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Jonas Sá lança BLAM! BLAM! BLAM! THE RMXs
Postado em 22 de setembro de 2019 @ 19:10

Nunca havia entendido os discos de remix. Para mim eram chances de destruir grandes músicas as cobrindo com batidas repetitivas e trejeitos boçais que eliminavam a coerência estética de um álbum e o transformava em uma compilação desajeitada. Até que um dia me surpreendi com o disco de remix do Moreno +2 (Typewriter Music Remix de 2003) e vislumbrei a possibilidade de fazer um bom disco desse tipo.

* Ouça BLAM! BLAM! BLAM! The RMXs:
https://smarturl.it/BLAMBLAMBLAM_rmx

Pouco após lançar o meu segundo disco, BLAM! BLAM! (2015), um trabalho essencialmente calcado na linguagem da colagem musical, entendi que um disco de releituras a partir dele poderia funcionar. Busquei artistas e produtores de quem eu gosto do trabalho para assinar essas novas versões a partir dos meus originais e fui presenteado com 21 faixas que me fascinaram não tanto pelo tocante à mim, mas pela força de cada uma delas e por rapidamente notar que o novo disco produzido a partir do meu antigo, apresenta um panorama de como estamos encarando e produzindo o fazer música na década em que nos encontramos.

O disco começa com a versão de “Fundo de Olhar” (BROCAL MIX) produzida por Gustavo Ruiz que dispensou o riff essencial da música em pról de ressaltar a estória de que trata a letra. O mesmo fez Politzer com sua leitura de Safo, ao criar um ambiente florestal e brutal pra falar da dificuldade do amor masculino.

As duas versões de “Sexy Savannah” são inversamente proporcionais. A de Eduardo Manso (Proporfol Remix) corta o ritmo da música pela metade e deixa mais espaço para se notar os elementos irônicos da versão original e também a tristeza de que trata o tema, resultando em algo que Angelo Badalamenti provavelmente se orgulharia. Já na Versão Repetentes 2008, DJ Guerrinha dobra o nível do sarcasmo e prepara a música para pistas estranhas.

Moreno Veloso e Fatnotronic (Rodrigo Gorky e Phillip Alves) abordam distintos Brasis. Enquanto Moreno transforma “Não É Adeus” em um samba de roda tão perfeito pra canção, que o remix acaba parecendo mais um orginal e o original mais um remix, a dupla Fatnotronic transforma “Perdidos Na Noite” em um maracatu, um hino de guerra e um hino bem dançável, por sinal.

Essa música, aliás, ganhou ainda mais 2 remixes. A “Perdidos Na Noite” de Silva transita entre o erudito e a boca-de-lixo e conta com um interlúdio genial que ferve e prepara a música para seu gran-finale. Já a versão de Kassin e Diogo Strausz (em parceria) é sexy e hilária com uma linha de baixo que parece caçoar d(o músico) Thundercat e um solo languido de sax (tocado com maestria pelo artista Panamense Micah Gaugh) que costura toda a versão.

Os mesmos Kassin e Strausz assinam, juntos, uma histriônica versão de “Gigolô” feita pra gente que não sabe dançar mas dança. Nesse sentido, a versão da artista plástica Vivian Caccuri pra mesma música se assemelha. Ela é profunda, marcante e também democratiza as pistas.

“Tua Cor” ganhou remixes de duas artistas diferentes. A compositora japonesa Manami Matsumae, conhecida por trilhas sonoras de jogos de  videogame como Mega Man, Final Fight e Mighty Nº 9 e a DJ URUBU Marinka. Ambas dispensaram os canais de voz e partiram para a criação de atmosferas. Marinka, que atualmente reside em Berlin, conduz sua versão com um sensual arpegiador e usa os sopros de forma Barry-Whitesca, todos na sala vestem roupas de gala e gel no cabelo. Já Manami estende acordes românticos de piano sobre uma apaixonante base de chiptune e cativa cada célula da criança em mim toda vez que eu a escuto.

O video game é também o campo semântico do remix de “8 Bit” assinado por Gustavo Benjão. Se a minha versão original fazia referência aos timbres do (console da Nintendo) NES, o remix de Benjão presta homenagem à sonoridade de seu adversário, o Sega Genesis. Outra versão da mesma música é a climática faixa “8 Bit (Brabo Remix)” em que Gorky (ele novamente) e Mafalfda, seu parceiro no projeto, criam uma atmosfera perfeita para se conduzir depois das 2 da manhã “into the neon filled-night”.

“Egoísmo” foi ainda mais desconstruída pelas mãos de Thiago Nassif e Arto Lindsay que se concentraram nos silêncios da canção e os preencheram com a clássica guitarra de Arto, enquanto que a banda IN-SONE (Leo Monteiro, Gil Fortes e Flavio Abbes)  fez o oposto gravando ao vivo todo o remix e soltando os elementos do disco a partir de um sample. Leo, o baterista, parece ter 6 braços nessa faixa.

Mauricio Takara explicitou o ciúme de “J’e Spère, Adele” com suas batidas saturadas e seus timbres fritos, enquanto Ricardo Dias Gomes extrapola o clima sombrio e fantasioso de “Asesino” transformando o meu canto em um lamento fantasmagórico e monótono.

O remix de “Ah, Monalisa!”, assinado por Charles Tixier, é envolvente, charmoso e dá vontade de abraçar alguém e falar besteiras ao pé do ouvido. Ah, o remix é roxo também.

O argentino Matin Scian que mixou o BLAM! BLAM! original e o remasterizou para versão em vinil (que será lançada no mesmo dia 20 de Setembro que o remix) escolheu reinventar a faixa “Não Vai Rolar” e para isso, inverteu as polaridades da gravação original, salientando e arregaçando os momentos mais barulhentos e os fazendo conviver com os versos da canção.

E por fim, “Chat Roulette” nasceu do amor que desenvolvi pelo rap e hip-hop desde que escutei “Hello Nasty”; então, ouvir o remix que seu produtor, Mario Caldato Jr,  fez dela é fascinante e bonito. Aliás, já que falamos de Caldato, preciso te contar uma coisa. Ele é quem está nesse exato momento mixando meu próximo disco de inéditas. Se chamará MNSTRO e será lançado pelo selo Risco em Março do ano que vem.

A vida não é chata.

 
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