Kneecap transforma Cine Joia em catarse política e faz um dos melhores shows do ano
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Poucos shows neste ano me passaram tão claramente a sensação de que alguma coisa realmente estava acontecendo diante dos meus olhos como o Kneecap no Cine Joia. E não falo apenas de música. Falo daquela combinação rara de expectativa, barulho, provocação, público entregue e a impressão de que o palco poderia explodir a qualquer momento. Com a casa sold out, o trio de Belfast fez uma estreia brasileira intensa, caótica e absolutamente catártica, daquelas apresentações em que você sai para a rua ainda tentando organizar tudo o que acabou de ver.
Antes mesmo de a música começar, já estava claro que aquela não seria apenas mais uma noite de entretenimento. As mensagens projetadas no telão em apoio à Palestina arrancaram reação imediata da plateia, com gritos de “Palestina Livre”, e o teor político acompanharia praticamente toda a apresentação. Mais tarde, surgiriam críticas a figuras como Benjamin Netanyahu, Donald Trump e Margaret Thatcher, além de um “Bora Lula” projetado no telão, recebido com enorme entusiasmo pelo público. Para quem conhece minimamente a trajetória do Kneecap, nada disso deveria ser surpresa. Política, identidade, língua e música nunca estiveram separadas na obra do grupo.
Mas uma coisa é acompanhar tudo isso pela internet. Outra completamente diferente é ver como funciona dentro de uma casa lotada.
O que mais me impressionou foi perceber que o peso político não transforma o show numa espécie de palestra com trilha sonora. Muito pelo contrário. O Kneecap consegue falar de colonialismo, conflito, identidade irlandesa, Palestina e resistência sem abandonar o deboche, o humor ou a vontade de transformar o lugar numa gigantesca rave. Essa talvez seja uma das grandes qualidades do trio. Eles não pedem que o público escolha entre pensar e se divertir.
E musicalmente o negócio funciona de maneira brutal.
Logo que Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí entraram em cena, a sensação foi de que alguém havia aumentado o volume do Cine Joia além do limite permitido. As bases eletrônicas batiam no peito, os vocais se alternavam entre inglês e irlandês e o público respondeu de forma instantânea. Não demorou para aparecerem rodas, gente pulando, braços para todos os lados e aquela movimentação típica de show em que ninguém está muito preocupado em manter um espaço pessoal confortável.
A sequência inicial com “Éire go Deo”, “Smugglers & Scholars” e “Carnival” praticamente eliminou qualquer possibilidade de começo gradual. O show já começou no máximo e permaneceu assim durante boa parte da noite. “Better Way to Live”, “Sick in the Head”, “Gael Phonics” e “Cold at the Top” vieram na sequência e reforçaram uma coisa que eu já desconfiava ouvindo os discos, mas que ao vivo fica muito mais evidente: o Kneecap é muito mais pesado do que parece.
Não pesado no sentido tradicional do rock, obviamente, mas fisicamente pesado. O grave domina o ambiente e muitas vezes a sensação é de que o som atravessa primeiro o corpo para só depois chegar aos ouvidos.
Também ficou claro que a barreira do idioma simplesmente não existe naquele contexto. Boa parte do repertório é cantada em irlandês e evidentemente a maioria das pessoas dentro do Cine Joia não compreendia cada palavra. Isso pouco importava. A força da comunicação estava no ritmo, na postura, nos refrões e na maneira como os dois MCs conduziam a plateia. Em alguns momentos parecia menos um show tradicional e mais uma conspiração coletiva entre banda e público.
“Get Your Brits Out” foi um desses momentos em que música, história e provocação se misturaram completamente. O Kneecap carrega a identidade norte-irlandesa para dentro das músicas sem qualquer tentativa de suavizar o discurso, mas também sem aquela solenidade que costuma tornar certas bandas politizadas insuportáveis. Eles preferem o sarcasmo. Preferem xingar, rir e colocar uma batida dançante por baixo.
Funcionou perfeitamente.
Conforme o show avançava, a temperatura do Cine Joia também parecia subir. “Guilty Conscience”, “No Comment” e “Sayonara” mantiveram o ritmo acelerado até “Your Sniffer Dogs Are Shite”, uma das faixas que mais provocaram reação da plateia. A essa altura, qualquer tentativa de assistir de maneira comportada já havia desaparecido.
“I bhFiacha Linne” abriu caminho para “Fine Art”, seguida de “Rhino Ket”, e foi justamente nessa parte que percebi o quanto o Kneecap evoluiu como banda sem perder sua essência. O espetáculo parece calculado em vários detalhes, mas ao mesmo tempo conserva uma sensação real de improviso e descontrole. Existe uma estrutura ali, claro, mas ela é construída para parecer que tudo pode sair dos trilhos.
E essa tensão deixa o show ainda melhor.
“Liars Tale” e “FENIAN” foram alguns dos melhores momentos da reta final, antes de “Big Bad Mo”, “Parful” e “H.O.O.D” empurrarem novamente a plateia para o caos. “H.O.O.D”, especialmente, parece resumir muito do que torna o Kneecap tão interessante: rap, humor, drogas, identidade de classe, política e uma batida feita para transformar qualquer ambiente numa festa completamente fora de controle.
E então chegou “THE RECAP”, última música do show e um encerramento que conseguiu ser ainda mais simbólico do que eu esperava.
DJ Próvaí abandonou a segurança do palco e foi para o meio da galera, cercado pelo público, transformando a última faixa numa espécie de celebração coletiva. Era a imagem perfeita para fechar a noite: a fronteira entre banda e plateia simplesmente deixou de existir. Depois de mais de uma hora em que o público já vinha sendo tratado como parte essencial do espetáculo, o próprio DJ foi literalmente para dentro dele., não havia mais palco de um lado e plateia do outro. Havia apenas um amontoado de gente pulando, berrando e tentando aproveitar os últimos minutos de uma apresentação que já tinha ultrapassado fazia tempo a ideia de “apenas um show”.
Na saída, ainda veio “Bella Ciao”, reforçando o caráter político e coletivo da noite. Depois de uma apresentação marcada por referências à Palestina, Irlanda, colonialismo, antifascismo e política brasileira, ouvir um canto historicamente associado à resistência antifascista sendo entoado por uma casa inteira parecia fechar um círculo.
Naquele momento ficou claro para mim que o show tinha funcionado não porque o Kneecap conseguiu transformar o Cine Joia num palanque, mas justamente porque conseguiu fazer o contrário: transformou política em experiência coletiva sem deixar a música em segundo plano.
Setlist – Kneecap
Cine Joia, São Paulo
Éire go Deo
Smugglers & Scholars
Carnival
Better Way to Live
Sick in the Head
Gael Phonics
Cold at the Top
An Ra
Get Your Brits Out
Guilty Conscience
No Comment
Sayonara
Your Sniffer Dogs Are Shite
I bhFiacha Linne
Fine Art
Rhino Ket
Liars Tale
FENIAN
Big Bad Mo
Parful
H.O.O.D
THE RECAP
Entrada: “Favourite”, do Fontaines D.C.
Saída: “Bella Ciao”








