Texto : Vagner Mastropaulo
Fotos: Flavio Santiago
Living Colour tira o público para dançar e festejar em noite que só foi melhorando…
Estudando para esta resenha, este repórter se deu conta de que o Living Colour é o segundo grupo mais vezes por ele coberto para os siteda Onstage (só “perdendo” para o Sepultura no total de textos já publicados), a saber: nas duas datas pelo país em junho/19, ou seja, no Circo Voador [https://onstage.mus.br/website/living-colour-130619-circo-voador-rj] e no Tropical Butantã [https://onstage.mus.br/website/living-colour-140619-tropical-butanta]; e no mesmo Tokio Marine Hall na, até então, última passagem do quarteto por São Paulo, em outubro/24 [https://onstage.mus.br/website/living-colour-tokio-marine-hall-12-10-24].
Antes do headliner, porém, coube ao Madzilla a tarefa de inaugurar os trabalhos como feito nas aberturas para o Saxon em novembro/23 e Tarja Turunen em maio/25. Das duas oportunidades, testemunhamos a primeira in loco, como fã e com ingresso pago do bolso e, de lá para cá, somente o vocalista e guitarrista equatoriano David Cabezas permaneceu no line-up completado por Sarah Dugdale (guitarra), Thomas Palmer (baixo/backing vocals) e Courtney Lourenco (bateria).
Com três plays no catálogo, o infelizmente curto set de trinta e seis minutos contemplou: duas faixas de A DeadlyThreat (24); um outro par de Angel Genocide (além da intro), recém-lançado em 20/02; a faixa-título deAsphixiating Cries (21); e outra composição a batizar um registro em estúdio, no caso o EP Vengeance (19). Como curiosidade, o super acessível frontman auxiliava na venda do próprio merchan e conversava com fãs numa boa até faltarem quinze minutos para pisar no palco! Posteriormente, pedimos a David uma breve declaração acerca da experiência e ele sintetizou: “Amamos São Paulo! Todos são sempre muito receptivos e a cena metal aqui é sensacional!”.
Em termos práticos, um trecho da introThe Dawn Of Glorypreparou terreno para AshesOfLights, seguidada primeira mostra de carisma do vocalista com o público: “São Paulo, Brasil, somos o Madzilla e viemos de Las Vegas. Para nós é uma honra estarmos de volta aqui e, como fizemos todas as vezes em que estivemos aqui, vamos falar sua língua esta noite pelo respeito que temos pela nossa família brasileira! Só falo um pouco, então, me ajudem e vamos nos divertir. Trazemos muita música para vocês hoje. Estão prontos? Esta é Vengeance”.
WarfareWithin, a mais próxima de uma balada no set, foi emendada e então fizeram Angel Genocide e Asphixiating Cries. Inteligente e evitando a dispersão geral, David pediu para tirarem a foto antes de anunciar a saideira, A DeadlyThreat. Sem outro, embora pudéssemos ouvir PayTo Cum, do BadBrains, rapidamente rolando bem baixinho no som ambiente, partiram com a certeza de terem agradado ao público e prometendo retornarem muito em breve. Terão de fazê-lo, pois há espaço para crescimento da base de fãs!
Se o Madzilla se atrasou por dois míseros minutos em relação ao horário previamente prometido, o Living Colourfez o povo aguardar por três até surgirem em meio a um pedacinho de The Imperial March, de John Williams, como intro. Leave It Alone efetivamente puxou o repertório entre um sutil “Boa noite!” e um “Olá!” de Corey Glover, que, aos sessenta e um anos, não dá indícios de perda de sua incrível potência vocal.Middle Man teve uma discreta queimada de largada na guitarra de Vernon Reid e, sendo a segunda da noite, o som já estava cristalino. Também de Vivid (88), Memories Can’tWait foi verdadeira martelada, levemente alterada em relação à versão original e fugindo da mesmice.
Pouca gente entendeu o “No, no, no” cantado por Corey, que, no vácuo e sem apoio de seus companheiros, conferiu o setlist, olhou para o baterista Will Calhoun e se deu conta do erro… Ainda explicou: “Deixem para lá. Esta é para mais tarde”. Fato foi que mandaram IgnoranceIs Bliss e Go Away, duas pauladas consecutivas de Stain (93). FunnyVibe, a próxima, foi uma aula no baixo de Doug Wimbish, apenas a aquecer seus motores, pois ele teria sua oportunidade de brilhar adiante.
