Texto e Fotos: Flavio Santiago
Machine Gun Kelly troca a frieza do Rock in Rio pela proximidade com os fãs em show na Áudio
Um dia depois de enfrentar uma recepção morna no festival carioca, MGK encontrou em São Paulo o ambiente que parecia procurar. Em mais de duas horas de show, o cantor percorreu do rap ao pop punk, apresentou a fase Lost Americana e transformou a proximidade com os fãs no principal combustível da noite.
Machine Gun Kelly talvez seja um dos artistas que melhor representam a dificuldade de encaixar a música pop contemporânea em uma única prateleira. Colson Baker surgiu para o grande público como rapper, construiu sua reputação em discos como Lace Up, atravessou uma fase mais sombria em Hotel Diablo e, a partir de Tickets to My Downfall, em 2020, mergulhou de vez no pop punk ao lado de Travis Barker. O caminho continuou em mainstream sellout e ganhou mais um capítulo com lost americana, seu sétimo álbum, lançado em 2025, trabalho que mistura as diferentes identidades musicais acumuladas ao longo da carreira.
Essa característica camaleônica ficou ainda mais evidente em São Paulo. Na noite de domingo, 6 de setembro, MGK subiu ao palco da Audio apenas um dia depois de uma apresentação complicada no Rock in Rio. No festival carioca, escalado em uma noite que também tinha Sepultura, Bring Me The Horizon e Avenged Sevenfold, encontrou uma parcela da plateia pouco receptiva e chegou a falar diretamente sobre isso. Disse perceber que algumas pessoas não entendiam por que ele estava ali e afirmou que, mesmo sem ser amado por todos, continuaria oferecendo amor ao público. A recepção foi descrita como morna, especialmente entre quem aguardava o Avenged Sevenfold.
Vinte e quatro horas depois, o cenário era completamente diferente. Na Audio, MGK não precisava conquistar uma multidão que estava esperando por outra atração. Estava diante de seu público. E isso alterou praticamente tudo.
Curiosamente, o próprio tamanho do show também contava uma história. A apresentação havia sido anunciada originalmente para o Espaço Unimed, mas acabou transferida para a Audio. A mudança representou uma redução considerável de capacidade, de aproximadamente 8 mil para 3,2 mil pessoas. Comercialmente, é difícil não enxergar a alteração como um downgrade. A Audio estava cheia no domingo, embora sem chegar ao sold out, e a impressão inevitável era de que aquele público dificilmente ocuparia o espaço inicialmente planejado.
Mas se houve um downgrade no tamanho da casa, artisticamente aconteceu quase o contrário.
O formato menor aproximou MGK dos fãs e permitiu que sua principal qualidade como performer aparecesse com mais força: o carisma. Sem a obrigação de convencer dezenas de milhares de pessoas em um festival, ele pareceu muito mais confortável para conversar, brincar e se aproximar das primeiras filas. O que no Rock in Rio soou em determinados momentos como uma tentativa de conquistar território, na Audio funcionou como uma celebração entre artista e público.
E repertório não faltou para isso.
O início com “FIX UR FACE”, seguido por “outlaw overture”, “maybe” e “starman”, mostrou rapidamente a proposta de não transformar a noite apenas em uma divulgação de lost americana. A turnê leva o nome do álbum mais recente, mas MGK preferiu montar um panorama muito mais amplo de sua trajetória. O show registrado na Audio durou aproximadamente duas horas, das 21h05 às 23h05, com mais de 30 números entre músicas completas e medleys.
Pouco depois veio uma das primeiras grandes mudanças de direção. “Wild Boy” recuperou suas raízes no rap, enquanto “El Diablo” trouxe de volta o período de Hotel Diablo. Era uma lembrança importante de que o homem empunhando guitarra e comandando refrões pop punk naquele palco passou boa parte da carreira construindo sua identidade sobre beats e rimas.
A sequência com o cover de “F*CK YOU, GOODBYE”, do The Kid LAROI, desembocou em “I Think I’m OKAY”, talvez uma das músicas mais importantes para entender a transformação musical de MGK. Lançada ainda na fase Hotel Diablo, a faixa já apontava diretamente para o pop punk que dominaria os trabalhos seguintes.
Foi também nesse trecho que surgiu um dos momentos mais simpáticos da noite. Uma criança que estava na plateia acabou convidada para participar da apresentação no palco. Mais tarde, outra fã mirim ganhou a mesma oportunidade durante “bloody valentine”. Em meio a um espetáculo construído sobre guitarras, atitude e a estética de rebeldia que acompanha MGK há anos, foram justamente esses encontros espontâneos que produziram algumas das imagens mais leves da apresentação.
