ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Documentário do Oasis: Dois irmãos, 70 mil vozes e uma segunda chance
Postado em 18 de setembro de 2026 @ 13:29

Em ‘Oasis: Don’t Look Back in Anger’, a reunião de Liam e Noel Gallagher começa como uma operação profissional e termina como algo muito mais difícil de medir: uma reconciliação diante de milhões de pessoas

 

Claudia Vieira @claujeans_

Eu chorei vendo dois irmãos rirem juntos. Parece pouco para explicar duas horas de documentário, 16 anos de separação, uma turnê mundial, milhões de ingressos e uma das reuniões mais improváveis da história recente do rock. Mas a cena que melhor explique Oasis: Don’t Look Back in Anger é justamente uma das menores: Noel e Liam Gallagher sentados lado a lado, conversando, fazendo piadas e rindo um do outro. A cena causa um pequeno estranhamento aos fãs. Não são os irmãos dos anos 1990, jovens, arrogantes, engraçados e frequentemente insuportáveis, disputando espaço em entrevistas de óculos escuros, sob aquela tensão permanente que fazia parecer que uma pergunta errada poderia terminar em briga. Também não são os homens que passaram os anos seguintes ao fim da banda se atacando publicamente.

Estão relaxados. Noel ri de Liam. Liam fala bobagem. Não parece haver uma disputa acontecendo dentro da sala. Em determinado momento, Noel admite que tinha esquecido como o irmão era engraçado. É uma mudança pequena de linguagem corporal que diz muito sobre o que o documentário realmente quer contar. O filme passa rapidamente pela ascensão da banda nos anos 1990 e desemboca naquela noite de 2009, em Paris, que todo fã conhece, mas que continua chocante de assistir. O público já esperava pelo show no Rock en Seine quando recebeu o anúncio de que houvera uma briga séria entre os irmãos, o Oasis não tocaria e as apresentações seguintes estavam canceladas. Pouco depois, Noel anunciaria sua saída.

‘Acabou’ Só que “acabou”, tratando-se de Oasis, não parecia uma palavra muito confiável. Liam e Noel já haviam brigado, abandonado shows, trocado insultos e protagonizado episódios o suficiente para transformar a instabilidade em parte do folclore da banda. Era razoável imaginar que, depois de alguns meses ou anos, passaria.

Não passou Os anos viraram uma década e meia. Carreiras solo seguiram, casamentos acabaram, filhos cresceram. E há um detalhe familiar no documentário que dá a medida dessa separação melhor do que uma cronologia de 16 anos: os filhos dos dois praticamente não se conheciam. Não tinha acabado apenas uma banda. Os irmãos realmente tinham deixado de fazer parte da vida um do outro. Por isso é interessante a maneira como Dylan Southern e Will Lovelace registram os primeiros ensaios da reunião. Não existe uma grande cena de reconciliação. Nenhum pedido de desculpas diante da câmera. Há trabalho. As câmeras foram posicionadas de modo a interferir o mínimo possível. O Oasis que aparece ali já não é um bando de moleques de Manchester tentando conquistar o mundo. É uma banda extremamente profissional se preparando para uma operação gigantesca.

Liam chega, canta. Noel toca. Bonehead está novamente ali, trazendo aquele humor de Manchester que funciona como uma espécie de ‘facilitador social’ numa sala onde ainda existe tensão. Os músicos trabalham. As músicas funcionam. Mas os irmãos mantêm distância. Em determinado momento, Noel chega a perguntar se Liam está se divertindo porque ele simplesmente não diz nada. Um desabafo melancólico. Depois de tanto tempo falando um do outro para jornalistas, os dois parecem ainda não saber exatamente como falar um com o outro. Segundo os próprios diretores, a reconciliação não aconteceu nos ensaios. Começou no palco. E então veio Cardiff.

A 20 minutos do primeiro show, Liam ainda não havia aparecido. Uma plateia de 74.500 pessoas ansiava pela banda que, uma década e meia antes, não conseguira chegar ao palco em Paris. Noel anda de um lado pro outro no backstage. Liam finalmente chega, os dois conversam rapidamente. Então, Liam segura a mão do irmão e eles entram de mãos dadas e erguidas no palco ao som de “Fucking in the Bushes”, pra loucura do público. O gesto se repetiu em toda a turnê.

