Texto: Vagner Mastropaulo
Uma experiência intimista, saudosista e…inusitada!
Certas coberturas se tornam autênticos desafios… Esta, do retorno do Jethro Tull a São Paulo pela primeira vez em dezessete anos e à mesma casa, então sob a alcunha de Credicard Hall, em abril/07 (desconsiderando-se as vindas solo de Ian Anderson ao Teatro Bradesco em outubro/15 e outubro/17), já começou difícil a partir da ida de trem… Com o trecho entre as estações Berrini e Morumbi da Linha 9-Esmeralda interrompido, os passageiros eram forçados a tomaro ônibus da Paese, levando a considerável perda de tempo. Em suma, deu trabalho, mas chegamos ao Vibra São Paulo aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo e, encontrado o local do credenciamento, pintaram os primeiros informes via assessoria de imprensa: não seria permitido fotografar ou filmar.
Até aí, maravilha, pois este escriba é avesso às duas modalidades de registros e, acessando o recinto, um aviso resumia: “Atenção! A pedido do Ian Anderson e da banda Jethro Tull, é proibido tirar fotos ou fazer vídeos com smartphones ou câmeras durante toda a apresentação. Ao adentrar a casa, certifique-se de que seu telefone está desligado ou em modo avião. As luzes dos aparelhos e dispositivos podem desconcentrar o artista e banda. Caso seja necessário, a equipe de segurança solicitará o desligamento dos mesmos. Agradecemos a atenção e a colaboração de todos. Desejamos um ótimo show!”, com uma foto do quinteto acima dos dizeres e um irônico smiley abaixo.
Cumprindo as regras, nos acomodamos na última fileira da platéia superior, tomada por colegas de profissão, até o sistema de som reforçar as proibições subindo o tom: “Atenção! Atendendo uma exigência de Ian Anderson e do Jethro Tull, é expressamente proibido tirar fotos ou fazer vídeos com câmeras ou celulares durante toda a apresentação. As luzes dos dispositivos desconcentram o artista e banda. Caso seja necessário, a equipe de segurança abordará para solicitar o desligamento dos aparelhos. Ian Anderson e Jethro Tull agradecem a todos pelo respeito e colaboração durante o espetáculo”.
Por mais bizarro que pareça, a mesma mensagem acima foi relida (sim, ela rolou duas vezes seguidas nos alto-falantes!), aceita via modestas palmas ou recusada por vaias esparsas e, louco para aparecer, um gaiato até berrou: “Concordo!”, sem ninguém ter perguntado nada.Que fique claro: ninguém disse a este repórter, macaco velho e desconfiado de que haveria tal comunicado, que estavavedadaa captaçãode áudio. Apagadas as luzes, com dezessete minutos de atraso em relação ao horário divulgado de 21:00, a festa começou sem banda de abertura e, acredite: salvas raríssimas exceções, todos atenderam o pedido e desistiram de seus celulares.
Tudo ia bem até um jornalistaao lado deste tentar tomar notas em seu smartphone e uma segurança educadamente pedir a ele que baixasse o aparelho. A partir daí, testemunhando a cena, este que vos escreve sequer esboçouregistrar coisa alguma, fosse no WhatsApp ou no Word, certamente afetando a qualidade final deste texto quanto à riqueza de detalhes. E mesmo assim, ainda era melhor se dar por satisfeito, pois nem imprensa houve para acompanhar Rick Wakeman no Tom Brasil na véspera com entradas esgotadas!
Em todo caso, ficava uma sensação estranha, pois você consegue imaginar alguém detalhista como Paulo Vinícius Coelho cobrindo, digamos, São Paulo 1×2 Fortaleza no Morumbi pela rodada inaugural do Brasileirão 2024 serprevenidode que poderia trabalhar tranqüilamente, desde que não utilizasse seu laptop? E pegamos o jogo apenas devido ao fato de ser concomitante ao show, mas, para nós,foi algo como: “Vá lá, exerça sua profissão e posteriormente repercuta a noite, mas nada de papel e caneta!” – sem iluminação lá em cima, sequer estaestratégia pudemos adotar…
Enfim, olhando lá para baixo, a impressão era de cadeiras ocupadas na totalidade da “pista” e, encerrada a primeiramúsica, o citado Ian Anderson fez as honras: “Muito obrigado! MySundayFeeling, 1968. Este é um concerto de celebração às sete décadas de lançamentos dos álbuns do Jethro Tull” – foram vinte e três de estúdio, a começar por ThisWas, e note que ele não afirmou serem setenta anos de carreira e sim se referiu aos trabalhos espalhados ao longo de sete décadas distintas.
