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Fiddlehead / Rival Schools ::: 22/02/26 ::: Fabrique Club
Postado em 02 de março de 2026 @ 11:15

Texto e Fotos: Flávio Santiago

No dia 22 de fevereiro de 2026, o Fabrique Club, em São Paulo, recebeu uma daquelas noites que parecem condensar passado, presente e futuro de uma cena inteira dentro de algumas horas suadas e barulhentas. A reunião de Fiddlehead e Rival Schools no mesmo palco não foi apenas um encontro de turnês internacionais em rota pela América do Sul, mas um diálogo explícito entre gerações do post hardcore e do rock alternativo. De um lado, Walter Schreifels e sua história que remonta aos anos noventa e ao início dos anos 2000. Do outro, Patrick Flynn à frente de uma banda que carrega a urgência emocional da década de 2010 para cá. No meio disso tudo, um Fabrique lotado, quente e entregue.

Representando a nova geração, a Capote surge como um dos nomes mais promissores do circuito alternativo paulista. Formada em 2023 na cidade de Santos, a banda mistura rock alternativo, indie e emo em uma sonoridade que carrega referências evidentes, mas já demonstra personalidade própria.

A declaração do baterista João Pedro “Truck” Gonçalves traduz o impacto desse convite. A banda escolheu Lay Low, do Fiddlehead, como uma das músicas para desenvolver o entrosamento nos primeiros ensaios. O fato de agora abrir para o próprio grupo transforma a noite em uma espécie de ciclo que se fecha. O que começou como influência dentro de um estúdio de ensaio se materializa em palco compartilhado.

Há algo de simbólico nessa presença. A Capote representa o elo entre a herança do post-hardcore e sua renovação em solo brasileiro. Ao dividir o line-up com nomes que ajudaram a moldar o gênero, a banda não apenas ganha visibilidade, mas também se insere em uma linhagem estética e emocional que atravessa décadas.

Se a Zander chega com a bagagem de 15 anos celebrados em formato best of, a Capote sobe ao palco com a energia de quem ainda está escrevendo os primeiros capítulos da própria história. A soma dessas duas aberturas cria uma narrativa interessante para a noite: passado consolidado e futuro em construção preparando o terreno para um encontro internacional aguardado pelos fãs.

Mais do que simples bandas de abertura, Zander e Capote ajudam a contextualizar o evento dentro do cenário brasileiro, mostrando que o diálogo entre gerações não acontece apenas entre artistas estrangeiros e público local, mas também dentro da própria cena nacional.

Com o encerramento da turnê que celebrou os 15 anos de Braza, disco que consolidou o nome da Zander no cenário alternativo nacional, a banda chega para essa abertura em clima de celebração e reafirmação. Segundo o vocalista Gabriel Zander, o show será em formato best of, um apanhado das fases que marcaram a trajetória do grupo e que ajudaram a construir uma base fiel de público ao longo dos anos.

A fala do vocalista deixa evidente o peso afetivo da noite. A banda não esconde a admiração por Fiddlehead e Rival Schools, nomes fundamentais do post-hardcore e do rock alternativo das últimas décadas. Gabriel destaca que a presença já estava garantida como público, o que transforma o convite em algo ainda mais simbólico. Não se trata apenas de dividir palco, mas de compartilhar o mesmo espaço com referências que ajudaram a moldar a identidade sonora da banda.

Outro ponto ressaltado é a participação pela primeira vez em um evento da New Direction Productions, produtora que vem ganhando relevância ao apostar em line-ups que dialogam com o underground contemporâneo e com nomes históricos do gênero. A conexão pessoal mencionada pelo vocalista reforça o caráter quase comunitário da noite, como se diferentes gerações do alternativo se encontrassem não apenas no palco, mas também nos bastidores.

A noite começou com a sensação de evento especial. As bandas nacionais de abertura ajudaram a construir o clima, preparando terreno para o que viria depois, mas era visível que boa parte do público aguardava o momento de ver duas fases distintas da mesma linhagem sonora dividindo a mesma estrutura de palco. Quando o Rival Schools entrou em cena, por volta das oito e vinte da noite, ficou claro que não se tratava de um show protocolar. Walter Schreifels, sorridente e comunicativo, parecia genuinamente impressionado com a recepção brasileira. Havia um clima de celebração tardia, como se aquele encontro estivesse anos atrasado e finalmente se concretizasse.

