ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Iron Maiden ::: 25/10/2026 ::: Nubank Parque
Postado em 31 de outubro de 2026 @ 19:37

Iron Maiden faz da música território neutro em noite histórica em São Paulo

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Poucas bandas no planeta capazes de transformar um estádio lotado em algo parecido com uma religião coletiva. O Iron Maiden é uma delas. E talvez justamente por isso o show do último domingo, 25 de outubro, em São Paulo, tenha carregado um significado um pouco diferente das tantas outras visitas dos ingleses ao Brasil. Do lado de fora do Nubank Parque, antigo Allianz Parque, o país vivia uma daquelas noites em que parece impossível conversar sobre qualquer outra coisa. Era dia de segundo turno das eleições presidenciais. Celulares nas mãos, atualizações constantes, olhares para as telas e conversas atravessadas pela ansiedade da apuração criavam um clima de apreensão que inevitavelmente chegou até os corredores e pistas do estádio. Dentro dali havia gente dos dois lados, como há em qualquer multidão brasileira. Mas, naquela noite, havia principalmente fãs do Iron Maiden. E isso fez toda a diferença. Os ingressos para o primeiro dos dois shows paulistanos estavam esgotados e aproximadamente 50 mil pessoas ocuparam o estádio para acompanhar a Run For Your Lives World Tour, turnê comemorativa dos 50 anos da banda. Por algumas horas, cores eleitorais deram lugar ao preto das camisetas, divergências ficaram em segundo plano e uma coisa aparentemente muito simples voltou a cumprir seu papel mais básico: a música reuniu pessoas que provavelmente discordariam ferozmente umas das outras fora dali.

Antes da Donzela de Ferro assumir o palco, coube ao Alter Bridge uma tarefa nada confortável: tocar para um estádio tomado por fãs que estavam basicamente contando os minutos para ouvir “Doctor Doctor”. Myles Kennedy, Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips não se intimidaram. Em aproximadamente cinquenta minutos, o quarteto entregou um show enxuto, pesado e tecnicamente impecável.

“Silent Divide” abriu os trabalhos e foi seguida por “Addicted to Pain”, enquanto “Cry of Achilles” e “Fortress” mostraram justamente aquilo que faz do Alter Bridge uma banda muito maior do que o rótulo de “grupo formado por ex-integrantes do Creed” às vezes sugere.

Myles Kennedy estava com a voz em grande forma e ainda arriscou um simpático “boa noite” em português. Mark Tremonti, como sempre, parece tocar guitarra com a naturalidade de quem executa algo muito mais simples do que realmente está fazendo. “Metalingus” finalmente arrancou uma reação mais forte da plateia, “Blackbird” trouxe um dos grandes momentos da apresentação e “Isolation” encerrou um set curto demais para quem gosta da banda, mas suficientemente forte para justificar o posto de convidado especial daquela noite.

O Alter Bridge não tentou competir com o que viria depois. Fez o que precisava fazer e fez muito bem.

Mas existe um momento específico em todo show do Iron Maiden em que qualquer conversa termina: “Doctor Doctor”. Quando a gravação do clássico do UFO começou a ecoar pelo estádio, celulares foram guardados, pelo menos aqueles que não estavam filmando, e toda aquela ansiedade externa perdeu importância instantaneamente. Era hora do Maiden. “The Ides of March” criou a introdução perfeita antes de a banda aparecer com “Murders in the Rue Morgue”. E aí ficou evidente qual era a proposta da Run For Your Lives: nada de divulgação de disco novo, nada de obrigação promocional.

O Iron Maiden estava ali para olhar para trás e celebrar a própria história. E que história. A sequência inicial ainda trouxe “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera”, mergulhando justamente no período mais cru da banda, quando Paul Di’Anno ainda estava no microfone e o Iron Maiden estava longe de imaginar que, quase meio século depois, lotaria estádios do outro lado do mundo. Bruce Dickinson obviamente não tenta imitar Di’Anno. Faz essas músicas à sua maneira, correndo pelo palco, gesticulando, interpretando personagens e mostrando uma disposição que continua difícil de associar a alguém com décadas de estrada nas costas.

“The Number of the Beast” mudou o estádio de temperatura. É engraçado pensar quantas vezes essa música já foi tocada ao vivo, quantas vezes aqueles riffs já foram ouvidos e quantos milhares de registros dela existem no YouTube. Nada disso importa quando aquele começo explode diante de 50 mil pessoas. O impacto continua lá. Depois veio uma das grandes joias do repertório da turnê: “Infinite Dreams”. Uma música que por muito tempo parecia condenada a permanecer apenas na memória dos fãs ganhou novamente vida nos palcos e mostrou por que Seventh Son of a Seventh Son ocupa um lugar tão especial na discografia da banda. “Powerslave” e “2 Minutes to Midnight” mantiveram a viagem pelos anos 1980 antes de “Rime of the Ancient Mariner” transformar o estádio em algo próximo de um gigantesco teatro de heavy metal.

