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Martinho da Vila e Mart’nália ::: 25/07/26 ::: Espaço Unimed
Postado em 27 de julho de 2026 @ 00:07

Martinho da Vila e Mart’nália emocionam o Espaço Unimed em celebração ao samba e aos laços familiares

 

Texto: Simone Barbosa

Fotos: Flavio Santiago

Existem artistas que fazem sucesso. Outros ajudam a construir a identidade cultural de um país. Martinho da Vila pertence à segunda categoria. Dono de uma das obras mais importantes da música popular brasileira, o cantor e compositor transformou o samba em poesia cotidiana, aproximando o gênero de diferentes gerações sem jamais perder sua essência. Clássicos que falam de amor, comunidade, ancestralidade e alegria fizeram dele um dos maiores pilares da música brasileira e uma referência obrigatória para qualquer amante do samba.

Foi justamente esse legado que ganhou uma nova dimensão no Espaço Unimed com a turnê “Pai e Filha”, espetáculo que marca a despedida de Martinho das grandes turnês nacionais e, pela primeira vez, reúne pai e filha em uma série completa de apresentações pelo Brasil. Ao lado de Mart’nália, artista que cresceu literalmente entre rodas de samba e construiu uma carreira sólida com personalidade própria, Martinho mostrou que tradição e renovação caminham lado a lado.

A apresentação foi dividida em três atos muito bem definidos. No primeiro, Mart’nália assumiu o protagonismo e rapidamente colocou o público para cantar. Com sua irreverência característica e uma naturalidade que transforma qualquer palco em uma grande roda de samba, ela abriu a noite passeando por sucessos como “Pra Que Chorar”, “Cabide” e uma divertida releitura de “Don’t Worry, Be Happy”, evidenciando a versatilidade que a tornou uma das artistas mais carismáticas da música brasileira. Entre um sorriso e outro, a cantora conversava com a plateia, improvisava, brincava e criava um ambiente descontraído que fazia o enorme Espaço Unimed parecer um encontro entre amigos.

O segundo bloco pertenceu a Martinho da Vila, recebido de pé por um público consciente de estar diante de um dos maiores nomes da história do samba. Bastaram os primeiros acordes de “Batuque na Cozinha” para transformar a casa inteira em um enorme coro. Vieram ainda interpretações emocionantes de “Ex-Amor”, “O Pequeno Burguês” e a sempre contagiante “Canta, Canta, Minha Gente”, canções que atravessam décadas sem perder força ou significado. Mais do que cantar, Martinho parece conversar com o público através de suas composições, mantendo a serenidade de quem construiu uma carreira monumental sem jamais abandonar suas origens.

Mesmo aos 88 anos, sua presença de palco impressiona pela elegância e simplicidade. Não há necessidade de grandes produções quando se possui um repertório que faz parte da memória afetiva do país. Cada música despertava lembranças diferentes na plateia, formada por famílias inteiras, jovens e veteranos unidos pelo mesmo respeito ao artista.

O terceiro ato era naturalmente o mais aguardado da noite. Pai e filha dividiram o palco em um encontro que extrapolou o aspecto musical para revelar uma cumplicidade construída ao longo de toda uma vida. O carinho entre os dois aparecia em cada troca de olhares, nas brincadeiras e nos sorrisos espontâneos, fazendo o espetáculo ganhar um tom intimista.

Juntos, interpretaram canções como “Quem é do Mar Não Enjoa”, “O Sino da Igrejinha” e “O Teu Chamego”, momentos em que as vozes se complementavam de forma absolutamente natural. O show ainda reservou espaço para uma bela homenagem à música nordestina, com participação do acordeonista Kiko Horta, celebrando a obra de mestres como Dominguinhos, Luiz Gonzaga e Sivuca, que completaria 90 anos em 2026.

O formato escolhido para “Pai e Filha” funciona justamente porque respeita as individualidades dos artistas antes de uni-las. Mart’nália não aparece apenas como herdeira de um sobrenome histórico; ela mostra por que construiu uma carreira independente, repleta de personalidade e autenticidade. Da mesma forma, Martinho não se limita ao papel de patriarca da família. Continua sendo um intérprete elegante, um compositor brilhante e uma figura indispensável para compreender a evolução do samba brasileiro.

Ao final da apresentação, ficou evidente que o espetáculo vai muito além de uma reunião familiar. É uma celebração da continuidade do samba, da transmissão de conhecimento entre gerações e da capacidade que a música possui de preservar histórias, afetos e memórias.

No Espaço Unimed, Martinho da Vila e Mart’nália entregaram exatamente aquilo que a turnê promete: um encontro de gerações, de talento e de amor pela música. Mais do que assistir a um show, o público testemunhou um capítulo da história do samba sendo escrito diante de seus olhos, com emoção, simplicidade e a certeza de que o legado de Martinho continuará vivo por muitas décadas, agora também ecoando na voz de sua filha.

 
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