Texto: Vagner Mastropaulo
Fotos: Daniel Agapito
FM regressa a São Paulo, detona outra vez e cria um “auto-problemão”: ter de seguir voltando!
Em março/24, conferimos a estréia do FM no Brasil [https://onstage.mus.br/website/fm-manifesto-bar-20-03-24] no Manifesto Bar festejando quarenta anos de carreira e acabamos o texto cravando: “Que, de fato, regressem logo, pois o show foi super divertido e há demanda para retornarem!”. Nem precisamos esperar em demasia e, de quebra, a voltacoincidiu com a primeira ida deste repórter à BurningHouse. O mote da segunda vez em São Paulo? Outra celebração de quatro décadas, do début clássico, Indiscreet (86).
Como em todo show comemorativo de um disco, asdúvidassempre são: ele será tocado na íntegra? Na ordem? Desde o início do set? Sem querer dar spoilers, as respostas são: “Sim, com duas bonus tracks contemporâneas”; “Não exatamente”; e “Praticamente”. E antecipamos: se você é das antigas,foram mais quatro de Tough It Out (89), assim totalizando quinze, dasdezenove apresentadas, da era de ouro dos dois primeiros álbuns! As restantes foram: uma de HeroesAndVillains (15), Synchronized (20), Aphrodisiac (92) e Atomic Generation (18) – deixando de lado, por exemplo, o recente Brotherhood (25).
Sem banda de abertura, com o baterista Pete Jupp atrás de seu kit e com dois minutos de “atraso” em relação ao horário prometido de 21:30, disparou-se a curta vinheta dos filmes da 20thCentury Fox e um breve trecho da eternamente divertidaThe Pink PantherTheme, de Henry Mancini, completando as entradas de Steve Overland (vocal/guitarra), Jim Kirkpatrick (guitarra), Merv Goldsworthy (baixo) e Jem Davis (teclados) até uma narração sintetizar: “Voltemos àqueles áureos dias da década de oitenta. Dias em que os cabelos eram grandes e as ombreiras eram ainda maiores. Tocando seu clássico álbum Indiscreet na íntegra, senhoras e senhores, por favor, recebam ao vivo no palco o poderoso FM”.
Em termos práticos, os trabalhos foram efetivamente inauguradosporDiggingUp The Dirt, única do repertório em que o frontman começou “apenas” cantando para pegar seu instrumento em seu decorrer (como curiosidade, indicaremoslogo abaixo as três músicas em que ele não tocou guitarra). Encerrada, veio a primeira de suas interações com o público que confortavelmente ocupava pista e camarotes da casa:
“Boa noite, São Paulo! Como vocês têm passado? É uma verdadeira honra e um prazer estarmos aqui de volta. Simplesmente adoramos a última vez em que viemos e todos vocês são pessoas fantásticas. Obrigado por virem! Bem, como sabem, esta noite toda é sobre os quarenta anos desde que lançamos nosso primeiro disco, sabem? Embora não tenhamos mudado e pareçamos exatamente os mesmos, sei disso [risos]. Então agora vamos tocar o Indiscreet para vocês do começo ao fim e tudo bem quanto a isso, certo? Beleza, acho que ele começa com esta” – That Girl, hit coverizadopelo Iron Maiden (notoriamente avesso a baladas,contando somente com Wasting Love no catálogo) e disponibilizada como B-side do single de Somewhere In Time (86).
Nela, sem retorno, pudemos ver Jem se esmerando para desempenhar seu papel do melhor modo possível e, durante Other Side Of Midnight, quando finalmente o tecladista passou a conseguir se apresentar a contento e sem quaisquer problemas técnicos, o que poderia ter sidointerpretado como um efeito sobrenatural do tal “outro lado da meia-noite”, sem iluminação de palco por quase um minuto para as luzes se reestabelecerem,foi esclarecido pelo frontman: “Galera, estão se divertindo, certo? Gostaram dessa escuridão bem no meio? Foi legal, não?”. Ese saíram com Love Lies Dyingaté novas palavras do vocalista:
“Bem, vamos continuar agora com uma música que… Acho que foi o terceiro single que lançamos. Então sei que vocês conhecem a letra desta e vão cantar para mim, certo? É uma música chamada American Girls”, mantendo, até então, Indiscreet como ele foi concebido. Avançando no play e desfazendo sua ordem, Frozen Heart, sem intenção alguma, quebrou um pouco o clima, situação prontamente revertida porHot Wired. Carismático, Steve não se furtava a falar, agora alongadamente, dando tempo para Merv correr rumo ao backstage para pegar lenços de papel para seu nariz:
“Certo, o álbum tem quarenta anos e, para mim, há muitos de vocês aqui que não parecem ter quarenta anos… Então quantos de vocês na platéia têm o álbum Indiscreet? Bem, vamos tocar uma música para vocês agora que foi uma das primeiras gravadas pelo FM. Do álbum Indiscreet, se sabem a letra, cantem junto. É uma noite para cantarem junto, então cantem junto comigo, certo?”, a bela Face To Face, emendada a I BelongTo The Night (nas duas, não foi raro testemunharmos fãs indo às lágrimas) e Heart Of The Matter, que agitou a massa.
