Texto : Vagner Mastropaulo
Fotos : Bel Santos ( Road Crew Magazine)
Portugueses retornam ao mesmo Carioca Club de três anos atrás pagando 2/3 dedívida involuntária
Em abril/23, cobrimos a mais recente passagem do Moonspellpela cidade como headliner do São Paulo Metal Fest [https://onstage.mus.br/website/sao-paulo-metal-fest-carioca-club-14-04-23] e fomos embora com a promessa de que o setlist de uma futura vinda de Fernando Ribeiro e companhiaabrangeria as então preteridasLanterna Dos Afogados, Mephisto e Vampiria. A razão das exclusões foi dada pelo próprio frontman, irritado e metendo o dedo na ferida: “Para nós, não é sobre grana ou fama, é sobre respeito, algo que a banda Cynic não mostrou hoje ao festival, ao Moonspell ou às outras bandas. Todas cumpriram com o horário, menos a banda Cynic, que veio e tocou por vinte minutos a mais”. Um spoiler?Visando quitar o débitoneste regresso, faltou apenas Mephisto.
De diferente desta vez, a inserção dos compatriotas do Sinistro como opening act de luxo e a brotarno palco com um mísero minuto de atraso em relação ao horário divulgado de 19:00. Formado por Priscila da Costa (vocal), Rick Chain e Ricardo Matias (guitarras) e Paulo Lafaia (bateria), o quarteto tocara no FFFront e no La IglesiaBorratxeria, dias 19 e 21 (aqui, com o Lōtico), fora um ensaio aberto no FamilyMob Studio no dia 20 (junto ao Cras). Cereja de um saboroso bolo, o projeto Ptolemea, de Priscila e Ricardo, também se apresentounas três datas. Na prática, quem acompanhou qualquer um destes eventos não se arrependeu e, de quebra, foi ao Carioca Club sabedordo real potencial matador do grupo.
De modo deveras rudimentar, uma tentativa de descrever sua agradável sonoridade seria uma mescla de “doom metal com fado”. Insólito, a princípio, não? Entretanto,um bom aluno de ensino médio, desde que familiarizado com temas recorrentes da literatura portuguesa,como saudade e o culto à época distante em que o país foi soberano nas navegações,fácil e instantaneamente se conectaria à intensa dor traduzida nasletras e melodias arrastadas.Para este redator, a identificação ocorreu a partir de um trecho de Ruas Desertasutilizado como intro e extraído do début integralmente instrumentalSinistro (12) –por pouco chegando a onze minutos, seria impossível usarem-na por completo. Em suma, um impecável preparar de terreno para A Partida.
Com músicas extensas, Abismo, segunda da noite, acabou sendo a mais curta das cinco tocadas, beirando seis minutos, e foi emendada a O Equivocado.Encerrada, Priscila foi sucinta em nosso idioma: “Muito obrigado! Boa noite, São Paulo! Somos o Sinistro, de Lisboa”. Relíquiaa sucedeu e a saideira foiTemplo Das Lágrimas. Nela, a conquistar definitivamente a galera e em absoluta consonância com sua mensagem, houve asensibilidade de, durante toda sua execução,prestarem tributo a entes queridos no telão de fundo, assim grafado emcaracteres minúsculos e maiúsculos:
em eterna memória…
JORGE CORREIA
VITOR LAFAIA
JOSE CORREIA
MARIO AYRES
Enquanto disparavam a outro, Canção Verdes Anos, de Carlos Paredes, trilha sonora do filme luso Os Verdes Anos (63), drama escrito e dirigido por Nuno Bragança, a frontwoman sintetizou gratidão em sua segunda ederradeira verbalização econômica em todo o set: “Muito obrigada por terem vindo!”.Partiram extremamente aplaudidos,em nível bastante superior à média para atrações de abertura.Se quiser checar o que rolou, uma boa alma subiu toda a performancepara o YouTube [https://www.youtube.com/watch?v=id01zj6otg0].
