Texto: Flavio Santiago
Fotos por Ricardo Matsukawa
Fotos (Guns N’ Roses) por Guns N’ Roses
Monsters of Rock 2026 reafirma sua força com maratona de riffs, clássicos e redenção no Allianz Parque
Quando o Monsters of Rock desembarcou no Brasil em 1994, no estádio do Pacaembu, trazendo nomes como Kiss, Black Sabbath e Slayer, não era apenas a chegada de mais um festival internacional. Era a consolidação do país na rota dos grandes eventos dedicados ao hard rock e ao heavy metal. Desde então, entre hiatos e retornos, o festival construiu uma trajetória marcada por edições históricas, reunindo gigantes como Iron Maiden, Motörhead, Judas Priest, Ozzy Osbourne, Scorpions e tantos outros que ajudaram a transformar o Monsters em uma espécie de instituição do rock pesado no Brasil.
A edição de 2026 carregava esse peso histórico. Não era apenas mais um retorno ao Allianz Parque, mas a reafirmação de uma marca que sobreviveu às mudanças do mercado, às transformações do gênero e às discussões eternas sobre tradição e renovação. E havia um elemento simbólico a mais nessa celebração: a presença de dois nomes que ajudaram a dar ao evento um tom quase cerimonial.
De um lado, Walcir Chalas, figura histórica da Woodstock Discos e personagem profundamente ligado à cultura rock no Brasil, funcionando como um elo vivo entre o passado do festival e o público que o acompanha há décadas.
Do outro, Eddie Trunk, uma das vozes mais reconhecidas do hard rock e heavy metal nos Estados Unidos, reforçando o peso internacional da edição. Entre trocas de palco e apresentações das bandas, ambos ajudaram a costurar o festival com aquele senso de ocasião que eventos históricos pedem. Não eram apenas mestres de cerimônia. Eram parte do espetáculo.
E talvez por isso o Monsters of Rock 2026 tenha soado menos como uma sequência de shows e mais como uma narrativa.
Se houve questionamentos prévios sobre o line-up, especialmente pela presença de nomes mais novos como Jayler e Dirty Honey ao lado de veteranos absolutos, o festival tratou de responder no palco.
O Jayler teve a missão ingrata de abrir os trabalhos diante de um estádio ainda enchendo, e soube lidar com isso com dignidade. A sonoridade carregada de ecos setentistas e inevitáveis paralelos com Led Zeppelin apareceu em músicas como “Riverboat Queen” e “Over the Mountain”, mas o grupo mostrou mais do que simples reverência às influências.
Havia energia, fome e senso de ocasião. Pode ainda estar construindo identidade própria, mas funcionou como abertura.
O Dirty Honey encontrou um público já mais receptivo e elevou a temperatura. Marc LaBelle se impôs como frontman de respeito, e o repertório baseado em “California Dreamin’”, “When I’m Gone”, “Heartbreaker” e “Rolling 7s” transformou a apresentação em um daqueles sets que parecem feitos sob medida para festivais.
Não reinventou nada, mas entregou exatamente o que precisava entregar.
Então veio Yngwie Malmsteen e, com ele, uma mudança completa de atmosfera. O sueco não negociou com o público casual. Fez o show que quis fazer. E isso significou uma avalanche de virtuosismo, excesso, teatralidade e devoção absoluta à guitarra. “Rising Force”, “Fire and Ice”, “Trilogy Suite Op. 5” e “I’ll See the Light Tonight” reafirmaram seu status singular.
Houve quem visse o set como autocentrado demais. Houve quem enxergasse uma aula. Ambos estão certos. Mas foi impossível ignorar o impacto.
Se Malmsteen dividiu percepções, o Halestorm unificou o festival em torno de uma certeza. Lzzy Hale deu uma das grandes performances do dia.
Não apenas cantou com brutal autoridade em “Love Bites (So Do I)”, “I Miss the Misery” e “Freak Like Me”, como comandou o palco com uma segurança que muitos headliners não têm. Foi um dos shows mais completos do evento e, para muitos, a primeira grande virada emocional do festival.
Debaixo de chuva, o Extreme fez o que bandas experientes fazem quando tudo se encaixa. Transformou um show em acontecimento. Gary Cherone e Nuno Bettencourt pareciam movidos por eletricidade própria. “Decadence Dance”, “Play With Me”, “Get the Funk Out” e uma monumental “More Than Words” fizeram o Allianz Parque reagir como se estivesse diante de um headliner.
Nuno, em especial, parecia decidido a lembrar por que segue sendo um dos guitarristas mais impressionantes do rock. E conseguiu.
Mas se havia um show destinado a tocar num lugar mais profundo, foi o Lynyrd Skynyrd. Poucas bandas carregam tanta história, tantas perdas e tanto simbolismo.
E isso transbordou em cada nota. “Tuesday’s Gone” e “Simple Man” foram momentos de pura suspensão emocional. “Sweet Home Alabama” transformou o estádio em coro. E “Free Bird” foi algo próximo do transcendental. Não foi apenas um show. Foi um testemunho de sobrevivência.
Quando o Guns N’ Roses subiu ao palco, a sensação era de clímax inevitável. E a banda correspondeu.
“Welcome to the Jungle” abriu como explosão, seguida por “It’s So Easy” e “Live and Let Die”, enquanto Slash e Duff mantinham a engrenagem girando com a precisão esperada. Mas o grande mérito do set foi fugir do básico. “Bad Obsession”, “Dead Horse”, “Perhaps”, “Rocket Queen”, “Civil War”, “You Could Be Mine” e, especialmente, a ressurreição de “Bad Apples” deram ao repertório um peso que ia além do circuito automático dos hits.
Muito se falou sobre Axl Rose e sua performance vocal, e sim, há limitações evidentes. Mas reduzir o show a isso seria ignorar todo o resto. Sua presença de palco, entrega e carisma ainda sustentam a dimensão do espetáculo. E quando “November Rain”, “Sweet Child O’ Mine” e “Paradise City” chegaram, o Allianz virou um organismo só.
Nem tudo foi perfeito. Houve críticas recorrentes à qualidade de som em alguns setores, problemas de hidratação e questões de acessibilidade que merecem ser levadas a sério. Mas mesmo essas falhas não diminuíram o impacto artístico do que aconteceu no palco.
Porque o Monsters of Rock 2026 fez algo raro. Transformou um line-up que parecia contestado em uma jornada coerente. Mostrou o vigor do presente com Halestorm. Celebrou o passado com Lynyrd Skynyrd. Exibiu virtuosismo com Malmsteen. Reafirmou a inteligência do Extreme. E terminou com o gigantismo do Guns N’ Roses.
Nem tudo foi perfeito. Houve críticas sobre som, hidratação e estrutura em alguns setores. Mas nada disso alterou a sensação de que esta foi uma edição que honrou o nome que carrega.
Porque o Monsters of Rock 2026 conseguiu algo raro, não viveu apenas de nostalgia.
Fez do passado um alicerce, do presente uma afirmação e do palco um lembrete de por que esse festival continua sendo um dos maiores monumentos do rock ao vivo no Brasil.