A próxima? Que tal darmos voz a quem merece, o próprio Steve: “Alguém de vocês se lembra da música Dangerous? As pessoas vêm pedindo para a tocarmos nesta turnê, então vamos tocar Dangerous para vocês agora. Ela é o lado B de Frozen Heart, nosso primeiro single”. Superando uma hora no relógio e do registro homônimo, Synchronizedacabou sendo a mais “jovem” e Let Love Be The Leader, single de 1987 e faixa bônus de Indiscreet 30 (16), surgiu com um coro fantástico de imediato, daqueles que você se pega cantarolando por dias a fio sem perceber. Em todo caso, era o momento de trocar de full-length:
“Todos estão se divertindo, certo? Lá para os idos de 1989, após terminarmos de viajar o mundo promovendo o Indiscreet, lançamos nosso segundo álbum chamado Tough It Out. Conhecem esse disco, certo? Bem, vamos tocar algumas músicas do Tough It Out e, caso saibam as letras, cantem junto. Esta música foi um grande single para nós e se chama Someday”. Esquecendo-se do (You’ll Come Running) em seu complemento, só faltou Steve apontar que o fim do set regular teria então uma quadra do citado Tough It Out, junto a: Does It Feel Like Love, e dois finais falsos; BadLuck, composta em parceria com Desmond Child, bem como BurningMy Heart Down, do mesmo álbum, porémpreterida;e a faixa-título.
Para o encore, o vocalista foi direto: “Bem, galera, vamos fazer uma música agora que não tocamos há muito, muito tempo, e as pessoas seguem pedindo por ela. É uma música do álbum Aphrodisiac. Alguém tem esse disco? É uma música chamada Closer ToHeaven”, com um quê de LynyrdSkynyrd e os teclados de Jem falando alto ao soarem como um órgão de igreja. De fato, ela foi, desde cedo, a mais pedida e, para se ter uma idéia, o fanatismo chegou ao ponto de, sem saber direito onde estava ou manjar o básico de inglês, uma garota perto deste escriba clamar pela grande balada dentre as baladas da noite mesmo após Steve anunciá-la. Vá lá entender…
Marcando o fechamento em alto nível, a saideira foi a ótima KilledBy Love, contendo um sutil “Muito obrigado, galera! Boa noite!” de despedida eHere I Go Again, do Whitesnake, na discotecagem, sem se tratar de uma outro,batendo em uma hora e quarenta e quatro minutos de um renovado tremendo espetáculo!E é importante ressaltar que a reprodução do play ao vivo hoje em dia evidentemente soadiferente da gravação original em estúdio, sem datá-la ou descaracterizá-la. Simplificando, ela seaproxima do mencionado Indiscreet 30, até por ele ter sido refeito com o line-up atual.
Por fim, caso você queira checar como foi a performance do FM na BurningHouse, uma boa alma subiu o show inteiro para o YouTube [https://www.youtube.com/watch?v=Bvar4K7kvGg], editando somente determinadas pausas um tanto extensas entre canções. E concluímos reiterando: eles terão que vir a São Paulo muitas vezes ainda! Que “problemão”!

Setlist
01) DiggingUp The Dirt **
02) That Girl
03) Other Side Of Midnight
04) Love Lies Dying
05) American Girls
06) Frozen Heart
07) Hot Wired
08) Face To Face
09) I BelongTo The Night
10) Heart Of The Matter
11) Dangerous
12) Synchronized *
13) Let Love Be The Leader
14) Someday (You’ll Come Running) *
15) Does It Feel Like Love
16) BadLuck
17) Tough It Out *
Encore
18) Closer ToHeaven
19) KilledBy Love
* Steve Overland cantando, sem tocar guitarra / ** Ele começa só cantando e depois pega a guitarra






