Texto: Vagner Mastropaulo
Fotos: Flavio Santiago
A insanidade do melhor do hardcore nova-iorquino!
Lacuna cultural e musical preenchida! Todas as vezes em que o Madball esteve em São Paulo, sempre acontecia algo que impossibilitava este escriba de ir ver ogrupo, incluindo a passagem mais recente dos mestres do hardcore nova-iorquino pela cidade, apresentando-seno Espaço Usine em dezembro/24. Como uma espécie de maldição, ela foi finalmente sepultada com a confirmação do Pré-2º NDP Festjunto a três outras bandas, tornando-se, na prática, um mini-festival.
Vindo de Balneário Camboriú, o Fatal Blow inaugurou os trabalhos com a ingrata missão de tocar às19:28 de uma sexta-feira chuvosa e o povo ainda entrando na Fabrique. Na boa? Azar de quem perdeu, pois os caras passaram o carro com um som visceral e diretofocado no débutRiseFromDisgrace (10), de onde extraíram sete faixas. O repertório cobriu desde cacetadas absurdamente objetivas durando menos de um minuto, como OnlyReason e No More, única resgatada do EP BulldogStyle (06) e primeira música escrita pela banda, a composições mais longas, dentro dos padrões do hardcore, casos deRunning Over You eWhat’sWrongWith Me.
Houve espaço para três inéditas consecutivastocadas sem qualquer pausa: Stabbed In The Back; MySweat, MyBlood, My War; e In The End – que estarão no próximo álbum, ainda sem título confirmado e com início das gravações em maio. E constando no setlist de palco entre SinkingShip e a saideira SoMuch For Nothing, só faltou tempo para o cover deYourMistake, do Agnostic Front, registrado no mencionadoRiseFromDisgrace.
Super acessível, tanto na casa quanto por WhatsApp posteriormente, o frontman Thiago Horta sintetizou: “Foi muito bom tocar mais uma vez em São Paulo. Infelizmente ficamos um pouco de tempo sem tocar aí. Nossa última vez tinha sido em novembro/13 abrindo o show do Terror e do Madball que rolou no Via Marquês”, junto ao Bayside Kings. Curiosamente foi a segunda vez que atuaram como opening act do grupo norte-americano, como em novembro/07 no Via Rebouças em Curitiba. Em suma, o fato é que o quarteto inteirado por Daniel Fróis (guitarra), Zé Deon (baixo) e Diogo Marostica (bateria) não pode demorar a retornar para cá.
Na seqüência, o Escombro simplesmente arrebentou! Integrado por Lucas “Jota” Ferreira (vocal), Renato Romano (guitarra), Igor Simões Fugiwara (baixo) e Henrique Pucci (bateria), o grupo paulistano detonou ao longo de meia hora, com destaquespara: Pobre Alma, abrindo a primeira roda da noite;Cicatrizes, sobre saúde mental e com participação especial de Milton Aguiar, do Bayside Kings, como no EP homônimo de 2020; e Libertar, última tocada e que, em estúdio, traz Fábio Prandini, do Paura.
Uma característica interessante pautou o set: comunicativo, Jota interagiu com a platéia ao término de cada uma das dez músicas, por vezes agradecendo, por outras contextualizando ou tecendo algum comentário referente à próxima escolha. Generalizando, as composições trouxerem andamento mais arrastado, porém sem perda de peso ou atitude, e Descaso estava programada para encerrar a atuação do grupo, mas acabou limada pelo urgir do tempo. Quanto àperformance, o solícito Jotanos enviou uma análise completíssima, também via WhatsApp:
“Para nós, foi uma honra! Falando de hardcore, é impossível não falar do Madball, pois eles são referência! O Set It Off é maravilhoso e, com certeza, um marco eterno do estilo! Completaremos dez anos de banda em dezembro/26 e dividir o palco com os caras foi um presente antecipado de muito bom tom! É até difícil traduzir em palavras e o sentimento é cabuloso! É realmente uma daquelas coisas que você não imagina que acontecerá e foi gratificante demais o convite. O evento foi extremamente organizado e funcional e recebemos todo o suporte necessário. É muito importante ver a NDP movimentar o cenário hardcore em geral. E ver as pessoas saírem de casa para comparecerem aos shows, mesmo numa sexta-feira chuvosa e caótica em São Paulo, mostra que estamos vivos!”.
E o que dizer a respeito do Vacunt? O quinteto fundado em 2001 em Linz, terceira maior cidade da Áustria (só atrás da capital Viena e de Graz e à frente de Salzburg),e formado por Brucki (vocal), Grilli (guitarra), Gregor (baixo) e Koi (bateria) finalmente estreava no Brasil. Patrick, seu segundo guitarrista, não viajou devido a questões de saúde, conforme nosrevelou o próprio Bruckisegundos antes de o Fatal Blow pisar no palco.Sobre ofrontman, aliás, é importante ressaltar que ele impressionou logo de cara ao se esforçar para se expressar em português e vestir camiseta de Crucificados Pelo Sistema, do Ratosde Porão.
