Texto e Fotos: Flavio Santiago
Limp Bizkit revive 1999 com caos controlado em show apoteótico
A Loserville Tour nasceu com cara de festival ambulante, daqueles que misturam “o circo” e o caos com um line up que parece feito para provocar reações bem diferentes no mesmo público. No Brasil, a edição de 20 de dezembro de 2025 no Allianz Parque, em São Paulo, confirmou essa proposta: um evento com múltiplas atrações e o Limp Bizkit como grande motor da noite, cercado por nomes que vão do metalcore ao reggae rock, passando por rap performático e por uma abertura mais crua e direta. A própria comunicação do evento coloca a turnê como um projeto formatado para funcionar como “pacote completo”, com a banda como headliner e convidados girando junto na rota.
O clima de festival aparece antes mesmo do som. A dinâmica de horários em sequência, a rotação constante de gente chegando ao estádio, as rodas de conversa comparando camisetas e setlists e aquele vaivém típico de dia de evento grande criam um aquecimento que não depende só do palco. E, nessa Loserville, o palco parecia sempre “em movimento”, porque cada apresentação trazia uma identidade bem marcada, sem tentar soar como mera trilha até o headliner.
Quem abriu os trabalhos foi o Slay Squad, causando uma impressão ao publico que ainda chegava ao Allianz Parque em um set curto mas com muita energia banda cumpriu o papel de aquecer o público logo cedo, entregando um set curto, intenso e sem concessões, daqueles feitos para chamar atenção, causar estranhamento em parte da plateia e deixar claro que a proposta é barulho, presença e personalidade acima de tudo, a sensação foi de aquecimento rápido, com foco em impacto e presença, como quem entra para criar turbulência e sair antes do ar esfriar.

Na sequência veio o RiFF RAFF , dono de um visual chamativo, humor debochado e letras que misturam ostentação, ironia e referências da cultura pop, ele transita entre o rap, o trap e elementos de pop e eletrônico sem se prender a regras. No palco, suas apresentações funcionam quase como uma performance artística, mais focada em atitude, carisma e provocação do que em formatos tradicionais de show, com samples pré gravados e sozinho no palco deu uma esfriada na sequência do festival , dando uma dispersada no público, muitos saíram pra comprar bebidas e ir ao banheiro como musica de fundo aos presentes,
Ecca Vandal foi um desses momentos em que a estética diz tanto quanto o som. A artista tem uma abordagem que cruza rock, punk pop, eletrônico e atitude de palco, e isso se traduz em presença física, em gestos largos e em vocal que alterna ataque e melodia com naturalidade.
Um detalhe que virou símbolo na noite foi a camiseta do Sepultura, do álbum Roots, como se ela deixasse claro, sem precisar falar, que a rebeldia e o peso também estão no DNA daquilo que ela faz.
No palco, a apresentação soou como um recado curto, energético e com cara de “vamos acelerar a noite”, mesmo com o set publicado para São Paulo aparecendo incompleto nos registros.
O 311 trouxe o respiro que, paradoxalmente, também mantém a vibração lá em cima, com um setlist que balanceou suas canções mais queridas pelos fãs com momentos de improvisação instrumental (drum solo), entregando uma performance que envolveu tanto ouvintes de longa data quanto novos admiradores.
Entre as músicas tocadas estiveram Beautiful Disaster, Come Original e Applied Science, além de sucessos melódicos como Amber, trazendo a mistura marcante de riffs, ritmo e vibrações positivas que marca a identidade do 311.
A resposta do público foi entusiasmada, destacando a presença da banda como um dos pontos altos da tarde antes das performances principais da turnê.
Já o Bullet for My Valentine entrou como quem sobe um degrau de pressão no evento. A escolha de músicas, muito amarrada ao período de The Poison, entregou exatamente o que os fãs esperam: riffs cortantes, refrões enormes e aquela mistura de agressividade e melodia que fez a banda crescer nos anos 2000.
Foi um set com cara de “best of” concentrado, daqueles que transformam qualquer setor do estádio em coral, especialmente em momentos como “Tears Don’t Fall”.
E, do ponto de vista de narrativa da noite, funcionou como a última chamada para o público guardar energia, porque o que vinha depois era o grande espetáculo.