Ao detectar que uma fã na grade comemorava seu aniversário em alto estilo, o vocalista sentou-se frente a ela na ponta do palco e mandou um Parabéns A Você personalizado e intimista. Linda homenagem pré-Bi, de uma época em que a banda se mostrava à frente de seu tempo ao discorrer sobre bissexualidade há mais de trinta anos. Vernon finalmente pediu a palavra, porém para um recado seríssimo: “Gostaríamos de dedicar esta canção ao espírito de Marielle Franco, assassinada oito anos atrás, e os responsáveis foram finalmente pegos. É um momento de muito orgulho para o Brasil então gostaríamos de dedicar esta música a ela”.
A faixa em questão foi Hallelujah, de Leonard Cohen, oficialmente ausente do setlist de palco e regravada por incontáveis artistas [http://forward.com/culture/472257/the-top-50-cover-versions-of-leonard-cohens-hallelujah-ranked-neil-diamond], dentre os quais, Jeff Buckley, em uma magnífica versão encontrada em Grace (94), único full-length do saudoso músico. Sendo realista, para quem pesquisara o repertório de antemão, a curiosidade residia em como ela soaria e ficou simplesmente divina.
A música também marcou um momento de virada, pois, a rigor, o show ainda não havia, de fato, engrenado até aqui, embora estivesse longe de decepcionar.Em tempo, tudo estava dentro dos conformes, mesmo que Corey parecesse estar se movimentando um pouco menos do que o usual. Em todo caso, o que se veria dela em diante seria de tirar o chapéu, já a partir dos mais de dez minutos de Open Letter (To A Landlord), simplesmente uma sublime virtuose vocal impossível de ser imitada ou repetida até pelo próprio frontman, numa aula capaz de te tirar do solo, te levar ao céu e te trazer de volta.
Ainda embasbacada, a platéia mal teve tempo de se recompor em meio ao solo de bateria, beirando uma hora no relógio e em pancadas precisas que ofereciam chance de respiro ao gogó de Corey. O vocalista, por sua vez, conferia a demonstração de destreza do amigo ao seu lado e aqui cabe certa viagem:imagine por quantas vezes ele já o vira tocar e mesmo assim permanecia assistindo a tudo! A cereja do bolo foi dispararem a cantoria de Baianá, do Barbatuques, para Will arrebentar tocando por cima. Para quem gostou, saiba que ele regressa à cidade para uma sessão solo e em jornada dupla no Blue Note em 08/03.
Outra demonstração de catarse pôde ser conferida em ThisIs The Life. Belíssima, ela flutua entre uma oração e uma declamação subestimada na discografia. Soou simplesmente perfeita e a mensagem de sua letra deveria ser incorporada no dia-a-dia geral. Responsável pelas interações formais, o guitarrista demonstrou gratidão: “Odeio o fato de só conseguir falar um pouco e isso é terrível. Meu português é horrível. Mas tudo que posso dizer é que realmente agradecemos muito a vocês. Muitos de vocês têm estado conosco e nos apoiado por bastante tempo. Na verdade, o primeiríssimo show do Doug na banda foi aqui neste país, então vou deixar o Sr. Wimbish prosseguir”. E o baixista assim o fez:
“São Paulo, vocês sempre estiveram comigo, meu primeiro show foi aqui e sou muito grato por ter podido tocar para vocês pela primeira vez com o Living Colour. E temos muito orgulho pelo que fazemos, sabem? Estamos viajando pelo mundo há muito tempo e a próxima música que vamos fazer é do meu irmão, Will Calhoun, ali na bateria. Confiram”. Na fala, passou meio despercebida a alusão a Pride, de fato, escrita pelo baterista, e ela segue como uma espécie de “coadjuvante imprescindível”, apesar de quase nunca serlistada entre as primeiras opções das quais jamais poderiam faltar ao vivo.
O baixista tornaria a se comunicar: “Antes de me juntar ao Living Colour (e sempre estive com o Living Colour), eu era parte da seção rítmica original do Sugarhill e também gravei com: Grandmaster Flash And The Furious Five; The Sugarhill Gang; The Secrets; Funky Four Plus One; e muitos outros artistas. Lá atrás, quando o hip-hop começou, ajudei a montar ‘a casa do hip-hop’ e trazemos o hip-hop bem aqui a São Paulo. Então é o seguinte: o Living Colour fará algo especial apenas para vocês. Senhoras, senhores, estão comigo?”.
