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Fishbone :::31/10/26 ::: Fabrique
Postado em 02 de novembro de 2026 @ 23:01

Fishbone volta ao Brasil após 16 anos e transforma o Halloween paulistano em uma grande festa

 

Texto e Fotos : Flavio Santiago

Em uma noite de Halloween particularmente concorrida para a agenda de shows de São Paulo, com diferentes atrações disputando a atenção do público pela cidade, o Fishbone mostrou no Fabrique Club que algumas bandas simplesmente não precisam viver de nostalgia para justificar sua permanência. De volta ao Brasil depois de nada menos que 16 anos, os veteranos de Los Angeles entregaram uma apresentação que serviu tanto como reencontro para quem acompanha sua trajetória há décadas quanto como uma ótima demonstração de por que o grupo continua relevante depois de tanto tempo. Misturando ska, punk, funk, rock, soul e aquela dose particular de caos que sempre fez parte de sua identidade, o Fishbone transformou a noite paulistana em uma grande celebração, conduzida por músicos que ainda parecem enxergar o palco como um espaço onde tudo pode acontecer.

Antes da atração principal, coube ao Maga Rude preparar o terreno, e a escolha dificilmente poderia ter sido mais adequada. Com um ska executado em alto nível, a banda brasileira encontrou uma casa receptiva e tratou de aquecer o público sem assumir simplesmente o papel protocolar de banda de abertura.

Houve energia, balanço e competência suficientes para estabelecer desde cedo o clima que dominaria o restante da noite. Em vez de uma longa espera pelo Fishbone, o público recebeu um primeiro show consistente, funcionando como uma espécie de cartão de visitas de uma cena brasileira que sabe muito bem dialogar com as diversas vertentes que ajudaram a construir a história do ska.

E falar de Fishbone inevitavelmente significa falar de Angelo Moore. Muito antes de subir ao palco, o vocalista já dava uma demonstração da relação singular que mantém com quem acompanha a banda. Moore estava pessoalmente na banca de merchandise do grupo, vendendo vinis, CDs e outros souvenirs, conversando com o público, posando para fotos e distribuindo simpatia sem qualquer barreira entre artista e fã.

Uma cena que poderia parecer improvável para o líder de uma banda com mais de quatro décadas de estrada, mas que ajuda a explicar boa parte do espírito do Fishbone. Existe uma proximidade verdadeira em tudo que Moore faz, e aquela figura acessível atrás da bancada algumas horas antes seria a mesma que, pouco depois, tomaria conta do palco com uma energia aparentemente inesgotável.

Quando o Fishbone entrou em cena, ficou imediatamente evidente que aqueles 16 anos de ausência dos palcos brasileiros haviam criado uma dívida considerável. “When Problems Arise” deu início à descarga de energia, praticamente eliminando qualquer possibilidade de aquecimento gradual. O repertório mergulhou principalmente na essência da banda, com “A Selection”, “Cholly”, “I Wish I Had a Date”, “Movement in the Light” e “Give It Up” mostrando como a mistura proposta pelo grupo continua soando imprevisível mesmo décadas depois de ter sido criada. O Fishbone nunca coube confortavelmente em uma única definição e, ao vivo, essa característica ganha proporções ainda maiores. Ska vira funk, funk encontra punk, guitarras pesadas aparecem no meio de metais e melodias dançantes, enquanto Moore rege o caos com seu vocal, saxofone e sua presença física característica.

“In the Air” e “Turn the Other Way” mantiveram o ritmo elevado antes de uma divertida passagem por “Love Rollercoaster”, clássico do Ohio Players que há décadas faz parte do universo do Fishbone e recebeu naturalmente o tratamento particular da banda. Em seguida vieram “‘Simon Says’ The Kingpin” e “Skankin’ to the Beat”, esta última praticamente transformando o Fabrique em uma pista de dança. A essa altura pouco importava que São Paulo estivesse tomada por festas e shows de Halloween acontecendo simultaneamente. Dentro daquela casa, o Fishbone construía seu próprio universo, e quem decidiu estar ali dificilmente teria motivos para imaginar o que poderia estar acontecendo do lado de fora.

“Cubicle” abriu espaço para uma segunda metade igualmente forte, seguida por “Ma and Pa”, música que permanece como uma das sínteses mais eficientes da capacidade do grupo de colocar temas sérios dentro de arranjos contagiosos. Essa característica voltou a aparecer de maneira ainda mais direta em “Racist Piece of Shit”. O Fishbone sempre foi uma banda politicamente consciente, disposta a discutir racismo, desigualdade e tensões sociais sem abandonar a festa, e talvez esteja justamente aí uma das razões para sua relevância permanecer intacta. O mundo mudou muito desde os primeiros discos do grupo, mas algumas das questões que alimentaram suas músicas continuam assustadoramente atuais.

Se alguém ainda precisava de uma confirmação definitiva de que aquela noite caminhava para uma celebração histórica, “Party at Ground Zero” tratou de resolver o problema. Um dos grandes hinos do Fishbone, a música incendiou a pista e sintetizou o que a banda faz melhor: transformar paranoia, crítica social e energia quase carnavalesca em algo irresistivelmente dançante. “Sunless Saturday” encerrou o bloco principal de maneira poderosa, mas ninguém parecia disposto a aceitar que a noite terminasse ali. A banda voltou para o bis com “Everyday Sunshine”, escolha perfeita para concluir uma apresentação que passou por diferentes épocas sem transformar o passado em peça de museu.

O mais impressionante talvez tenha sido perceber que o Fishbone não voltou ao Brasil simplesmente para lembrar ao público aquilo que realizou décadas atrás. A banda retornou para reafirmar sua existência no presente. A formação pode carregar uma longa história nas costas, mas o que apareceu no Fabrique foi um grupo vivo, divertido, intenso e ainda capaz de soar perigoso. Não existe qualquer sensação de pilotos automáticos repetindo um repertório consagrado.

Existe suor, improvisação, humor, caos, consciência política e uma capacidade rara de estabelecer comunicação imediata com quem está diante do palco.

Em uma cidade tomada por opções naquela noite de Halloween, o Fishbone ofereceu algo difícil de competir: personalidade. Dezesseis anos foram tempo demais longe do Brasil, e a apresentação em São Paulo deixou isso evidente. Angelo Moore, desde a simplicidade de vender os próprios discos e conversar com fãs antes do show até a explosão que protagonizou no palco, personifica uma banda que nunca perdeu o prazer de estar próxima de seu público.

Poucas horas foram suficientes para lembrar por que o Fishbone influenciou tantas bandas e por que, mais de quatro décadas depois de seu surgimento, continua impossível encaixá-lo completamente em qualquer rótulo. Ska, punk, funk, soul, rock? Tudo isso ao mesmo tempo. No fim das contas, Fishbone continua sendo apenas Fishbone. E, naquela noite paulistana, isso foi mais do que suficiente.

Setlist – Fishbone – Fabrique Club, São Paulo – 31/10/2026

When Problems Arise
A Selection
Cholly
I Wish I Had a Date
Movement in the Light
Give It Up
In the Air
Turn the Other Way
Love Rollercoaster (Ohio Players cover)
‘Simon Says’ The Kingpin
Skankin’ to the Beat
Cubicle
Ma and Pa
Racist Piece of Shit
Party at Ground Zero
Sunless Saturday

Bis:
Everyday Sunshine

 

 
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