Texto por: Vagner Mastropaulo
Fotos: Flavio Santiago
Em noite comemorativa, sobrou emoção em homenagem a Tomas Lindberg!
A mais recente passagem do DarkTranquillity por São Paulo havia sido no Sun Stage do Summer Breeze Brazilem abril/24, mais precisamente num sábado em que lutaram para superar problemas técnicos e entregaramperformance heróica com o guitarrista Jonathan Thorpenberg substituindo Peter LyseKarmark – como fizera em duas datas na Turquiae por todo o giro latino-americano. Retornando à cidade e ao Carioca Club (onde tocaram em junho/10), os suecosvieram promover a The CharacterGallery Tour, como o nome sugere, focandonos álbuns The Gallery (95) e Character (05).
Sem banda de abertura e com quatro minutos de atraso em relação ao horário divulgado de 20:00, MikaelStanne (vocal), o citado Peter LyseKarmark e Johan Reinholdz (guitarras), Christian Jansson (baixo), Martin Brändström (teclados) e JoakimStrandbergNilsson (bateria)deram as caras sem intro ao melhor estilo voadora no lustre e ajudou bastante PunishMyHeaven possuir um coro, tiro sempre certeiro em platéias brasileiras. E se a proposta era celebrar os plays mencionados, a tarefa foi facilitada ao extremo pela apaixonada resposta dos fãs, confortavelmente enchendo a casa e aplaudindo o sexteto de prontidão.
Agradecido, o frontman pediu a palavra: “Caramba, São Paulo! Puta merda! Olhem para vocês! Como estão? Bem? Bem-vindos a este show em que celebramos um álbum de trinta anos chamado The Gallery. Depois avançaremos dez anos adiante para um álbum de vinte anos chamado Character. E então, depois disso, tocaremos um monte de músicas que vocês já conhecem. Tudo bem? Parece um bom acordo? Fantástico! Vamos nessa, cara!” – e mandaram Edenspring.
A
princípio contando apenas com Martinno palco, o arranjo inicial deLethenos teclados substituiu o dedilhado registrado em estúdio e,sobre o músico, aliás, umacuriosidade: ele era o único no line-up a efetivamente ter gravado algum dos dois álbuns daturnê e, mesmo assim, participou somente de Character – exceção óbvia a Mikael, que novamente sentiu a necessidade de se comunicar: “Vocês são sensacionais! Muito obrigado! Estou realmente orgulhoso e feliz por vocês conhecerem essas músicas antigas! Lembrem-se: elas saíram em 1995! Eu me lembro de receber e-mails de vocês aqui do Brasil dizendo: ‘Por que vocês não vêm ao Brasil para tocarem aqui?’”.
Ele retomou: “E nos levou muitos e muitos anos desde os e-mails… Então estou muito feliz que conseguimos vir e tocar algumas músicas para vocês. Obrigado! E algumas destas músicas, na verdade, nunca as tocamos, nem na Europa. Simplesmente nunca as fizemos, seja lá por qual razão. Não me lembro do porquê, talvez elas fossem difíceis demais, não sei. Simplesmente nunca as tocamos… Até agora! Esta é minha música favorita no álbum The Gallery e ela se chamaThe EmptinessFromWhich I Fed”, um autêntico esporro seguido de The DividingLine, a derradeira do full-length no repertório, intrincada e soando atual, provando que o play sobreviveu ao teste do tempo.
Sem qualquer tipo de intervalo, The New Build surgiu com uma ambientação rolando ao fundo enquanto o grupo temporariamente desaparecia do campo de visão. Ainda no escuro, mal se notava a troca do backdrop com a capa de The Gallerydando lugar à de Character eoalto nível se manteve com o encorpado death metal melódico pelo qual o conjunto é famoso. Inaugurado o disco, se saíram com OneThought, The EndlessFeed, ThroughSmudgedLenses e MyNegation, esta de partida sem o vocalista no palco e mais “acessível”, dentro dos padrões estabelecidos pelo próprio DarkTranquillity. E com a galera gritando o nome da banda em alto e bom som, Mikael esbanjou sinceridade:
“Sentimos muito a falta de vocês. É tão bom vê-los aqui. Obrigado por isso! Certo, tocamos umas músicas antigas, obscuras e que nunca tocamos antes. Esta próxima, também do Character, nós sempre tocamos! Ela soa bem e se encaixa perfeitamente porque vocês são lindamente insanos, apaixonados pra cacete, dedicados e amamos vocês por isso! Isso significa, é claro, que vocês não estão perdidos para a apatia”, aludindo à clássica LostToApathy, possivelmente a mais conhecida até então e encerrando a parte especialmente comemorativa do set.
