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Michale Graves ::: 01/11/25 ::: Hangar 110
Postado em 13 de novembro de 2025 @ 13:38

Texto: Simone Barbosa

Fotos: Flavio Santiago

Há algo de especial quando o horror punk encontra o cenário underground brasileiro — uma combinação que, desde os anos 90, parece feita sob medida para São Paulo. E poucos lugares carregam essa energia tão intensamente quanto o Hangar 110, templo sagrado de shows suados, rodas de pogo furiosas e culto aos clássicos. Foi nesse palco que Michale Graves, ex-vocalista do Misfits, deu vida a uma das noites mais nostálgicas e inflamadas dos últimos tempos, celebrando sua fase dentro da banda e revisitando álbuns que marcaram gerações de fiends.

Graves, controverso, teatral e completamente entregue ao personagem que o consagrou, subiu ao palco com uma proposta clara e direta: tocar, na íntegra, as músicas dos dois discos que gravou com o Misfits — American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999) — além de uma surpresa para os fãs , alguns clássicos  da era Danzig que incendiaram o Hangar desde os primeiros acordes. Em tempos em que bandas e ex-integrantes vivem de revisitar seu legado, Graves conseguiu dar ao repertório uma força renovada, mais pesada e agressiva, mas sem perder a essência do horror pulp que sempre foi sua marca.

A introdução com “Abominable Dr. Phibes” foi quase cerimonial — como se o público estivesse sendo convocado para dentro de um filme de terror série B. A resposta foi imediata: quando “American Psycho” entrou, o Hangar 110 se transformou num turbilhão, com rodas surgindo de todos os lados e fãs gritando as letras como se estivessem revivendo uma época de ouro que nunca volta totalmente, mas que permanece vibrando nos corações dos punks brasileiros.

O primeiro bloco, focado no disco American Psycho, mostrou o quanto esse álbum conquistou seu espaço na história do Misfits. “Speak of the Devil”, “Walk Among Us”, “From Hell They Came” e “Dig Up Her Bones” foram executadas com vigor, arrancando gritos, braços para o alto e o clássico canto coletivo que faz o Hangar tremer. Há algo muito próprio dessa era: um horror punk mais melódico, mais teatral, mas ainda assim agressivo — e Graves, mesmo com a voz mais envelhecida e grave, mostrou domínio sobre essas nuances.

Quando veio “Lost in Space”, o clima foi de nostalgia pura. Foi uma das músicas mais cantadas da noite, mostrando como a geração dos anos 2000 adotou esse álbum como parte de seu DNA punk. A transição para clássicos da fase Danzig, como “Last Caress” e “Where Eagles Dare”, foi recebida com explosão total. É impossível tocar esses hinos sem provocar caos — e foi exatamente o que aconteceu: pogo intenso, público inteiro pulando e um coro que fez o teto do Hangar parecer menor.

O segundo bloco, dedicado ao Famous Monsters, teve um brilho próprio. É um disco mais polido, mais dramático e até mais pop em alguns momentos, e isso se refletiu na recepção. “Shining”, “Crimson Ghost”, “Forbidden Zone” e “Scream!” vieram afiadas e com as guitarras cortando o ar como lâminas. O público reagia a cada introdução como se fosse hit após hit — e realmente era. “Dust to Dust” e “Pumpkin Head” mostraram como esse disco permanece amado, mesmo entre fãs mais ligados à fase clássica.

Um dos ápices emocionais da noite foi “Saturday Night”, balada mórbida que sempre carrega um certo romantismo sombrio. No Hangar, transformou-se num grande momento de união entre fãs e artista — celulares levantados, vozes ecoando, aquele instante em que a melodia supera o peso.

Entre um bloco e outro, Graves costurou a noite com apresentações curtas e diretas, sem muitas falas, mas com uma entrega corporal e teatral que sempre foi sua marca registrada. Houve espaço, também, para surpresas: o cover de “Weeds” (Life of Agony) trouxe uma quebra inesperada no repertório e levou a galera mais atenta ao delírio, enquanto a clássica “War Pigs” (Black Sabbath) encerrou a noite em tom épico — uma ponte entre o horror punk e o metal tradicional, mostrando que Graves sempre transitou bem entre esses universos.

Mas o que realmente marcou o show foi a sequência de clássicos da fase Danzig: “Skulls”, “Halloween”, “Horror Business”, “Hybrid Moments” e “Helena” incendiaram a plateia e lembraram a todos por que o Misfits, em qualquer formação, continua sendo uma das bandas mais influentes do punk mundial. Esses momentos criaram uma espécie de “comunhão fiend”: fãs pintados, suados, abraçados, berrando refrões e vivendo algo que só um show num lugar como o Hangar 110 pode proporcionar.

No final, a impressão é a de que Michale Graves — longe de polêmicas, longe de disputas sobre quem é ou não o “verdadeiro” Misfits — conseguiu entregar algo muito raro: uma noite de celebração pura ao horror punk, onde cada fase da banda encontrou seu espaço e seu público.
Quem foi, saiu com a sensação de ter assistido a uma homenagem respeitosa, barulhenta e visceral ao legado de uma das bandas mais icônicas do punk mundial.

E no fim das contas, é isso que o Hangar 110 sempre soube fazer: transformar memória em energia, nostalgia em catarse, música em encontro.

 
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