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Death Before Dishonor / Ladrones ::: Burning House ::: 10/10/2025
Postado em 27 de outubro de 2025 @ 15:01

Hardcore e reinvenção na Burning House em São Paulo

Texto e Fotos por : Flavio Santiago 

A sexta-feira, 10 de outubro, parecia mais uma noite de chuva e caos paulistano. Mas para quem respira hardcore, a data marcava algo especial: o retorno do Death Before Dishonor, lenda de Boston e nome essencial do moshcore dos anos 2000, ao Brasil após 15 anos. O show, organizado pela NDP Productions, prometia nostalgia e peso. Só que, no fim das contas, a noite contou uma história diferente — e quem saiu vitorioso foi o Ladrones, direto do México, que literalmente tomou o palco e o coração da plateia

O Burning House começou a pulsar cedo. O primeiro a subir foi o Odeon, do Rio de Janeiro, trazendo o que chamam de Bailão: uma mistura de metalcore, trap e funk, com grooves e breakdowns de pista de baile. A sonoridade híbrida pegou o público de surpresa, mas a banda compensou qualquer estranhamento com presença de palco absurda. Integrantes desceram para o meio da galera, dançaram, cantaram, e transformaram o espaço num ensaio aberto de como fazer o hardcore se expandir sem perder a alma.

Em seguida, o palco foi tomado pelo Worst, e aí sim o clima ficou hostil — no bom sentido. A banda paulistana mostrou por que é um dos pilares do hardcore nacional moderno: soco direto, riffs cortantes e vocais raivosos.

Thiago “Monstrinho” comandou o público como um maestro do caos, alternando porradas de discos antigos como Instinto Ruim, Cada Vez Pior e Deserto com faixas da fase mais recente em inglês, como “Draining Me” e “Flesh”. Em “Vencedores”, o microfone foi para a galera, num daqueles momentos que resumem a filosofia do gênero: todos por um, um só grito.

Se até ali o público parecia economizar energia, bastou o Ladrones entrar para a casa virar um vulcão. O coletivo mexicano trouxe o que chamam de Flow Pesado — uma mistura poderosa de hardcore, rap e ritmos latinos como cumbia e salsa.

Do primeiro riff à última batida, o público reagiu como se cada refrão fosse hino de torcida.

Com faixas como “Instinto Animal”, “Desvelado” e “Sin llevarme nada”, o Ladrones incendiou a pista, fez o mosh pit engolir metade do salão e provou que carisma é uma língua universal. Teve até medley de “Roots Bloody Roots”, do Sepultura, num momento de comunhão entre Brasil e México que fez a casa inteira gritar junto. Em mais de uma hora de apresentação, os vocalistas Zxmyr e Cirujano Reséndez mostraram domínio total do público, com energia, risadas e discursos inflamados sobre união e resistência.


Era o tipo de show que transforma curiosos em fãs instantâneos — e que, honestamente, colocou o Ladrones num outro patamar dentro da cena latino-americana.

Quando Bryan Harris e companhia finalmente assumiram o palco, perto das 23h, o público já estava mais ralo. Parte da galera foi embora por conta do horário e da localização da casa, mas quem ficou presenciou uma aula de hardcore old school.

O setlist foi uma verdadeira linha do tempo da banda: “Inherit the Pain”, “Born From Misery”, “Never Again”, “Break Through It All” — e até um cover adaptado de “Boston Belongs to Me”, transformado em “São Paulo Belongs to Me”.
Entre mosh pits, stage dives e refrões berrados, o grupo mostrou que mesmo com o tempo e as mudanças da cena, o hardcore de Boston ainda respira forte. E que respeito se conquista não pelo hype, mas pela entrega.

No fim, a noite se tornou simbólica: o lendário Death Before Dishonor veio para reviver a chama, mas quem incendiou de verdade foi o Ladrones. Uma banda latina, nova geração, com identidade híbrida, carisma explosivo e uma força que transcende idioma. O show virou metáfora do próprio hardcore — um gênero que não morre, apenas muda de forma, de sotaque, de ritmo.

Entre a nostalgia de Boston e o calor mexicano, o Burning House viveu uma daquelas noites em que o underground mostra o porquê de ainda importar. Uma celebração barulhenta, suada e viva. Do jeito que o hardcore deve ser.

Setlist: Death Before Dishonor

Inherit the Pain
Born From Misery
Peace and Quiet
Curl Up and Die
Count Me In
Pushed to the Edge
True Defeat
Our Glory Days
Overruled
Will to Fight
Never Again
6.6.6. (Friends Family Forever)
True Till Death (Not on written setlist)
Play Video
Boston Belongs to Me (Some choruses sung as “São Paulo belongs to you”)

 
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