Devido ao urgir do tempo e com vinte minutos a menos à disposição comparando-se às demais datas, lamentamos, com pesar, somente a remoção forçada da extraordinária A Ira, por nós conferida in loco tanto no FFFrontquanto no Family Mob – tal qualElegia.Ecomo desempenho e aceitação sofisticadamente se equivaleram, seria razoável esperar suasadições num já sonhado retorno.
Meros dezessete minutos de um intervalo cessado porWolf Moon (IncludingZoanthropic Paranoia), doType O Negative, na discotecagem, e, celebrando três décadas deWolfheart, seu play de estréia de 1995, o Moonspelldava as caraspontualmente às 20:00 com line-up idêntico ao de 2023, ou seja, além de seu citado líder, vieram: Ricardo Amorim (guitarra), Aires Pereira (baixo), Pedro Paixão (teclados) e Hugo Ribeiro (bateria).
Adiantamos que o full-length foi inteiramente resgatado, fora de ordem e entrecortado por outras composições, quebrando a obviedade e sempre despertando curiosidade acerca do que viria em breve. De bate-pronto, porém, não se rompeu a proposta, sendo as três primeiras justamente: Wolfshade (A WerewolfMasquerade); Love Crimes, contando com vocais de apoio da competentíssima Eduarda Miss Blue, nome artístico de Eduarda Soeiro [https://www.facebook.com/eduardasoeirosinger], dos portugueses daGlasya; e …Of Dream And Drama (Midnight Ride). Ao todo, ela participaria de sete canções, todas indicadas no setlist abaixo,a título de informação.
Consumada a tríade do full-length homenageado, Fernando se comunicou com vagar edeu uma cutucada certeira: “E aí, Brasil? É ‘nóis’? Muito obrigado! É um prazer estar aqui, desta vez com uma grande banda, que é o Sinistro, de Portugal. Um aplauso porque hoje é uma noite 100% portuguesa! Muito obrigado por terem vindo. Sei que é domingo e que há escola e trabalho amanhã. Ao contrário do que se diz, o brasileiro é um povo de trabalho, de honra e de fibra, que resiste a tudo. Já o português é mais ou menos, mas nós vamos andando. É um prazer estar aqui esta noite! Hoje vamos tocar muitos temas, muita diversão. Não temos problemas de tempo hoje, ao contrário da última vez”.
Ele retomou: “E além de tocarmos o álbum Wolfheart, vamos viajar até outras latitudes da música do Moonspell, até outros tempos também, para mostrar aqui nossa biografia musical, que é bem diversa e bem louca. Espero que São Paulo esteja preparada para ela. Muito obrigado! Continuemos então até o ano longínquo de 1994, quando fizemos um EP chamado Under The Moonspell. E não contentes, como bons portugueses que somos, voltamos ao estúdio em 2007 para gravar UnderSatanæ. Vamos orar na escuridão de nosso TenebrarumOratorium, São Paulo”, com Pedro na guitarra. A seguir, a instrumental Lua D’Invernofoi feita só com Pedro nos teclados e Ricardo na guitarra e Trebarunatornou a ter oquadro total. Agradecido, o vocalista se expressaria novamente:
“Muito obrigado! Obrigado, São Paulo! A cada vez que venho ao Brasil, tenho sempre medo de que vocês não me entendam, mas vou falar bem devagar.Nós temos palavras muito diferentes, por exemplo: ‘pebolim’, em português de Portugal se diz ‘matraquilhos’, entre outras coisas. Mas estamos muito, muito contentes e felizes de fazermos a última data desta tour, WolfheartE Outras Estórias, em São Paulo. Vai ser um concerto longo, portanto, hidratem-se bem no bar porquevamos levá-los, como disse, a uma viagem musical e contar algumas estórias. E a estória deste tema que segue é uma estória particular: quando o Wolfheart saiu, não pensem que foi um sucesso imediato e que todo mundo na Alemanha ou São Paulo correu às lojas de discos ou à Galeria do Rock para comprar o disco. Não! Tivemos que cair na estrada, levar nosso valor, levar muito, muito tempo pela Europa primeiro e depois cruzar o oceano”.

