
Texto: Rafael Carozzi
Fotos: Flavio Santiago
Em um dia marcado por manifestações pró-Lula e pró-democracia por todo o Brasil, o clima de virada no segundo turno das eleições presidenciais se manteve presente no público que lotou o Cine Joia para assistir à quinta apresentação de Él Mató a Un Policía Motorizado na capital paulista.
O evento teve início com a discotecagem indie-latina da festa Oye Rock Em Espanhol. Pouco tempo depois, o power trio Los Otros, ato de abertura da noite, subiu ao palco para apresentar seu power pop com fortes influências do rock inglês dos anos 1960 e pitadas de música brasileira dos anos 1970.
Com um som simples e direto, letras pouco inspiradas e muitas falas, adesivos e bandeiras comentando o momento político atual do país, o trio se mostrou confortável ao pisar pela primeira vez no palco do Cine Joia. Ativa desde 2023, a banda apresentou seu repertório com confiança e presença de palco, frequentemente acompanhada pelo coro de parte da plateia em faixas como “Rotina” e “Rockinho Básico”.
Munidos de segurança e carisma, Tom (guitarra e voz), Isa (baixo e voz) e Vini (bateria) comandaram o público convidando a plateia para bater palmas, cantar junto e iluminar o espaço com as lanternas dos celulares. Apesar do desleixo da casa na regulagem de som do trio, a banda entregou um show cheio de energia e vontade que, mesmo incapaz de tocar o coração cínico deste que vos escreve, mostrou o porquê de Los Otros circular com cada vez mais frequência pelo circuito independente paulistano.
O pouco tempo de carreira e a sonoridade crua da abertura contrastaram drasticamente com o vasto repertório de sucessos, a bagagem de estrada e as décadas de experiência do ato principal da noite: Él Mató a un Policía Motorizado.
Es la fiesta que te prometí
Um dos nomes mais importnates do rock alternativo da América do Sul, Él Mató a un Policía Motorizado celebra um dos momentos mais expressivos de seus 23 anos de carreira, após o disco Súper Terror vencer o Prêmio Gardel de Melhor Álbum de Rock. Formada em 2003, na cidade de La Plata, Argentina, a banda carrega fortes influências do indie estadounidense de meados dos anos 1990 ao início do revival do rock alternativo dos anos 2000.
Com lotação máxima e cerca de trinta minutos de atraso, o quinteto subiu ao palco e, sem enrolação, disparou os primeiros acordes de “Navidad en Los Santos” (Navidad de Reserva, 2005), levando o público ao delírio. Amigos que antes conversavam em espanhol pela pista se abraçavam e pulavam juntos, visivelmente emocionados.
A energia se manteve no topo em “Un Segundo Plan”, faixa de Súper Terror. Já na delicada “La Noche Eterna” (La Síntesis O’Konor, 2017), a ponte entre as quase duas décadas que separam as duas primeiras músicas do setlist tornou-se palpável. A segurança minimalista da bateria de Willy “Doctora Muerte”, que simplesmente marca a cadência da música e adorna momentos específicos com padrões repetitivos no chimbau, não existia em 2003, mas hoje é parte indissociável da identidade sonora do grupo.
Na sequência, voltamos ao presente com “Diamante Roto”, que abriu as primeiras rodas na pista. A essa altura, os diferentes grupos de hermanos já formavam uma só comunidade no centro da casa. Quando Gustavo “Niño Elefante” puxou o riff marcante de “Medalla de Oro” (2023), o público se uniu como se já se preparasse para um dos momentos mais bonitos da noite, ao acompanhar Santi em uníssono no belo refrão: “Uh, hay una luz que arrasa con todo”.
A batida pulsante de “Mujeres Bellas y Fuertes” (2013) conduziu uma nova roda, sucedida por um simpático “¿Cómo están esta noche?” de Santi. A resposta da plateia veio certeira no refrão: “Más o menos bien!”, a deixa perfeita para os teclados de Chatrán Chatrán introduzirem a canção de mesmo nome.
Alternando entre “Sábado” (2005), “Tantas Cosas Buenas” (2023) e “El Tesoro” (2017), Él Mató demonstrou naturalidade ao costurar diferentes eras da sua discografia. Embora seja oficialmente um quinteto, a presença no palco do percussionista Pablo Mena como sexto elemento adiciona as camadas sonoras e texturas rítmicas que definem a sonoridade da banda pós-La Síntesis O’Konor de 2017.
Em “Amigo Piedra” (2006), o grupo reiterou seu talento para transformar melancolia cotidiana em catarse coletiva. A essa altura, o Cine Joia já estava completamente entregue. A postura comedida, os rostos concentrados e a comunicação contida da banda (restrita a alguns “gracias” e acenos discretos) não foram capazes de diminuir a eletricidade que tomava conta da casa.
Uma versão estendida de “Destrucción” transformou a pista em salão de baile; “Yoni B” sustentou o ritmo acelerado com sua levada strokeana; a intimista “Excalibur” desacelerou os ânimos pontualmente, logo emendada pela levada gentil e convidativa de “El Mundo Extraño” (sempre me divirto com a mudança de tom que ocorre do meio pro fim da música. Definitivamente uma escolha). A primeira parte do set foi encerrada com a densa “El Fuego Que Hemos Construido”, deixando o palco sob uma parede de feedback. Uma massa sonora que já antecipava a volta para o bis.
O retorno começou em tom sereno com “El Magnetismo”, mas logo explodiu em “Ahora Imagino Cosas”, berrada por toda a plateia em uma só voz. “Fuego” e “Chica de Oro” pavimentaram o caminho até o clímax definitivo: “Mi Próximo Movimiento”. Única representante do cultuado Día de los Muertos (2008) no repertório, a faixa transformou o Cine Joia em uma mistura caótica de mosh pit e coro de estádio.
Foram oito passagens do grupo pelo Brasil desde a estreia tímida no finado Inferno Club, em 2007. De lá para cá, o som lapidado em estúdio soa mais maduro, limpo e domesticado do que nos primeiros lançamentos. Ao vivo, contudo, Él Mató a un Policía Motorizado prova que a urgência original segue intacta, entregando com tranquilidade a festa prometida.
No fim das contas, a política no palco se limitou a uma menção discreta a “Lula” estampada na camiseta do guitarrista Manuel “Pantro Puto”. O verdadeiro motor da noite foi a voz e o baixo de Santi Motorizado, regendo as oscilações de humor e êxtase de quem estava ali. A comunhão visceral entre as canções da banda e seu público é rara: não houve um verso sequer que não fosse cantado a plenos pulmões.
Rostos felizes, corpos suados, gargantas roucas e corações cheios. De arrepiar.
SETLIST
Navidad en Los Santos
Un segundo plan
La noche eterna
Diamante roto
Medalla de oro
Mujeres bellas y fuertes
Más o menos bien
Sábado
Tantas cosas buenas
El tesoro
Amigo piedra
Destrucción
Yoni B
Excálibur
El mundo extraño
El fuego que hemos construido
Encore:
El magnetismo
Ahora imagino cosas
Fuego
hica de oro
Mi próximo movimiento