O repertório escolhido ajudou a reforçar essa sensação. Wring It Out abriu os trabalhos com firmeza, colocando o público imediatamente em sintonia. Na sequência, 69 Guns e Everything Has Its Point aprofundaram a imersão no universo do álbum United by Fate, disco que ainda hoje soa como um marco do rock alternativo do início dos anos 2000. High Acetate e Favorite Star vieram carregadas de peso e melodia na medida certa, mostrando como a banda sempre soube equilibrar tensão e refrão grudento. A Parts for B Actors e Small Doses mantiveram o ritmo alto, enquanto My Echo e Used for Glue provocaram um dos primeiros grandes momentos de coro coletivo da noite.

Era bonito observar diferentes faixas etárias cantando juntas, alguns com a memória afetiva de quem ouviu aquilo na adolescência, outros descobrindo ali a força daquelas composições.

Travel by Telephone e Good Things ampliaram o lado mais emotivo do set, preparando o terreno para a reta final com Undercovers On e Hooligans for Life. Ao todo, treze músicas que passearam com segurança pela essência da banda, sem exageros técnicos ou firulas desnecessárias.

O Rival Schools entregou um show coeso, energético e honesto. Não houve pirotecnia, mas houve conexão. E isso, naquele contexto, valia muito mais.

Se o primeiro ato foi marcado por uma celebração nostálgica e segura, o segundo mergulhou de cabeça na intensidade crua. Quando o Fiddlehead subiu ao palco por volta das nove e meia, a pista já estava compacta e aquecida. Desde os primeiros acordes de Grief Motif ficou claro que a energia seria outra. A banda não demorou a transformar o centro do Fabrique em um redemoinho de mosh pits e mergulhos do palco. The Years e The Deathlife aceleraram os batimentos cardíacos da plateia, enquanto Sleepyhead e Million Times trouxeram aquela mistura característica de melancolia e explosão que define o som do grupo.

True Hardcore II funcionou como um gatilho coletivo. O refrão foi berrado com intensidade quase catártica, e os primeiros stage dives se multiplicaram. Tidal Waves e Head Hands mantiveram o clima em ebulição. Patrick Flynn alternava momentos de introspecção com explosões físicas, caminhando pelo palco com olhar concentrado, às vezes se aproximando da grade para dividir o microfone com fãs que sabiam cada palavra. Spousal Loss e Poem You aprofundaram o lado mais emocional do repertório, mostrando que o Fiddlehead não vive apenas de impacto sonoro, mas também de vulnerabilidade explícita.

My World, Eternal You e Sullenboy reforçaram o caráter quase confessional das letras, enquanto Get My Mind Right e Fifteen to Infinity voltaram a incendiar a pista. Em Fifteen to Infinity houve um momento simbólico, com agradecimentos à equipe de turnê e uma atmosfera de comunidade que parecia extrapolar a simples relação banda público. Heart to Heart e Lay Low encaminharam o set principal para o fim, mantendo a intensidade em níveis altos. No encore, USMA e Loverman fecharam a apresentação com sensação de missão cumprida e exaustão coletiva.

O que ficou daquela noite foi mais do que a soma de dois shows consistentes. Houve uma espécie de continuidade histórica materializada ali. O Rival Schools representando a consolidação de um som que ajudou a moldar o post hardcore moderno, com melodias marcantes e estrutura refinada. O Fiddlehead encarnando a atualização desse mesmo espírito, mais direto, mais urgente, mais exposto emocionalmente. No Fabrique, essas duas forças não competiram. Elas se complementaram.

Para quem estava na casa, o calor, o suor e os sing along não foram apenas efeitos colaterais de um show pesado. Foram sinais de que aquela cena continua pulsando, reinventando suas dores e suas celebrações a cada geração. No fim da noite, com o público deixando o Fabrique lentamente e ainda comentando momentos específicos do set, a impressão era clara. São Paulo testemunhou um encontro raro, em que passado e presente dividiram o mesmo palco e provaram que a chama do post hardcore segue acesa, intensa e relevante.

 

 
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