E tocaram É nesse momento que o documentário consegue mostrar uma coisa que números de streaming não explicam: Oasis ao vivo é uma experiência coletiva. Não se trata de virtuosismo exibicionista. Liam pode passar boa parte do show praticamente imóvel diante do microfone. Noel não precisa transformar cada solo numa demonstração técnica. A força está naquela parede de guitarras, na voz de Liam e, principalmente, no instante em que dezenas de milhares de pessoas começam a cantar as músicas de volta para eles. A plateia não acompanha o Oasis. Em alguns momentos, parece completar o Oasis. O filme encontra rostos chorando, pais com filhos nos ombros, adolescentes cantando músicas escritas décadas antes de nascerem e desconhecidos abraçados. E os próprios Gallagher parecem surpreendidos pela dimensão daquilo.

Noel conta que precisou de alguns minutos depois do primeiro show para entender o que tinha acabado de acontecer. Admite que subestimou o força desse retorno. Durante a turnê, em algumas ocasiões, virou de costas para a plateia para esconder as lágrimas. Ver pais e filhos cantando juntos o atingia particularmente. A banda tinha voltado. O tamanho da banda, aparentemente, nem eles conheciam mais. E é fácil esquecer que, quando a reunião foi anunciada, em agosto de 2024, havia uma desconfiança perfeitamente razoável. Era Oasis. Eram Liam e Noel Gallagher. A última turnê havia terminado porque os dois brigaram antes de subir ao palco em Paris. Comprar um ingresso para a Live ’25 carregava uma pergunta implícita: eles chegariam juntos até o primeiro show?

Chegaram Mais de 10 milhões de pessoas, de 158 países, disputaram ingressos na venda inicial para Reino Unido e Irlanda. Ao final de 2025, a Pollstar estimou US$ 405,4 milhões de bilheteria em 36 apresentações contabilizadas da Live ’25, colocando o Oasis logo atrás da Cowboy Carter Tour, de Beyoncé, entre as turnês de maior faturamento daquele ano. Para uma banda que havia passado tanto tempo sem fazer um único show, é difícil chamar isso apenas de comeback. A reunião acordou também o catálogo. Quando começaram os sinais de que Noel e Liam poderiam estar juntos novamente, as reproduções do Oasis no Spotify cresceram mais de 160% em relação à semana anterior. Depois do primeiro fim de semana em Cardiff, houve outro salto mundial, de quase 320%.

Três discos voltaram simultaneamente ao Top 5 britânico. Time Flies… 1994-2009 chegou ao primeiro lugar, (What’s the Story) Morning Glory? ao segundo e Definitely Maybe ao quarto. Até Acquiesce, B-side de 1995, entrou pela primeira vez na parada britânica de singles três décadas depois de lançada. A Live ’25 deixou de ser apenas uma turnê. Virou marca. Lojas temporárias acompanharam as cidades dos shows. Vieram camisetas específicas para cada parada, pôsteres, moletons, bucket hats, memorabilia, edições especiais dos discos e uma coleção com a Adidas. O logo LIVE ’25 passou a existir para além do palco.

Há uma leitura cínica perfeitamente possível: a reunião do Oasis foi também um negócio espetacular.

Claro que foi Mas centenas de milhões de dólares não explicam por que Noel Gallagher precisava virar de costas para a plateia para esconder que estava chorando. Nem explicam completamente o que aconteceu com a própria família durante a turnê. Os filhos que mal se conheciam passaram a viajar juntos, sair juntos, assistir aos shows juntos. Formaram uma turma. Noel observa seu filhos adolescentes Donovan e Sonny, e reconhece neles alguma coisa dele e de Liam quando jovens. Enquanto os pais reaprendiam a dividir um palco, os filhos descobriam os primos. E Noel e Liam também voltaram a conversar fora do contexto musical. Hoje dizem que se falam “como amigos”. Foram fotografados assistindo juntos um jogo do Manchester City – time de futebol que é quase tão importante pra eles quanto o próprio Oasis. Trocam mensagens, mandam vídeos idiotas um para o outro, comentam gente na televisão e compartilham pequenas bobagens cotidianas.

Depois de anos de ataques públicos, os Gallagher agora trocam besteiras um para o outro pelo celular. É uma forma bastante apropriada de reconciliação para os dois. E ajuda a explicar por que a entrevista conjunta no final do documentário parece tão diferente das antigas. Eles estão confortáveis. Liam provoca, Noel ri. Não existe aquela velha sensação de que qualquer frase pode transformar a entrevista numa disputa. O humor, aliás, é uma das melhores coisas do filme e impede que toda essa história de reconciliação vire uma sessão de terapia familiar de duas horas. Antes do primeiro show em Manchester, acompanhamos a preparação da polícia local. Um dos policiais compara os fãs do Oasis a “torcedores fanáticos de futebol”. Há preocupação com multidão, logística e segurança. Uma policial faz uma pergunta séria sobre o que pode acontecer.