Na prática e simplificando, a jam tirou a galera para dançar com o que se convencionou chamar de Doug Hop no setlist de palco, contendo excertos de White Lines (Don’tDon’t Do It), Apache e The Message, respectivamente: um single de Melle Mel de 1983; a quarta música de 8th Wonder (81), segundo álbum da The Sugarhill Gang; e a faixa-título do début da Grandmaster Flash And The Furious Five, de 1982.
E se você está lembrado do cantarolar de Corey acima, por ele próprio interrompido, o mistériose elucidou quando um pedacinho de YouDon’t Love Me (No NoNo), de Dawn Penn, funcionou como uma intro para Glamour Boys, cheia de swing, levantar qualquer um que ainda se dispusesse a somente assistir ao espetáculo.
E você acredita que a festa ainda melhoraria? Pois bem, o que dizer de uma seqüência sem cortesincluindo: a não menos maravilhosa Love Rears Its Ugly Head; Type, verdadeira paulada e com direito a um snippet de Police AndThieves, de Junior Murvin; Time’sUp, de final apoteótico; e, aberta definitivamente a caixa de ferramentas, Cult OfPersonality, com alteração na letra, de “Only youcan set youfree” para “Only Ican set youfree”.
Um curto “Muito obrigado! Boa noite!”, em português, da parte de Corey e com acenos, deveria sinalizar uma saída temporária que sequer aconteceu. Logo, não dá para cravar que SolaceOfYou fez parte de um encore enem por isso ela deixou de marcar a despedida perfeita, com o vocalista cantando parte dela apoiado na borda da bateria de Will, que, perto de seu encerramento, deixou seu kit para se posicionar frente aos fãs.
Should I Stay OrShould I Go, do The Clash, até constava no setlist de palco, mas foi deixada de lado enquantoVapors, do rapperBiz Markie, era usada como outro, encerrando renovadosenhor show do Living Colour em São Paulo, com pouco além de duas horas de duração. Para não dizer que a noite foi perfeita, alguns sentiram falta de Elvis IsDead e Flying e,para uma turnê batizada The Best Of 40 Years, preteriram apenas material de Collideøscope (03), The Chair In The Doorway (09) e Shade (17).
Rumo às ruas, este escriba testemunhouuma conversa em que um amigo resumia: “Acompanho esses caras desde a estréia aqui, no Hollywood Rock de 1992. Nunca vi um show meia-boca deles”. Pura verdade! Se quiser tirar a prova, confira a gravação[https://www.youtube.com/watch?v=t024HcfzXpM]disponibilizada na íntegra no YouTube feita por uma boa alma e repare na excelente qualidade de vídeo e especialmente de som, com destaque para o baixo! E tente não sair dançando… E se quiser prestigiar o Madzilla, sua filmagem [https://www.youtube.com/watch?v=Ievm-WaTIdI] também está por lá!
Setlists
Madzilla – 36’ (20:52 – 21:28)
Intro: The Dawn Of Glory
01) AshesOfLights
02) Vengeance
03) WarfareWithin
04) Angel Genocidex
05) Asphixiating Cries
06) A DeadlyThreat
Living Colour – 2h03’ (22:03 – 00:06)
Intro: The Imperial March [John Williams]
01) Leave It Alone
02) Middle Man
03) Memories Can’tWait [Talking Heads]
04) IgnoranceIs Bliss
05) Go Away
06) FunnyVibe
07) Bi
08) Hallelujah [Leonard Cohen]
09) Open Letter (To A Landlord)
10) Solo De Will Calhoun [com trecho De Baianá, do Barbatuques]
11) ThisIs The Life
12) Pride
13) Doug Hop [White Linesx’ (Don’t Don’t Do It) / Apache / The Message]
14) Glamour Boys [com trecho de YouDon’t Love Me (No NoNo), de Dawn Penn, como intro]
15) Love Rears Its Ugly Head
16) Type [com trecho de Police AndThieves, de Junior Murvin]
17) Time’s Up
18) Cult OfPersonality
19) SolaceOfYou
Outro: Vapors [Biz Markie]










