imaginaria que qualquer problema havia ocorrido com os caras nesses últimos dias, pois como sempre deram uma verdadeira aula de como um show visceral de Punk/Hardcore/Crossover deve ser; foram 50 minutos cravados de uma performance no mínimo insana, começando com “Alerta Antifascista”, tema de seu último álbum “Necropolítica” de 2022, para logo de cara Gordo lembrar de forma bem humorada dos perrengues sofridos na manhã daquele domingo. E o que se viu na sequência foi simplesmente uma avalanche de clássicos eternos do Punk/Hardcore brasileiro, pérolas como “Igreja Universal”, “Máquina Militar”, “Amazônia Nunca Mais” e “Expresso da Escravidão” quase fizeram abrir um buraco no chão do Cine Joia com as rodas a todo vapor.

O setlist ainda contou com alguns temas não tão comuns no repertório atual como “Colisão”, “Descanse em Paz” e “Não me Importo” pra dar uma variada interessante. Mas é incrível ver como pedradas atemporais como “Morrer”, “Beber até Morrer”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Pobreza”, “Caos” e “AIDS, Pop, Repressão”não envelhecem e continuam soando atuais e viscerais, sendo cantadas e agitas por diferentes gerações, aliás, o encontro de diferentes gerações foi um ponto interessante de se notar nesse show. Ficou aquele gostinho de “quero mais” após a banda deixar o palco, não que 50 minutos de duração para um show desse estilo seja exatamente um tempo muito curto,mas a performance da banda fez com que parece ser menos da metade do tempo, fazendo valer o ditado popular “tudo que é bom dura pouco”.

O curto intervalo entre uma banda e outra até então não se manteve e com perdoáveis 25 minutos de atraso com relação ao horário anunciado (21:00) o D.R.I pisou no palco do Cine Joia diante de um público ansioso e a animado em ver a lenda do Crossover ao vivo, atualmente formada pelos fundadores Kurt Brecht (vocais) e Spike Cassidy (guitarra), acompanhados de Greg Orr (baixo) e Danny Walker (bateria). As primeiras músicas foram intercaladas com algumas pequenas pausas para ajustes técnicos, o que de certa forma não deixou o show fluir como pede o estilo de som, mas quando conseguiam engatar uma sequência de músicas a magia no recinto acontecia e os fãs respondiam a altura agitando com varias rodas na pista do Cine Joia com clássicos como “I’d Rather Be Sleeping”, “Probation” e “Who Am I”, mas era nítido que a banda não estava 100% confortável, seja por questões técnicas no palco ou pelo próprio desgaste compreensível da turnê.

A partir do momento em que tecnicamente tudo parecia ter se estabilizado, clássicos eternos como “Acid Rain”, “Violent Pacification”, Syringes in the Sandbox” e “Thrashard” ditaram o bom ritmo do show até então, após essa última, mais uma pausa para ajustes
no som da guitarra. A exemplo do show do RxDxP, foi muito legal notar o encontro de diferentes gerações curtindo músicas que sobreviveram bravamente ao tempo, no caso do D.R.I ainda mais, já que bem diferente dos brasileiros os caras lançaram apenas um EP com 4 músicas (But Wait… There’s More!, 2016) desde seu último registro de inéditas “Full Speed Ahead” de 1995, sendo assim, praticamente tudo que foi executado tem a “etiqueta” de clássico.

Um detalhe peculiar do show aconteceu nas pausas; mais alguns gritos de “hey Bolsonaro vai tomar no cu” e uma bandeira da Palestina sendo erguida por um fã, com Kurt Brecht visivelmente sem entender muita coisa… Detalhes peculiares a parte, o final do show foi composto por mais algumas perolas pra nenhum fã da nova e da velha geração botar defeito; “Nursing Home Blues”, “Abduction” e “The Five Year Plan”, essa última um desfecho em grande estilo para uma despedida do palco no mínimo um pouco fria e estranha; A banda agradeceu discretamente, Kurt Brecht rapidamente guardou seu microfone em uma mochila que já estava em um canto do palco e… FIM.

Obviamente que isso não é algo relevante para o fã que apreciou um repertório recheado de músicas que ajudaram a moldar um estilo ao longo das últimas 4 décadas, em um show que durou mais de uma hora e meia (muito por conta das pausas para ajustes é verdade), problemas técnicos e uma banda que aparentemente não estava em seus melhores dias não foram e não seriam motivos pra estragar a apresentação dessa verdadeira lenda do crossover chamada D.R.I.

 
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