A festa começou ao som de 8 Minutes 46, duração de tempo em que o então policial Derek Chauvin passou ajoelhado sobre o pescoço de George Floyd, matando-o por asfixia. A título de curiosidade, acronometragemdepois caiu para sete minutos e quarenta e seis segundos e, por fim, foi recorrigida oficialmente para nove minutos e vinte e nove segundos, mas o título já estava definido. Outro destaque, AddingToTheirFears não se tratou de um cover do The Exploited, e sim de material autoral.
Tão latente quanto em estúdio, o som do baixo se misturou superbem à guitarra e às batidas ao vivoe, mesmo que não fosse o caso, seria impossível Gregor passar despercebido aotrajar o lindo uniforme do Blau-Weiß Linz, azul e branco até no batismo e disputando a terceira divisão do futebol austríaco. A homenagem é merecidíssima, pois o time fundado em 1997 e ligado à classe trabalhadora possui forte identidade cultural com a cena alternativa da cidade. Mal comparando, o vínculo se dá como o do St. Pauli, o “time punk” do bairro de Hamburgo e atualmente o décimo sexto colocado da Bundesliga. Quer outra relação pré-planejada?Foi justamente no St. Pauli que o defensor Walter Frosch, estampado na camiseta de Grilli, jogou entre 1976 e 1979. Nada ali no palco era por acaso…
Brucki voltou a esbanjar carisma em nosso idioma: “Muito obrigado! Nunca esperávamos um dia tocar no Brasil! Muito foda! Beleza! Estamos juntos! A próxima música é Defamation”. Nela, o fio de seu microfone se enganchou na bateria e nem assim ele parou de cantar. E o vocalista arrancou algumas risadas antes de Non Fiction, ao basicamente se esquecer qual seria a próxima e ter de consultar seus colegas… Hilário! E o mesmo ocorreu pré-Vaccination Divide, ainda inédita.
Oficialmente a oitava do set, I CanSeeRightThroughYou estava, a rigor, fora do setlist de palco e então surgiu algo inesperado, novamente expresso em nossa língua pelo líder do grupo: “Agora temos uma pequena surpresa, uma canção brasileira muito tradicional” – Periferia. Encerrada, ele concluiu: “Os Ratos de Porão têm sido meus heróis desde que eu era um adolescente na Áustria, então é ótimo estar na cidade deles!”. De fato, eralatente o quão feliz ele estava por tocar aqui e, só para deixar o registro, Iconstava no setlist de palco antes do cover brasileiro e foi cortada.
Caminhando para o final, sua alegria ainda era tamanha que Brucki parecia avoado a ponto de se confundir e primeiro anunciar DiarrheaHandshake, pulando Young, Gifted And Broke (com um trecho de guitarra que ao vivo se pareceu com Transylvania, do Iron Maiden, bem mais do que na versão encontrada em The Impregnable Wall, de 2021), para então se corrigir. A última foi Fuck The Fakes e a banda também terá que regressar à cidade para um show como headliner o mais rápido possível, pois haverá demanda.
No arregaço em forma de Madballo que imediatamente impressionava era a energia do vocalista Freddy Cricien.Desafiando a lógica de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço, como pulava o cara! Inteiravam o quarteto:dois Mikes,Gurnari (guitarra) eJustian (bateria); e Paul Delaney(baixo), usando camiseta de sua própria banda, oBlack Anvil. Em suma, ofato foi que os quatrodespejaram o mais puro e precioso hardcore proveniente da Big Apple ao longo de uma hora e um minuto que voou distribuída em vinte e três cacetadas separadas, via de regra, em combos triplos.
Sinta o poder do arsenal inicial: NuestraFamilia;Can’t Stop, Won’t Stop, dedicada a Supla, que estava na área; e Hold It Down! A pista? Nem precisa ser dito o moedor de carne que ela virou com o pau comendo solto. Respirando um pouco, Freddy soou sincero:“Obrigado! É bom vê-los, São Paulo! Eu não achava que voltaríamos tão cedo. Vamos voltar com um álbum novo. Ainda vamos voltar com um álbum novo, certo? Em maio, soltaremos nosso décimo álbum! Caramba, que loucura! Então talvez nos vejamos novamente no próximo ano. Fomos convidados para fazer um festival e para virmos aqui e não consigo dizer não a São Paulo…Amo demais este lugar! Quem está vendo a gente pela primeira vez?”.
Notando a dificuldade da galera em subir ao palco para pular, ele se recordou: “Ei, ouvi falar que o Terror tinha uma plataforma aí na pista. Que porra! Vamos ter uma conversa sobre isso… Enfim, vamos fazer o melhor possível, certo? Isso aqui é alto pra cacete, mas vamos fazer o melhor possível. Quero saber quem está vendo a gente pela primeiríssima vez? Ergam suas mãos. Esta música é para vocês! Vamos acabar com este lugar”, em livre tradução nossa aludindoà seminal Set It Off, com elogios a São Paulo como “A melhor cena hardcore da América do Sul”. Só ficamos nos perguntando o que ele disse em Santiago no sábado e em Buenos Aires no domingo… Enfim, ainda no mesmo bloco, mandaram Smell The Bacon (What’sWithYou?) e Lockdown, todas do clássico Set It Off (94).