A resposta do superior: “Definitely Maybe.” É uma piada besta. É também profundamente britânica e profundamente Oasis. Porque futebol, Manchester e Oasis sempre estiveram misturados. Ser fã de Oasis, aliás me lembra torcer para o Corinthians. Muita gente torce apaixonadamente. Outra parte torce porque nasceu numa família corintiana e recebeu aquilo quase como herança. E quem não torce parece frequentemente ter desenvolvido, como segunda opção, simplesmente odiar. Com Oasis acontece algo parecido. Muita gente considera a banda ‘cringe’. Tudo bem. Há jovens que não conhecem Oasis, assim como há uma parcela da geração Z que idolatra Gorillaz e nunca ouviu falar em Blur. Cultura pop não é uma linha sucessória organizada e nenhuma banda tem obrigação de ser universal.

Pode-se não gostar de Oasis. Claro. Mas é muito mais difícil negar o impacto que a banda continua causando. Durante o tempo em que o Oasis não existiu, as músicas continuaram circulando. Os fãs

envelheceram, tiveram filhos. Os filhos aprenderam as músicas. Gente que não era nascida quando (What’s the Story) Morning Glory? saiu passou a cantar “Don’t Look Back in Anger” ao lado de pessoas que compraram o disco em 1995. Depois das duas noites no MorumBIS, em São Paulo, as reproduções do Oasis na Deezer cresceram 120% no Brasil. Em 2026, “Wonderwall”, lançada em 1995, ganhou ainda outra vida coletiva durante a Copa do Mundo, cantada por jogadores e torcedores ingleses até se transformar numa espécie de hino informal daquela campanha.

Nostalgia ajuda a explicar, mas não tudo. Acredito em algo mais curioso: quase sem querer, depois de anos sem existir, o Oasis voltou a ocupar um espaço reservado aos poucos gigantes do rock em atividade. A banda não precisou se reinventar. Precisou tocar “Hello, it’s good to be back”.

Nesse ponto o documentário mostra que Oasis não é apenas Noel e Liam brigando, nem “Wonderwall” tocada por um sujeito com violão numa festa. Há uma potência física naquela banda tocando junta. Bonehead não é decoração histórica: sua guitarra faz parte daquele som enorme. Liam chegou à turnê cantando com a mesma força de antes. Noel continua sendo o arquiteto de um catálogo de canções cuja aparente simplicidade esconde o quanto foram construídas para sobreviver aos próprios autores. No palco, isso se transforma em comunhão. E o palco que aproximou os irmãos, mais do que qualquer conversa privada conseguiria. Noel e Liam precisaram assistir, noite após noite, ao que haviam construído juntos. E ouvir aquilo voltar através de dezenas de milhares de vozes.

Há algo de classe nessa história. Oasis nasceu de Burnage, de Manchester, do futebol, do sotaque, da roupa e da arrogância de dois moleques working class que decidiram que seriam a maior banda do mundo antes que houvesse qualquer razão objetiva para acreditar nisso. Décadas e centenas de milhões depois, essa origem virou também parte da mitologia comercial da banda. Seria ingênuo fingir que não.

Essa relação com a classe também produz uma ambiguidade interessante. Noel rejeita com veemência a ideia de que o Oasis pertença politicamente a um lado específico: “não somos uma uma banda de direita, somos para todos”. Oasis nunca foi uma banda de manifesto, e os Gallagher tampouco parecem interessados em assumir o papel de porta-vozes políticos. Ainda assim, há algo inevitavelmente político na maneira como continuam reivindicando sua origem working class depois de três décadas de fama. Talvez a contradição esteja justamente aí. Liam continua tratando ser uma celebridade quase como um efeito colateral de subir ao palco, enquanto Noel aprendeu a manejar melhor a dimensão pública da própria fama. São dois homens extraordinariamente famosos que nunca pareceram particularmente interessados em se comportar como celebridades.

Essa contradição produz imagens deliciosas: Pouco antes do anúncio da Live ’27, Noel estava no meio da torcida do Manchester City comemorando um derby. Um homem envolvido numa turnê de centenas de milhões de dólares ainda consegue parecer, no contexto certo, apenas mais um senhor quase sessentão enlouquecido pelo City. Dias antes, a imagem era outra. No Festival de Veneza, Noel e Liam caminharam juntos pelo tapete vermelho para a estreia mundial de Don’t Look Back in Anger. Os irmãos Gallagher, juntos, no festival de cinema de Veneza. Para quem acompanha essa história há mais de 30 anos, a fotografia é quase absurda. Mas o filme não é perfeito.

