Texto e Fotos: Flavio Santiago
Gilberto Gil — Turnê Tempo Rei: o eterno ciclo da música brasileira
Gilberto Gil não é apenas um dos maiores nomes da música brasileira — é um dos arquitetos da nossa identidade sonora. Sua obra atravessa gerações e estilos: do tropicalismo revolucionário dos anos 60 ao reggae baiano, da música de protesto à celebração pura da vida. Compositor, cantor, poeta, pensador e ex-ministro da Cultura, Gil construiu um legado que transcende a música, tocando a alma brasileira em sua multiplicidade. A turnê Tempo Rei é um retrato vivo desse legado: uma celebração emocionada e generosa da sua trajetória, mas também uma reverência ao poder renovador da canção, do tempo e da esperança.
Tempo Rei é mais que uma excursão comemorativa — é a reafirmação de que a música de Gilberto Gil permanece vital e atual. Em tempos turbulentos, seu repertório continua servindo como bússola moral e espiritual. A turnê é um mergulho profundo em suas fases mais marcantes, costuradas com discursos de paz, reflexão política e festa popular.
A abertura com “Palco” já posiciona o espírito da noite: Gil, como sempre, se apresenta como artista a serviço da vida, do amor, da energia criadora. Seguindo com “Banda Um”, somos transportados para a fase vibrante de Gil nos anos 80, aquela em que incorporou pop e eletrônica sem perder a brasilidade.
Logo depois, o clássico “Tempo Rei” — música que dá nome à turnê — ecoa como oração: uma reverência ao tempo como entidade transformadora. A interpretação é serena, quase litúrgica, reforçando a majestade do momento.
Em seguida, Gil mostra sua faceta mais afetiva e nordestina com “Eu Só Quero um Xodó” (de Dominguinhos), precedida pela introdução de “Aqui e Agora”, reforçando o vínculo entre o amor e a eternidade na música nordestina. A sequência com “Eu Vim da Bahia” e “Procissão” aprofunda essa conexão com suas raízes, mostrando o caminhar do menino baiano que se tornou símbolo nacional.
O primeiro grande momento de comoção vem com “Domingo no Parque”, obra-prima tropicalista. A narrativa cantada ainda soa urgente e moderna. Logo depois, “Cálice” (precedida por um vídeo emocionante com Chico Buarque e o público gritando “Sem anistia!”) cria um dos ápices políticos da noite — é impossível não sentir o peso da história ecoando na arena.
Com “Back in Bahia” (precedida de “Batmakumba”), Gil retoma a leveza, numa homenagem à volta para casa. “Refazenda” (introduzida por “Tenho Sede”) traz o Gil do campo, da simplicidade, das metáforas da natureza — outro momento em que o show ganha uma aura quase mística.
A energia cresce com “Refavela”, em uma batida pulsante que remete às conexões afro-baianas, seguida pela versão sublime de “Não Chore Mais”, adaptada do clássico de Bob Marley, que Gil transformou em hino da esperança nacional.
Em “Extra” e “Vamos Fugir”, Gil embala a plateia no groove, preparando terreno para a deliciosa releitura de “A Novidade” dos Paralamas, mostrando seu eterno diálogo com outras gerações da música brasileira.
“Realce” e “A Gente Precisa Ver o Luar” (esta última com participação emocionante de Nando Reis) reforçam a necessidade da beleza e da esperança como resistência.
Gil também reafirma seu espírito urbano e contestador em “Punk da Periferia” e “Extra II (O Rock do Segurança)”, músicas que soam ainda mais atuais em um país marcado pela desigualdade.
O show então mergulha em sua fase mais espiritual com “Se Eu Quiser Falar com Deus” — momento de total introspecção e silêncio respeitoso da plateia. É seguido pela comovente “Drão”, que ganha ainda mais significado com a participação emocionada de Preta Gil, sua filha.

“Estrela”, “Esotérico” e “Expresso 2222” formam uma sequência mágica que celebra o amor, o mistério da vida e a alegria de ser quem se é.
Os últimos momentos do show são uma explosão de celebração: “Andar com Fé”, “Êmoriô”, o hino “Aquele Abraço” (em medley com “Funk-se Quem Puder”), e a festiva “Esperando na Janela” (de Targino Gondim).
O grand finale com “Toda Menina Baiana”, “Frevo Rasgado” e “Atrás do Trio Elétrico” transforma o palco em um verdadeiro carnaval, uma apoteose da brasilidade que Gil ajudou a construir.
A turnê Tempo Rei não é apenas um passeio pelos sucessos de Gilberto Gil. É uma celebração da música como instrumento de transformação, como ferramenta de resistência e como forma maior de amor. Assistir a esse show é sair renovado: com o coração mais leve, o espírito mais forte e a certeza de que Gil é, e sempre será, um dos grandes mestres do nosso tempo.
SETLIST:
Palco
Banda um
Tempo rei
Eu só quero um xodó
(Dominguinhos cover) (“Aqui e Agora” intro.)
Eu vim da Bahia
Procissão
Domingo no parque
Cálice (Chico Buarque )
Back in Bahia (Batmakumba intro.)
Refazenda (“Tenho sede” intro.)
Refavela
Não chore mais (No Woman, No Cry) (Bob Marley & The Wailers cover)
Extra
Vamos fugir
A novidade(Os Paralamas do Sucesso cover)
Realce
A gente precisa ver o luar (with Nando Reis)
Punk da periferia
Extra II (O rock do segurança)
Se eu quiser falar com Deus
Drão (with Preta Gil)
Estrela
Esotérico
Expresso 2222
Andar com fé
Êmoriô
Aquele Abraço / Funk-se quem puder
Esperando na janela (Targino Gondim cover)
Toda menina baiana / Frevo Rasgado / Atrás do Trio Elétrico






