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High on Fire ::: 04/10/26 ::: Burning House
Postado em 07 de outubro de 2026 @ 01:25

High on Fire transforma estreia brasileira em avalanche de riffs na Burning House

Liderado pelo emblemático Matt Pike e com Ben Koller, do Converge, na bateria, trio finalmente chegou ao Brasil com repertório atravessando mais de duas décadas de peso, volume e distorção

Texto e Fotos: Flavio Santiago

 

Demorou quase três décadas, mas finalmente aconteceu. Formado em Oakland, na Califórnia, em 1998, o High on Fire pisou pela primeira vez em um palco brasileiro na noite de domingo, 4 de outubro, para uma apresentação única na Burning House, em São Paulo. Mais do que simplesmente quitar uma dívida histórica com os fãs daqui, Matt Pike e companhia trouxeram exatamente aquilo que se esperava deles: riffs monumentais, distorção no limite e uma massa sonora capaz de transformar uma casa de shows em uma espécie de câmara de combustão.

A origem do High on Fire está diretamente ligada ao Sleep. Depois do primeiro fim da banda que ajudou a estabelecer as bases do stoner e do doom dos anos 1990, Matt Pike resolveu levar sua guitarra para uma direção mais agressiva. Se no Sleep havia espaço para repetição hipnótica e longos mergulhos psicodélicos, no High on Fire a mesma obsessão pelo peso ganhou velocidade, ferocidade e uma ligação quase natural com Motörhead, thrash metal e sludge. Ao longo de nove discos, o grupo construiu uma identidade própria, chegando inclusive ao Grammy de Melhor Performance de Metal, conquistado em 2019 por “Electric Messiah”.

É também impossível falar da banda sem falar de Pike. Sem camisa, guitarra pendurada no corpo e aquela postura de quem parece ter acabado de descer de alguma montanha carregando um amplificador valvulado nas costas, o músico continua sendo uma das figuras mais reconhecíveis da música pesada contemporânea. Há pouco de teatral em sua presença de palco. O espetáculo está essencialmente no som e som, naquela noite, havia em quantidade quase absurda.

Antes mesmo do primeiro riff, “Karanlık Yol”, faixa instrumental de inspiração turca do mais recente Cometh the Storm, de 2024, serviu como introdução. Logo depois veio “Burning Down”, também do disco novo, colocando imediatamente a Burning House sob uma parede de frequências graves. O álbum mais recente incorporou novas texturas à linguagem da banda, inclusive elementos vindos do interesse do baixista Jeff Matz pela música turca, mas sem retirar um grama sequer da brutalidade que caracteriza o High on Fire.

No palco brasileiro havia ainda um elemento especial: Ben Koller, baterista do Converge, assumindo as baquetas durante a turnê latino-americana. Koller também possui passagens por All Pigs Must Die e Killer Be Killed e sua maneira extremamente física de tocar se encaixou de forma quase assustadoramente natural no trio. O curioso é que existe mais de uma ponte com o Converge nesta fase do High on Fire. “Cometh the Storm” foi produzido por Kurt Ballou, guitarrista do grupo de Massachusetts, enquanto Koller levou para o palco brasileiro aquela mesma combinação de precisão e violência que marca sua carreira.

Se alguém ainda precisava de provas disso, “Hung, Drawn and Quartered” tratou de oferecê-las. Retirada de Surrounded by Thieves, de 2002, a faixa trouxe o High on Fire das origens para dentro do repertório e deixou evidente como a música da banda envelheceu bem. O riff de Pike parece menos uma sequência de acordes do que uma máquina sendo colocada em movimento, enquanto Jeff Matz funciona como uma segunda camada de concreto por baixo da guitarra.

“Rumors of War” veio na sequência aumentando a velocidade. Curta, direta e praticamente impossível de permanecer imóvel diante dela, é uma síntese perfeita do ponto em que o High on Fire deixa de ser apenas uma banda de stoner ou doom. Há ali uma urgência quase punk e um DNA de Motörhead atravessando a sujeira das guitarras.