Ele retomou: “Esta foi do disco mais antigo e a próxima é do segundo mais antigo, que é dedicado àquele fabuloso grupo pop, The Eagles, que se saiu com um single brilhante no meio dos anos setenta, uma música que tem alguma semelhança, em certos modos, com esta que escrevi poucos anos antes. E vocês devem reconhecer esta similaridade no solo final de guitarra de Jack Clark aqui, uma lembrança familiar ocorrerá em WeUsedToKnow”. E não é que o solo da canção de Stand Up (69) “lembra” mesmo o de Hotel California? Em todo caso, conhecendo o humor inglês, deu para ficar em dúvida se a homenagem no discurso era sincera ou sarcástica.
Ao término da seguinte, mais enxuta do que em seus quase nove minutos no play homônimo, nova interação: “Muito obrigado! HeavyHorses, de 1978, e já que estamos numa vibe meio folk rock, vamos seguir para outra. Uma música sobre um carinha que mora no telhado da minha casa e gira ao vento para nos contar como o clima estará a seguir. Ele é o Sr. Weathercock”, encerrando as duas últimas do lado B deHeavyHorses e, por falar em “telhado”, ainda que não possamos advogar por todos os setores, ao menos “nas alturas”, o som estava impecável, com todos os instrumentos e o vocal perfeitamente equalizados e audíveis!
O padrão de tocar uma, citá-la e anunciar a próxima se manteve em três novos pares. O primeiro? “Esta foi RootsToBranches, de 1995. Agora seria muito cedo para celebrarmos o Natal? É o que vamos fazer: uma música de The Jethro Tull ChristmasAlbum que encorpa elementos de folk music, música de igreja e umas poucas coisas de minha própria invenção. Ela será iniciada por Scott Hammond em seus bongôs logo ali e se chamaHollyHerald”.
E no segundo combo: “Muito obrigado! Aí foi Wolf Unchained, uma triste reflexão sobre um dos deuses nórdicos cujo nome é Fenrir, o lobo amaldiçoado. Fenrir malvado, não coma o entregador da Amazon! Ok, uma música agora que é uma simpatia para o deus das intervenções, o deus de Moisés, o deus de Abraão, o deus para quem você reza quando quer coisas, mas que pode ter problemas concedendo os desejos de todos porque ele quer algo diferente. Então, faça uma simpatia para o deus das intervenções e para uma música do álbum The Zealot Gene. Esta se chama Mine Is The Mountain e será iniciada por John O’Hara ao piano”.
Por fim, deixemos o homem do vocal e da flauta mágica encerrar o “primeiro ato”: “Mine Is The Mountain, do álbum The Zealot Gene, de 2022. Este é um concerto em duas metades e estamos perto do final da primeira metade agora. Haverá um intervalo de quinze minutos e vocês poderão correr em busca do banheiro para um rápidoxixizinho brutal e talvez também visitar o stand de merchandise já que estarão por lá. E aí vai a música para fechar a primeira metade, escrita trezentos anos atrás e, de volta a 1969, eu grosseiramente destruí esta música e a transformei num pedaço repugnante de jazz lounge de boteco. Originalmente de Johann Sebastian Bach, este é nosso rearranjo para uma música chamadaBouréecom David Goodier aqui no baixo”.
Encerrada, você acredita que uma mensagem pré-gravada na voz do vocalista ecoou reforçando a idéia da compra? “Voltaremos para a segunda metade do show em apenas quinze minutos. Neste meio tempo, visite o stand de merchandise e compre uma camiseta para um amigo”. Apesar de bem-humorada, como já havíamos consentido em não fotografar ou filmar, o estoque de pedidos aceitos já se esgotara e uma ida ao merchan não teve apelo e era fora de cogitação, especialmente por ter de deixar o assento e caminhar todo o percurso em ida e volta… Ah, em vez dos quinze minutos prometidos, foram vinte de intervalo até o retorno do quinteto.