São quase 14 minutos de mudanças de andamento, atmosferas e construção dramática. Poucas bandas colocariam uma música dessas no meio de um show de estádio. Menos ainda fariam dezenas de milhares de pessoas acompanharem cada segundo dela. É justamente aí que reside parte do fascínio do Iron Maiden. Eles nunca trataram o público como alguém que precisa receber apenas refrões rápidos ou sucessos radiofônicos. Seus fãs aprenderam a gostar de músicas de sete, oito, dez, treze minutos. E continuam esperando por elas.

“Run to the Hills” trouxe novamente o estádio para o terreno dos grandes hinos antes de “Seventh Son of a Seventh Son” devolver a grandiosidade progressiva ao espetáculo. “The Trooper” continua sendo um ritual obrigatório e “Hallowed Be Thy Name”, mesmo depois de tantas décadas, permanece uma das grandes composições da história do heavy metal. Nesse momento já não havia eleição. Não havia esquerda, direita, vencedor, derrotado ou discussão política. Havia milhares de pessoas gritando as mesmas palavras. Talvez seja ingenuidade acreditar que uma música consiga apagar diferenças profundas. Claro que não consegue.

Na manhã seguinte, cada um continuaria pensando exatamente o que pensava antes de entrar no estádio. Mas durante duas horas o Iron Maiden provou que existe um território em que pessoas absolutamente diferentes ainda conseguem dividir o mesmo espaço sem precisar transformar o outro em inimigo. E isso, naquele domingo, não pareceu pouca coisa. “Iron Maiden” encerrou o bloco principal com Eddie tomando conta do imaginário visual que acompanha a banda há praticamente toda a sua existência. A produção da turnê usa grandes painéis e cenários digitais para revisitar diferentes períodos da carreira, transformando cada música quase em um capítulo dessa retrospectiva de cinquenta anos.

O intervalo durou pouco. O discurso de Winston Churchill anunciou “Aces High” e começou o bis. O Iron Maiden ainda tinha munição suficiente para uma sequência que, sozinha, poderia justificar o ingresso. Depois veio “Fear of the Dark”. Poucos momentos em shows de rock no Brasil são tão impressionantes quanto ouvir uma multidão cantando aquela melodia antes mesmo de Bruce Dickinson abrir a boca. É praticamente uma tradição brasileira incorporada ao próprio espetáculo.

O público não acompanha “Fear of the Dark”. O público participa dela. E para fechar, “Wasted Years”. Uma escolha perfeita. Depois de uma noite inteira olhando para o passado, a música escrita por Adrian Smith funciona quase como uma conclusão sobre tempo, memória e tudo aquilo que passa rápido demais. O Iron Maiden celebrou cinquenta anos sem parecer um museu de si mesmo. Revisitou os primeiros nove discos, do primeiro álbum até Fear of the Dark, sem transformar nostalgia em caricatura e mostrou que seu catálogo clássico não precisa de retoques para continuar gigantesco.

Naturalmente, o tempo existe. Alguns andamentos hoje soam diferentes e a presença de Simon Dawson na bateria imprime outra dinâmica às músicas que durante décadas tiveram Nicko McBrain como referência. Mas procurar em 2026 exatamente a banda de 1985 seria perder completamente o ponto. O Iron Maiden que subiu ao palco em São Paulo não era formado por jovens tentando conquistar o mundo. Era a banda que conquistou. E ainda estava ali. Steve Harris disparando as notas de seu baixo como se cada apresentação continuasse sendo decisiva. Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers formando a muralha de guitarras. Bruce Dickinson correndo, interpretando e conduzindo dezenas de milhares de pessoas. Simon Dawson enfrentando talvez uma das tarefas mais ingratas do heavy metal: ocupar o banco de bateria de uma banda cuja história já estava escrita muito antes de sua chegada.

Quando “Always Look on the Bright Side of Life”, do Monty Python, começou a tocar depois do último acorde, o estádio lentamente voltou ao mundo real. Os celulares voltaram às mãos. A eleição continuava existindo. As diferenças também. Mas durante aquelas duas horas elas pareceram pequenas diante de algo que todos ali compartilhavam. Não importava em quem cada pessoa havia votado naquele domingo. Quando Bruce Dickinson perguntou São Paulo, todos responderam juntos. E talvez seja justamente por isso que, depois de cinquenta anos, o Iron Maiden ainda seja muito mais do que uma banda. Naquela noite, pelo menos, a Donzela de Ferro venceu por unanimidade.

Setlist – Alter Bridge

Silent Divide / Addicted to Pain / Cry of Achilles / Fortress / Silver Tongue / Metalingus / Blackbird / Isolation.

Setlist – Iron Maiden

Murders in the Rue Morgue / Wrathchild / Killers / Phantom of the Opera / The Number of the Beast / Infinite Dreams / Powerslave / 2 Minutes to Midnight / Rime of the Ancient Mariner / Run to the Hills / Seventh Son of a Seventh Son / The Trooper / Hallowed Be Thy Name / Iron Maiden / Aces High / Fear of the Dark / Wasted Years.

 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025