Ali ficou evidente outra diferença em relação ao Rock in Rio. Em São Paulo, ele não precisava pedir que o público lhe desse uma chance. A relação já estava estabelecida.
Depois de “goddamn” e “can’t stay here”, MGK mergulhou de vez naquele que continua sendo um dos discos fundamentais de sua transformação. “title track”, “drunk face”, “bloody valentine”, “kiss kiss”, “concert for aliens” e “nothing inside” transformaram a Audio por alguns minutos em uma enorme celebração de Tickets to My Downfall. O álbum foi o ponto em que o rapper que flertava com o rock passou definitivamente a ocupar outro território, e a reação do público mostrou como aquela fase permanece central para boa parte de sua base de fãs. O próprio levantamento do setlist aponta dez faixas do disco naquela noite.
O show, porém, não ficou preso à eletricidade.
Um segmento acústico trouxe “times of my life” e um medley que reuniu “love race”, “sid & nancy”, “27” e “Free Fallin’”. Foi uma mudança necessária em uma apresentação extensa, criando um respiro antes de MGK voltar a bagunçar completamente qualquer tentativa de classificar musicalmente a noite.
E poucas escolhas demonstraram isso de maneira tão divertida quanto “Danza Kuduro”, de Don Omar.
A presença do hit latino em um show que minutos antes passava por rap, punk, emo e rock alternativo poderia parecer deslocada. Dentro da lógica de MGK, porém, fazia sentido justamente por não fazer sentido algum. Ele sempre construiu sua carreira se recusando a permanecer muito tempo dentro da mesma caixa.
A reta final voltou a atravessar sua discografia sem grandes preocupações cronológicas. “Glass House” resgatou Hotel Diablo, enquanto “make up sex”, “emo girl”, “5150” e “papercuts” recolocaram mainstream sellout em evidência. Entre elas, “my ex’s best friend” e “forget me too” provocaram alguns dos maiores coros da noite, reforçando novamente o peso de Tickets to My Downfall no repertório.
Ainda houve espaço para o lado mais agressivo de “DAYWALKER”, antes de o espetáculo entrar em seu trecho derradeiro com “miss sunshine”, “lonely”, “cliché” e “vampire diaries”.
No fim das contas, talvez o contraste entre Rio de Janeiro e São Paulo tenha acabado beneficiando a compreensão do próprio MGK como artista.
No Rock in Rio, diante de uma plateia heterogênea e em parte resistente à sua presença, suas mudanças de estilo podiam funcionar como motivo para questionamento. Na Audio, diante das pessoas que acompanharam justamente essas mudanças, eram o grande trunfo do espetáculo. Rapper, popstar, roqueiro, emo, ídolo pop punk. Durante duas horas, todas essas versões apareceram sem que ele demonstrasse necessidade de escolher apenas uma.
Também seria exagero transformar a noite paulistana em uma história perfeita de triunfo. A transferência do Espaço Unimed para uma casa muito menor existe e é um dado relevante para dimensionar o atual alcance do artista no Brasil. Mesmo a Audio cheia não registrou sold out. Ignorar isso seria fechar os olhos para uma parte importante da história.
Mas números de capacidade contam apenas uma parte do que acontece dentro de uma casa de shows.
E, naquele domingo, a proximidade acabou trabalhando a favor de MGK. O palco menor produziu um show maior em conexão. As crianças chamadas para cantar, a comunicação constante com as primeiras filas e a resposta muito mais calorosa às músicas criaram exatamente o ambiente que havia faltado no Rock in Rio.
Um dia antes, Machine Gun Kelly precisou dizer que estava ali por seus fãs.
Na Audio, ele finalmente estava cercado por eles.
Setlist | MGK na Audio, São Paulo, 06/09/2026
- FIX UR FACE
- outlaw overture
- maybe
- starman
- Wild Boy
- El Diablo
- F*CK YOU, GOODBYE, cover de The Kid LAROI
- I Think I’m OKAY
- goddamn
- can’t stay here
- title track
- drunk face
- bloody valentine
- kiss kiss
- concert for aliens
- nothing inside
- times of my life
- love race / sid & nancy / 27 / Free Fallin’
- Danza Kuduro, cover de Don Omar
- Glass House
- make up sex
- my ex’s best friend
- forget me too
- emo girl
- 5150
- jawbreaker
- DAYWALKER
- papercuts
- miss sunshine
- lonely
- cliché
- vampire diaries