Regressando para o “segundo ato”, que tal nosso mestre de cerimônias informar a única selecionada de um álbum?“FarmOn The Freeway, do álbum CrestOf A Knave, de 1987, e agora uma música melhor que é sobre um dos deuses nórdicos de novo. Do álbum RökFlöte, esta música é sobre um deus cujo nome é Njord, o deus dos marinheiros, dos que vão ao mar para pescar, negociar ou, como os Vikings, para saquear. Tudo dependendo de Njord para mantê-los seguros, ele protege os navegadores”, aludindo a The Navigators, seguida de uma instrumental:
“Muito obrigado! Esta foi WarmSporran, uma música do álbum Stormwatch, de 1979. E em 1945, dois anos antes de eu nascer, uma coisa ruim aconteceu: a Sra. Tibbets teve um filho chamado Paul. E Paul era um piloto de bombardeio da força aérea norte-americana, o homem que soltou a primeira das duas únicas armas nucleares usadas no planeta Terra até agora. Então jamais devemos nos lembrar de esquecer, ou nos esquecer de lembrar, para que tudo que aconteceu não se repita novamente.Então esta é um triste lembrete:Mrs. Tibbets, tenho certeza de que você está orgulhosa de seu filho, esta música é sua. E, da próxima vez, mantenha suas calças no lugar”.
A faixa começou com o cogumelo causado por Little Boy, a bomba atômica mencionada, no telão, uma das poucas memórias visuais que este repórter reteve sem poder anotar nada. O frontman veio com sua última fala: “Muito obrigado! Aí foi Mrs. Tibbets, do álbum The Zealot Gene, de 2022. E se essa não foi depressiva o suficiente, então a próxima certamente o será. A próxima também é uma música do álbum Stormwatch, uma música sobre o final dos dias. Não será na semana que vem, mas poderá ser na próxima. Esta se chama Dark Ages”.
Encerrando a parte regular do repertório, cabe uma ponderação. Artistas têm todo o direito de mexer em suas composições para não se tornar maçante reproduzi-las sempre da mesma maneira ao vivo. É saudável, criativo, interessante e até corriqueiro, mas precisa ser feito exatamente em seu maior clássico? As pessoas saíram de casa para escutar e cantar Aqualung como a conhecem e não para estranharem seu confuso começo batizado como Aquadiddley. Enfim, escolhas… Para o encore, LocomotiveBreath teve filmagens liberadas após aviso no telão e a galera foi à forra.
Em meio a imagens com os nomes dos membros do conjuntoprojetadas, identificamos Cheerio e What A Wonderful World, de Louis Armstrong, como outros e, enquanto descíamos do topo do Vibra São Paulo ao estacionamento, ainda deu tempo de o Shazam identificar Yakety Sax, tema de The Benny Hill Show (55-89), e de pegar um trechinho de uma quarta outro, comentada por uma fã: “Nossa, meteram até Andrea Bocelli!”. De fato, parecia, porém, ouvindo de longe, não conseguimos sacar de que se tratava.
Na prática, considerando que Aquadiddley está no ao vivo Around The WorldLive (13), foram dezessete músicas extraídas de onze álbuns diferentes, ou seja, certamente teve material para cada tipo de apaixonado pelo grupo inglês, seja o fã das mais antigas ou das recentes. E o lance de coibirem o uso dos celulares despertou atmosfera de revival, de quando as pessoas se deslocavam de seus lares dispostas a, de fato, assistirem ao espetáculo, aproximando os músicos do público.
Este escriba têm lembranças de ir a shows e conversar com pessoas na fila, sentir a expectativa criada e curtir a demora sem ser escravo da tecnologia. Só que são outros tempos e, de modo forçado, vetar os celularestornou tudo bastante esquisito, como recentemente fizeram Ghost por duas noites consecutivas em Los Angeles em outubro/23 e Placebo aqui mesmo em São Paulo no Espaço Unimed em 17/03 – e em ambos os casos havia luz para redigir no papel!Que experiência!
Setlist
“PrimeiroAto” – 49’ (21:17 – 22:06)
01) My Sunday Feeling
02) We Used To Know
03) Heavy Horses
04) Weathercock
05) Roots To Branches
06) Holly Herald
07) Wolf Unchained
08) Mine Is The Mountain
09) Bourée
Intervalo – 20’ (22:06 – 22:26)
“Segundo Ato” – 58’ (22:26 – 23:24)
10) Farm On The Freeway
11) The Navigators
12) Warm Sporran
13) Mrs. Tibbets
14) Dark Ages
15) Aquadiddley
16) Aqualung
Encore
17) Locomotive Breath
Outro 1: Cheerio
Outro 2: What A Wonderful World [Louis Armstrong]
Outro 3: Yakety Sax [Boots Randolph]






