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H2O ::: 31/10/26 ::: Espaço Usine
Postado em 02 de novembro de 2026 @ 23:41

H2O  faz a volta dos que não foram e celebra o hardcore em noite de Halloween em São Paulo

 

Texto e Fotos: Flavio Santiago

São Paulo viveu uma daquelas noites em que escolher um único show parecia quase injusto. Em pleno Halloween, a cidade estava tomada por apresentações de diferentes estilos, casas cheias e fãs atravessando bairros para tentar encaixar mais de um compromisso musical na mesma noite. No meio desse verdadeiro circuito de shows, o H2O encontrou seu espaço e transformou o Usine em ponto de encontro para quem ainda acredita que algumas despedidas merecem ser ignoradas. Dois anos depois de anunciar o fim de suas atividades, a banda nova-iorquina voltou ao Brasil para um daqueles clássicos casos de “retorno dos que não foram”, para felicidade de um público que claramente ainda não estava pronto para dizer adeus.

Foi o famoso retorno dos que não foram, para a alegria de um público que claramente ainda tinha muita disposição para cantar junto com Toby Morse e companhia.

O horário do show acabou funcionando quase como uma decisão estratégica. Com a apresentação começando às 22h25, um pouco mais tarde que o previsto, muita gente que havia passado parte da noite em outros eventos pela cidade conseguiu atravessar São Paulo e chegar ao Usine a tempo de acompanhar o H2O. Em especial, quem havia encarado Fishbone ou A Wilhelm Scream teve uma margem extra para fazer aquela verdadeira maratona de shows tão comum em noites especialmente movimentadas na capital. E, a julgar pelo bom público que tomou conta do espaço, a estratégia funcionou.

Havia ainda uma atração especial na formação apresentada em São Paulo. Matt Henderson, conhecido por suas passagens por nomes fundamentais do hardcore nova-iorquino como Madball e Agnostic Front, assumiu uma das guitarras e acrescentou ainda mais peso histórico ao encontro. Sua presença combinava perfeitamente com uma banda cuja trajetória sempre esteve ligada à tradição do hardcore de Nova York, ainda que o H2O tenha construído uma identidade própria ao inserir melodias, refrões extremamente pegajosos e uma abordagem positiva dentro de um estilo muitas vezes associado apenas à agressividade.

Quando “Nothing to Prove” abriu a apresentação, ficou claro que não haveria espaço para aquecimento. O H2O entrou acelerado e praticamente não diminuiu o ritmo durante os cerca de 55 minutos de show. A sequência inicial com “Everready”, “Family Tree” e “1995” funcionou como uma espécie de declaração de princípios, reunindo diferentes momentos da carreira e provocando imediatamente rodas, braços levantados e aquele coro coletivo que sempre foi uma das principais características das apresentações da banda.

“Family Tree”, que ainda ganhou um trecho de “Waiting Room”, do Fugazi, resumiu bem a relação do H2O com suas próprias referências. Em vez de tratar o passado como peça de museu, a banda continua usando suas influências como parte viva de sua identidade. Depois vieram “Faster Than the World”, “Scene Report” e “I Know Why”, mantendo a apresentação em alta velocidade e lembrando por que o grupo conseguiu atravessar décadas sem perder sua ligação com a cena.

Toby Morse segue sendo o centro natural de tudo. Mais do que apenas cantar, ele conduz o público como quem conversa com uma grande reunião de amigos. O H2O nunca foi uma banda baseada em mistério ou distância entre palco e plateia. Suas músicas sempre falaram diretamente sobre amizade, pertencimento, escolhas e permanência, e títulos como “Still Here”, “Heart on My Sleeve” e “Thicker Than Water” ganharam uma força quase literal naquela noite. Afinal, depois de uma turnê de despedida em 2024, eles estavam, de fato, ainda ali. O retorno ao Brasil em 2026 reforçou justamente essa sensação de que o anúncio anterior talvez tenha representado mais o encerramento de uma fase do que propriamente o fim definitivo da banda.

A segunda metade do repertório mostrou como o H2O acumulou ao longo dos anos um catálogo perfeito para apresentações ao vivo. “Spirit of ’84” foi seguida por “I See It in Us”, “Sunday” e “Memory Lane”, numa sequência praticamente feita para ser cantada com punhos erguidos. Não existe grande produção, firulas ou necessidade de criar uma experiência artificial. O espetáculo do H2O continua sendo formado essencialmente por cinco músicos, amplificadores, suor e uma plateia disposta a participar.

“One Life, One Chance”, talvez uma das músicas que melhor sintetizam a filosofia do grupo, chegou como um dos grandes momentos da noite, preparando o terreno para “Guilty by Association” e “What Happened”. Essa última, carregada de referências à trajetória e às mudanças dentro da própria cena punk e hardcore, parece ganhar novos significados conforme os anos passam. O H2O está inevitavelmente mais velho, assim como boa parte de seu público, mas a energia empregada nas músicas continua distante de qualquer apresentação puramente nostálgica.

Para encerrar, “5 Yr. Plan” colocou o Usine novamente em ebulição e fechou uma apresentação curta, direta e sem desperdícios. O repertório teve 18 músicas, percorrendo discos fundamentais como H2O, Thicker Than Water, F.T.T.W., GO e, principalmente, Nothing to Prove.

Curiosamente, poucos títulos poderiam definir melhor essa nova passagem por São Paulo do que justamente “Nothing to Prove”. Depois de três décadas de história, o H2O realmente não precisa provar mais muita coisa. A banda já tem seu lugar garantido dentro do hardcore mundial e poderia tranquilamente viver apenas das lembranças. Mas a apresentação no Usine mostrou algo mais interessante: enquanto houver vontade de tocar e pessoas dispostas a cantar essas músicas como se fossem novas, talvez não exista razão alguma para uma despedida definitiva.

Se em 2024 o público brasileiro acreditou estar presenciando um adeus, 2026 mostrou que aquele ponto final estava mais para reticências. O H2O voltou, reuniu um ótimo público em uma noite abarrotada de opções pela cidade e mostrou que continua capaz de entregar exatamente aquilo que seus fãs esperam: hardcore rápido, melódico, intenso e feito sem qualquer distância entre banda e plateia. O “retorno dos que não foram” acabou sendo, acima de tudo, uma ótima notícia.

Setlist – H2O – Espaço Usine, São Paulo – 31/10/2026

Nothing to Prove
Everready
Family Tree (com trecho de “Waiting Room”, do Fugazi)
1995
Faster Than the World
Scene Report
I Know Why
Still Here
Heart on My Sleeve
Thicker Than Water
Spirit of ’84
I See It in Us
Sunday
Memory Lane
One Life, One Chance
Guilty by Association
What Happened
5 Yr. Plan

 

 
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