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Laufey :::09/09/2026 ::: Espaço Unimed
Postado em 15 de setembro de 2026 @ 13:43

Texto: Flavio Santiago

 

Entre jazz, bossa nova e confissões românticas, Laufey conquista São Paulo no Espaço Unimed

Dois dias depois de passar pelo Rock in Rio, cantora islandesa-chinesa apresentou a turnê “A Matter of Time” para cerca de oito mil pessoas e confirmou a força de sua relação com o público brasileiro

Poucas artistas conseguiram nos últimos anos aproximar jazz, música clássica e bossa nova de uma geração acostumada a consumir música em vídeos curtos, playlists e redes sociais com a naturalidade de Laufey. Na noite de 9 de setembro, no Espaço Unimed, em São Paulo, ficou claro que esse encontro entre referências do passado e uma audiência muito jovem deixou de ser apenas uma curiosidade para se transformar em um fenômeno de grandes proporções.

Dois dias depois de se apresentar no Rock in Rio, Laufey chegou a São Paulo com a estrutura completa da A Matter of Time Tour, encerrando sua passagem pelo Brasil diante de cerca de oito mil pessoas. Era também um retorno à cidade depois da apresentação no Popload Festival, em 2025, mas desta vez a situação era bastante diferente. Em vez de dividir atenções dentro de um festival, a cantora tinha uma casa inteira dedicada ao seu próprio universo.

Antes dela, Amie Blu ficou responsável por preparar o terreno. A cantora britânica levou ao palco uma combinação de R&B e indie pop que funcionou como introdução para uma noite em que delicadeza e intensidade caminhariam praticamente lado a lado.

Quando Laufey apareceu, ficou evidente que o espetáculo estava preocupado em construir uma atmosfera e não apenas apresentar uma sequência de músicas. O cenário remetia ao interior de um castelo, cercando piano, cordas e instrumentos com uma estética quase cinematográfica. A impressão era de entrar durante algumas horas naquele universo romântico, melancólico e cuidadosamente idealizado que a cantora construiu ao redor de suas músicas.

“Clockwork” abriu a apresentação, seguida por “Lover Girl” e “Dreamer”. Logo nos primeiros minutos também ficava evidente outra característica daquela noite: embora o repertório de Laufey seja frequentemente associado à introspecção e aos pequenos detalhes dos arranjos, o público brasileiro estava longe de permanecer em silêncio.

As músicas eram cantadas em volume alto por uma plateia que parecia conhecer cada verso. Em “Too Little, Too Late”, a reação emocional tomou conta de parte do público, enquanto faixas como “Falling Behind”, “Silver Lining” e “Bored” mostraram como a cantora conseguiu transformar canções construídas sobre inseguranças, relacionamentos e sentimentos bastante pessoais em experiências coletivas.

O interessante é justamente esse contraste. Laufey pode aparecer sentada ao piano ou segurando um violoncelo, cercada por referências que remetem ao jazz tradicional e à música de concerto, mas a resposta que recebe é semelhante à destinada a grandes artistas pop. Há gritos, coro constante, fãs viajando longas distâncias e uma identificação que ultrapassa qualquer discussão sobre gênero musical.

No Espaço Unimed havia pessoas vindas de diferentes regiões do Brasil e até fãs estrangeiros, incluindo um grupo de equatorianos que levou a bandeira do país. Esse caráter quase comunitário do público foi potencializado pela postura da própria cantora, que conversou bastante durante a apresentação, brincou sobre suas próprias composições e em determinado momento se aproximou da grade para cumprimentar quem acompanhava o show nas primeiras fileiras.

A produção dividida em diferentes atos também permitiu mudanças de dinâmica ao longo da noite. Depois do início mais expansivo, o repertório abriu espaço para momentos de maior delicadeza. “Bewitched” ganhou uma interpretação instrumental com quarteto de cordas, enquanto “Old Devil Moon”, clássico composto por Burton Lane, reforçou a ligação da artista com o jazz tradicional.

Vieram ainda “Haunted”, “Valentine”, “Fragile” e “Let You Break My Heart Again”, sequência que colocou em primeiro plano uma das maiores virtudes de Laufey: fazer com que uma casa de grandes dimensões pareça menor. Mesmo diante de milhares de pessoas, algumas músicas carregavam a sensação de estar sendo executadas em um teatro ou pequeno clube.

