Texto e Fotos: Flavio Santiago
Integrity finalmente no Brasil: o culto do hardcore sombrio em noite histórica
Há bandas que transcendem o rótulo de gênero e passam a ser quase entidades dentro de uma cena. O Integrity é uma delas. Formado no final dos anos 1980 em Cleveland, Ohio, o grupo liderado por Dwid Hellion redefiniu os limites entre o hardcore e o metal, criando uma estética própria que unia riffs cortantes, vocais viscerais e uma aura quase ritualística. Ao longo de mais de três décadas, a banda influenciou incontáveis nomes do underground, ajudando a moldar o que mais tarde se tornaria o metalcore moderno — muito antes de o termo se popularizar.
Álbuns como Those Who Fear Tomorrow (1991) e Systems Overload (1995) não só consolidaram o som agressivo e intransigente do grupo, como também introduziram uma abordagem filosófica e espiritual ao hardcore, incorporando referências à teologia, ocultismo e à literatura apocalíptica. Integrity nunca foi uma banda “fácil”: suas letras falam sobre redenção, destruição e transcendência; seu visual e postura sempre desafiaram convenções, tornando-a uma lenda viva no submundo do punk e do metal. Dwid Hellion, figura enigmática e carismática, transformou o Integrity em uma espécie de seita sonora, reverenciada por gerações de fãs e músicos que viam na banda uma força bruta, honesta e inabalável.
Por isso, o anúncio de que o Integrity se apresentaria pela primeira vez no Brasil carregava um peso especial. Décadas de espera, bootlegs rodando entre colecionadores, camisas raras e incontáveis discussões sobre o impacto da banda culminaram nessa noite. Quando as luzes se apagaram e o vídeo de introdução começou, ficou claro que o público presente não estava diante de um simples show — era um acontecimento histórico.
Antes do ritual apocalíptico comandado por Dwid Hellion, o palco foi aquecido por duas forças representativas do hardcore e metal nacional: Obsoletion e Infortuno.
Infortuno, Originária do cenário paulistano, a banda Infortuno vem fazendo barulho no circuito underground, o EP de estreia “Decadent Vindication” aponta para uma sonoridade direta, agressiva, sem concessões de Santos (SP), representa a escola mais direta e combativa do hardcore nacional. O grupo aposta em letras politizadas, riffs crus e uma energia que remete ao espírito do do it yourself dos anos 1990. Com um som que evoca nomes clássicos do hardcore e crust punk, o Infortuno vem se destacando em festivais independentes e lançamentos de estúdio que exploram o caos urbano e as tensões sociais brasileiras. No palco, o quarteto é pura descarga elétrica: intensidade e sinceridade em estado bruto.
Obsoletion, Banda de hardcore/metal de São Paulo, iniciada em 2019 e no mesmo ano, lança sua primeira demo. Em 2024, lança seu primeiro álbum, de nome também “Obsoletion”, pela Sentient Ruin Laboratories. Em 2025 lança o EP “End Screen”, com três faixas, de forma independente.
O Obsoletion é um híbrido do hardcore punk sombrio com o metal primordial com influências de bandas como Cro-Mags, Integrity, Sheer Terror (de onde a banda tirou o nome), Mayhem, Celtic Frost, Hellhammer, G.I.S.M. Carnivore e Possessed, servindo como uma trilha sonora sombria para um mundo sombrio que se deteriora rapidamente e só piora.
As duas apresentações prepararam o terreno com perfeição. O público respondeu bem, transformando o aquecimento em uma verdadeira celebração do cenário nacional, reafirmando que o hardcore brasileiro continua produzindo bandas com identidade própria — e que o diálogo entre gerações e países ainda é uma das forças do gênero.
Após o encerramento das bandas de abertura, o clima mudou completamente e sem muita firula a banda sobe ao palco, enfim, a hora mais esperada por todos havia chegado e os primeiros acordes de “Vocal Test” ecoaram, a Burning House explodiu em uma mistura de euforia e reverência. Dwid surgiu como uma entidade — olhar fixo, gestos intensos — e o público entendeu: era hora do confronto espiritual.
“Hollow” e “Psychological Warfare” mantiveram o ritmo alucinante, seguidas de “Sarin” e “Hymn for the Children of the Black Flame”, que se tornaram dois dos momentos mais potentes da noite. O som do Integrity é uma parede: guitarras que cortam o ar, baixo ressoando no peito e uma bateria que alterna entre o caos e o controle.
Quando chegou a vez de “Systems Overload”, Dwid fez uma pausa breve para dedicar a faixa ao Sepultura e aos irmãos Cavalera, em uma homenagem que o público brasileiro recebeu com euforia. Foi um reconhecimento simbólico e sincero — um elo entre duas vertentes extremas que, mesmo em continentes diferentes, compartilham o mesmo DNA sonoro e a mesma atitude.
O setlist foi uma viagem pela história da banda: “Taste My Sin”, “Incarnate 365”, “Abraxas Annihilation”, “Rise”, “Diseased Prey Within Casing” e “Judgement Day” foram executadas com uma força quase ritualística. Em “Micha: Those Who Fear Tomorrow”, o público se fundiu à banda — um coro único que fez jus à aura mística do disco de estreia.
Durante “Jagged Visions of True Destiny”, Dwid apresentou os músicos, encerrando o ciclo principal do show antes de retornar com dois covers emblemáticos: “Hybrid Moments” (Misfits) e “Straight Edge Revenge” (Project X). As escolhas foram certeiras — um tributo às raízes punk e hardcore que moldaram o Integrity e todo o espírito do underground.
O show terminou sem concessões. Nenhum momento de pausa desnecessária, nenhuma quebra de clima. Apenas som, suor, devoção e energia crua. A primeira passagem do Integrity pelo Brasil foi mais do que um concerto: foi uma comunhão entre artistas e público, entre gerações e ideologias.
Para quem cresceu ouvindo Those Who Fear Tomorrow ou colecionando fitas e discos da banda, a sensação era de missão cumprida. Para quem descobriu o grupo mais recentemente, foi uma aula de intensidade e autenticidade. E para o cenário brasileiro, foi um lembrete poderoso de que o underground vive — e que continua sendo o espaço onde a integridade artística ainda vale mais do que qualquer tendência.
O Integrity veio, viu e destruiu. E deixou uma marca que dificilmente será apagada.
Setlist
Intro
Vocal Test
Hollow
Psychological Warfare
Sarin
Hymn for the Children of the Black Flame
Taste My Sin
Incarnate 365
Abraxas Annihilation
Systems Overload (Dedicated to Sepultura and the Cavalera brothers)
Rise
Diseased Prey Within Casing
Judgement Day
Micha: Those Who Fear Tomorrow
Jagged Visions of True Destiny (with band introductions)
Hybrid Moments (Misfits cover)
Straight Edge Revenge (Project X cover)