Ele continuaria: “E a primeira edição do Wolfheart veio numa capa azul, com lobos a olhar para a lua. Fomos em turnê com Morbid Angel e Immortal, uma turnê um pouco dura para nós. E quando regressamos à Alemanha, à cidade de Dortmund, onde se situava nosso selo discográfico, a Century Media, eles tinham deixado uma canção de fora, que se chama Ataegina, irmã gêmea de Trebaruna. Ficamos muito tristes com isso e os alemães disseram: ‘Isso é canção é para tomar chopp ou vinho. Não é uma canção que a gente gosta’. Mas depois o Wolfheart foi um sucesso tão grande, graças à grande alcatéia que o Moonspell tem em todo o mundo, que eles tiveram que incluir o tema na edição branca, como vocês vêm os lobos a lutar. E finalmente conseguimos tocar aqui no Brasil esta que se chama Ataegina. Vamos pular, Brasil!”. Confiando na veracidade de dados do site Setlist.fm, o conjunto já a tinha tocado em: Estância Velha (dezembro/12); Curitiba, São Leopoldo e São Paulo (setembro/15); e São Paulo (abril/18).

Começando a saldar a dívida outrora contraída, a magnífica Vampiriaterminou com um grito maravilhoso de Eduarda e, no decorrer de AnEroticAlchemy, ela finalmente adquiriu maior protagonismo à frente do palco. Com Fernando prestes a convocar um amigo, ele revelou respeito a seu ídolo-mor de juventude: “Enquanto eu estava crescendo no bairro da Brandoa, digamos que era um bairro da alvenaria, ouvíamos muita música, muito metal extremo do Brasil, país onde se criou o death metal. Gostava muito de bandas como The Mist, Sarcófago, Genocídio, Holocausto… Entre tudo isso, um quadro de moleques se destacou, vocês sabem de quem falo: do Sepultura. E o mais curioso é que nosso [membro do] Sepultura preferido, no meu grupo de amigos, não era o Andreas, o Max, ou o Paulo – era o Jairo” – que moral, hein?
Ele concluiria: “E é com grande honra e privilégio que chamo aqui, o meu mestre, o nosso mestre, Jairo Guedz, o ‘Tormentor’. Eis que quando a gente se despede da hora do lobo e vestimos outra pele, não é o hino do Brasil, nem o hino de Portugal (estes vamos deixar para a final da Copa!), mas é o hino do Moonspell e de nossos fãs, com Jairo ‘Tormentor’ Guedz na guitarra. Esta é nossa Alma Mater”, sob o cuidado de uma combinação de cores na iluminação unindo Brasil e Portugal em feixes verdes, amarelos e vermelhos. Que linda pedrada! E a festa melhoraria…
Estranhamente e sem motivo aparente, a próxima demorou a se desenrolar. E eis queaparadamais longa da noite se justificou pela incorporação do personagem interpretado pelo frontman ao ressurgir trajando uma vistosa capa preta e chapéu na mesma paleta para quase zerar a tal “dívida” com Lanterna Dos Afogados. E impressionou como uma versão tão soturna é capaz de superar em encantooregistro original d’Os Paralamas Do Sucesso, especialmente no início sussurrado, com a sutil variação de sotaque, e pelo solo transbordando feelingna guitarra de Ricardo. Ave Maria! E se você desejava outro clássico, fizeram Opium, oficialmente puxando, de acordo com as palavras de Fernando, “a segunda parte do show”.
Exatamente como em Irreligious (96), a até certo ponto dançante,Awake!a sucedeu, bem como: a também ritmada e com letra em português, In Tremor Dei; e Extinct – tudo isso num bloco virtualmente sem pausas. Em renovadarápida interação, o vocalista aliou brincadeira a seriedade: “Muito obrigado! Já cansados? Querem ir embora? Mas não vão! Uma das coisas que caracteriza nossa música é uma mistura de certa felicidade com beleza. Acho que não existe uma sem a outra e esta canção, retirada do álbum Night Eternal, é a prova viva disso. Vocês, escorpião; eu, flor. Scorpion Flower”, outra com Miss Blue em destaque e perfeitamente emulando as partes de Anneke Van Giersbergen em estúdio.