Então o grupo voltou ainda mais no tempo com “10,000 Years”, recuperando o primeiro álbum, The Art of Self Defense, e lembrando que a estreia brasileira não seria apenas uma apresentação promocional do disco novo. Era, na prática, uma retrospectiva condensada de mais de 25 anos.

Essa característica ficou ainda mais clara com “Fertile Green”, de De Vermis Mysteriis, um dos momentos em que a combinação entre groove e agressividade mostrou toda sua força. Gravado originalmente com produção de Kurt Ballou, o disco já apontava como o High on Fire poderia soar simultaneamente sujo, pesado e extremamente definido. Ao vivo, “Fertile Green” ganhou proporções ainda maiores.

“Fireface” manteve o mergulho pelo catálogo, enquanto “Sol’s Golden Curse” trouxe outra faceta da banda, aquela em que Pike deixa os riffs respirarem apenas o suficiente para que o próximo impacto pareça ainda mais brutal.

E havia uma questão peculiar no som da noite, para quem estava nas primeiras fileiras, a voz de Matt Pike muitas vezes parecia enterrada. Não necessariamente porque estivesse baixa na mixagem geral, mas porque a quantidade de guitarra, baixo e bateria chegando diretamente do palco formava uma massa sonora tão grande que os vocais acabavam engolidos pelas frequências ao redor. Era possível perceber Pike cantando, mas muitas palavras desapareciam dentro da avalanche.

Curiosamente, bastava caminhar para regiões mais ao fundo da Burning House para a situação mudar. Com maior distância dos amplificadores e melhor percepção do sistema de PA, a voz aparecia de maneira muito mais clara. O que na frente parecia quase instrumental se transformava, alguns metros atrás, em uma mixagem mais equilibrada.

Isso talvez diga muito sobre a experiência High on Fire. Não é exatamente uma banda que utilize o volume como complemento. O volume faz parte da composição.

A reta final mostrou isso de maneira exemplar.

“Fury Whip”, de Death Is This Communion, praticamente detonou qualquer resquício de contenção da plateia. É uma música construída para provocar movimento, e a combinação do riff circular de Pike com a bateria insana de Koller empurrou o público para o mosh. Se até então havia uma espécie de contemplação diante da chegada histórica da banda ao país, naquele momento a Burning House virou uma arena.

Então veio “Snakes for the Divine”.

Uma das composições definitivas do High on Fire, a faixa-título do álbum de 2010 possui tudo aquilo que tornou Pike uma referência para diferentes gerações de guitarristas. Há riffs que parecem grandes demais para três músicos, mudanças de dinâmica, solos e uma seção rítmica funcionando como um rolo compressor. Ali ficou particularmente evidente o trabalho de Jeff Matz, frequentemente menos celebrado do que o homem ao seu lado, mas fundamental para que o som tenha tamanha dimensão.

O encerramento coube a “Darker Fleece”, novamente de Cometh the Storm. Depois de percorrer músicas dos primeiros anos, atravessar diferentes fases e chegar a um dos maiores hinos do catálogo, o High on Fire decidiu terminar olhando para o presente. E terminou da maneira apropriada: desacelerando, aumentando a sensação de peso e fazendo cada nota parecer permanecer alguns segundos no ar antes da seguinte.

Não houve necessidade de grandes discursos ou encenações. Matt Pike, Jeff Matz e Ben Koller fizeram aquilo que o High on Fire construiu como linguagem durante toda a carreira: tocar alto, tocar pesado e deixar que os riffs façam o restante.

Para uma banda que levou 28 anos para chegar ao Brasil, talvez fosse possível imaginar uma estreia cercada de expectativas difíceis de satisfazer. O High on Fire resolveu o problema da maneira mais simples possível.

 
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