Essa capacidade talvez ajude a explicar por que Laufey se tornou uma espécie de porta de entrada para estilos que nem sempre ocupam o centro da música pop contemporânea. Sua obra não tenta simplesmente reproduzir outra época. Elementos de jazz, música clássica e bossa nova aparecem filtrados por uma linguagem atual, em canções que falam diretamente com uma geração que encontrou nela uma forma diferente de abordar romance, frustração, amadurecimento e autoestima.

No Brasil, essa conexão ganha uma camada adicional por causa da influência da bossa nova. Laufey já deixou diversas vezes clara sua admiração pela música brasileira, especialmente por nomes como João Gilberto e Astrud Gilberto. Durante a passagem pelo país, voltou a reconhecer a importância dessa sonoridade em sua formação artística e agradeceu ao público brasileiro pela recepção.

A relação ficou ainda mais evidente durante o Rock in Rio, quando cantou em português “Perdido de Amor”, de Luiz Bonfá. Em São Paulo, mesmo sem repetir necessariamente o mesmo gesto, a proximidade com a música brasileira estava presente na maneira como seus arranjos misturavam sofisticação harmônica, suavidade e uma certa melancolia que nunca chega a perder completamente a leveza.

A segunda metade do espetáculo ampliou novamente a produção. “Carousel”, “Forget-Me-Not”, “Mr. Eclectic”, “Madwoman”, “Castle in Hollywood”, “Promise”, “Goddess” e “Tough Luck” conduziram o público por diferentes momentos da carreira, até chegar a uma das sequências mais aguardadas da noite.

Depois de “Snow White”, os primeiros acordes de “From the Start” provocaram uma das maiores reações da apresentação. É difícil encontrar exemplo melhor para entender o alcance adquirido por Laufey. Uma música fortemente influenciada pela bossa nova transformada em hit global e cantada por milhares de jovens em São Paulo como se fosse um grande refrão pop.

Foi também nesses momentos que a dimensão do fenômeno ficou mais evidente. Laufey não está levando jazz ou bossa nova ao público por meio de uma aula de história musical. Ela absorveu essas referências e construiu uma identidade própria ao redor delas. Para muitos de seus fãs, o caminho pode até acontecer ao contrário: primeiro vem Laufey e depois aparecem João Gilberto, Astrud Gilberto, standards de jazz e outras referências que ajudaram a formar seu repertório.

“Sabotage” encaminhou o show para o encerramento, antes do retorno para o bis. A apresentação ainda reservou “How I Get” como música surpresa e terminou com “Letter to My 13 Year Old Self”, fechando a noite em uma chave intimista e coerente com boa parte dos temas que atravessam sua obra.

Mais do que o encerramento da passagem de Laufey pelo Brasil em 2026, o show do Espaço Unimed mostrou o tamanho que a artista alcançou por aqui em pouco tempo. Da apresentação no Popload Festival à ocupação de uma das principais casas de shows de São Paulo, existe uma base de fãs que cresceu junto com a projeção internacional da cantora e que transformou a noite em algo muito maior do que uma apresentação tecnicamente impecável.

Em tempos nos quais grandes shows muitas vezes dependem de excesso de estímulos, Laufey segue apostando em algo aparentemente simples: boas músicas, arranjos sofisticados, vulnerabilidade e proximidade. O resultado, curiosamente, é grandioso.

Durante algumas horas, o Espaço Unimed pareceu menos uma arena para milhares de pessoas e mais uma sala compartilhada entre Laufey e seus fãs. Um lugar em que jazz, música clássica, pop e bossa nova podiam existir juntos sem precisar pedir licença.

Setlist de Laufey no Espaço Unimed: “Clockwork”, “Lover Girl”, “Dreamer”, “Falling Behind”, “Silver Lining”, “Bored”, “Too Little, Too Late”, “Bewitched”, “Old Devil Moon”, “Haunted”, “Valentine”, “Fragile”, “Let You Break My Heart Again”, “Carousel”, “Forget-Me-Not”, “Cuckoo Ballet”, “Mr. Eclectic”, “Madwoman”, “Castle in Hollywood”, “Promise”, “Goddess”, “Tough Luck”, “Snow White”, “From the Start”, “Sabotage”, “How I Get” e “Letter to My 13 Year Old Self”.

 
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