Do mais recente registro em estúdio, EndtimeSignals (24), a partir de The LastImagination não houve mais bandeirões ao fundo e o telão ganharia importância ajudando a compor a atmosfera da noite. Therein foi outra mais palatável para ouvidos mais sensíveis e com destaque para três palavras do refrão projetadas às costas de Joakim: “solid”, “everchanging” e “different”. De uma mais lenta a uma acelerada, Unforgivable foi a mais curta no geral dentre as autorais.
Atoma foi reconhecida de imediato, evidenciou experimentos com traços de música eletrônica e ficou visualmente linda com imagens projetadas no telão e completadas pela mesma arte em três “televisões” nacasa: uma em cada lateral e outra ao fundo da pista. Sucesso de público, ela foi a única a contar com palavras de Stanne durante a execução de uma música com um pedido direto: “São Paulo, deixem-me ver suas palmas!”. Encerrando o repertório regular, fizeram NotNothing e Terminus (Where Death IsMostAlive) e partiram provisoriamente com um discurso simples: “São Paulo, muito obrigado! Boa noite!”.
Para o encore, vieram com PhantomDays e o frontman era pura alegria: “Puta merda, São Paulo! Vocês são incríveis! Mais uma vez, muito obrigado por virem numa noite de domingo como esta e curtirem conosco. Foi um prazer absoluto! Tenho a sensação de que temos mais para vocês. Estão prontos? Podem nos ajudar? Certo, é a última, vamos nessa. Ela se chama Misery’s Crown”. Da felicidade extrema de Mikael, sua vibe deu uma guinada de cento e oitenta graus rumo à seriedade:
“Estão são as músicas que temos para hoje. Mas também queremos fazer algo especial para vocês esta noite. Em setembro do ano passado, todos nós perdemos um dos maiores em todos os tempos. A razão pela qual começamos a tocar death metal e o motivo pelo qual há uma cena em Gotemburgo:TompaLindbergfoi uma lenda, um cara sensacional e um dos meus amigos mais antigos. Ele basicamente me ensinou tudo sobre: ser humilde;ser um cantor de death metal; e estar no palco”.
Ele concluiu: “Sem ele, não haveria o DarkTranquillity… Então queremos prestar um tributo a nosso amigo aqui com vocês de forma que vocês possam passar pelo luto conosco, mas também celebrar sua vida e suas conquistas. Podemos tocar juntos? Certo, repitam: ‘We are blindtothe worlds withinus /Waitingtobeborn’”, nada mais nada menos do que os versos iniciais da seminal BlindedByFear do At The Gates, que tocara no mesmo Carioca Club fechando o Setembro Negro da edição de 2018. Até onde conseguimos contar, a tocante homenagem contou comvinte e três trocas de fotos (algumas repetidas) de Tomas nos telões por todo o clássico extraído do maravilhoso SlaughterOf The Soul (95).
Durante a outro, The Flames Of The End, também do At The Gates, Mikael sentiu a emoção bater mais forte e não segurou as lágrimas, sendo o último a partir beirando uma hora e quarenta e nove minutos de uma senhora apresentação. Sendo justo, ele não chegou a chorar tanto quanto em sua mais recente vinda a São Paulo à frentedo CemeterySkyline [https://onstage.mus.br/website/cemetery-skyline-hangar-110-16-09-25] no Hangar 110 em 16/09/25, exatamente a data de falecimento de Tomas “Tompa” Lindberg e com Stanne deixando o palco aos prantos ao homenagear seuparceiro e mentor.
Sentimentos aflorados à parte, a atuação do DarkTranquillityfoi o modo prefeito para começar a cobertura de shows em 2026, ao menos da parte deste escriba. E sete de seus treze discos foram representados, sendo: seis músicas de Character; cinco de The Gallery; três de EndtimeSignals; duas de Fiction (07); e uma de Projector (99), Atoma (16) e Moment (20) – além do cover do At The Gates. Que noite!
Setlist
The Gallery (95)
01)PunishMyHeaven
02)Edenspring
03)Lethe
04) The EmptinessFromWhich I Fed
05) The DividingLine
Character (05)
06) The New Build
07)OneThought
08) The EndlessFeed
09)ThroughSmudgedLenses
10)MyNegation
11)LostToApathy
Músicas De Outros Álbuns
12) The LastImagination
13)Therein
14)Unforgivable
15)Atoma
16)NotNothing
17) Terminus (Where Death IsMostAlive)
Encore
18)PhantomDays
19)Misery’s Crown
20)BlindedByFear [At The Gates]
Outro: The Flames Of The End [At The Gates]




