Texto e Fotos: Flavio Santiago
A Drink the Sea transformou a Casa Rockambole em um verdadeiro portal sensorial na noite de sua passagem pelo Brasil em show intimista que transitou entre o etéreo e o orgânico, o supergrupo mostrou que sua proposta vai muito além de reunir nomes consagrados, entregando uma experiência que conecta atmosferas, culturas e emoções de forma coesa.
Formado por músicos mundialmente renomados, o projeto reúne o guitarrista Peter Buck, peça fundamental na construção sonora do R.E.M., o baterista Barrett Martin, conhecido por sua passagem pelo Screaming Trees e também por integrar o Mad Season, o multi-instrumentista Alain Johannes, com histórico no Queens of the Stone Age, no Them Crooked Vultures e no Eleven, além do britânico Duke Garwood, parceiro frequente da Mark Lanegan Band e responsável pela frase que deu origem ao nome do grupo.
A formação ao vivo ainda ganha força com a percussionista Lisette Garcia, que adiciona camadas rítmicas orgânicas fundamentais para a proposta do projeto, e com a baixista Abbey Blackwell, conhecida por seu trabalho com o Alvvays, trazendo uma base sólida e sensível que sustenta as atmosferas construídas pela banda.
Drink The Sea nasce como um encontro de referências, mas se consolida como algo próprio. A sonoridade mistura rock alternativo com influências globais, incorporando cítaras indianas, vibrafone e uma forte presença de percussões brasileiras como surdo e pandeiro.
O resultado é uma música que parece flutuar entre o concreto e o abstrato, criando paisagens sonoras que remetem tanto à imensidão da Floresta Amazônica quanto a sensações físicas e quase táteis, como as provocadas pelo jambu. Em 2025, o grupo lançou seus dois primeiros trabalhos, Drink The Sea I e Drink The Sea II, estabelecendo uma base sólida para esse universo musical.
Ao vivo, essa proposta ganha outra dimensão. Desde a abertura com Shaking for the Snakes, a banda construiu uma narrativa sonora envolvente, com camadas que se expandiam lentamente. Saturn Calling e Outside Again aprofundaram esse clima espacial, enquanto Pour Your Glow On trouxe um equilíbrio melódico que aproximou ainda mais o público.
Sacred Tree surgiu como um dos momentos mais emblemáticos da noite, evocando uma conexão direta com a natureza, seguido por Bembe for Two e Sip of the Juice, que exploraram texturas rítmicas mais orgânicas e reforçaram a presença de elementos percussivos inspirados em matrizes culturais diversas.
A parte central do show manteve a imersão com Embers e Where We Belong, enquanto Paredes estabeleceu uma ponte direta com o público brasileiro. House of Flowers e The Strangest Season ampliaram o caráter cinematográfico da apresentação, conduzindo a plateia por diferentes atmosferas. Spirit Away e Midnight Starlight levaram o show a um estado quase contemplativo.
Na sequência, Mouth of the Whale e Aching Harbor mostraram a versatilidade do grupo ao alternar intensidade e delicadeza. O cover de Long Gone Day, originalmente do Mad Season, foi um dos pontos mais emocionantes da noite, dedicado a Mark Lanegan, Layne Staley e Chris Cornell, criando um momento de forte carga emocional.
O bloco final do repertório autoral com Meteors, Butterfly e Rose Crested Sky construiu um crescendo envolvente, que encontrou seu ápice em Sweet as a Nut, Land of Spirits e Tuareg Asteroid, consolidando a identidade sonora da banda como algo expansivo e sensorial.
A reta final reservava um dos momentos mais especiais da noite. A entrada de Nando Reis transformou o show em uma celebração coletiva. Em uma sequência de clássicos como Dois réveillons, Azul febril, All Star, Relicário e O segundo sol, a banda dialogou com a música brasileira de forma orgânica, enquanto o público assumia o protagonismo ao cantar em coro.
O encerramento ainda trouxe releituras de The One I Love, do R.E.M., Making a Cross, do Desert Sessions e Hangin’ Tree, do Queens of the Stone Age, fechando a apresentação com uma reverência às origens dos músicos envolvidos e às influências que moldam o som do grupo.
Mais do que um show, a passagem da Drink the Sea por São Paulo foi uma experiência imersiva que reafirma o potencial do projeto como um dos encontros mais interessantes da música contemporânea, capaz de unir trajetórias históricas e novas possibilidades sonoras em um mesmo palco.
Setlist – Casa Rockambole (São Paulo, 2026)
Shaking for the Snakes
Saturn Calling
Outside Again
Pour Your Glow On
Sacred Tree
Bembe for Two
Sip of the Juice
Embers
Where We Belong
Paredes
House of Flowers
The Strangest Season
Spirit Away
Midnight Starlight
Mouth of the Whale
Aching Harbor
Long Gone Day (Mad Season cover)
Meteors
Butterfly
Rose Crested Sky
Sweet as a Nut
Land of Spirits
Tuareg Asteroid
Dois réveillons (com Nando Reis)
Azul febril (com Nando Reis)
All Star (com Nando Reis)
Relicário (com Nando Reis)
O segundo sol (com Nando Reis)
The One I Love (R.E.M. cover)
Making a Cross (Desert Sessions cover)
Hangin’ Tree (Queens of the Stone Age cover)