Rumando ao fim, houve espaço para EverythingInvaded, com tremendo solo de guitarra, e a saideira Full MoonMadness, dedicada a Jairo Guedz, ao TroopsOf Doom e a todas bandas brasileiras que influenciaram o Moonspell. Ela foi precedida por um discurso honesto: “É hora de findarmos esta turnê e não poderíamos pensar num melhor sítio. E digo com honestidade, pois não somos o tipo de músicos que vão dizendo as coisas a gringos: ‘Vocês são os melhores!’, para acharem bacana e o caralho… É muito, muito bom e importante para nós e para o Sinistro, bandas de Portugal, virem aqui tocar no Brasil – nem sempre isso acontece”.
Ele arremataria com uma novidade: “Muito, muito obrigado por terem vindo neste domingo apoiar os trinta anos do Wolfheart e também a apresentação do Sinistro em São Paulo. Façam barulho por eles! Como disse, esta é a última data da turnê do Moonspell e queria agradecer, principalmente, à platéia de São Paulo. Espero que continuem ‘underthespell’.Temos um álbum novo saindo em julho chamado FarFromGod e o primeiro single sai dia 25/03” – simplesmente a faixa-título, já disponibilizada.
Com doze álbuns no catálogo, o Moonspellexperimenta a difícil tarefa de ter de sacrificar ótimas escolhas para afecharo repertório e, conforme antecipado no primeiro parágrafo, faltou Mephisto. Este escriba ainda sentiu a ausência de In And Above Men. E para você? Em todo caso, ao refletirmos a respeito no fundão da pista e ao lado da mesa de som, testemunhamos os técnicos de som e luz saboreando uma latinha da cerveja HocusPocus Alma, que, apesar do “Alma” nada “Mater”, aliás, embora “nutriente”, não se trata de uma marca lusitana, e sim carioca…
Ao se despedirem, este repórter permanecia filosofando isoladamente. Afinal de contas, adivinhe quem discretamente foi um espetáculo em si. Semabarrotar o Carioca Club, o públicofez bonito, longe de decepcionar, confortavelmente espalhado por pista e camarotesnuma noite com outros quatro shows distribuídos pela cidade: Steve Hackett no Espaço Unimed; Ratos De Porão e D.R.I. no Cine Jóia;Nile na BurningHouse; e Cypress Hill na Audio – fora o terceiro dia do Lollapalooza no Autódromo de Interlagos.
Enfim… E na próxima, para o deleite deste povo, haverá Mephisto?
Setlists
Sinistro – 42’ (Programado: 19:00 / Real: 19:01 – 19:43)
Intro: Ruas Desertas [trecho]
01) Partida
02) Abismo
03) O Equivocado
04) Relíquia
05) Templo Das Lágrimas
Outro: Canção Verdes Anos [Carlos Paredes]
Moonspell – 1h52’ (Programado: 20:00 / Real: 20:00 – 21:52)
01) Wolfshade (A Werewolf Masquerade)
02) Love Crimes [Com Eduarda Miss Blue]
03) …Of Dream And Drama (Midnight Ride)
04) Tenebrarum Oratorium (Andamento I / Erudit Compendyum) (Interludium / Incantatum Oequinocitum) [Com Eduarda Miss Blue]
05) Lua D’Inverno
06) Trebaruna
07) Ataegina
08) Vampiria [Com Eduarda Miss Blue]
09) An Erotic Alchemy [Com Eduarda Miss Blue]
10) Alma Mater [Com Jairo “Tormentor” Guedz]
11) Lanterna Dos Afogados [Os Paralamas Do Sucesso]
12) Opium
13) Awake!
14) In Tremor Dei [Com Eduarda Miss Blue]
15) Extinct
16) Scorpion Flower [Com Eduarda Miss Blue]
17) Everything Invaded
18) Full Moon Madness [Com Eduarda Miss Blue]