Quando o Limp Bizkit finalmente tomou conta do Allianz Parque, a Loserville virou o que prometia ser: um evento que assume a estética da bagunça como linguagem. A própria abertura com “Drown” em fita, acompanhada de vídeo tributo, preparou o terreno como introdução dramática antes do impacto real.
A partir daí, a sequência foi desenhada para alternar pancada e brincadeira, agressividade e ironia, como se a banda conduzisse o público por uma montanha russa de referências. O set tem essas “quebras” típicas do Limp Bizkit, com trechos em fita e covers pontuais aparecendo como comentários no meio do show, o que reforça a ideia de que eles não tocam apenas músicas, eles encenam um clima.
E aí entrou um elemento que virou imagem forte da noite: os sinalizadores. O estádio, que já parecia quente, ganhou outra textura quando a luz das chamas tomou pontos do público e criou aquele contraste de euforia e perigo controlado, como se o show virasse cena de estádio europeu e, ao mesmo tempo, manifestação de torcida. O brilho dos sinalizadores intensificou a sensação de caos festivo, casando perfeitamente com músicas como “Break Stuff” e com o clima de catarse coletiva que o Limp Bizkit sabe puxar sem pedir licença. Foi um daqueles momentos em que o público deixa de ser plateia e vira parte do “cenário” do show, com luz própria, literalmente.
Durante a apresentação do Limp Bizkit, um detalhe que passou longe de ser apenas técnico ganhou peso simbólico. No baixo, a banda contou com o mesmo músico que havia se apresentado mais cedo acompanhando Ecca Vandal, assumindo o posto que por décadas pertenceu a Sam Rivers. A substituição não soou como simples reposição, mas como um gesto de continuidade e respeito, especialmente em uma turnê marcada por clima de celebração e memória. O baixo manteve a pulsação pesada e elástica característica do Limp Bizkit, sustentando clássicos como Break Stuff, Nookie e Full Nelson sem descaracterizar o som da banda, ao mesmo tempo em que reforçava o espírito coletivo da Loserville, onde músicos e projetos se cruzam, se misturam e dividem o mesmo palco e a mesma estrada.
O ápice emocional e aquele instante de “isso só acontece aqui” veio em “Full Nelson”. A banda chamou uma fã ao palco e, como você pediu para ficar registrado, o nome dela é Bia. A participação transformou a música num retrato do que a Loserville pretende ser: um grande evento em que a fronteira entre palco e pista fica mais fina. A própria anotação do setlist registra a presença dela em cima do palco, selando o momento como parte oficial da noite, não só como lembrança de quem estava lá.
E, como todo bom show do Limp Bizkit, o final não é apenas “encerrar”, é “explodir”. Tem “Take a Look Around” como declaração de impacto, tem a reprise de “Break Stuff” com convidados, como se a Loserville inteira subisse junta para fechar o capítulo, e tem até o humor quase kitsch de encerrar com música em fita, deixando o público saindo com a sensação de ter vivido um evento que mistura agressividade, nostalgia, zoeira e catarse numa mesma embalagem.

Setlists (São Paulo, Allianz Parque, 20/12/2025)
Limp Bizkit: Drown (em fita), Break Stuff, Master of Puppets (trecho), Hot Dog, Show Me What You Got, My Generation, Livin’ It Up, Walk (em fita), My Way, Rollin’ (Air Raid Vehicle), Proud Mary (em fita), Re Arranged, Behind Blue Eyes, Eat You Alive, Nookie, Full Nelson (com a fã Bia), Get Down Tonight (em fita), Boiler, Red Red Wine (em fita), Careless Whisper (em fita), Faith, Take a Look Around, Break Stuff (reprise com convidados), Don’t Stop Believin’ (em fita).
Bullet for My Valentine: “The Poison” Intro (em fita), Her Voice Resides, 4 Words (to Choke Upon), Tears Don’t Fall, Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do), Hit the Floor, All These Things I Hate (Revolve Around Me), Hand of Blood, Room 409, The Poison, 10 Years Today, Cries in Vain, Waking the Demon, The End.
311: Beautiful Disaster, Come Original, Freak Out, Lovesong, Applied Science, Drum Solo, Amber, Creatures (for a While), Feels So Good, Down.






