Nome dos mais marcantes no cenário independente brasileiro dos anos 2000, o quarteto paulistano Ludovic até hoje é lembrado por suas lendárias apresentações, sendo citado como influência por diversas bandas da nova geração.
Liderado pelo cantor e compositor Jair Naves, o Ludovic iniciou suas atividades com um EP autointitulado em 2000. Após diversas mudanças de formação em seus primeiros anos de existência, a banda consolidou-se com a entrada dos guitarristas Eduardo Praça (Apeles e Quarto Negro) e Zeek Underwood (Shed, Mudhill, Reffer e Single Parents). Desde os primeiros shows de reunião, que ocorrem há alguns anos, quem assume a bateria é Rodrigo Montorso (Hateen e Diagonal).
Vinte anos depois do seu último álbum, a banda prepara para 2026 um próximo trabalho de estúdio. Após os dois singles iniciais, “Desde que eu morri” e “Pedestal”, chega a vez de “Dilúvio de dinheiro algum”. Os lançamentos dão uma mostra do que vem por aí no novo disco, previsto para o segundo semestre deste ano via Balaclava Records.
A faixa mais curta e urgente do álbum, algo entre um inusitado encontro entre o proto-punk e um tema morriconiano, traz em sua letra uma reflexão sobre as implicações morais e éticas de práticas que marcam o predatório atual estágio do capitalismo.
“A letra é basicamente uma reflexão sobre as implicações éticas e morais do atual estágio predatório do capitalismo. Tentei traduzir a urgência do instrumental em versos que expressam o choque dessa inversão de valores, em que se coloca o lucro acima de qualquer questão humanitária ou social. É sempre um desafio extra compor em cima de bases instrumentais feitas por outras pessoas, sem que eu tenha qualquer participação na construção da harmonia ou coisa do tipo. Levou um tempinho para conseguir encaixar minha voz na ideia inicial, mas o resultado final acabou sendo uma das minhas letras preferidas em todo o disco”, acrescenta Jair Naves, vocalista e compositor da faixa.
“Dílúvio de Dinheiro Algum” é uma música de Eduardo Praça, que complementa: “Quando estava compondo essa faixa, queria trazer algo que remetesse à visceralidade do primeiro álbum do Ludovic, mas que trouxesse novos elementos. Nessa interseção, pensei em uma banda que é uma grande referência como guitarrista do Ludovic, que é o Wipers. Isso, somado ao brilhante vocal urgente do Jair Naves, acho que temos uma música única na discografia da banda, da qual estou muito orgulhoso de poder ter colaborado!”
Dilúvio de Dinheiro Algum
(Letra: Jair Naves / Música: Eduardo Praça)
Dilúvio de dinheiro algum
vai maquiar sua pequenez
Baixa em você a maior das fomes
aquela que a tudo consome
sem jamais se satisfazer
Ganância nem sequer é o nome,
qualquer traço de decência some
nem o inferno há de te acolher
(Será que só eu estou vendo
nuvens carregadas até mim descendo?
Será que só eu sinto o teto
cada vez mais baixo, cada vez mais perto?)
Dilúvio de dinheiro algum
vai maquiar sua pequenez
Como um assassino que visita
o velório da própria vítima,
você se arriscou ao aparecer
Munido da audácia mais fria
dissimulado, choraria
para quem se dispusesse a ver
Anjos se contorcem de repulsa
ao notar o que te impulsa
a ser quem você escolheu ser
Ouça o animal que urra
ao purificar a alma suja
num ritual sagrado,
castigado e agraciado
com o perdão definitivo
que eu almejo obter
Baixa em você a maior das sedes
impensável para todos os seres
que um dia se aventuraram a viver
Eu sou só um animal que urra
ao purificar a alma suja
num ritual sagrado,
castigado e agraciado
com o perdão definitivo
que eu preciso obter
Dilúvio de dinheiro algum