Em nova pausa para hidratação e comunicação, ficava evidente o porquê de separarem as pancadas em trios: mera tática de sobrevivência para oferecer um mínimo de sentido à deliciosa insanidade ali vivida. Dá-lhe, Freddy: “Então, é sexta-feira, certo? Vocês querem ir para casa dormir ou querem ser parte de um show de hardcore? Agora preciso de um pouco de energia de uma noite de sábado, sabem o que estou dizendo? Este é o começo da festa, beleza? Não vamos tocar por vinte minutos como todas essas bandas jovens. Temos muito material, mas se querem ouvir, vocês têm que nosmostrar alguma coisa. Entendem o que estou falando, São Paulo? Esta é uma antiga”, Get Out, seguida da inédita Don’tMisstep e de Infiltrate The System.
Para anunciar a sucessora, ele fez graça: “Obrigado! Estão se sentindo bem? Falo espanhol, não falo português, mas somos da mesma família, certo? Vocês querem ouvir algo antigo ou novo? O quê? As velhas são um saco e as novas são bem melhores! Ok, ok, AcrossYour Face”, com direito a apresentação de seus companheiros,e emendaramFace To Face e FallThis Time. E beirando meia hora no relógio, metade do repertório já havia sido varrido num piscar de olhos!
Outra inédita e primeiro single do próximo play, pelo menosde acordo com a Blabbermouth [https://blabbermouth.net/news/madball-to-release-new-album-in-march-2026-first-single-tethered-due-next-month], Tethered agradou geral.E se o setlist de palco até continha uma faixa chamada Flammable, ela não tocada e o que fizeram mesmo foi New York City. Ciente de que nem todos repararam que a anterior era material novo, o frontman explicou: “O álbum se chama NotYourKingdom e sairá em maio. Quero que vocês o ouçam do começo ao fim porque é uma estória. Entendem o que digo, São Paulo?”.
Mantido o padrão das trincas, executaram: Colossal Man, a perfeita Down By Law e Rev. Up; e depois o cover animal deIt’sMy Life, do The Animals(com o perdão do trocadilho), For MyEnemies e Look My Way. Ao terminaremDocMartenStomp, o vocalista cravou: “Eles podem dizer o que quiserem, nosso caráter sempre foi o mesmo e vamos seguir desta forma. Antigas ou novas, cantamos com o coração e a alma. Vivemos assim e sei que vocês também”, já puxando os três primeiros versos de 100%, única cantada em espanhol. A saideira? “Que beleza, São Paulo! Muito obrigado! Somos o Madball, representando a cena mundial do hardcore. Até a próxima, esta é Pride”.
Enquanto todo mundo se recuperava e saía do estado catártico em que se encontrava, a sensação experimentada era a de só restar aguardar o cumprimento da promessa de regresso com a divulgação de NotYourKingdom para um novo puta show! E teria mais NDP Fest no sábado, 15/03, no Espaço Usine, com LastWarning, Eskröta, Distante, Bayside Kings, Clique, Path OfResistance e Speed. Caso você vá, a casa será aberta às 14:00 e o primeiro show ocorrerá a partir das 15:20. Bom divertimento!
Setlists
Fatal Blow – 23’ (Programado: 19:30 / Real: 19:28 – 19:51)
01)OnlyReason
02)Running Over You
03)RiseFromDisgrace
04)Game’s Over
05)What’sWrongWith Me
06) No More
07)Stabbed In The Back
08)MySweat, MyBlood, My War
09) In The End
10)SinkingShip
11)SoMuch For Nothing
Escombro – 30’ (Programado: 20:00 / Real: 20:10 – 20:40)
01) Recomeço
02) Pobre Alma
03) Entre Lobos
04) Cicatrizes [Com Milton Aguiar, do Bayside Kings]
05) Sofrer
06) Amém
07) Vida Vazia
08) Rasgando O Verbo
09) Mundo Cão
10) Libertar
Vacunt – 28’ (Programado: 20:55 / Real: 20:55 – 21:23)
01) 8 Minutes 46
02)AddingToTheirFears
03) Tales From The WrongSide
04)ParallelSociety
05)Defamation
06) Antidote
07) Non Fiction
08) I CanSeeRightThroughYou
09)Vaccination Divide
10) Periferia [Ratos De Porão]
11) Young, Gifted And Broke
12)DiarrheaHandshake
13)Fuck The Fakes
Madball – 1h01’ (Programado: 21:45 / Real: 21:48 – 22:49)
Intro: RuddRyders’ Anthem [DMX]
01)NuestraFamilia
02)Can’t Stop, Won’t Stop
03)Hold It Down
04) Set It Off
05)Smell The Bacon (What’sWithYou?)
06)Lockdown
07)Get Out
08)Don’tMisstep
09)Infiltrate The System
10)AcrossYour Face
11) Face To Face
12)FallThis Time
13)Tethered
14) New York City
15) Colossal Man
16) Down By Law
17) Rev. Up
18)It’sMy Life [The Animals]
19) For MyEnemies
20) Look My Way
21)DocMartenStomp
22) 100%
23)Pride (Times Are Changing)