A narrativa é tão interessada no significado da reunião que evita olhar demoradamente para aquilo que tornou a reunião necessária. Os 16 anos passam depressa. A negociação que tornou o impossível possível não é desvendada. Não sabemos exatamente qual conversa abriu a porta, quais concessões foram feitas ou como dois homens que passaram tantos anos trocando insultos chegaram à conclusão de que conseguiriam dividir novamente um palco. Eu queria saber mais. O filme escolhe falar sobre perdão mostrando muito mais o resultado do que o caminho.

Também há escolhas na maneira de representar os fãs. A ideia é ótima: contar a Live ’25 através das pessoas para quem aquelas músicas adquiriram significados que já não dependiam dos autores. São histórias de fãs de alguns países, inclusive do Brasil. Mas as trajetórias individuais escolhidas não alcançam a mesma força que o público filmado coletivamente.

Parece pouco escolher três pessoas para explicar uma coisa daquele tamanho. Um adolescente chorando depois do show, um estranho abraçando outro estranho, pais e filhos cantando juntos, dezenas de milhares de pessoas levantando os braços na mesma frase: nesses momentos o filme não precisa explicar nada.

A multidão é a história O documentário também deixa quase fora de quadro contradições menos bonitas da reunião. A controvérsia dos preços dinâmicos dos ingressos, por exemplo, mal entra na narrativa. Existe uma tendência evidente a transformar a Live ’25 em uma história de cura. O filme não é uma investigação sobre os negócios do Oasis nem uma autópsia dos Gallagher. Mas a história sobre uma banda voltando e, durante o processo, dois irmãos aparentemente voltando a gostar um do outro. Primeiro os ensaios profissionais e distantes. Depois Cardiff. Depois as mãos dadas.

Depois os “our kid”. Depois os filhos juntos. Depois mensagens idiotas no celular. E finalmente aquela entrevista. Sem discurso. Sem pedido público de perdão. Só dois caras rindo.

Assisti ao documentário como jornalista, mas seria ridículo fingir neutralidade. Sou fã de Oasis desde os 14 anos. Vi essa banda atravessar diferentes versões da minha própria vida. E estava em São Paulo, com meu filho de 17 anos, quando a Live ’25 terminou. Então, sim, chorei. Mas também ri bastante. Porque talvez esse seja outro mérito do filme: contar uma história sobre perdão sem transformar Liam e Noel Gallagher em dois monges tibetanos. Continuam sendo Liam e Noel.

E então chegamos a 2027. Dias após toda essa celebração cinematográfica de uma comunidade mundial, o Oasis anunciou mais 38 apresentações entre Reino Unido, Irlanda, Europa continental e Estados Unidos. Até agora, América Latina, Ásia, Oceania e África ficaram fora. Pode mudar. A Live ’25 também foi ampliada aos poucos. Mas, por enquanto, existe uma contradição interessante. O Brasil não está no documentário apenas para fornecer imagens bonitas de fãs chorando. Japão e Argentina também aparecem com destaque. O próprio filme constrói sua narrativa em torno da descoberta de que Oasis pertence a uma comunidade muito maior do que Manchester, Inglaterra ou o velho mapa do britpop.

Mas primeira geografia da Live ’27, devolve a festa ao Norte Global. Pode mudar e cidades serem apresentadas posteriormente . Porém, pessoalmente acredito que essa parte turnê está bem

fechada. Inclusive a dinâmica do acesso aos ingressos é bem diferente dessa vez. Os fãs precisam se inscrever, escolher três cidades por ordem de preferência para assistir o show. Alguns “contemplados” receberão um código. Apenas com código será possível comprar os ingressos através da ticketmaster, por um curto período de tempo. No site também fica claro que o código não será necessariamente para a compra de ingresso na primeira cidade de escolha. Claro que já estão aparecendo memes sobre esse novo “método” estranho de vendas de ingresso.

Deixando de lado todo esse esquema pra conseguir um lugar na turnê 27, quero destacar uma cidade já confirmada que fecha um círculo quase perfeito.

Paris Em julho de 2027, Liam e Noel Gallagher voltarão juntos à cidade onde o Oasis acabou em 2009.

Depois virá Knebworth. E talvez isso seja mais interessante do que qualquer discurso cuidadosamente escrito sobre segundas chances. Em 2009, Paris ficou esperando por dois irmãos que não conseguiram subir juntos ao palco. Em 2027, eles voltam.

Definitely maybe.

 

Claudia Vieira é jornalista e pesquisadora, especializada em cultura e tecnologia. Ama Beatles, Rolling Stones e Oasis.

 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025